O Encouraçado Potemkim

por Memória Sindical. 27 jan 2015 . 12:31

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O Encouraçado Potemkim (Bronenosets Potyomkin)
União Soviética, 1925
Serguei Eisenstein
Com Aleksandr Antonov, Vladimir Barski, Grigori Aleksandrov, A. Levchin, Mikhail Gomorov


Por Carolina Maria Ruy

Em 2015 o filme O Encouraçado Potemkin completa 90 anos e continua atual, sendo assistido com proveito pelos trabalhadores. Não foi somente seu tema que o tornou um clássico do cinema mundial, mas também a maneira revolucionária de sua realização pelo cineasta soviético Serguei Eisenstein (1898-1948).

O tema de O Encouraçado Potemkin quase exemplifica a forma como se desenvolve a consciência de classe: marinheiros mal tratados pelos oficiais que os comandam, em condições de trabalho profundamente degradadas, revoltam-se e acompanham a revolução proletária que ocorria em Odessa, na Rússia Tzarista, em 1905.

A história foi narrada de maneira inovadora por Eisenstein, o grande mestre da montagem cinematográfica que baseia a narrativa na maneira como as imagens são usadas. A tecnologia ainda não havia desenvolvido maneiras de unir filme e som; o cinema era mudo, e tudo o que havia para transmitir a mensagem desejada eram as próprias imagens em movimento, reforçadas em certos momentos por letreiros projetados na tela junto com o filme. E pela música tocada fora do filme, por músicos postos ante a tela onde o filme era projetado.

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Sendo o cinema mudo, as imagens precisavam falar! E a ferramenta para fazer as imagens transmitirem o que o cineasta pretende é a montagem. Em seu livro O sentido do cinema (Sérgio M. Eisenstein, El Sentido del cine, México DF, Siglo Veintiuno Editores, 1974), Eisenstein descreveu a montagem de maneira simples: “suponhamos, por exemplo, um túmulo e uma mulher de luto chorando: dificilmente alguém deixará de chegar a esta conclusão: uma viúva”. A inspiração vinha dos ideogramas chineses, que Eisenstein estudou para desenvolver esta técnica, ao lado de autores como Leonardo da Vinci e suas anotações sobre o uso da perspectiva; ou da literatura russa (Tolstói, sobretudo); e mesmo Karl Marx (de quem cita a frase: “não apenas o resultado, mas também o método, são parte da verdade. A investigação da verdade deve ser verdadeira em si mesma; a verdadeira investigação é a verdade desdobrada, cujos membros deslocados se unem no resultado”).

Este esforço todo teve o objetivo de compreender como o pensamento se forma no cérebro através da justaposição de imagens, traduzidas em palavras. Ele buscava, no cinema, traduzir os sentidos que o cineasta pretendia transmitir. Por exemplo, em chinês, a justaposição de um ideograma que significa “telhado” ao lado de outro que significa “esposa” resulta em outro, que significa “lar”.
Um exemplo do uso dessa técnica narrativa pode ser visto, em O Encouraçado Potemkin, na célebre cena da escadaria, que justapõe imagens de luz (alegria) a outras da repressão tzarista contra os revoltosos, na escadaria (ela própria um signo da hierarquia social existente então). Naquela cena, o horror é traduzido pelo assassinato de uma mãe e a descida, escada abaixo, do carrinho com o bebê que ela conduzia. É uma das cenas mais famosas de toda a história do cinema, tendo sido lembrada no filme Os Intocáveis, de Brian de Palma, de 1987, que faz referência a ela.

A revolta contada no filme realmente aconteceu; o encouraçado Potemkin era um navio da Frota do Mar Negro da Rússia. Construído em 1898, ele estava em serviço desde 1904. A revolta ocorreu em junho de 1905, motivada pelas más condições impostas aos marinheiros.

O encouraçado chegou a estar em serviço sob os bolcheviques, depois da revolução russa de 1917, ainda em plena I Guerra Mundial; foi capturado pelos alemães em 1918 e entregue aos aliados em 1919, que explodiram o navio para impedir que, depois da guerra, voltasse a ser utilizado pelo governo bolchevique 1917. O que sobrou do navio foi desmontado em 1922.


Carolina Maria Ruy é jornalista, coordenadora de projetos do Centro de Memória Sindical

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