Depoimento Carlúcio Castanha

por Memória Sindical. 03 maio 2018 . 10:08

Carlúcio Castanha, recifense, operário têxtil e metalúrgico, chegou em São Paulo na década de 1970, trabalhou na fábrica Arno, e ingressou na Oposição Sindical Metalúrgica. Leia aqui seu depoimento.

“Em 1968, a referência que ficou foi Osasco. Lembro-me que as discussões de onde seria o Primeiro de Maio, no Recife acompanhávamos tudo. Se ia ser em São Paulo ou Osasco. As primeiras idéias também da questão da comissão de fábrica, era muito baseado na experiência de Osasco. A idéia de que era possível uma oposição entrar no sindicato. Era possível você ser oposição. Depois com o AI-5, mesmo. Vivemos um período quase sem referência. Estabelecemos uma relação muito estreita com São Paulo, com a oposição metalúrgica daqui. Acompanhamos, tentamos montar uma frente operária no Recife”.

Imagem do vídeo em ato da Comissão Nacional da Verdade em 22 de julho de 2013.

Depoimento concedido ao Centro de Memória Sindical, coletado por Carmen Evangelho em 22 de junho de 1989.

Carmem – Vamos começar com seus dados pessoais. Local e data de nascimento.

Carlúcio – Sou de Recife. Nasci em 9 de fevereiro de 1947. Seu Castanha, meu pai, veio do interior de Barreiro, uma zona de pequeno proprietário, muito cedo. Já tinha família na cidade e começou a trabalhar, com registro em carteira, com 16 anos. Minha mãe sempre foi doméstica, nunca trabalhou.

Carmem – Seu pai trabalhava em que setor…

Carlúcio – Ele foi funcionário público muito tempo. Foi trabalhar no comércio, depois que se aposentou. Meu avô teve um problema, não de ordem política. Ele foi condenado a vinte anos de prisão pelo governo Estácio Coimbra, em 1929. Cumpriu um ano e oito meses. Era uma rixa contra o coronelismo, sem conteúdo. O partido comunista, ao qual seu advogado era ligado, no processo de 1930, da Aliança Liberal. O caso ganhou imprensa. Era uma resistência da dívida da terra. O proprietário paga o título, porque está em uma posição privilegiada. Interessa juntar com as duas propriedades a família do governador, aí ele resiste. Esse processo pegou o meu pai adolescente, ficou muito marcado por isso. Meu avô cumpriu um ano e oito meses de pena. A cadeia foi arrombada em 1930. Foi feito um comando em Maragugi e o processo foi arquivado. Com isso, ele conseguiu para meu pai um emprego de funcionário público, para ele e meu tio. Eles vieram para a cidade, um nas docas e outro no Instituto de Medicina Legal. Foi como auxiliar de escrita, funcionário interno. O salário era pouco. Isso me marcou muito, porque meu pai entrava em um processo de depressão quando não podia cobrir a casa, comprar sapato, essas coisas.

Carmem – Quantos filhos…

Carlúcio – Cinco. Sou o segundo, dos homens o mais velho. Tinha uma irmã três anos mais velha. Essa relação com meu pai faz parte da minha formação. Ele morreu agora em abril, dia 23. Foi muito rico, ele sempre me levava. Trabalhava numa repartição, e sempre tinha algum serviço extra para fazer, como cinema, tomar conta de alguma coisa. Ele sempre trabalhava em dois lugares, um extra e outro emprego. Me levava, eu era um pouco seu office-boy. Isso me ensinou muito. A dificuldade de casa e como ele reagia. Na época de Natal, quando não podia dar presente, ficava muito calado, ia dormir mais cedo. Isso passava para nós. O fato da minha mãe guardar o jantar dele. Quando chegava, juntava todo mundo em volta, ele ia dividindo, um pedaço para um e para outro. Mamãe combatia, vocês já comeram. Isso me ensinava muito. Essa relação de…

Carmem – Proteção dela a ele.

Carlúcio – Não. Principalmente o fato de ele dividir. Angustiava-se muito com essa situação. Menino é fogo, reclama que o pão está pouco, que não tem manteiga. Mamãe passava a manteiga na cozinha e vinha para a mesa. Ele pedia para trazer na mesa para as crianças. Ela dizia, só vai durar dois dias, o resto da semana não tem. Isso era uma porrada muito pesada para ele. Minha infância toda foi mais ou menos tranquila. Ele se sacrificou muito para estudarmos, tinha um sonho que devíamos nos formar. Sonhava que eu tinha que ser engenheiro, porque gostava de matemática. Foi uma decepção o fato de não termos feito universidade. Tem um pouco de opção minha na adolescência, de já ir para a escola técnica e começar a trabalhar em fábrica. Já tinha uma influência política nessa decisão. Ligada ao trabalho operário, não era só uma questão de ter dinheiro, comprar roupa.

Carmem – Seu pai tinha militância partidária ou sindical…

Carlúcio – Não. Acho que o processo dele, tinha muito medo. O fato do pai dele deve ter marcado, apesar de não ter sido militante político. Mas não foi um processo fácil para ele e minha avó. Havia uma dúvida muito grande na família, se ele sobreviveria, se seria morto na prisão. Tinha ameaça nesse sentido. Quando foi preso em uma manifestação em Recife, perto de João Pessoa. Meu pai faz um outro processo. Tinha muito medo quando começamos a fazer militância, eu e minha irmã caçula. Sua reação era até de tentar combater. Sempre teve essa marca, uma capacidade de amar muito grande. Quando começou o processo de prisão, de 1973, ele foi adotando as pessoas, se comprometendo. É o primeiro impacto que tive. Quando estava numa fábrica têxtil, ele chegar na porta e noticiar que o companheiro tinha sido absolvido. Arrumou um motivo para falar comigo na fábrica. Ele começou a fazer esse processo. Quando se aposentou do serviço público, ficou trabalhando junto do movimento, com o Fernando Sorpe, Paulo Crespo, na igreja. Fez um processo de compromisso, sem nunca ser militância partidária. Hoje, quando ele morreu, algo que sempre observava, as pessoas que passaram pela militância comigo, por vários motivos ficaram em caminhos diferentes, mas continuaram com ele. Estabeleceram relações afetivas, pessoais. Tanto que em seu enterro tinha PCB, PCdoB, além de todo esse pessoal que trabalhou com ele, mais de vinte anos de trabalho junto. Terminou participando do 1º de Maio, o pegaram para representar na praça em 1977, ficou sendo pai de muito companheiro nosso, uma solidariedade muito grande. Esse processo ele fez.

Carmem – Você disse que teve uma adolescência normal. Como foi na escola…

Carlúcio – Fiz o secundário completo. A esperança de meu pai era que eu fosse para a engenharia. 1965 já estava colocada a questão de trabalhar ao invés de ir para a escola de engenharia. Fui para a Escola Técnica Federal de Pernambuco, fazer curso de máquinas e motores. Não fiz o curso noturno do SENAI, não fui garoto do SENAI.

Carmem – Você não foi aprendiz.

Carlúrcio – Não fui garoto do SENAI. Fui fazer o curso noturno na escola técnica. Estava perdoado de várias matérias porque tinha colegial, estava buscando a questão da profissionalização. Meu primeiro emprego foi na Polimetal, na estrada da Beribeira, já fechou essa firma, era pequena, uma fundição. Era muito duro.

Carmem – Volta um pouco (risos). Essa questão do seu avô, notamos que marcou muito…

Carlúcio – Ele escreveu um livro.

Carmem – Fale algo que tenha te marcado, pode ser um fato, uma pessoa… Para mim, em 1964, quando o Gregório Bezerra foi preso, eu vi na televisão. Ele sendo preso feito um cachorro pelas ruas de Recife.

Carlúcio – Amarrado com cinco pedaços de corda.

Carmem – Isso me emociona até hoje. Sei que foi importante para minha vida inteira. Fiquei traumatizada, me marcou muito. Acho que essas coisas acabam sempre conduzindo a nossa cabeça.

Carlúcio – O que me marcou do ponto de vista político, na minha formação: na escola, quando era garoto, ganhamos uma entidade, que não era do movimento estudantil. Era recreativa, um grêmio. Um pouco sem eu saber, tínhamos uma relação do bairro, colegas que os pais tinham militância. José do Calazans, da Câmara do Mérito, o Androvani, um militante do partido, tinha ido para a União Soviética. A primeira vez que eu li o Manifesto, fazia um trabalho de escola, coisa de moleque, 14 anos. Ia fazer um trabalho, algo em relação ao campo, as sesmarias, em relação a divisão da terra no Brasil. Ele me trouxe o Manifesto.

Carmem – Manifesto Comunista…

Carlúcio – Isso. “Meu pai mostrou isso para usarmos como subsídio no trabalho”. Eu li e minha reação foi: “Porra, isso não é próprio para você! Você tem bicicleta, camisa de elanca…”

Carmem – Camisa de elanca foi boa!

Carlúcio – As coisas que eu não podia ter. Imagina adolescente, de quatorze anos, herdando camisa do tio, o que significa isso. Não é que o Manifesto me marcou. Depois fui ler, quatro anos depois. Era isso, ele era o comunista, mas o cara que tinha bicicleta, camisa de elanca, televisão. O pai não tinha carro, mas tinha essas coisas, geladeira, televisão. Eu não tinha, entende… Eu dizia: “Porra, mas isso aqui não é para você, é para mim…” 1964 fez uma marca. O pai do Zeca foi preso, o exército tomou conta da casa dele. Passávamos na calçada e tinha soldados na casa. O Seu Androvani era um tio para nós. Depois, amigo. O apelido era Amigo. O Osvaldo deve estar em Manaus, no Acre, em algum lugar no Norte. Ele se candidatou a deputado nas últimas eleições pelo PDT, nunca mais tive notícia. A última que recebi que foi preso ou teve que fugir. Esse companheiro era um pouco mais velho e acompanhava nosso trabalho na entidade. Tínhamos um trabalho recreativo. Chamava para as reuniões fora, grupo de leitura. Mas eu tinha quatorze anos.

Carmem – Foi aí que você escutou pela primeira vez falar em sindicato…

Carlúcio – Não. Em sindicato tínhamos um acompanhamento que era o CONCINTRA. Muito através da militância do pai do Zeca, do Androvani. Era muito distante. Não estava trabalhando ou estudando, era adolescente.

Carmem – O sindicato…

Carlúcio – Foi quando fiz o movimento da juventude. Já foi político mesmo. Em 1961, na época da ocupação no bairro Brasilipina. Tinha uma comunidade, como hoje as de base, igreja. Morava num bairro do Pina, e Brasilipina é um lago desse bairro, o lado da invasão. Foi uma decisão de ir e ficar mais perto. Tinha muitos conhecidos, que moravam lá. Acompanhar o movimento entre nós, da juventude, basicamente.

Carmem – Você sai desse movimento de grêmio, em que você tinha uma influência grande do pessoal que morava perto…

Carlúcio – Na verdade não chegou a ser movimento. O que fizemos na escola foi rede de vôlei, muito bingo, quermesse. Coisas desse tipo.

Carmem – Está parecendo a atividade que fiz.

