Augusto Buonicore: A greve geral de 1917 e os seus reflexos no movimento operário brasileiro

por Memória Sindical. 10 jul 2017 . 15:10

“Em São Paulo só não ganha dinheiro quem não trabalha, só é pobre quem é vadio”.

Correio Paulistano – junho/1917

Greve Geral em São Paulo, SP, 1917. Coleção História da Industrialização no Brasil, São Paulo, foto 208. Arquivo Edgard Leuenroth.

A greve geral de 1917 e os seus reflexos no movimento operário brasileiro

À Paula Beiguelman

 

Um operário morreu, e agora?

A situação era tensa. Um grupo de operários chegou à porta do Cotonifício Crespi e conclamou os trabalhadores a aderirem ao movimento grevista iniciado há dias. A polícia, decidida a não permitir piquetes, interveio violentamente.

O saldo do conflito: um morto, José Martinez, sapateiro com apenas 21 anos. Depois deste dia São Paulo nunca mais seria a mesma.

Na fria manhã de 11 de julho de 1917, uma multidão de cerca de 10 mil pessoas caminhou lentamente pelas principais ruas de São Paulo. Bandeiras vermelhas e negras tremulavam entre choros e sentimentos de injustiça. A São Paulo proletária estava nas ruas como nunca se tinha visto antes. A cidade parou em homenagem ao operário assassinado.

O cortejo fúnebre seguiu pelo Aterro do Carmo, hoje continuação da Avenida Rangel Pestana, tentando se dirigir ao Palácio do Governo, mas foi impedida pela polícia. Seguiu, então, pela Rua Floriano Peixoto até a Praça XV de Novembro.

De repente, a multidão parou e um grito ecoou: “Libertem Nalepinsk! Libertem Nalepinsk!”. Nalepinsk era outro sapateiro, que foi preso por ter denunciado o assassinato de Martinez. Uma comissão se deslocou até a Secretaria da Justiça para exigir sua libertação.

O delegado-geral, acuado, prometeu soltá-lo logo após o enterro. Foi a primeira vitória. A multidão prosseguiu e chegou à Praça da Sé, onde discursos foram proferidos. Depois, o cortejo seguiu para sua última parada, o Cemitério do Araçá.

Ali, diante do túmulo de Martinez, os oradores, homens e mulheres do povo, se revezavam. Suas vozes estavam carregadas de indignação e revolta:

“Soldados, não deveis perseguir os vossos irmãos de miséria. A fome reina em nossos lares, e os nossos filhos nos pedem pão. Os perniciosos patrões contam, para sufocar as nossas reclamações, com as armas de que vos armaram (…) Soldados! Recusai-vos ao papel de carrascos.”

A multidão chorava. Nem mesmo os soldados, escalados para vigiar o movimento, se contiveram e, com as mangas das fardas, enxugavam lágrimas dos olhos. Um operário morreu, e agora?

Produzir, produzir, deve ser o lema dos paulistas

Ser operário naqueles dias não era nada fácil. Nunca foi! Trabalhava-se em média 14 horas diárias, sem férias, sem descanso semanal remunerado e sem nenhum tipo de assistência. Para eles, apenas o trabalho. “Produzir, produzir, deve ser o lema dos paulistas”, afirmava a imprensa burguesa. “Mas, produzir para quem?”, começavam a se perguntar os operários.

As jornadas de trabalho eram longas, as condições insalubres, não havia horário para as refeições, que eram feitas entre as máquinas. Afinal, São Paulo não podia parar. Como dizia uma canção anarquista: “Oh! Pobre dos proletários!”.

Por todo este trabalho, recebiam salários que não garantiam o sustento de suas famílias, o que levava mulheres e crianças a se empregarem nas fábricas, submetendo-se às mesmas precariedades impostas aos homens adultos e recebendo salários ainda mais baixos.

Em 1912, 67% dos trabalhadores têxteis eram mulheres. Em 1918, mais de 50% do operariado fabril era constituído de menores de idade, como podemos constatar neste trecho de artigo publicado em um jornal da época:

“Assistimos a entrada de cerca de 60 menores, às 7 horas da noite (…) Essas crianças saem às 6 horas da manhã. Trabalham, pois, 11 horas a fio em serviço noturno, apenas com um descanso de 20 minutos (…) O pior é que elas se queixam de serem espancadas pelo mestre de fiação (…) Alguns apresentam mesmo ferimentos produzidos por uma manivela. Tratam-se de crianças de 12, 13 e 14 anos” (1) .

O custo de vida aumentava dia a dia. Em 1916, os gêneros alimentícios subiram mais de 60% sem que houvesse qualquer reajuste salarial. Começava a faltar alimentos e toda nossa produção era vendida para a Europa, que estava em guerra. A fome batia às portas das famílias dos trabalhadores.

Nesse contexto dramático teve início uma onda da greve que abalou o país e, em julho de 1917, o que parecia mais uma greve, como outras tantas deflagradas desde o começo do século 20, resultou no maior movimento de contestação operária já visto no Brasil até então.

