Como ver um filme, Ana Maria Bahiana

por Memória Sindical. 30 jun 2012 . 10:28

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Ana Maria Bahiana

A crítica Ana Maria Bahiana tenta desmitificar o trabalho de se fazer filmes com objetivo de conscientizar a plateia e ajudá-la a identificar o que tem qualidade

Por Marcos Aurélio Ruy

“Foram três anos escrevendo. Mas na verdade foi uma vida inteira de encontros com os sonhos alheios”, explica ela em seu blog, sobre o livro Como ver um filme, onde deixa clara a intenção de “formar plateias informadas, críticas, mais bem-habilitadas a compreender o que veem e a escolher do que gostam”.

Bahiana mostra o que acontece nos bastidores das produções do início ao fim e de como os propósitos comerciais podem modificar as obras, principalmente quando se trata de filmes feitos somente para entretenimento com fins puramente comerciais. Mostra também o difícil equilíbrio na relação de autores com produtores. E como ela se prende muito na indústria do entretenimento, deixa claro que a dicotomia entre dinheiro investido – para gerar lucros – e a vontade artística expressa em sombra e luz, cor e movimento é o resultado que vemos na telona.

O livro

Assim, películas podem ser alteradas ao sabor de pesquisas de mercado. Por exemplo, obrigando a realização com enquadramento mais linear que não obrigue a plateia a pensar muito. Logo no início o livro apresenta um quadro intrigante que, por si só, é esclarecedor sobre as dificuldades de competição do cinema brasileiro em relação à predominância das obras norte-americanas. No ano passado, somente três filmes nacionais estiveram entres as 20 maiores bilheterias no país; os outros 17 eram todos norte-americanos; aliás, entre os 10 mais vistos, nenhum foi brasileiro.

E nesses tempos de globalização, a diferença do montante de investimentos é gritante. Em média os filmes de Hollywood têm um orçamento de 70 milhões de dólares, enquanto o custo médio de uma produção nacional gira em torno de 1,5 milhão de dólares.

Essa enorme diferença esclarece muita coisa. Por que o que se vê na relação de divulgação e distribuição das películas pelo mercado nacional é vergonhoso. É muito comum ver-se grandes produções hollywoodianas em quatro ou mais salas de uma vez só, em versões dubladas, legendadas ou 3D, exibidas durante semanas, com ampla divulgação pela mídia através de peças publicitárias ou matérias jornalísticas.

Poucos filmes brasileiros permanecem em cartaz mais do que um fim de semana e muito mais raramente conseguem ser exibidos em mais de uma sala por vez nas grandes redes de exibição pelo país afora, sem a intensa divulgação dos filmes norte-americanos.

O que também impede uma competição à altura é a má distribuição das obras nacionais. Outro problema refere-se ao financiamento dos filmes. Mesmo assim, a atividade está em franca recuperação no Brasil onde, no ano passado, foram produzidos 99 filmes.

Mas, associada à visão comercial (e colonialista) da mídia nativa, que deixa nossos filmes a ver navios afundando suas bilheterias, a concorrência é pesada. Nessa disputa o cinema brasileiro procura seu caminho para sobreviver e conquistar o público. Parte da dificuldade é explicada pela questão mercadológica; porém, outra parte consiste ainda na predominância de um arraigado preconceito contra a produção nacional, o que lhe dificulta ainda mais a difusão dos filmes nacionais.

Voltando ao livro

Em seu livro, Bahiana descreve todas as etapas da confecção de um filme até sermos presenteados pelas imagens na sala escura. “Os filmes existem para nos mostrar como, no intervalo de duas horas, mais ou menos, um ou mais indivíduos podem ir de zero a duzentos quilômetros por hora, existencialmente falando”, diz ela. Sua obra consegue aumentar o conhecimento de como se faz um filme e de que nada que nos é apresentado está lá por mero acaso. Mesmo nos filmes mais despretensiosos.

Assim, diz ela, “num filme está um impulso ao mesmo tempo mais primitivo que o da leitura e mais tecnologicamente sofisticado que o do teatro. Como na leitura, queremos narrativas que alimentem nossa imaginação – mas diferentemente do livro, onde mundos interiores, paisagens distantes, estados de espíritos e intenções ocultas podem ser descritos, deixando que nossa imaginação preencha o vácuo, o filme tem a obrigação de nos mostrar, ou pelo menos balizar visualmente cada uma dessas coisas”. E complementa seu raciocínio afirmando que “um filme é uma criatura especial, muito específica, nascida das mesmas vontades antigas que levaram nossos antepassados a narrar uma caçada ao mamute nas paredes das cavernas”.

Para ela, todo “filme é criado do começo ao fim, para conversar com você. Essa conversa pode ser uma sedução, uma piada, uma provocação, uma discussão, um berro, um abraço, um desafio, uma agressão, um enigma”. A mensagem deixada no livro por Bahiana é a de que todo filme merece ser assistido para que se possa avaliar o que tem qualidade, que nos modifica,levando-nos a refletir sobre a vida, sobre o mundo, sobre a arte e até sobre nós mesmos ou apenas serve para nosso deleite momentâneo numa sala escura.

Importante para nós, brasileiros, é reconhecer como o preconceito contra nossa produção tem sido forjado por décadas e de que forma podemos desconstruí-lo para nos beneficiarmos com a gama de obras qualitativas de nosso cinema, muitas vezes, relegadas a pequenas salas de exibição em grandes capitais, distantes do grande público. É uma luta difícil e livros como este podem ajudar com sua reflexão.

Marcos Aurélio Ruy é jornalista

Ana Maria Bahiana.

Como ver um filme.

Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2012

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