Carlúcio – Foi isso, mas com quinze anos. Era tesoureiro da entidade, o Zeca, secretário. Fizemos uma renúncia. Teve um fato, o pai do Zeca ajudou até a redigir a nossa carta de renúncia. Teve um conteúdo ideológico. Era em relação ao presidente que estava fazendo um mandonismo na entidade. A dele teve um conteúdo mais ideológico e a minha era nascida no governo democrático do General Eurico Gaspar Dutra (risos). “Eu nunca tive o desprazer de ver o meu país governado por um só homem, no regime ditatorial, e é com tristeza que vejo nossa entidade, a SEARA indo para esse caminho”. Mas não chegou a se fazer movimento. Era bingo, quermesse. Para de sair de casa e se reunir, esse processo de adolescente. Em 1965, começamos a fazer um trabalho chamado grupões, no Recife. Tinha uma influência de setores da esquerda, uma disputa. Basicamente era uma base na juventude de Ação Popular. Ainda tinha uma influência do PC, naquele espaço que se abriu a partir da igreja. Começamos a fazer um movimento paralelo de juventude. Fui o fundador do JUBRAPI, Juventude Unidade de Brasilipina. Editávamos um jornal que nós mesmo escrevíamos, que ia desde a Guerra do Vietnã. Trabalhava muito a questão do imperialismo americano, até a realidade do Nordeste ou outra discussão. Até a poesia de João Cabral de Mello Neto. Fazíamos representação de peças. Uma que fez sucesso foi uma montagem da poesia de Vinícius, de “Um Operário em Construção”. Uma garotada de quatorze anos trabalhando, com uma seriedade. Minha irmã caçula trabalhou nessa peça, o ator principal tinha essa idade, meu concunhado hoje. No encontro nacional do JOC, em 1968, esse pessoal foi apresentar em Recife. Era dos tais grupos de juventude, em cada bairro tinha um nome diferente. Um trabalho de orientação política tentava juntar todos aqueles grupos de juventude numa mesma direção. Fizemos peregrinação, tinha expressão de massa. Era a garotada mesmo que tomava conta disso, a elaboração era toda nossa.

Carmem – Mas o que era feito…

Carlúcio – Era uma caminhada que fazíamos de dez quilômetros. Saíamos de diferentes cidades e caminhávamos até subir o morro de Guararapes, discutindo alguma coisa. Do ponto de vista da organização, fazíamos três semanas de monitoria, a peregrinação era para a massa. Fazia divulgação nas escolas, já com influência do movimento secundarista. Passávamos um mês e meio formando monitores, quem distribuía o número dos grupos éramos nós. Cada grupo tinha um monitor que puxava as discussões políticas, tiraram lá a Carta Popular do Progresso. Qualquer tipo de coisa, o plano diretor da SUDENE, qualquer tema mais geral que seja lá do Nordeste, introduzíamos e preparávamos a monitoria. Quando dividia o grupo tinha um cartão que ficava conosco, dividíamos aleatoriamente, as pessoas iam chegando no local e distribuíamos. A penúltima foi acompanhada pelo DOPS, teve repressão.

Carmem – Tinha uma conotação política mesmo.

Carlúrcio – Totalmente política. E muita influência da Ação Popular.

Carmem – Como que se passa de um círculo de influência, que era do PC, para a igreja…

Carlúcio – Esse círculo de influência do PC, quem fez o rompimento foi a ditadura, 1964. Lembro-me a primeira vez que fomos a Brasília, junto com o Zeca. O sumiço que as pessoas levavam, a prisão. Alguns tiveram que se esconder. Quando apareço lá na frente, já nesse movimento de juventude de bairro, estava circulando aquele movimento de base, escrito pelo padre Vaz, aqui de Minas. Era muito humanista, o primeiro documento da Ação Popular. Não era antimarxista. Já circulava no meio da rapaziada a necessidade de um passo à frente, a necessidade de uma ação mais política, de dar uma resposta estratégica para a sociedade. Toda essa discussão já começava a rolar. Esse pessoal na verdade tinha mais influência nesse tipo de trabalho no Recife, na época. Isso em 1968. Só passei por esse movimento nesse período.

Carmem – Chamou-me a atenção que você disse que quem rompeu com esse grupo foi a ditadura, ao exigir que as pessoas caíssem praticamente na clandestinidade.

Carlúcio – Também não é um vínculo ideológico.

Carmem – É um vínculo afetivo…

Carlúcio – É um vínculo de acompanhamento de trabalho. Não tinha militância, não estava organizado.

Carmem – Quando a ditadura fecha o espaço que a igreja vai ocupar.

Carlúcio – A igreja ocupa, na verdade a expressão é essa. 1968 vem uma dicotomia, um período entre o bairro e a fábrica. Tinha uma influência nesse trabalho, que formava muita gente. Essa marca, acho que perdemos um pouco. Tinha outras pessoas dando conta, escrevendo, elaborando, rodando material, fazendo teatro. Eu tinha uma vocação grande, mas nunca cheguei a tomar parte no grupo de teatro. Era o cara que incentivava. No período de 1968, vivi isso de ter de me afastar do trabalho do movimento de juventude para um trabalho operário. Foi um período de transição. Voltava no bairro com tarefa para a rapaziada, que não tinham muito a ver com a formulação que eles tinham feito. Tinha uma ameaça que iam fazer um conjunto de hotel na Colônia. Tínhamos uma capacidade de iniciativa muito grande, uma autonomia. Dava problema de matéria que saía, dava problema com o padre, se bem que era um cara muito aberto. Era uma marca desse movimento. Diferente do trabalho da JOC, não tinha um acompanhante. Esse tipo de trabalho era feito por conta da rapaziada. Eu já estava ligado a Ação Popular e vivendo na fábrica, mas mantendo essa relação com o bairro. Levava tarefa para o pessoal, dizia que tinha que chamar para fazer um bate-papo. Ia trazer uma pessoa de fora, mostrar o projeto da desapropriação e fazer uma mobilização, mas a colônia está lá até hoje. (risos) Depois compreendi, e o próprio pessoal também, que não tinha nada a ver, aquele movimento tinha outra dinâmica, não a que queríamos imprimir para ele.

Carmem – E você vai para a fábrica.

Carlúcio – Eu vou, me lascando. Tinha que ir para o SENAI de noite, para a escola técnica, não tinha nenhuma noite livre. Trabalhando de ajudante geral, metendo calo na mão, um trabalho muito penoso, massacrante. Estava trabalhando com um pouco mais que o salário mínimo da época.

Carmem – A fábrica era pequena…

Carlúcio – Era uma fundição, estava fazendo muita coisa para aquela barragem na hidrelétrica de São Francisco.

Carmem – Lá é grande.

Carlúcio – Faziam isolantes e torneira também. Não era grande, não.

Carmem – Quantos empregados…

Carlúcio – Devia ter uns oitenta no máximo. Foi um período muito duro, um serviço muito massacrante. Havia uma prioridade pela fábrica têxtil, meio equivocado, a prioridade era definida como tradição de luta, número de trabalhadores, importância econômica.

Carmem – Fora os cinco falando.

Carlúcio – Em 1967, nos metalúrgicos em Recife, as indústrias que estavam vindo aqui ligadas ao SUDENE, aos incentivos fiscais, começando a se instalar. Não tinha um parque industrial metalúrgico. Praticamente fui deslocado para a indústria têxtil. Lembro-me que foi comemorado, já estava fora de casa, morando com os companheiros, num bairro em Santo Amaro, numa favela. Acompanhei uma oração quando consegui emprego Torre em 1968.

Carmem – Percorrendo na Têxtil.

Carlúcio – Fui trabalhar na fábrica mais importante, é definido pela organização, fui trabalhar na A1m, na Torre.

Carmem – Era paulista…

Carlúcio – Era em Recife mesmo. Tinha um passado de resistência, de luta, até do movimento político, muito antiga. Muito antes de 1964. Era uma fábrica que na greve dos têxteis, em Recife, teve uma participação decisiva, no combate aos fura-greve. Um movimento pesado, de paulada, de arrebentar a cabeça. Fui trabalhar na oficina da Torre. Oficina de uma fábrica têxtil, em Recife, era como se fosse uma metalúrgica. Muita fresa, torno. Tinham uma fundição na fábrica, porque tem muito problema de reposição de peça. Quebra muito tear. Era uma metalúrgica dentro de uma fábrica têxtil. O curso que estava fazendo era de torneiro mecânico, e depois de fresa, estava no campo. Não entrei na produção têxtil, entrei já na oficina. Como nunca fui um bom torneiro, fui trabalhar na manutenção, já na parte de ajustagem. Tinha um contato maior com a produção. Já ia na produção consertar máquinas quebradas, mudar peças. Passei muito tempo aí. Comecei uma atividade no sindicato, o presidente era…

Carmem – Sindicato dos Têxteis…

Carlúcio – O presidente era João Paulino.

Carmem – Isso em 1968…

Carlúcio – Era militante do PC. Tinha um interventor no sindicato. Você vai fazer uma eleição, o PC põe três companheiros na chapa. Foi uma experiência muito ruim no Recife. Todos os militantes do PC que entravam nesse processo, fizeram o caminho da traição deslavada. Comecei a atuar no Sindicato dos Têxteis. Era uma situação difícil por causa da repressão. O trabalho sindical era com o PC. Tinha um acompanhamento e uma militância organizada com os companheiros da Ação Popular na época. Nunca conseguiu de fato ser operário, tinha muita presença no movimento estudantil. Os companheiros não tinham experiência de fábrica. Conheci os velhos militantes do movimento sindical, que estavam voltando a atuar no sindicato.

Carmem – Era isso que eu ia perguntar.

Carlúcio – Chico Serralheiro, Coió. Num trabalho da companhia nacional pernambucana, Camarajibe. Tinha uma base do PC muito forte. Começamos a trabalhar juntos, fazer oposição. Era um trabalho muito diferente do que o que fazemos hoje, não era orgânico. Sentia uma necessidade grande da oposição nesse período, 1972. Fizemos uma chapa, na qual não quis sair, apesar da pressão na fábrica. Ficava no trabalho político. A marca era outra, não para ser dirigente sindical. Mas estava na linha de frente da chapa. Quando terminavam esses processos de direção sindical, tentávamos continuar com o pessoal pensando, reunindo regularmente. Tinha muita resistência desses velhos militantes. O pessoal mobilizava muita gente no período da campanha. Nunca nos bicávamos, mas na campanha sindical trabalhávamos juntos. Essa era a diferença. Era um pessoal que me pressionava. Quando chega 1972, no período já do MDB. Tinha um pessoal mais da esquerda que apoiava tal candidato. A organização orgânica com o PC, não existia. Cobrava muito isso. Não tinha organização orgânica com a ligação política o partido. Era uma bem crítico. Vinha uma eleição para deputado, o partido discutia com o pessoal o apoio e começavam a se mobilizar. Faziam reuniões grandes nas casas em função daquilo. Depois não tinha mais partido. Sentia que não tinha vida, aquele militante não tinha vida orgânica. Isso se refletia no sindicato, na atuação sindical. Então foi isso. A indústria têxtil, passei quase toda no Recife. Torre, depois Macaxeira, Oton, Bezerra de Mello. Depois Companhia Têxtil de Alinhagem, uma fábrica de saco. Em 1972, quando estava nesse processo de oposição, nos rebelamos contra um desconto, taxa assistencial de 10%. Já era presidente do sindicato esse ex-militante do PC. Percorreram várias fábricas para denunciar as lideranças. O presidente, o secretário e o tesoureiro faziam denúncia. Na fábrica que eu trabalhava o gerente me acareou com eles. Fui chamado, disse: “Esses rapazes vieram dizer que você está fazendo agitação e tal”. Tentei segurar o emprego e lutei, evitar a justa causa. Os peões estavam assistindo. Era em cima da fiação, e eu era mecânico. Tinha o presidente, o secretário e o tesoureiro. O pessoal sabia que fazíamos oposição. O presidente era o João Paulino, ex-militante do PC. Disseram que eu era agitador. A minha saída foi dizer que a questão era pessoal, briga comigo. Se tivesse acontecendo agitação na fábrica, o senhor já teria sabido. O chefe da seção ficou numa situação difícil, porque teve realmente um movimento de abaixo-assinado, mas era uma briga com o sindicato, não com a fábrica naquele momento. Ele disse que não estava acontecendo nada, me mandou voltar. Mas depois fui demitido, em 1972.

