A organização do trabalho no cinema de animação

por Memória Sindical. 15 abr 2016 . 15:57

aorganizacao-1Graduado em História e Pedagogia, e entusiasta da cultura, em especial do cinema, o professor Cláudio Vieira resolveu usar sua paixão como ferramenta de trabalho, na sala de aula. E não são apenas filmes com temáticas históricas que ele apresenta aos alunos, a fim de destrinchar os meandros da sociedade. Com fina perspicácia ele comenta filmes de animação, como Toy Story, Vida de Inseto e a Fuga das Galinhas, à luz da organização do trabalho. Seu trabalho já resultou em dois belos livros, Trabalho e Capitalismo Global – o mundo do trabalho através do cinema de animação, volumes 1 e 2 (publicado em 2011 pela Editora Canal 6). É um material riquíssimo para pesquisadores, professores e estudiosos da área. E, no mínimo, livros muito interessantes para quem gosta de cinema. Depois de lê-lo veremos os monstros, galinhas, ratinhos, insetos e brinquedos, personificados em desenhos animados, com outros olhos.

Centro de Memória Sindical – Como surgiu a ideia de analisar filmes de animação sob a ótica do capitalismo global?

Cláudio Vieira – A ideia apareceu a partir de duas situações que envolvem tanto o lado profissional como pessoal. A primeira como necessidade profissional por conta de perceber em meus alunos o gosto extremado pelas novas tecnologias – as imagens em movimento – e ao mesmo em razão de muitos deles se perderem no consumo alienado das inúmeras mercadorias oferecidas pela nossa sociedade. Como exemplo costumo citar as constantes aparições no cotidiano escolar das marcas e personagens das obras de animação que se misturavam (e ainda se misturam) aos materiais didáticos usados pelos estudantes. Ou seja, as reflexões críticas acerca dessa avalanche da sociedade de mercadoria eram mínimas ou quase inexistentes ou quando muito paravam no senso comum. Outra situação surgiu como que ‘por acaso’ pois como sempre procuro fazer cursos em áreas afins – e dos quais escolho o que gosto – calhou de uns cursos envolvendo Sociologia do Trabalho e Cinema na UNESP (Marília) coincidirem com esse momento profissional que falei anteriormente. Assim, a metodologia que aprendi no curso procurei aplicar em minhas aulas em período normal e nos encontros extraclasse em círculos de cultura que realizávamos para discutir temas da sociedade atual escolhidos a partir das observações em sala de aula de conversas com os alunos.

CMS – Como professor, como você usa esses filmes em suas aulas? Como os estudantes recebem?

CV – Então, como falei acima tive de primeiramente levantar com os alunos quais as obras de animações eles conheciam e mais gostavam. Depois elencamos os motivos que fizeram com se sentissem atraídos ou assistissem mais de uma vez. Foi possível perceber que o elemento condutor dos gostos e escolhas estava fortemente ligado aos objetivos da sociedade de mercadorias e da mercadorização de valores e hábitos. O próximo passo foi retomar as matrizes curriculares e encontrar temas ou subtemas que pudessem auxiliar nas novas atividades didáticas envolvendo cinema de animação mas quebrando o estigma de que usar filmes é enrolação em sala de aula ou meramente lazer ou chupeta eletrônica. Não foi simples.

Não é possível usar sempre os filmes (de animação) nas aulas e por isso o plano de aula teve (e deve) ser pensado com muita antecedência e cuidado. Normalmente as obras entram nas aulas quando alguns conceitos – que aparecerão nas animações – já foram trabalhados num primeiro momento mas com o devido cuidado de não colar a ideologia a tela e sim propor aos estudantes a construção crítica do conhecimento. Aparecem então orientações e explicações sobre contexto histórico das obras, a relação entre presente e passado, a releitura do roteiro cinematográfico (do desenho animado) entre outros. Por exemplo no volume 02 de Trabalho e capitalismo global – o mundo do trabalho através do cinema de animação destaco e analiso conceitos como Obesidade, Aquecimento Global, Desefetivação, Liberdade, Mercadorização, Alienação entre outros. Durante esse processo do andamento das aulas os alunos vão sendo orientados a praticarem a metodologia de análise crítica e irem reconstruindo conceitos a partir do senso comum – que a maioria deles estão carregados – mas embasados em referenciais teóricos que lhes dê essa condição de sujeitos não passivos diante das obras. Sempre coloco como proposta aos alunos a produção de materiais após esse tipo de atividade didática e encerramos com uma socialização coletiva em sala de aula. Outra forma de externar essa dinâmica criamos o blog cinema de animação – olhar além da tela (veja o blog) onde realizamos, como em 2015, um concurso cultural.

