Um Dia de Cão

por Memória Sindical. 08 nov 2013 . 08:59

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Um Dia de Cão (Dog Day Afternoon)
EUA, 1975
Sidney Lumet
Com Al Pacino e John Cazale

A pretexto de uma trama policial Lumet aborda com genialidade a desmedida e intangível capacidade da imprensa em brincar com a opinião pública, e coloca em debate seu poder de entrar na cabeça das pessoas e moldar o senso comum.


Por Carolina Maria Ruy

Quando Sonny (Pacino) decidiu sair do carro para assaltar o banco, ele não imaginava que protagonizaria um episódio sensacionalista, que atrairia tantos olhares. Mas com o banco tomado, os reféns nas mãos dos infratores e o cerco policial, a imprensa fez daquele assalto sua principal atração e deu o tom das negociações.

“Attica! Attica!” foi a resposta de Sonny à exploração midiática, referindo-se à Rebelião de Attica, em Nova Iorque (EUA), em 9 de setembro de 1971, quando detentos da penitenciária de Attica tomaram carcereiros como reféns para exigir, entre outras coisas, o fim da censura, melhor atendimento médico e carcereiros negros e latinos.

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Com cinco dias de tensão a Rebelião de Attica acabou com um banho de sangue promovido pela polícia. Mas o curioso é que cada passo, cada diálogo e o trágico desfecho chegavam às residências dos cidadãos através da TV, que transmitia ao vivo como um reality show.

Tal sensacionalismo não nasceu em 1971. Ele vem com a própria produção em série da notícia e sua cooptação pela indústria cultural, massificada no pós 2ª Guerra, contexto em que a imprensa foi rendeu-se ao mercado.

Sobre isso vale resgatar a lógica simples e direta do músico baiano Tom Zé, que já em 1969 dizia que “Tem jornal popular que nunca se espreme porque pode derramar. É um banco de sangue encadernado, já vem pronto e tabelado, é somente folhear e usar” (Parque Industrial/Tropicália).

No filme Sonny aproveita seus poucos minutos de fama e se envaidece com os holofotes. Mas ele não percebe que naquela situação ele é mais vitima que algoz.

O incipiente crime, a tensão policial, os reféns, a veracidade dos fatos, nada disso determina o resultado da confusão armada por ele e seu comparsa. A cobertura da imprensa, que de Attica até aquela situação, aprimorou seus mecanismos de transmitir o trágico de forma romanceada e teatral, é o que orienta o desfecho.

Ora a mídia defende os bandidos, humaniza-os, instiga a compaixão. Outrora esta mesma mídia reverte a história, revelando ao público a face perversa destes bandidos, tornando “aceitável” uma ação violenta contra eles.

A pretexto de uma trama policial Lumet coloca em debate o poder da imprensa, sobretudo da televisão, de invadir a consciência e moldar o senso comum em favor da ideologia do status quo.


Carolina Maria Ruy é jornalista, coordenadora de projetos do Centro de Memória Sindical

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