Carmem – Em 1968, dentro da fábrica, como você recebe o AI-5…

Carlúcio – Em 1968, no AI-5, eu estava, ainda em dezembro, na Torre. Conseguimos organizar um grupo. Fizemos uma paralização, um negócio louco. Pixávamos o muro as três da manhã. Às seis entrávamos na fábrica para trabalhar. Naturalmente fomos localizados, o grupo todo. Foi a primeira experiência de luta, confronto. Em 1968 tinha uma marca que o trabalho sindical colocava em função da luta contra a ditadura, da influência da esquerda. Colocava a questão do poder. Não conseguíamos aproximar um companheiro só pela questão econômica, já estava dada a política. O fundamento da ditadura, o perigo da prisão, a tortura. Tinha muito essa conotação. Um trabalho que saiu do sindical e vinha imediatamente para o político. Até a leitura do material da organização, de outras, essa troca, vinha muito por aí. Em função desse trabalho de conversa, vem vários companheiros que não estavam na lista.

Carmem – Antes do AI-5…

Carlúcio – Antes. E o AI-5 era uma outra marca no movimento. Nunca fiz movimento estudantil, ou estive na universidade. Mesmo no curso secundário, não tinha isso. Fiz aquele negócio na adolescência, mas não se caracterizava com o movimento ligado a UNE, não tinha essa marca. Mas tínhamos uma relação muito grande, lembro-me que sempre perambulava pelos corredores do diretório acadêmico, participava de algumas reuniões. Era um operário de fábrica e participava desse movimento. Do ponto de vista dos trabalhadores, do movimento sindical e operário, o AI-5 não passou de ser comentado de forma superficial, na fábrica mesmo. Mesmo daquele pessoal que tinha participado do movimento grevista, era ainda distante. Os homens endureceram. Vai ter pena de morte, vão prender os estudantes, vão matar os estudantes. Era uma coisa que eu sofria. É uma distância do movimento operário todo o processo. Inclusive no início da luta armada. A relação que o pessoal estabeleceu na fábrica era um pouco de ficar torcendo para que desse certo. Tem um negócio aí. Participávamos das passeatas. Quando a repressão matou o padre Henrique, andamos vários quilômetros para levar o corpo até a várzea. Passamos quase na rua da Torre, a fábrica que eu trabalhava. Disfarcei-me, nesse dia, não trabalhei. Era em toda a direção daquele movimento, não era da igreja, era realmente do movimento estudantil. Os discursos, as intervenções, tudo marcadamente do movimento estudantil. Perto da fábrica, a polícia fez um bloqueio. A ordem era deixar passar a família e o caixão ser colocado no carro e levar o enterro. Quebrou a passeata. Enfrentamos e rompemos. Primeiro sentou todo mundo no chão. A polícia abriu e passamos. Era bem perto da fábrica. Então vivia assim. Dentro da fábrica o pessoal estava assim, mataram um padre, os homens estão endurecendo. Um negócio distante.

Carmem – E do patronato, você sentiu alguma coisa…

Carlúcio – Coisa que marcou, não. Dentro do sindicato, começamos a ter mais cuidado nas intervenções. Começamos a sentir que estavam sendo gravadas nossas intervenções. Quando ganhávamos uma assembleia, muito de pelegos. Ganhávamos e os encaminhamentos não tinham consequências. Não tínhamos força para dar consequência. Era uma luta triste. A assembléia, dizia que estava tudo dado, que a tabela vinha do governo. Pedíamos autonomia para negociar, para que a campanha fosse realizada só com uma assembleia. A briga era que a campanha fosse realizada com quantas assembleias até terminar o acordo. Sem isso, estávamos asfixiados, não tínhamos relação com a categoria. Sempre ganhávamos essas brigas. Não tinha a questão das comissões de fábrica. Começava a pintar em São Paulo, acompanhávamos, a greve de Osasco, de Contagem, em 1968. Aquilo foi discutido na fábrica.

Carmem – Na fábrica…

Carlúcio – Ali. O movimento foi discutido. Contagem, Osasco. Era possível. Começou o movimento.

Carmem – Como o pessoal de fábrica, a militância reagia a isso… Que observações faziam…

Carlúcio – Era diferente do movimento estudantil. Já tinha no sentido da atuação do sindicato. Poder caminhar nesse sentido. Sair daquela política de arrocho. Muito comentado o período de Fundo de Garantia. Todo aquele movimento de pressão para fazer acordo. A Macaxeira já tinha entrado em um processo de criar uma prisão para o pessoal que não queria, os velhos que não queriam fazer acordo. Tinha muitos militantes. Pessoal que tinha dezenove anos de fábrica, foi pressionado para assinar o Fundo de Garantia. Um movimento que está registrado em Recife. A fábrica criou um museu para os velhos. Era um salão com filtro, uma mesa e as pessoas passavam o dia todo ali.

Carmem – Um filtro como…

Carlúcio – Um filtro para beber água. Uma mesa comprida, com as cadeiras. Marcavam o cartão e iam para lá. As mulheres começaram a levar tricô. A participação delas na indústria têxtil, dos velhos militantes do PC era muito forte. Marcou muito a ditadura no Recife, como a burguesia, a indústria têxtil, os empresários trataram a questão da pressão. Para resolver a questão do estável, que normalmente era o militante. Para quebrar com isso teria que ter uma militância muito grande. O pessoal conseguiu suportar esse processo com denúncia a sociedade. O pessoal da Ação Católica Operária entrou, teve um papel. Tinha militante nessa mesma condição na fábrica. Começou um processo de ativação no movimento da ACO no Recife. Tinha velhos militantes do partido comunista que faziam parte da ACO. Muitos de nós passaram por lá.

Carmem – Como esse movimento de estabilidade foi quebrado…

Carlúcio – Esse movimento do museu na Macaxeira, o pessoal conseguiu voltar para a produção.

Carmem – Sem assinar o acordo…

Carlúcio – Sim. Na minha ótica, o que quebrou foi ao longo do tempo o próprio processo produtivo. Foi um período que a indústria têxtil teve um processo de mudança tecnológica muito rápido.

Carmem – O fio sintético…

Carlúcio – Não somente o fio sintético. Mesmo no algodão, o maquinário. Em 1950, o maquinário da Companhia Paulista, que trabalhei muito tempo. Tinha cerca de dezesseis mil funcionários. Em 1974, não tinha mil e quinhentos. A cidade de Paulista toda, nessa época, ficava uma pessoa tomando conta das crianças dentro de casa e o resto trabalhava nas fábricas. As vilas operárias, a indústria têxtil tinha essa marca. Acho que o que quebrou foi esse processo rápido de modernização, de maquinário, tecnologia. O pessoal estável era o tecelão, que trabalhava com uma máquina só. Começou um processo de quatro máquinas para uma pessoa. Os teares mecânicos. Nos primeiros teares do Brasil, o operador tinha que observar o fio, se quebravam, e parar a máquina. Começou um processo mecânico de parada automática. O processo de automação na indústria têxtil foi muito violento, rápido. Para explicar como quebrou a questão dos estáveis. O pessoal que tinha mais tradição de luta, velhos militantes do PC. Tinha história na categoria, participaram da greve de São Bernardo. Uma das minhas explicações é a questão da automação, do pessoal ficar sem produção. Todo tipo de trabalho feito com as máquinas, não tinham mais condições de fazer. Você falou da questão da fibra sintética. Isso também influenciou. Mas não foi ainda nem a eletrônica. Esse período até 1974 foi um processo mesmo mecânico, de mudança de máquina. Um tecelão que trabalhava com uma máquina passou a trabalhar com quatro, depois com oito, dezesseis. Eu vivi todo esse processo na fábrica. Chegou o dispositivo eletrônico, a célula fotoelétrica, já posteriormente. Houve todo esse processo mecânico de modernização, alimentação, a parada da máquina. Isso foi um processo muito violento, rápido e eu acompanhei. Foi isso que quebrou aquele pessoal mais velho. Pelo menos teve uma influência muito grande.

Carmem – Você disse que esse é o pessoal que tinha feito avanço na categoria, participado da história. Como isso entrava para os novos… Circulava na fábrica…

Carlúcio – Era um pessoal que impunha muito respeito, pelo conhecimento. Não sabiam somente emendar um fio, mas eram capazes de fazer uma pequena manutenção na máquina. Para mim foi muito importante, aquela relação do respeito por esse conhecimento que tinha. Mesmo o operário têxtil, o tecelão, sabia mais que simplesmente emendar o fio. Isso também foi perdendo. Era um poder que o pessoal tinha e foi perdendo. Isso passava. Era um pessoal capaz de dar uma orientação para o mecânico, para o eletricista, conhecia muito a máquina. Esse lance da primeira entrada do novato na fábrica. O SENAI Têxtil desenvolveu muito no Recife, para poder fazer esse processo de manual, com mão de obra adaptada as máquinas que estavam chegando. Na Torre tinha uma escolinha, na Paulista. Mas era muito familiar. Normalmente, quando o tecelão se aposenta, ele ia ser um subempregado. Não sabia fazer outra coisa. É um tipo de indústria que o fiador, o tecelão, o engomador, aprenderam a fazer aquilo a vida toda. Passa muito de pai para filho. A indústria têxtil tinha uma marca, sempre estava próximo a uma vila operária, no Recife. A TSAP foi assim, a companhia de sede, Tecido Seda de Algodão, no bairro de Santo Amaro. A Macaxeira tinha uma vila operária, a vila do Boritim, onde os trabalhadores moravam.

Carmem – Ela se instalava próximo ou construía…

Carlúcio – No começo ela fez as vilas operárias, as casas dos trabalhadores. A fábrica era socialmente importante, porque fazia parte. A avó já tinha trabalhado, o pai…

Carmem – De pai para filho.

Carlúcio – Era de pai para filho. A indústria têxtil foi muito isso no Recife. A Paulista tinha uma grande vila operária. Esse elemento novo que estava entrando. Era sobrinho, filho. Um tecelão que talvez ainda estivesse na fábrica. Isso influenciou, era uma relação de respeito. Não registrei nenhum sinal de conflito mais aberto, entre esses dois tipos de mão de obra, no processo de transição.

Carmem – Tinha um espaço para contar a história, da vida da categoria, das reivindicações, ou isso ficava meio no ar…

Carlúcio – Era muito interessante. O pessoal trabalhava muito pouco com material escrito. Boletim é novidade. Fizemos a campanha de 1972, em uma chapa de oposição liderada pelo Coió, com militantes do partido e tudo. Insistia para ter o material escrito. Não houve um boletim sequer dessa chapa. A eleição foi fraudada. Ganhamos, duas fábricas definiram, a Torre uma delas. Estava na Miagem nesse tempo. Uma quantidade de votos que não tinha nada a ver com a categoria. A patronal levando para votar. Estávamos na frente, quando abriu a urna da Torre, perdemos a eleição, por uma diferença muito pequena. A chapa tinha os velhos militantes, que fizeram um processo de aglutinar, de consulta, discussão, reunião na casa de um, um sarapatel na casa de outro. Depois de formada a chapa, em 1972, conseguimos fazer uma convenção, com dois nomes para definir quem ia liderar. Tinha uns duzentos companheiros, foi interessante.