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CMS – Qual foi seu critério na escolha dos filmes analisados nos dois volumes da sua obra?

CV – Prefiro utilizar o termo objetivos pois vem mais de encontro com as reais necessidades profissionais e com meu olhar sobre o mundo que vivemos. Assim ao conversar com meus alunos (em sala de aula ou não) e colegas professores em horários extra-aula percebi o incômodo que muitos vinham sentido com as produções escritas ou trabalhos didáticos com mídia digital quando senti que os olhares e interpretações convergiam para o mesmo caminho: reprodução literária para atender as exigências dos Planos de Ensino das instituições. A escolha dos referidos filmes presentes nos volumes 01 e 02 apareceram com o objetivo de somar na formação dos alunos, mas num viés diferente de muitas das propostas escolares que somente enxergam um preparo de mão de obra para o mercado de trabalho ancorados numa proposta pedagógica empresarial que em alguns momentos são escancaradamente apoiados na Pedagogia Toyotista e nos pilares do taylorismo e fordismo. O problema são as correntes…

CMS – Você acha que os antigos desenhos animados, como Pernalonga, Pica pau e, posteriormente, He Man, A Caverna do Dragão, trazem também conceitos sociais como o capitalismo e o mundo do trabalho, ou esta análise só se aplica à estas novas animações, que são mais sofisticadas tanto do ponto de vista técnico, quanto do conteúdo?

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CV – Essa pergunta é muito interessante e penso ser necessário uma outra entrevista para esmiuçarmos algumas coisas apresentadas como os conceitos – vejo aqui os valores morais e éticos -, a sociedade capitalista que do início do século XX até hoje passou por algumas metamorfoses – naturais do sistema -, o capitalismo e o mundo do trabalho criado por ele desde o século XVIII e XIX – por exemplo em Oliver Twist – e suas consequências sociais e humanas.

Aprendi que as obras podem e devem ser vistas dentro de um contexto histórico em que foram produzidas e aí tentarmos entender, num exercício de Hércules, as intenções dos produtores, diretores, roteiristas e criadores e até mesmo seu lançamento no circuito comercial seja na TV ou cinema ou redes sociais. Falo isso porque o estudo mais recente que venho realizando começa na década de 1920 e estou usando o desenho animado What a life (Que é a vida – Ub Iwerks), em que o personagem Flip aparece faminto, mendigo e preso pela polícia, ou então, enfrentando fila para conseguir um emprego simples (nível baixo), ou sem dinheiro para pagar despesas de um hotel, perda de dinheiro etc. Muito próximo está a obra Tempos Modernos de Charles Chaplin cuja condição similar é vista e tratada de forma cômica e que foi abordado na questão do anti-herói pelo Prf. Dr. Giovanni Alves (em 2005). Vejo que a questão de uma tecnologia mais moderna contribui para o encantamento junto ao sujeito-receptor e o consumo uma vez que facilita primeiro vender a ideia e depois produzir a obra como nos diz Alessandra Meleiro num dos seus estudos. Podemos citar outras obras Education for death (Educação para morte) produzido em 1943 que tem uma forte carga ideológica antinazista num período tempestuoso do século XX. Nessa mesma linha a obra A cartoon satire in three acts (L. Amalrik e O. Khodataeva) que é uma obra de 1942 que satiriza Adolf Hitler em plena Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

Claro que a primeira apreciação que a gente faz é do lazer mas aí gradativamente os incômodos começam a aparecer e o olhar aguçado norteia nossa postura diante da obra.

