O Homem que virou suco

por Memória Sindical. 25 out 2013 . 12:22

 

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A cidade, constituída pelas ações dos homens, nos espreme de forma a extrair o suco de nossas almas. Esse é o mote de “O Homem que Virou Suco”, filme que narra a história de Deraldo José da Silva, um poeta nordestino, que ao chegar a São Paulo tenta ganhar a vida vendendo sua literatura de cordel.


Por Ricardo Flaitt

O Homem que virou suco
Brasil, 1981
João Batista de Andrade

Com José Dumont, Célia Maracajá, Denoy de Oliveira, Ruth Escobar, Barros Freire, Rafael de Carvalho, Renato Master, Ruthnéia de Moraes.

“Alguma coisa acontece no meu coração / Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João / É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi / Da dura poesia concreta de tuas esquinas (…)Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas / Da força da grana que ergue e destrói coisas belas / Da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas / Eu vejo surgir teus poetas de campos, espaços / Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva”.

(trechos de Sampa, de Caetano Veloso).

O concreto da cidade comprime os homens. O concreto também pode ser compreendido pela ganância, pelo excesso de burocracia, pela desumanização e pelas contradições da vida urbana em relação à nossa natureza.

A cidade, constituída pelas ações dos homens, mói, arranca as raízes, desvirtua sonhos, reduz, ou, simplesmente, espremem-nos de forma a extrair o suco de nossas almas.

Esse é o mote de “O Homem que Virou Suco”, de Joaquim Batista de Andrade. Filme brasileiro narra a história de Deraldo José da Silva, um poeta nordestino, que ao chegar a São Paulo tenta ganhar a vida vendendo sua literatura de cordel.

Morando na extrema periferia da cidade, assim como milhões daqueles que chegam para ganhar fazer a vida em São Paulo, Deraldo (José Dumond) parte para o centro da cidade para vender seus livros de poesia e garantir “o de comer”.

Ao tentar vender seus livros numa praça é reprimido pela polícia. Não poderia ganhar dinheiro com a sua obra, pois não tinha documentos, nem autorização para utilizar o espaço, que, com a licença da contradição, é público.

Nesse intervalo entre tentar manter-se com a venda de seus livros e ter que arrumar um “emprego de verdade” (como falam seus amigos), as coisas pioram: Deraldo é confundido com um operário que esfaqueia o patrão.

Perseguido pela polícia e com rosto estampado em todas as capas dos principais jornais a cidade de São Paulo se reduz ainda mais.

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De poeta a assassino procurado, Deraldo vaga pela cidade em busca de emprego. Encontra refúgio, se assim podemos dizer, na construção civil, como descarregador de sacos, como mordomo e outros subempregos.

Ainda que marginalizado, sem documentos e, deste modo, perdendo a sua identidade social, Deraldo não é um homem comum. Não se resume a um simples imigrante que chega à cidade somente para vender sua força de trabalho. Deraldo é culto, é sabedor das coisas e dos seres, sabe ler e escrever, tem conhecimento sobre a arte da literatura, e, sobretudo, tem a capacidade e a sensibilidade para enxergar o “modus operandi” da sociedade.

Esta capacidade de interpretar as ações dos homens e o funcionamento do Sistema ampliam os contrastes no momento em que tem de encarar o lado mais desumano do trabalho, com seus preconceitos, e sua invisibilidade social.

Deraldo, tratado pelo sistema como “mais um Silva que desce do norte”, por mais que faça uma lúcida leitura de sua situação, tem a alma inquieta e não aceita a forma como os menos favorecidos são tratados.

Justamente por este motivo não dura muito tempo nos empregos. A razão o faz aceitar o trabalho, mas a alma não aceita passivamente os desmandos e as humilhações que os seres humanos são submetidos e expostos.

Numa cena marcante, síntese da condição, com a fome ganhando nome e sobrenome, Deraldo segue mais uma vez à procura de emprego. Encontra nova oportunidade nas obras do Metrô.