Carmem – Foi feita no sindicato…

Carlúcio – Não, foi em Camarajibe, no Sesi. Insisti muito para ter um material escrito. A campanha toda, íamos na porta da fábrica e esperávamos a saída do pessoal. Conversávamos com os companheiros. Tudo na base do verbal, da palavra. Era uma história contada através de reunião, conversa na fábrica. Tinha uma resistência, uma questão de segurança de jogar boletim. Acho que a própria igreja, a ACO contribuiu. Escreveu alguma coisa desse período, da luta dos têxteis em 1958, foi feito um livro da história de um operário que morreu mais de cem anos trabalhando, “Manoel do Ó, Cem Anos de Suor e Sangue”. Participamos do trabalho desse livro. Quem contava esse história de forma mais escrita era o pessoal da Ação Católica. Mas a militância mais antiga, não. A não ser do ponto de vista da organização partidária, que temos alguns documentos. Toda uma formação feita através de texto, discutido e acompanhado, a igreja só que tinha condições de resgatar alguma história, mas em um enfoque político da organização. A coisa era mais contada mesmo. Estávamos entrando e tinha uma atenção muito grande de conversar. Toda a história do museu da Macaxeira, foi muito contada. Algumas coisas escritas também, mas menos que a da fábrica.

Carmem – Da categoria.

Carlúcio – Não, conjunto da categoria, não. Conjunto da sociedade. Contar a história da perseguição aos trabalhadores da Macaxeira. Dentro da categoria era uma história passada através de reunião, conversa, comunicação mesmo do pé do ouvido.

Carmem – São diferentes os militantes que se formam dentro da fábrica e os que entram…

Carlúcio – É muito diferente.

Carmem – Sempre tem o militante velho que conta. Você vê os dois pontos de vista, quando entra tem uma preocupação direcionada.

Carlúcio – O pessoal mais velho gostava de conversar comigo, porque estabelecia uma relação muito boa com eles. Contavam causos. Eu era o cara que puxava e queria saber como foi, como não estava escrito. Sempre tinha uma grande preocupação de perguntar, de saber como aconteceu, o que é de maior que aconteceu na indústria têxtil. Essas histórias, como foi a solidariedade, como o pessoal conseguiu. Porque o pessoal ficou sem ter o que comer, foi um período muito grande de greve. A história do velho Lunebe, que chegou para tomar banho na fábrica. Tinha uma queda d’água. O motorista não o deixou entrar, porque a fábrica estava sob a proteção dos trabalhadores. Ele disse que nunca mais entrava na fábrica e morreu sem entrar. (risos). Essas histórias eram contadas. Ele chegou para tomar banho na hora do piquete, o pessoal não deixou e ele disse que nunca mais entrava lá. Administrou de fora o resto da sua vida, ficou para as herdeiras. Lundgren tem muitas histórias. Um tecelão contou que um dono da fábrica, fez vários casamentos, teve vários filhos de mulheres diferentes e não tinha compromisso com nenhuma. Muitas eram da fábrica, tecelãs. As mais bonitinhas ele registrava os filhos. Era uma briga danada, porque ficava tudo herdeiro dele.

Carmem – Tem um senhor que foi presidente do Sindicato dos Têxteis aqui em São Paulo, que é de Paulista. Trabalha no Centro de Memória conosco agora. Ele veio para São Paulo porque se apaixonou pela filha de um dos Lundgren. Ele o colocou para fora da Vila. Veio para São Paulo por causa disso. Ele conta essa histórias para mim, como eram as coisas por lá.

Carlúcio – Em Camaragibe, era uma história também muito contada pelo pessoal mais antigo, da igreja. Hoje uma cidade no bairro de São Lourenço da Mata. Nunca trabalhei na Companhia Industrial Pernambucana. Mas era uma relação muito feudal também, com a igreja dentro da fábrica. O papel da igreja antes de 1964, de reprimir o movimento e o partido comunista fazendo acumulação. Tinha uma porteira na Vila e o dono da fábrica, se visse um rapaz, funcionário, namorando a filha de outro funcionário, no outro dia era chamado no escritório. Perguntava quais eram as intenções dele com a moça. Quer dizer, interferiam direto assim. É como aquela história do coronel Belmiro Gouvea. Até o piolho das tecelãs o cara controlava. Era proibido catar piolho na calçada da casa. Tinha muito isso e o pessoal mais velho conta. O peão ia se confessar na igreja com o padre, aí contava que levou alguns metros de pano. No outro dia, estava demitido por justa causa. (risos) O segredo do confessionário, os velhos comunistas que contavam isso, numa postura muito anticlerical.

Carmem – Você chegou a conhecer essas lideranças comunistas, como o Paulo Cavalcanti…

Carlúcio – Eu os conheci depois. O Gregório, no Recife, em Pernambuco, foi um símbolo de uma integridade muito grande. Quando ele morreu, tentamos fazer uma intervenção sindical nos metalúrgicos e fomos impedidos, aqui. Levamos um ramalhete de cravos vermelhos e escrevi um texto. Era uma campanha salarial nossa. O Joaquim tinha feito uma alusão, que tinha morrido o dirigente sindical Gregório Bezerra. Escrevemos primeiro reparando o equívoco, que ele nunca foi um dirigente sindical, sempre foi político, um militante comunista. Queríamos fazer uma homenagem, levamos a oposição metalúrgica. Primeiro os cravos foram impedidos de entrar na assembleia. Estava levando e não pude entrar. Deixei no carro. Alguns militantes tiraram alguns e puseram debaixo da camisa. Era só para fazer uma leitura de um texto. Falávamos daquela expressão usada no Recife, que o militante é de ferro. Doce e de ferro.

Carmem – De ferro e flor.

Carlúcio – De ferro e flor. Falávamos inclusive da casa forte, contávamos um pouco a história do Gregório. Sua perseverança, disciplina, seriedade. Tido por todos como um militante de ferro. E pelo seu amor pelo povo, sua abnegação, como militante flor. Fomos impedidos, não fizemos isso. Depois publicamos. Já tentei buscar isso, quando fizemos o nosso terceiro congresso, tentei reproduzir essa mensagem. O Prestes estava no ongresso e tentamos reproduzir a homenagem. Mas não tinha a força que aquele manifesto, que abrimos mão de ler. O Luiz Esteves já estava com posição de diretoria e tentou convencer alguém que fizesse. Pegamos o Bigode, pedimos. O Joaquim disse que estava fora de ordem, estávamos numa campanha salarial e não foi feita a homenagem ao Gregório. Não tinha nenhum oportunismo nisso. Estava dizendo que no Recife ele era sinônimo de comunismo. Sempre foi assim. Um respeito muito grande, mesmo das forças mais reacionárias. Sempre com um corte de classe. A disciplina com relação ao partido, sempre pela esquerda. Ouvíamos muitas histórias, dos discursos do Gregório na zona da mata, nas campanhas. A velha militância contava muito isso. Pessoalmente só conheci o Gregório. Quando ele voltou, eu fui. A saída dele da detenção, com o problema da segurança. Já estava uma situação muito difícil. Juntou pessoas, quando ele estava saindo. Resistiu, não queria ir. Foi mais por uma questão de disciplina. Quando entrou no furgão. O pessoal contava da relação dele na prisão. Ele cuidava de um jardim. Fazia reuniões na cela, recebia os primeiros presos. Conseguiu fazer uns comunistas na prisão. Tinha uma relação de respeito com o pessoal da penitenciária. Até de simpatia, por gostar de conversar. Onde nós estamos…

Carmem – Em 1972, você já está em uma militância conturbada.

Carlúcio –  Já não estou mais na relação com o pessoal do Ação Popular. Tivemos algumas diferenças, do ponto de vista da prática. Em relação com uma ação que tinha que ser feita em Paulista e nos bairros operários, de denúncia da prisão do Luiz e Erenaldo. Foram dois companheiros que estavam integrados na produção do campo e foram presos, torturados. O Luiz, companheiro daqui de Brasilipina, pulou do primeiro andar do DOPS. Tínhamos uma ação e estávamos discordando muito da segurança. Tinha todo o discurso de que seria nossa, e o pessoal estava discordando do encaminhamento. Eu tinha uma condição moral grande. Fazia quinze dias que tinha tirado um militante da organização da mão de um cabo da PM, com uma quarenta e cinco na cintura, em Recife. Vinha da fábrica, esperando a passeata. Tinha vários policiais, andando de lá para cá. Vi que um estudante ia ser preso. Ele correu, o guarda o pegou. Fui atrás, solta, solta. O estudante correu, foi embora. Corri para o lado. O guarda deu dois tiros dentro d’água. Estávamos com uma discussão sobre essa questão da segurança. Não concordamos. Foi a primeira vez que tive experiência com o centralismo democrático. De todos dizerem que a discussão esgotou. Estava na Macaxeira, nessa época. Uma companheira foi presa na distribuição. O policial saiu de sua casa sem camisa, sem arma, e deu voz de prisão. Percorreu com ela um quilômetro e meio por dentro do bairro. O dirigente que baixou o centralismo estava junto e sequer usou uma pedra, ou qualquer tipo de coisa. Estava tentando conclamar o pessoal do bairro para intervir. Foi só acompanhado por um pequeno grupo. O rapaz levando a moça presa. Quer dizer, o policial, estava visível que não tinha arma. A questão do rompimento veio depois com a prisão do Evair. Foi muito dura. Ele morava conosco, tivemos que abandonar a moradia. Veio uma ordem para eu deixar a fábrica porque ia ser preso. Teria que deixar a cidade de Recife, porque estava muito difícil morar lá. Não aceitei. Se for preso, vou ser dentro da fábrica. Não vou aceitar deixar a Macaxeira em função disso. Deixei o aparelho, mas a fábrica, não. Não vou deixar a cidade. Se eu deixasse Recife não teria mais nenhuma base social, ficaria isolado. Seria a clandestinidade mais dura mesmo. Porque na nossa terra nunca vivemos a clandestinidade completa. Podemos visitar a família de vez em quando, tem amigos. Você vai para uma festa de São João, dança.

Carmem – Tem uma relação afetiva.

Carlúcio – Tem uma relação, que está de certa forma ligada também a sua militância, mas de uma forma mais distante. Não aceitei. Foi uma discussão tranquila, com o Luciano, hoje deputado, pelo MDB, do PCdoB. Mas uma relação muito carinhosa, de respeito, no afastamento. A última discussão foi com um camarada que chegou aqui em São Paulo e entregou todo mundo, o Faria, o Ramos. Ele era do movimento estudantil, subiu rápido para a direção. Foi o último contato para informar como tínhamos feito o grupo de juventude na adolescência. Tentaram usar essa influência para me convencer a deixar a fábrica e a cidade. Não fui preso na Macaxeira, só depois que saí. Da Macaxeira, fui para a Miagem. Fui preso em 18 de outubro de 1973, não em 1972. A polícia sabia muito pouco. Diziam que sabiam muita coisa, mostraram uma fotografia, eu quase moleque. Vinham com um papo que conheciam minha vida toda, a minha trajetória. Mas não sabiam nada. Sabiam para onde eu tinha viajado, mas muito pouco. Então nesse dia veio minha primeira prisão.

Carmem – Qual proposta que vocês levavam junto ao movimento operário…

Carlúcio – Nessa época começou a surgir a proposta das comissões de fábricas. Os comitês de fábrica.