CMS – Sobre o último filme da Pixar, Divertida mente, eu, como amante do cinema, de animação, e mesmo dos filmes da Pixar, avaliei que, neste ano, o Oscar de melhor animação deveria ser dado para outro filme, como O menino e o mundo ou Anomalisa. Isso porque, na minha opinião, Divertida mente é de uma qualidade bem inferior aos demais filmes da produtora por ser muito óbvio, com aquela família padrão e a suposição de como funciona a mente de uma criança. A graça da Pixar estava, do meu ponto de vista, justamente, nas relações inusitadas: um ratinho como cheff de cozinha, brinquedos que falam, o universo dos monstros, robôs pós apocalípticos, a relação de um velhinho viúvo aposentado com um garotinho solitário etc. São relações levam os jovens a pensar fora dos padrões e ver as relações com humanidade. Você pode comentar esta opinião?

CV – Acho os filmes da Pixar e outros do circuito comercial de outras produtoras e estúdios de um primor impressionante em termos de produção e causam um encantamento, não é mesmo? Particularmente prefiro os desenhos da UPA/Canadá. Concordo plenamente que a obra O menino e o mundo (do Alê Abreu) é superior aos outros embora os caminhos da produção, incluindo a técnica, sejam diferentes mas aí sabemos que entra o mercado financeiro no circuito de divulgação comercial que acaba se tornando uma corrida do ouro. É só lembrarmos no final da década 1980 e início de 1990 quando Toy Story 1 foi lançado que competia com um desenho brasileiro produzido totalmente em computador.

Quando assisti Divertida mente confesso que gostei bastante e achei bem legal a proposta de tentar explicar o funcionamento da mente humana. No exercício de assistir a obra uma segunda vez tentei me colocar no divã e fora dele e olhar a criança e estudante – meu ofício está na educação escolar – e acabei indo um pouco além do modelo padrão de família. Já a ideia do Remy e Linguini (em Ratatouille), ou do Buzz Lighttear (em Toy Story) ou do Sully e Wazalski (em Montros S/A) eu os coloco dentro do contexto com uma análise que começa na opinião dos produtores e de suas intenções com as obras em si. Ou seja, pra mim elas podem (e devem?) ser vistas a partir ou dentro dos conceitos Trabalho em Equipe, Empreendedorismo, Utopia, Emancipação Humana, Sociedade das Mercadorias, Sociedade de Consumo, Indústrias de Alimentos, Militarismo, Toyotismo, Concorrência entre outros.

CMS – Por fim, você tem em vista novos projetos de produção de conteúdo, a exemplo dos livros Trabalho e capitalismo global?

CV – No momento venho construindo o que poderá ser um volume 03 e o norteamento passa por olhar de forma a destacar as ditaduras na A.L. na década de 1970, a crise do sistema do capital e o neoliberalismo (exemplo do Chile), fim das ditaduras na A. L. e o novo Estado neoliberal. Além disso penso em ver ainda os países/governos neoliberais, as agressões do neoliberalismo aos direitos dos trabalhadores, direitos sociais, saúde/educação…, como também o discurso do novo trabalhador (empreendedor…). Pretendo ainda ampliar o olhar sobre o enfrentamento internacional ao avanço dos EUA (ex: Irã e a Revolução Islâmica de 1979), as agressões sociais do neoliberalismo, as propagandas (mídias) sobre os indivíduos, os novos padrões de comportamento (moda, beleza), ‘saúde’ (incluo aqui a cirurgia bariátrica e outros modismos ditatoriais) e também a teoria do neodesenvolvimentismo (ver Giovanni Alves). Esses são encaminhamentos para analisar algumas das obras que já separei e inicie os estudos até o momento como What’s life? (Ub Werkis), Bob Esponja no trabalho e Persepolis (Marjane Satrapi). Continuamos também com o blog que tem apoio de profissionais da sétima arte e universidades e professores pois é um dos caminhos interessantes…

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