Durante o processo de seleção, dezenas de imigrantes participam. Muitos ainda com as malas chegadas de viagem. Eis que entra em cena um diretor da empresa, que fala sobre a dureza trabalho que enfrentarão, das responsabilidades implícitas e que na cidade grande existem normas e procedimentos, tais como obedecer às regras e respeitar os superiores.

Como a maioria não sabia ler, então a empresa exibe uma animação, no sentido de passar o recado de forma que fosse de fácil compreensão. O curta exibido pela empresa mostra o comportamento de Virgulino (o mesmo nome de Lampião), que trazendo seus costumes do Nordeste não consegue se adaptar à rotina de trabalho, e vira motivo de chacota para os demais companheiros.

A exibição deste filme revolta Deraldo que, ao final, raivoso, chuta a cadeira e braveja. No entanto, como a fome é mais forte que o sertanejo, Deraldo aceita o emprego.

Na mesma sequência, o diretor potencializa a exploração do ser humano e sintetiza a condição dos trabalhadores no momento em que Deraldo, para chegar ao refeitório, passa por um “corredor” construído com madeiras, muito semelhante aos feitos para o manejo do gado. Deraldo, interpretado magistralmente por José Dumond, começa a imitar os sons e trejeitos de um boi. Perde a condição de humano, animaliza-se. Reflexo de como a sociedade o trata.

Materializa-se aos olhos de Deraldo a vida de gado, já cantada por Zé Ramalho em “Admirável Gado Novo” (que é baseada na divisão da sociedade em castas descrita em “Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley):

“Vocês que fazem parte dessa massa / Que passa nos projetos do futuro / É duro tanto ter que caminhar / E dar muito mais do que receber… / E ter que demonstrar sua coragem / À margem do que possa parecer / E ver que toda essa engrenagem / Já sente a ferrugem lhe comer…”

(Zé Ramalho).

O homem não é de ferro, mas sente a sociedade o corroer. Não é laranja, mas sente a sociedade o espremer.

A única maneira para Deraldo retomar sua identidade e seus parcos direitos perante suas condições é de encontrar o verdadeiro assassino do empresário.

“O Homem que Virou Suco” sintetiza a vida de milhões de trabalhadores brasileiros, que ainda lutam por melhores condições de vida, por cidadania plena, com direito à educação de qualidade, saúde, trabalho decente, transporte, moradia e segurança. Em suma, com dignidade.

Por isso o vigor e a força da mensagem transmitida em “O Homem que virou Suco”, filme que, quando lançado, não foi bem de público, com uma renda bem abaixo do que era esperado. Após ter sido premiado no prêmio de Moscou o filme foi valorizado pelo público e a crítica, e desde de então nunca mais parou de ser exibidos nas grande salas. O Brasil, ainda que venda a imagem do desenvolvimento, essa ordem e progresso não chegou ainda nos lares da maioria.

Curiosidades:

O diretor João Batista de Andrade chegou a cogitar o nome do músico Tom Zé para o papel do imigrante Deraldo.

Premiações

– Festival Internacional de Moscou (1981): Recebeu a Medalha de Ouro (Melhor Filme)

– Festival de Gramado (1981): Venceu nas categorias de Melhor Roteiro, Melhor Ator, Melhor Ator Codjuvante.

– Festival de Brasília (1980): Venceu na categoria de Melhor Ator.

– Festival Internacional de Huelva (1981) (Espanha): Venceu na categoria de Melhor Ator.

– Juventude Soviética – Moscou (1981): Recebeu o Prêmio Mérito Humanitário.

– Festival de Nevers (1983): Venceu nas categorias de Melhor Filme e Prêmio da Crítica.

– Prêmio Qualidade Concine (1983) (Brasil)

– Prêmio São Saruê, concedido pela Federação dos Cineclubes do Rio de Janeiro (1983)


Ricardo Flaitt é assessor de imprensa da Federação dos Metalúrgicos do Estado de São Paulo e historiador.

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