E os operários disseram não!

Tudo começou quando uma comissão de operários do Cotonifício Crespi se dirigiu à direção da empresa reivindicando um aumento salarial de 20%, baseado na elevação do custo de vida. Como o dono da empresa não aceitou o pedido, os operários ameaçaram entrar em greve. A resposta patronal foi, então, fechar a fábrica. Com isso a greve, já iniciada, ganhou força e se expandiu a outras categorias.

No dia 8 de julho de 1917, um choque entre operários e policiais na porta da fábrica deixou inúmeros feridos. Os ânimos se acirraram. Na manhã seguinte um novo incidente, agora na porta da Companhia Antártica. Trabalhadores enfurecidos tomaram um caminhão da companhia de bebidas e destruíram garrafas por ele transportadas. Seguiram, então, em passeata pelo bairro do Brás até a fábrica de tecelagem Mariângela, onde ocorreu um novo e mais grave confronto com a polícia. Naquela ocasião o jovem José Martinez, atingido pela polícia repressora, caiu mortalmente ferido.

Um operário morreu, e agora?

A tragédia causou grande comoção popular. Após o enterro do operário, uma multidão, em passeata, atravessou o centro de São Paulo e realizou um grande e espontâneo comício de protesto na Praça da Sé. Ali o povo exigiu a reabertura das ligas operárias, proibidas de funcionar no dia anterior, a libertação dos grevistas presos e punição aos assassinos de Martinez.

O Comitê de Defesa Proletária, formado no dia anterior, assumiu a direção do movimento e apresentou sua pauta de reivindicações: aumento de 35% dos salários, proibição do trabalho para menores de 14 anos, abolição do trabalho noturno para mulheres e para menores de 14 anos, jornada de trabalho de 8 horas, além de respeito ao direito de associação, congelamento de preços dos alimentos e redução dos aluguéis.

Grande revolta reverberou nos bairros operários e a situação saiu do controle, com lojas e armazéns saqueados. A cada dia, mais pessoas aderiam à grande greve, que chegou a contar com mais de quarenta mil trabalhadores. Eram sapateiros, eletricitários, trabalhadores das companhias de gás, mecânicos e quase a totalidade dos trabalhadores de pequenas oficinas, que compunham a maior parte da classe operária do período.

A repressão recrudesceu e a resposta popular foi imediata: ergueram-se barricadas. Os grevistas tomaram os bondes da cidade, alguns foram destruídos pela fúria popular. Tentaram ocupar a 5ª Delegacia, do Brás, levando as tropas de infantaria e a cavalaria a defenderem o posto policial. No largo da Estação Norte, os policiais tentaram invadir um Café, onde alguns líderes grevistas se reuniam, mas foram recebidos à bala. No tiroteio que se seguiu, vários caíram feridos. Novamente, ergueram-se barricadas com sacos de mantimentos e veículos tombados. As ruas do Brás e da Mooca transformaram-se num labirinto de barricadas.

No dia 13 de julho, uma sexta feita, os jornais publicaram uma nota da Delegacia Geral que pedia para o povo se recolher em suas casas, afirmando que a polícia “manteria a ordem” com “meios mais enérgicos”. Representando o pensamento da elite empresarial da época, o jornal O Estado de S.Paulo noticiou naqueles dias que “Uma multidão de garotos se entregou a todos os excessos, escolhendo para alvo de suas loucuras os carros elétricos (…) E, o que é mais deplorável, um bando de mocinhas, infelizes operárias de fábricas, imitou os gestos da garotada, tomando conta de três elétricos no Largo da Sé”.

Frente aos constantes casos de insubordinação da Força Pública e da guarda cívica, que se recusavam a reprimir os grevistas, foram solicitadas tropas do interior. Navios de guerra aportaram na cidade de Santos. Marinheiros foram destacados para reprimir populares que saqueavam os armazéns do porto. “A polícia não permitirá reuniões nas praças e ruas públicas, dissolverá pela força os que pretendiam ir contra a esta resolução”, afirmava um novo comunicado governamental. Tropas de Infantaria e a Cavalaria percorriam as ruas dispersando aglomerações.

Naquela sexta-feira a repressão produziu outra vítima fatal: uma menina de 12 anos, morta em um tiroteio quando um grupo de operários tentou parar um dos poucos bondes que ainda teimavam em circular. Os tiroteios e as vítimas se sucediam. Outro morto, o pedreiro Nicola Salermo. O que era uma simples greve por aumento salarial e melhoria de condições de trabalho transformara-se em uma verdadeira insurreição operária.

Para tentar mediar o impasse nas negociações entre operários e patrões, uma comissão de jornalistas de diversas publicações da capital paulista foi formada. Com isto se conseguiu uma proposta de aumento salarial de 20%, respeito ao direito de associação e não dispensa dos grevistas. O governo se comprometeu a libertar os presos, a reconhecer o direito de reunião e a estudar e votar medidas que protejam os trabalhadores menores de 18 anos e as mulheres no trabalho noturno.