Carmem – O que era…

Carlúcio – Eram formações de núcleos.

Carmem – Clandestinos ou legais…

Carlúcio – Clandestinos. Era formação de núcleos, comitês. Não tinham a menor condição de passar por processo de eleição. Já se corria com essas propostas dos comitês de fábrica. A questão da luta contra a estrutura sindical ficava num embate com relação ao momento do imposto. A denúncia da questão do imposto. Quando ele acontecia, quando era efetuado o desconto. A questão das lutas salariais. Passavam por um processo limitado de poder alterar, a definição da taxa, do índice. Era muito difícil romper com aquilo. Normalmente eram encaminhadas para a Justiça, através de dissídio. Eram decisões assim, julgamentos. Não tinha o respaldo da mobilização, para poder sustentar, até impressionar. Ficava muito na história da resistência.  A atuação crescia por aí, por dentro da perseguição patronal, da chefia. Às vezes qualquer coisa dava uma explosão. Quando acontecia, tinha uma dimensão muito forte, de insubordinação. Não ao patrão. Não à fábrica. Uma insubordinação mais política. Outro dia no refeitório da Macaxeira, chamado Recreio, a porta estava fechada. Vi um bando de mulheres enfrentar a chefia, arrebentar aquela porta grande com uma radicalidade. Depois o chefe segurando na mão, no braço. Esses fatos tinham uma repercussão muito grande.

Carmem – Qual era a diferença dessas correntes de empresa para as células de fábrica que o PCB tinha…

Carlúcio – Como essa proposta estava ligada ao sindical, normalmente esses comitês tinham companheiros de várias organizações. Cabia companheiro não organizado. Mas era muito difícil não ser organizado dentro do comitê de empresa.

Carmem – Cabiam várias organizações.

Carlúcio – Sim. Não tinha uma característica. Existia uma disputa e tal, mas era decidido muito dentro das instâncias que reuniam, fora de fábrica. Era muito uma representação dos clandestinos na fábrica. Se você tinha uma influência, era uma decisão criar um comitê de cinco companheiros, no meio de vinte. Tinha uma diferença da característica da própria célula, que trabalhava o nome de determinado companheiro. Tiveram um vida muito curta. Não conseguimos, apesar de estar acompanhando a questão política mais geral muito de perto. Discutimos o Primeiro de Maio de São Paulo, antes de acontecer.

Carmem – Vocês vieram até aqui…

Carlúcio – Discutimos uma tomada de palanque, de uma preparação de radicalidade. Os militantes do PC não estão querendo, vamos preservar o Abreu Sodré. Isso ainda com uma influência da Ação Popular (risos). O livro, o Jornal Nacional, discutíamos. Acompanhávamos muito.

Carmem – Tinha uma ligação…

Carlúcio – Tinha um movimento. Mas não conseguimos, no Recife, ter expressão de massa disso. A não ser greve de seção, operação tartaruga, mas não uma coisa de mais expressão nesse período todo, as campanhas salariais. Sem nunca conduzir para uma greve geral da categoria. Não temos nenhum registro disso.

Carmem – Se tem, em 1968, movimentos importantes em Osasco, Contagem, repercutindo o que estávamos vendo em todo o Brasil. Já em 1971, com o AI-5, governo Médici, o pessoal ainda tendo Osasco como referência de atuação…

Carlúcio – Em 1968, a referência que ficou foi Osasco. Lembro-me que as discussões de onde seria o Primeiro de Maio, no Recife acompanhávamos tudo. Se ia ser em São Paulo ou Osasco. As primeiras idéias também da questão da comissão de fábrica, era muito baseado na experiência de Osasco. A idéia de que era possível uma oposição entrar no sindicato. Era possível você ser oposição. Depois com o AI-5, mesmo. Vivemos um período quase sem referência. Estabelecemos uma relação muito estreita com São Paulo, com a oposição metalúrgica daqui. Acompanhamos, tentamos montar uma frente operária no Recife.

Carmem – O que era isso…

Carlúcio – Tinha esse núcleo. Era uma proposta de frente mesmo, de trabalhadores. De fazermos uma troca mais nacional, do movimento sindical. Como que beberíamos a experiência de São Paulo. A primeira vez que vim para São Paulo foi em 1972, discutimos bastante isso. Estavam o Rossi, o Flores, Delelis, Victor, Gianotti. Tinha um conjunto de companheiros em Recife. O Silva fez parte da frente operária de lá. Editamos o material, não da organização, mas da frente. Tinha uma proposta que São Paulo também fizesse o material. Aquele grupo de trabalho que existia no movimento, se reunia. Chegamos a fazer vários encontros em nome da frente. Tinha PC, tinha PCBR, companheiros da igreja. Aí começa a questão dos comitês de fábrica. Sempre presente na luta contra a ditadura. A questão salarial, o trabalho clandestino de fábrica.

Carmem – E o espaço que essa frente usava… Era na igreja…

Carlúcio – Era o espaço da igreja. Tinha um setor que conseguia, como um pessoal de Camaragibe, uma relação com algumas entidades, como associação de moradores, liga de dominó. O espaço do SESI era muito utilizado. Mas não uma relação totalmente particular, era uma coisa de Camaragibe. Conseguíamos porque o vigia era um ex-militante, ou até organizado. Tinha uma professora que também era ligada. Você conseguia aquele espaço ali, se a direção do SESI soubesse eles estavam ferrados. (risos) Essa frente chegou a ter um jornalzinho. Não tenho mais nada disso guardado. Era feito por nós mesmo, rodando em condições precárias, no máximo que tínhamos era um mimeógrafo. Os desenhos feitos pelo próprio pessoal. Aqui em São Paulo, esse movimento, nem sei se chegou a ser frente mesmo algum dia. Estava se formando uma organização, o famoso grupo Arraes. O Delelis pode contar muito essa história. Fui preso aqui também numa reunião dessas. No dia em que cheguei, em 1974, o Flores fazia dois dias que estava preso. Fui preso com o Rossi, junto com o Victor.

Carmem – Você é preso em 1973. Fica quanto tempo…

Carlúcio – Fico trinta dias no caixote. Não conseguiram colocar processo.

Carmem – Você foi indiciado…

Carlúcio – Muita gente da Ação Popular. Tinha a decisão de resistir a essa prisão. Estava andando armado até os dentes. Para trabalhar na fábrica punha um revólver na gaveta e o outro na cintura (risos). Trabalhava de mecânico de manutenção, tinha que me abaixar com aquele negócio me incomodando, suando, um calor danado. Eu percebi, avisei para o velho, vou ser preso. Tinha o Vieira, já fazia seis meses que estava sumido. Hoje ele é do PT, da Fase de Manaus. No dia da minha prisão, recebi um telefonema dois dias antes, dizendo que o Amorim queria falar comigo. Ele estava preso, chegou a falar alguma coisa sobre tortura. Inclusive estabeleci uma relação com ele de levantar a sua moral na prisão. Senti que era a repressão. Estava na fábrica, mas voltei a morar com os meus pais. Não tinha aquele elemento do aparelho, de quando você cai, cai todo mundo junto. Estava na Companhia Têxtil Iolanda. O velho sentiu que estava armado, houve uma conversa. Não tinha ninguém na militância, eu estava meio desgarrado. Não tinha mais ninguém, morreu, foi preso, tinha se estourado. Ficamos assim, um pequeno núcleo de discussão política. A palavra de ordem era “Sobreviva todo mundo”. Vai todo mundo trabalhar, sobreviver. Quem puder volta para a mulher, para o pai. Que faça isso, nos encontramos depois. Tinha um medo de me abrir na tortura muito grande. Não sabia como ia ficar, se ia aguentar. Pensei, prefiro morrer na rua do que na tortura, porque eu levo um comigo. Atirava muito bem. O velho sentou na mesa comigo para tomar café e falou se eu estava armado. Foi um dos grandes momentos com o meu pai. Ele disse quem ia continuar meu trabalho. Falei aquele discurso bobo, de que o sangue nosso nasce não sei quando e tal ele bate no asfalto. Ele falou para eu deixar de besteira, que não estava falando a verdade. Pediu –me a arma, só falou que eu podia até ser preso, mas ninguém entra por minha causa. Você vai entrar e ninguém vai por sua causa. Então eu podia entrar e sair vivo.

Carmem – É muito difícil isso.

Carlúcio – O velho falou isso e eu vi que ele não me pediu. Quando eu ia me vestir, entreguei os dois revólveres para ele. Disse para ele guardar que eu ia trabalhar. Quando atravessei a rua vieram me sequestrar.

Carmem – Você estava em casa…

Carlúcio – Foi a conversa na hora de sair para trabalhar na fábrica.

Carmem – Você estava em casa quando foi preso…

Carlúcio – Estava atravessando a rua. Ia pegar um taxi, porque estava atrasado. Chegaram assim, pegaram o meu braço de um lado e de outro. Iam me levar sequestrado. Como estava muito preparado para resistir, não deu outra. Meti a mão, pegou em cheio. O cara me soltou, eu sai. Não vi nem se vinha ônibus, carro. Soltei o portão, gritando no meio da rua.

Carmem – Que desespero.

Carlúcio –  Passei por uma janela pequena, pulei para a sala. Passei por ali batendo em tudo. Era um ponto de ônibus na minha casa. Veio meu pai, minha mãe, me agarrando. Eu disse que ia para cima. Venha que sou osso duro de roer. Comecei a falar, os caras vacilaram. Veio uma ordem de dentro do carro. Vem embora. O policial tirou o revólver, destravou. A vizinha falou que quando ele pegou o revólver, o tambor abriu e a bala caiu no chão. Quando voltei, não tiveram coragem de atirar.  Voltei com o meu pai, minha mãe. Já com movimento na rua, no ponto de ônibus. Muita gente para ir trabalhar. Fiz aquele discurso, que todo mundo me conhecia, que eu não era bandido, ia ser preso pelo o que estava acontecendo no país. Os caras foram embora, sumiram. Desmantelou o negócio do esquema. Eles foram embora.

Carmem – Você não chegou a ser preso nessa hora…

Carlúcio – Não, eles foram se recompor. Meu pai falou, pula o muro da vizinha, na outra rua tem um taxi te esperando. Eu disse que não ia, que ia esperar. Uma hora e tanto depois, eles chegaram. Num determinado momento quem mandava era eu. Peguei um papel, uma caneta e disse que queria o nome de todo mundo, carteirinha na mão. Até o terceiro cara deu o nome, depois eles falaram “O que é isso, porra!”. Paguei caro esse negócio, fiquei de oito horas da manhã até uma da tarde numa vingança desgraçada. Todo grau de tortura que podia. Eles sempre prometem que no outro dia pode ser pior. Mas o mais pesado foi a chegada mesmo, o primeiro dia. Tinha esse negócio da revanche. Essa equipe que foi fazer a prisão deve ter recebido uma cobrança muito grande. Era para sair e sumir, para fazer uma coisa escondida, como estava acontecendo todas as prisões. De repente as pessoas desapareciam. A família ficava sem saber se morreu, se estava preso. Se sumiu de casa, viajou para algum lugar.

Carmem – Eles não te indiciaram…

Carlúcio – Não conseguiram, não.

Carmem – Nesse momento…

Carlúcio – Tinha muito a ver. O Machado morreu quando eu estava preso, não o vimos. Ele morreu seguramente numa quarta-feira. Foi um dia muito diferente, de alteração total. Tinha duas bandejas que iam para um outro canto. Sabíamos que tinha uma pessoa, mas não quem. Tinha uma pessoa que não estava no corredor dos solitários e das celas do caixote. Era um quartel general em Recife. Ele foi preso nesse período. Depois, todo um pessoal da Universidade, estudante de medicina. Chegaram depois. Tinha nessa época um companheiro que foi sequestrado de um hospital de tuberculosos, o Sanches. Estava fazendo tratamento, um cara do campo. Tinha outro que foi sequestrado da Polícia Federal do Rio Grade do Norte. Num dia de visita, disseram que tinha uns caras querendo fazer acareação comigo. Trouxeram para Recife. Na primeira vez, você chega, depois da sessão de torturas, meio assustado. Não sabe se o cara é um policial que está na cela com você, ou se é um companheiro. Uma vez tinha um copo d’água no chão. Estava trincando os dentes, já todo machucado. Um companheiro perguntou se tinha sede, disse que queria água. Fui tomar, ele tomou o copo da minha mão e deu na minha boca. Então esse gesto. Não é um inimigo. Tinha o Arnaldo que estava na frente, foi também um militante da Ação Popular. Velho militante do Partido, que rompeu com aquele pessoal do padre Alípio. Do primeiro racha do Rolando, que depois formou o PRC. Já tinha se afastado naquele tempo, mas no sindicato trabalhávamos juntos. Já mandei um recado para o Arnaldo. Deu para não entrar ninguém, deu para resistir bem. Muito choque no órgão genital, no pescoço. Dormia sempre no chão. Sai de lá denunciando, com todo o gás. Teve um outro momento com o meu pai nessa relação toda. Eles marcaram um dia de movimento de entregar os filhos aos pais. Levaram para o quartel da polícia do exército, marcaram um dia. Chamaram todos os pais para entregar os filhos. Tinha um documento. Já fazia uns dez dias que tinha sido solto. Mas marcaram essa ida lá com o meu pai. Tinha um documento para a esposa. Como eu era solteiro, era o meu pai. Tinha um documento para assinar que tinha sido solto naquele dia, com todos os seus pertences e gozando de plena saúde física e mental. Alguns pais tinham assinado e meu pai disse que não. Perguntaram porque, ele disse que eu tinha sido torturado. Criou aquele ambiente, os outros pais disseram que também não assinariam. Tiveram que refazer todas as cartas. Meu pai assinou que saí com todos os meus pertences, naquele momento.

 

PARTE 2

 

Depoimento Carlúcio Castanha parte dois

Carmem – Estávamos falando da sua saída da prisão, seu papel lá dentro. O que você fez quando saiu…

Carlúcio – Saí em novembro de 1973. Arrumei uma viagem com meus pais, o casamento de uma prima aqui no Rio de Janeiro.

Carmem – E você vem para São Paulo…

Carlúcio – Conversando com os companheiros do Rio, precisávamos checar aqui. No dia que cheguei, fui preso novamente. Foi no começo de janeiro de 1984, na igreja de São João. Fui preso com o Rossi, o Victor Gianotti, o Elias Stum. O Flores estava preso fazia dois dias. Essa prisão foi no DOPS, eu passei só uma semana. Houve realmente interrogatório. Os companheiros estavam sofrendo tortura, mas não fui torturado. Voltei para Recife.

Carmem – Você tinha sido indiciado nessa prisão…

Carlúcio – Não. Nem fui indiciado. Só encheram o saco um pouquinho. Não houve processo também, não tinha elementos. Na verdade tinha uma dúvida em função de ter sido preso no exílio pelo DOI-CODI, se tinha comunicação. A conclusão que cheguei é que interessava mais prender outros companheiros. Aconteceu muito naquele tempo, soltava e prendia de novo. Fui seguido no Rio de Janeiro. Fiquei com esquema de família, indo em pontos turísticos e tal. Voltei sem fazer contato. Deixei alguns telefones para parentes avisarem o pessoal do que estava ocorrendo. Mas eles já sabiam, no Rio, das prisões em São Paulo. Depois que volto, consigo trabalhar de mecânico de tecelagem na Companhia de Tecido Paulista, em 1974.

Carmem – Você era filiado ao sindicato essa época…

Carlúcio – Em Paulista, não cheguei a ter atuação no sindicato. Passei pouco tempo ali, só seis meses. Foi interessante, me descobriram e propuseram um negócio muito estranho, de chefiar uma seção. Estava fazendo SENAI pela empresa, à noite, lá no CERTEX, Centro de Treinamento Têxtil, em Recife. Tinha uma turma da fábrica que fazia, o pessoal da manutenção.  Eles me propuseram a chefia de um setor de tecelagem, eu não aceitei, falei que não tinha experiência. Isso foi uns 15 dias, insistiram, depois mudaram a tática. Pedir demissão ou ir embora por justa causa. Perguntei qual a razão, disseram que tinha perdido o interesse pela empresa. Fiquei na dúvida, porque na Paulista tinha uma incidência de justa causa muito grande, por motivos muito tolos. Geralmente, colocavam o peão na parede para pedir demissão, só para economizar o aviso prévio. Fazia um acordo em relação ao Fundo de Garantia, era uma forma de eles fazerem. Cheguei a fazer uma gravação, quando voltei lá para pegar o saldo do salário. Conversei com o cara do departamento pessoal, uma fita muito barulhenta, acho que ainda tenho em casa. Ele diz que é norma da empresa. Pergunto se tinha alguma coisa contra mim, afirma que não, mas uma vez que eu não estava mostrando interesse, a forma da empresa demitir era essa. Depois fui preso novamente em 1975.

Carmem – Em Recife…

Carlúcio – Sim, novamente pelo DOI-CODI, abril de 1975. Confirmou essa desconfiança. Fui descoberto em Paulista por um cara ligado mesmo a repressão, ao setor de química na fábrica. Não trabalhava na fábrica, ia assinar algumas coisas, e era ligado a repressão em Recife. Ele me localizou, fiquei sabendo depois. Essa prisão, em 1975, confirmou pelas perguntas, na questão da Paulista. Passo trinta e poucos dias. Vou contar um outro lance do Seu Castanha, que faz parte dessa história toda. Fui preso em 27 de abril de 1975 e já tinha passado uns trinta dias por minha conta. Minha mãe descobriu, eles foram lá em casa com um papo que um amigo meu estava precisando de mim na Iolanda para uma questão, junto a chefia, em defesa de um peão. Ela achou a história confusa, estranha e sentiu faro de repressão. Ligou para meu trabalho e conseguiu me avisar. Procurei o pessoal, os companheiros me esconderam em Olinda, no seminário. É uma vista muito bonita. Passei uns trinta dias escondido, não adiantou de nada. Era muito rigoroso, não saía nem do pátio do seminário, só na área interna. Foi muito ruim, era uma prisão também. Recebia algumas visitas, a diferença era essa. Uma semana depois, fui preso na casa de um companheiro, de madrugada. O lance do Seu Castanha nessa prisão, é que estávamos acompanhando o cerco em Saigon, próximo da derrota americana, no Vietnã. Estava sentindo isso próximo. O pessoal em casa acompanhava de alguma forma também. Passei dez dias incomunicável, no DOI-CODI. Fizeram um processo de tortura diferente, me deixaram quatro dias e noites sem comer e sem dormir. Não podia nem me sentar, ou me encostar na parede. Se fizesse isso, era pendurado. Uma hora encostei e saí arrastado, algemado de mão para trás, olhos vendados, fez até uma ferida no nariz. Se encostasse na parede, vinha o carcereiro e pendurava, sempre na sala de interrogatório. Passei esse tempo lá, sendo interrogado. Com esse processo, sem comer e dormir. Eles me davam um copo de sopa concentrada, terrível, um negócio granulado, era a única alimentação por dia. Ficavam com frescura com água, fazendo barulho, mas também davam. Perguntavam o que eu ia informar para poder ganhar um copo de água. Eu falava que se quisessem fazer interrogatório, que fizessem. Mas não tinha nada a ver com a água. Depois de muito encherem o saco, terminavam dando, porque era uma recomendação médica. Tomaram um susto muito grande, no terceiro dia passei por um processo estranho. Começou a ficar uma tortura de agonia. No terceiro dia, passou uns quarenta minutos, comecei a respirar. Era como se ficasse, comecei a sentir o ar entrando e saindo do pulmão, por dentro do corpo e saindo meio gelado pela espinha e coluna. O chão ficou como se macio, e uma sensação como colorido…

Carmem – Foi alguma droga que te deram…

Carlúcio – Não. Não tinha bebido nada e nem comido, fazia muito tempo. Era oito horas da noite, ficava andando para lá e para cá, algemado com as mãos para trás, olhos vendados. Um certo colorido. Começou uma vertigem, muito estranha. Falei para o carcereiro que estava ficando bom, ele falou que eu estava ficando doido. Mas veio o interrogatório e passou tudo isso, veio a agonia novamente.

Carmem – Você nunca procurou saber o que foi isso…

Carlúcio – Às vezes eu tenho curiosidade de conversar com um médico, saber o que foi. É uma espécie de vertigem.

Carmem – Um pouco de açúcar pode ser.

Carlúcio – Qualquer tipo de coisa, ele não me deu nada específico. Gostaria de perguntar sobre isso. O problema é um médico com intimidade de você falar nessas coisas. No quarto dia eles tomaram um susto, eu estava com febre, tremendo. Veio um médico, sabia porque ele me escutou, tirou pressão. Me jogaram no canto da parede e levantaram a venda de costas para eles. Deram-me um tubo de ensaio para urinar, estava como sangue. Isso demorou. Depois da consulta médica, passou uns quarenta minutos, voltou com um corre-corre. Tiraram as algemas, disseram que podia voltar. Deram uns seis comprimidos para eu tomar e disseram para deitar no chão da sala de interrogatório. Estava consciente do que acontecia em volta. Depois consegui dormir, era muito dorminhoco. Desde 1973, na prisão, conseguia dormir entre um interrogatório e outro. Acho que por isso, nessa prisão de 1975, fizeram esse processo de não me deixar dormir. Tanto comia bem na cela, como dormia muito (risos).

Carmem – Você tem que contar o que aconteceu com o seu pai…

Carlúcio – Eles me mandaram para Pernambuco, polícia do Exército, numa cela também, mas diferente dos soldados que estavam presos. Estava sozinho, mas já comendo. Fizeram um processo, depois desses quatro dias, de realimentação. Leite três vezes ao dia, depois uma torrada, até o décimo dia. Sentia que era boicote, mas também estava notando um processo. Tinha que passar dez dias incomunicável, depois podia receber, relaxar. Senti que estavam montando um processo de acusação formal, dessa vez, de que estava fazendo uma distribuição de um material, convidando camponeses para a guerrilha. Não tinha nada a ver. Bom, eu estava falando do…

Carmem – Do processo, que eles estavam tentando montar.

Carlúcio – Sim. Tudo direitinho, um negócio de incomunicabilidade. Me puseram no quartel de Olinda, no Pernambuco. O lance do meu pai, quando começo a receber roupa, isso já em maio, recebi uma embrulhada no jornal velho. Passaram pelo sargento, roupas, cigarro, essas coisas. Quando fui ver, era a entrada de Saigon, era o primeiro de maio. Eu disse: “Pô! ”.