As propostas foram aceitas prontamente pelo Comitê de Defesa Proletária e divulgada em três grandes comícios no Largo da Concórdia, na Lapa e no Ipiranga. Neles foi aceita a contraproposta patronal e decidida a volta ao trabalho, sob a condição de retomar a greve se fossem descumpridos os acordos.

Em tom aliviado, O Estado de S.Paulo noticiou que “com a volta de alguns milhares de operários ao trabalho, a cidade retomou o aspecto que tinha antes de se iniciar o movimento grevista”. Mas, embora a calma se restabelecesse, uma profunda transformação havia ocorrido. São Paulo nunca mais seria a mesma com a entrada em cena de um novo personagem: o proletariado.

As lições da greve (ou um novo ator a procura de um novo roteiro)

Embora os acontecimentos de julho de 1917 tenham representado uma das mais belas páginas da luta do proletariado brasileiro, apresentou também as suas limitações. Após os acordos, pouco a pouco, todas as conquistas da greve foram sendo retiradas e as perseguições e prisões dos principais líderes não só continuaram como aumentaram. Por que isto ocorreu?

Primeiro, apesar de combativos, os operários constituíam-se em minoria da população e se encontravam dispersos em pequenas oficinas, existindo, assim, uma fragilidade nas suas organizações de classe. Segundo, esta fragilidade deu lugar à proliferação de ideias anarquistas, típicas dos pequenos artesãos. O anarquismo era a força hegemônica no movimento sindical brasileiro da época. Eles recusavam-se a organizar os operários de forma mais centralizada e rechaçavam a ideia de construir um partido, única maneira de travar a luta política contra a burguesia e o seu estado.

Esta concepção da luta operária os prendia, fundamentalmente, aos marcos da luta estritamente econômico-corporativa. Questões-chaves, como a ampliação da democracia (eleições livres, voto secreto, direito de voto aos analfabetos, mulheres e estrangeiros residentes no país, legalização dos partidos de esquerda), a reforma agrária – ou mesmo a luta contra o imperialismo –, passavam ao largo das reivindicações anarquistas.

A situação do Brasil, naquela época – um país altamente dependente, com uma população majoritariamente camponesa, dirigido por uma oligarquia agrária que excluía grande parte da população da efetiva participação política –, deveria apontar as bandeiras em torno das quais os operários poderiam se organizar. Esta seria a única maneira destes se constituírem como força política e social autônoma e formarem, efetivamente, a classe operária. Só assim poderiam se constituir em força político-social autônoma para disputar, efetivamente, a hegemonia da sociedade brasileira e garantir as condições indispensáveis à consolidação e à ampliação das conquistas dos trabalhadores.

Se, por um lado, a greve de 1917 representou o ápice do anarquismo no movimento operário brasileiro, por outro mostrou todas as suas limitações que, em pouco tempo. acabariam por reduzir e mesmo eliminar sua influência. Um novo caminho foi apontado pela Revolução Russa de outubro de 1917: o da organização do proletariado enquanto partido político. Mostrou a necessidade da Revolução Socialista e da construção de um Estado Proletário. Questões incompreensíveis para os anarquistas. A consequência necessária da Greve Geral de 1917 – e de outros embates que se seguiram naqueles anos no Brasil e no mundo – foi a fundação do Partido Comunista do Brasil, em março de 1922. Este foi o marco da crise geral do anarquismo no país e início de uma nova fase na história da luta dos trabalhadores brasileiros rumo à sua libertação.

AUGUSTO BUONICORE é historiador, presidente do Conselho Curador da Fundação Maurício Grabois. E autor dos livros Marxismo, História e a Revolução Brasileira: Encontros e Desencontros; Meu Verbo é Lutar: a vida e o pensamento de João Amazonas; e Linhas Vermelhas: Marxismo e os Dilemas da Revolução. Todos publicados pela Editora Anita Garibaldi.

Artigo publicado originalmente na revista Debate Sindical, nº 12, set/out de 1992.

Bibliografia

BANDEIRA, M., MELO, C. e ANDRADE, A. T. – O Ano Vermelho, Ed. Civilização Brasileira, RJ, 1967 (existe uma edição atual da Editora Expressão Popular)

BEIGUELMAN, PAULA – Os Companheiros de São Paulo: Ontem e Hoje, Ed. Cortez, SP, 2002

KHOURY, YARA AUN – As greves em São Paulo, Ed. Cortez/Autores Associados, SP, 1981

Bibliografia

BANDEIRA, M., MELO, C. e ANDRADE, A. T., – O Ano Vermelho, Ed. Civilização Brasileira, RJ,

1967 (existe uma edição atual da editora Expressão Popular)

BEIGUELMAN, PAULA – Os Companheiros de São Paulo: Ontem e Hoje, Ed. Cortez, SP, 2002

KHOURY, YARA AUN – As Greves em São Paulo, Ed. Cortez/Autores Associados, SP, 1981

 

(1) Publicado no jornal operário O Combate em 1917

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