Carmem – Mas você sai e faz o que…

Carlúcio – Continuo na atividade sindical, vou trabalhar. Depois dessas prisões todas, passei um período no Centro de Trabalho e Cultura, com formação profissional, um curso de ajustagem mecânica, solda elétrica, ensinando para os peões. Quatro anos ali. Foi a primeira vez que fiquei fora da produção, com todas essas fábricas que passei em Recife. Mas nunca tinha passado três meses fora de fábrica, mesmo que fosse só um ano em uma, seis meses em outra. Mas os intervalos não passavam disso, já como profissional, mecânico. Estava quatro meses desempregado, cabreiro com informação, a cidade muito pequena. Lá no Recife, as fábricas exigiam atestado de antecedentes para trabalhar. Começou a ficar difícil, o pessoal me convidou. Dependendo do setor e como você era classificado, podia até fazer uma opção pela categoria que estava vinculado. Fiquei a categoria metalúrgica. Entrei como mecânico de manutenção, não quis montaria como monitor, fiquei vinculado como metalúrgico, acompanhando. Estava se formando uma oposição metalúrgica. Eu tinha uma participação com o pessoal da formação de oposição, que ainda era um grupo de poucos companheiros, reuniões esporádicas.

Carmem – Você estava filiado ao Sindicato dos Metalúrgicos…

Carlúcio – Filiei-me ao Sindicato dos Metalúrgicos. Na verdade, em Recife, tenho uma filiação ao Têxtil e aos Metalúrgicos. Depois, decidi deixar o CTC e voltar para a produção, já tinha as condições. Fui trabalhar na Sandoquim, que já fechou, em 1979. A oposição já estava mais estruturada, tinha presença em comissão de fábrica, já tinha essa relação com São Paulo. Permanente, seja de alguns militantes de Recife, seja um pouco menos formal da oposição metalúrgica. Mas uma relação que sempre guardei e que tinha uma preocupação de formação, de criar um grupo de acompanhamento de companheiros. Passamos por todo aquele processo que hoje criticamos, de formação mais mecânica. Fizemos tudo aquilo.

Carmem – E quem não fez… (risos)

Carlúcio – Estudei com político, fiz grupo de estudo de princípios de filosofia, tínhamos uma atuação que dava do sindical de popular. Não era uma organização partidária, mas de tentar juntar. Recife era assim, não tinha o sindical ainda nesse período, não tinha nem oposição. Você tinha o sindicato de mais tradição, que era o Têxtil, mas de passado muito grande. Não tinha um registro, a não ser de professores, inclusive com tradição na rede particular e na oficial e com uma forte presença no particular. De greve por fábrica não tinha, enquanto categoria, se movimentando. O que tinha era companheiros de diversas categorias com uma preocupação de uma atuação sindical. Uma central única, também não. Tinha uma tentativa de juntar as oposições do Brasil inteiro. Mais ou menos nesse sentido. Muito ligado a uma questão de fazer formação de quadros. Fizemos um afundamento de pessoas com o nome de SOME. Tinha gente da evangelização, foi uma briga dentro da igreja. Também porque falta pôr o nome de setor operário do movimento de evangelização, o tal do SOME. Esse foi crescendo, tendo uma militância, que estava na frente de algumas oposições, como comerciários, metalúrgicos, têxteis. Companheiros da associação de empregadas domésticas. Isso deu um problema, tivemos que discutir com a coordenação da evangelização. Tinha alguns militantes que eram da evangelização e queriam se colocar dentro dessa militância como operários, preocupados com o sindical. Sei que foi resolvido depois.

Carmem – Quando você diz que nós colocamos, você está falando de quem…

Carlúcio – Nesse tempo, não éramos uma organização partidária. Tinha um certo núcleo de companheiros, que tinham passado coisas diferentes, vivido essa frente operária até 1974, quando teve essas prisões em São Paulo e no Rio. Estavam realmente preocupados com a dispersão da militância. Mas não era uma organização partidária. Fui preso também em janeiro de 1974, depois da vitória do PMDB. Antes de 1975, o DOPS fez uma prisão de massa. Fui junto com o Paulo Cavalcanti, com o partido lá no Recife. Junto com o pessoal que trabalhou na campanha do MDB, em 1974, do Marcos Freire. Na verdade, era uma pesquisa que o DOPS estava realizando para saber o que foi a participação da esquerda na eleição. Tinha um questionário para responder. Mas deram comida direito, não houve tortura.

Carmem – Você tinha passado da vez que o pessoal aqui de São Paulo estava querendo transformar a oposição. Lembra… E que o pessoal do Rio estava querendo saber que papo era esse…

Carlúcio – A oposição era uma, essa era outra. Em 1970, fizemos uma aproximação com os companheiros, a frente operária. Tinha um jornalzinho em Recife, os companheiros estavam trabalhando nesse sentido.

Carmem – Eu que confundi, desculpe.

Carlúcio – Era uma tentativa de aproximar oposições, na mira do trabalho sindical, mesmo. As primeiras ideias de comissão de fábrica e tudo. Só que para nós, estávamos trabalhando enquanto frente mesmo, operário. Em 1974, isso não ficou claro, basicamente os companheiros de diversas categorias, inclusive que não operários. Essa frente pode ter evoluído. Os companheiros aglutinaram alguns e continuaram a relação conosco. Houve realmente informação que era forte. Se os companheiros do Rio tivessem entrado, que não era mais frente operária, o que depois ficou claro para nós. Até depois da prisão, viemos para o Rio e fizemos uma avaliação, um ano e meio depois. Tiramos muitas coisas a limpo, com os companheiros do Rio e de São Paulo, que participaram desse processo. A explicação que tivemos foi essa, uma ideia muito embrionária estava pintando aqui em São Paulo, da formação de uma nova organização de esquerda. Uns chamavam de MPL, outros de grupo de Arraes. Como estava muito no princípio, não tivemos a oportunidade de discutir enquanto formação de esquerda. Na verdade, tinha uma articulação enquanto movimento. Em nenhum momento discutimos enquanto organização. Quando estourou as prisões em 1974, ficou claro, para a maioria dos companheiros em São Paulo, estava se discutindo a formação de uma organização. Enquanto para nós, em Recife, para uma parte dos companheiros militantes operários do Rio, estávamos na discussão do movimento de uma organização no local de trabalho. A aproximação das oposições sindicais, e aquela intenção com uma coisa que viesse a ser uma central única.

Carmem – Basicamente sindical.

Carlúcio – Então é isso. Esse período muito difícil no Recife, o movimento sindical não existia. Esse setor que falei, várias acumulações de companheiros vindo de várias matrizes, preocupados de retomar o trabalho sindical. Já tinha uma relação com a oposição metalúrgica, mas não no nível do movimento uma greve de categoria. Não tínhamos um sindicato conquistado pela oposição, o fenômeno que aconteceu em São Bernardo do Campo. Mas uma direção começar a fazer uma outra prática. Que não é aquela velha pelega que conhecíamos. Com a marca do pelego e de policial assumindo, de entregar companheiro dentro de fábrica. Era uma situação muito difícil.

Carmem – Como é que vocês viam isso lá…

Carlúcio – Estava uma situação difícil. Depois da primeira assembleia, dirigimos todas as assembleias da categoria, a ponto do pelego, na última votação, quando vê a contraproposta patronal, de madrugada e era meia noite já. Veio a contraproposta patronal, que era a que também estávamos defendendo. O pelego a pôs em votação duas vezes, não consegui fazer que ninguém levantasse o braço. Ele falou que ia passar o microfone para outro companheiro, e passou para mim. Falei um minuto, expliquei as propostas e pus em votação. Todo mundo levantou o braço. Qualquer outro companheiro que fizesse isso também tinha esse reconhecimento. Quem dirigiu a campanha foram efetivamente os companheiros que formaram um pequeno jornal, “Zé Ferrugem”, que depois que ganharam o sindicato, em 1981.

Carmem – Mas vocês discutiam o caso de São Bernardo.

Carlúcio – Não. Em São Bernardo, fizemos o apoio a greve do ABC no Recife, que foi sem distinção se era São Bernardo, São Paulo, se tinha diferença. Não fizemos essa discussão.

Carmem – Digo discutir a tática que São Bernardo adotou na atuação sindical.

Carlúcio – Não. Quando surge, em 1978, nesse período tínhamos trabalhado no jornal dos bairros, esse mesmo pessoal. Uma experiência interessante, mas durou pouco. Vínhamos trabalhando antes com movimento, depois com Assuntos.

Carmem – Que Assuntos…

Carlúcio – Era um encarte no jornal do movimento. Depois, foi assumido pelo PCdoB. Aqui em São Paulo, o pessoal também trabalhou com Assuntos, a oposição. Quase todo mundo trabalhou. Era um enfoque mais sindical. O Assunto era um sistema de assembleia, não era vendido em banca. Fazíamos pequenas assinaturas, fizemos muitas em Recife. Pegávamos na relação dos companheiros de São Paulo. Quando surge o Jornal Movimento, inclusive me lembro de algumas matérias, algumas interrogações sobre o Lula, essa liderança sindical que estava surgindo em 1978. Quem ele era, coisa desse tipo. Não discutimos com profundidade, porque não tínhamos conhecimento, em termos de qual processo que ele fez para ser presidente do sindicato. Sabíamos que estava surgindo na estrutura sindical uma liderança nova. Naquele tempo, em 1979, não fizemos grandes perguntas e nem muita especulação. Acompanhamos os passos desse sindicalismo, numa pergunta muito grande de para onde ia, o que era. Tinha um espaço grande na imprensa e ficávamos acompanhando cada posição, no sentido de saber o que era isso, que tipo de sindicalismo era esse.

Carmem – Vocês chegaram a conversar com a oposição aqui de São Paulo sobre isso…

Carlúcio – Veio a luta dos companheiros, principalmente na greve de 1980. Participamos das primeiras dificuldades com relação dessa acumulação por dentro da estrutura de São Bernardo e da oposição fora da estrutura sindical. O primeiro embate disso foi no ENOS (Encontro Nacional de Oposições Sindicais). Em 1979, já estava se preparando. Era algo que vínhamos amadurecendo há muito tempo, uma necessidade de juntar essas oposições. Quando volta o Ibrahim, a discussão entre fazer o ENOS ou fazer o ENTOES (Encontro Nacional dos Trabalhadores em Oposição). Só as oposições sindicais ou encontro dos trabalhadores em oposição a estrutura sindical. Compreendíamos qual encontro não substituía o outro. Mas era importante fazer o ENTOES, que era muito grande. Mas o ENOS, articulação das oposições sindicais, era algo que estava sendo necessário naquele momento. Era outra realidade, bem particular, de oposição, que colocava-nos a necessidade de trocar experiências, de aprender com os companheiros, dessa forma bem particular, enquanto oposição mesmo. Participamos do ENOS, já no ano em que cheguei em São Paulo. Mas ainda estava no Recife, vim como delegado. Estava na oposição metalúrgica, quando voltei, isso em maio. Em agosto, vim para São Paulo, estava desempregado. Depois de 1979, fiquei só fazendo bico, uma situação muito difícil, sem emprego de jeito nenhum. Era passar no teste, e no outro dia o gerente me chamava e dizia que tinha chegado informação a meu respeito. E a relação, não participávamos da unidade sindical, já tinha essa diferença. Do ponto de vista da questão da estrutura sindical, a unidade sindical no Recife estabeleceu uma diferença inclusive com o ABC, apesar de Lula naquele tempo tínhamos informação que ele estava…

Carmem – Conversando…

Carlúcio – Entende. Junto com o Arnaldo, estava conversando com a unidade sindical, na greve de 1979, de São Paulo. Essa história, nós acompanhamos. O lance do Lula chegar no estádio e criticar o negócio do ovo. Aquela história com oposição de meninos de ejaculação precoce, essas coisas foram recebidas no Recife como porrada. Não todo o conjunto do movimento, naturalmente. Pelo menos senti que não era para se contrapor, esses dois sindicalismos. Eram contribuições diferentes, que poderiam vir num determinado sentido, da independência de classe, no sentido da democracia operária. Esses princípios de certa forma norteavam até hoje a oposição metalúrgica e a nossa prática. Essa história da ligação com essas matrizes é muito interessante. Esse período de várias oposições sindicais. O pessoal dos professores da rede particular se identificava com toda essa oposição. Fazia um jornal chamado Desatrela. O desatrelamento da estrutura. Era um conjunto de matrizes que se transformavam em linha política, bandeiras. Crescemos dentro disso, também. Não pensamos duas vezes para apoiar a greve dos metalúrgicos do ABC. Infelizmente, não fizemos nenhum registro fotográfico disso. O movimento lá não tinha essa tradição. Um verdadeiro movimento de massa no Recife. Tínhamos uma discussão de uma intersindical, que tinha companheiros que depois vieram junto com a CUT e companheiros que estavam na unidade sindical do PC, pessoal dos professores. Tinha a participação de alguns companheiros do ANAMPO lá do Recife. E veio a greve. Estávamos preparando nessa unidade sindical o Primeiro de Maio, a intersindical. Eram plenárias que participavam, meio abertas, não tinha uma militância reconhecida no movimento sindical. Tinha assunto, eram reuniões, sessenta militantes e tirávamos alguma coisa juntos, algum material. Era uma oposição que vinha por oposições e direções sindicais. Já tinha professores, tanto da rede particular, como oficial. Uma oposição muito forte dos eletricitários, comerciários, metalúrgicos, da construção civil, têxteis de Paulista e do Recife. Na verdade, em torno dessas categorias, enquanto direção. O pessoal da agência de seguros.

Carmem – Securitários.

Carlúcio – Só tinha securitários, como direção, professores, como representação nessa frente. O resto era oposição. Eletricitários, bancários, metalúrgicos, construção civil, têxtil, gráficos. Tinha alguma coisa de oposição também. Na verdade, eram três categorias, do ponto de vista dos companheiros dirigentes sindicais. E um conjunto de categorias de oposição sindical, organizada. Algumas tinham passado para direção, outras não. Algumas com jornal regular na categoria, outras não. Mas importância embrionária de oposição. Lembro-me que, em 1980, essa intersindical estava discutindo a questão da preparação do Primeiro de Maio, se os partidos falariam. Estoura a greve no ABC e defendemos.

Carmem – Greve de 1980.

Carlúcio – Greve de 1980, dos quarenta e um dias. Defendemos todo aquele esforço para discutir o Primeiro de Maio, deveria ser canalizado para apoiar a greve do ABC, deveria ter essa marca. Os companheiros da unidade sindical não toparam essa parada.

Carmem –  O que eles alegavam…

Carlúcio – Já tinham uma desconfiança do Lula do ponto de vista ideológico. Daquele período, lembro-me que ele passou uma vez no Recife, respondeu às perguntas de provocação, se ele não era um outro cabo Anselmo. Já tinha diferenças. Na verdade, o conjunto dessas oposições já se aproximavam mais. Tinha uma diferença que apareceu depois na formação da CUT, com relação a romper a estrutura sindical, do ponto de vista político. Por exemplo, na relação com o PMDB, com o setor popular, estava se configurando uma diferença de concepção de sindicalismo, na prática. Ela se alinhava, os militantes da oposição sindical aqui, sindicalismo do ABC daqui. As oposições sindicais do país davam uma certa alinhada, um certo divisor de águas de campo. Os companheiros que ficavam depois na CONCLAT. Já se discutia a questão da necessidade de uma central. Esses companheiros estavam no ANAMPS, apesar de Arnaldo Gonçalves, mas basicamente esse pessoal estava fora. Discutia-se a anistia, com relação a estarem voltando os anistiados, isso se refletia no movimento. Essa diferença de concepção começa depois do movimento de massa, da presença nas greves de 1980. Ela começa a aparecer nos Primeiros de Maio. Inclusive o Arrraes, o vistamos e ele cobrou qual era a referência nessa greve. No nosso entendimento era a referência de classe. Fomos buscar o seu apoio para a greve, processamento político. Sentamos em sua casa, foi uma comissão, conversamos, a questão era a referência da greve. A referência era a classe. Ele falou que a greve colocava a questão da ditadura, do sistema. Não discutimos, não fomos consultados. Não nos procuraram com antecedência para discutir. Deveríamos ter sido chamados, agora fica difícil cair de paraquedas, ele colocou. Queria saber se era por salário ou contra a ditadura militar. Isso lá pelo fim, já tinha muita pressão no ABC, no sentido que o esgotamento havia chegado. A questão salarial estava resolvida, já tinha as prisões. A greve realmente tinha todas as marcas, começa um movimento político, econômico, mas já não era só isso, estava claro para o Brasil inteiro. Conseguimos, nessa intersindical, fazer um movimento de muita expressão no Recife, de apoio a greve do ABC. Na época, arrecadamos 360 milhões de cruzeiros, junto a classe operária. Fomos nas portas de todas as grandes fábricas, enchíamos sacos de dinheiro. Fizemos pedágio no centro da cidade, na porta de estádios. Fizemos um boneco num parque de diversões. Esse tipo de comunicação, o pessoal no Recife usa muito, um pouco de imitação de bumba meu boi. O MDB tinha usado muito um que chamava salário. Era uma peça de teatro, o custo de vida e o salário mínimo, o boneco era o custo de vida, um grande. Pegamos um desses e saímos pelos bairros populares, que tinham um pouco de movimento. Passávamos assim uma tarde toda, no bairro, pedindo ajuda de porta em porta. A população chegou junto, já estávamos pedindo para a que greve de São Bernardo terminasse, acordando todo dia de madrugada em apoio, no pique. Não enfrentando a repressão, como os companheiros daqui, mas numa campanha muito grande, que púnhamos na rua toda madrugada e levava o dia todo. O Primeiro de Maio foi isso, a greve do ABC no Recife. Houve dois Primeiros de Maio, um chamado por esse setor. Aí começavam as outras brigas. Por exemplo, se o Luiz Carlos, do MDB, falaria ou não. Se os partidos falariam, quem seria. Essa briga toda. Já estava colocada a questão da formação do Partido dos Trabalhadores, nessa época. Em 1980, essa questão já estava colocada. Tinha um conjunto de companheiros discutindo a questão da reformulação partidária, que juntou todo esse período. Tinha todo um setor com uma presença grande nessa intersindical, que estava puxando a questão da formação do PT. Traços desse período. Lembro-me que quando o Prestes esteve no Recife, em 1980, estávamos no meio dessa campanha. Foi uma lição muito grande para esses companheiros da intersindical. Tiveram uma grande participação na chegada dele no Recife. Ele foi ao DCE, Diretório Central dos Estudantes. Estávamos em plena campanha, colocamos na mesa, com o Gregório Bezerra, a questão da greve do ABC. Foi interessante que o discurso do Prestes foi a greve, ele citou umas cinco vezes. Quem preparou a chegada dele estava na contramão. Chegando muito bonita uma palavra de ordem de norte a sul, de leste a oeste, o povo está unido com o camarada Prestes. Fomos nesse evento, colocamos a questão do fundo de apoio dos trabalhadores de Recife, aos companheiros de São Bernardo do Campo. A mesa assumiu, o Gregório anunciou que ia se passar o chapéu nessa questão e me chamou para receber. Não participei da organização da chegada de Prestes e não conhecia, não tinha relação pessoal com o Gregório. Mas não podia ser outra pessoa. Era o pessoal que estava na frente do comitê de apoio, nós chamamos de Comitê de Apoio da Greve do ABC. A grande lição que os companheiros tiveram foi que o Prestes, todo o seu discurso, a grande referência era a greve do ABC, e não podia ser outra. Era o caráter político, de quando o enfrentamento com a ditadura, foi essa a tônica do seu discurso.

Carmem – Volta só um pouquinho. Vocês não participaram, no Recife, dos Congressos Nacionais dos Metalúrgicos…

Carlúcio – Eu não fui, mas indicamos delegados, participamos do famoso congresso da CNTI.

Carmem – Do racha do Joaquim com o Ari Campista…

Carlúcio – Sim. Tinha o Sindicato dos Têxteis de Escada, era a direção, companheiros ligados a nós. Mas a participação deles foi de forma totalmente desorganizada, ficaram espantados com algumas coisas, como a hospedagem de quartel. Isso para nós era um escândalo. Foi em 1977. O pessoal ficou escandalizado com a delegação se hospedar em quartel. A intervenção que marcou também, foi o que consideramos oposições nesse congresso, dos folhetos que os companheiros levaram. Entravam nos ônibus, com dificuldade para distribuir, com o empurra-empurra dos pelegos. Nunca tínhamos notícia. O Lula também estava nessa ação, de intervir no congresso da CNTI, no sentido de puxar o movimento sindical pela sua independência de classe, romper com os pelegos. Uma ação com os companheiros de São Paulo. Isso registramos uma participação, os canais de ligação com o movimento. Ele não correu por outras iniciativas, a participação dos companheiros do nordeste. O congresso da CNTI não foi amarrado previamente, em função disso.

Carmem – Mas e o Congresso dos Metalúrgicos… Em 1979, por exemplo, tem o Congresso de Poços de Caldas…

Carlúcio – Não, os metalúrgicos era mais difícil. O Sindicato dos Metalúrgicos de Recife é o único no Estado. Ele só é ganho pela oposição em 1981, sindical. Normalmente esses congressos eram representações de dirigentes sindicais. Então Congresso dos Metalúrgicos, esquece (risos). Só no período de 1981. Aí já são os congressos da CUT, depois de 1983.Já estava me preparando para vir para São Paulo, arrumando a mala.

Carmem – Porque você decidiu…

Carlúcio – Participei do ENOS, em maio, logo depois do Primeiro. Tinha uma pequena delegação de Recife. Decido muito em função de que era quase exilado aqui em São Paulo. Nunca tinha passado três meses, meu espaço maior de desemprego, com prisão e tudo. Em dois anos fui preso quatro vezes, mesmo com tudo isso, nunca tinha passado um espaço maior que três meses na carteira, contando com o tempo de prisão. Depois dessas prisões todas, passou quatro meses para me empregar. Já estava vivendo da solidariedade dos companheiros, começando a fazer bico de tapeceiro, pegando um torno emprestado e fazendo algumas peças, soldando algumas coisas. Mas emprego, nada. Comecei a procurar fora dos metalúrgicos e constatei que a questão estava ligada a um apiamento da federação das indústrias de Pernambuco, não era dos patrões dos metalúrgicos. Depois disso, fica muito claro que queria trabalhar na minha profissão. E saí do Recife. Não era para a Bahia, para o Ceará, para canto nenhum. Era para São Paulo.

Carmem – Nem o Rio passava pela cabeça…

Carlúcio – Não. Saí de Recife e só tinha um destino, era para cá. Foi assim que vim, em 1980, direto.

Carmem – Você não vem para o ABC…

Carlúcio – Não. Era vir para São Paulo, para ser militante da oposição sindical metalúrgica de São Paulo. (risos)

Carmem – Então tem coisa por trás disso.

Carlúcio – Não, não tem nada. Nós já nos sentíamos nessa relação toda, nessa briga com a unidade sindical, que apareceu muito no Recife, no Primeiro de Maio. Do ponto de vista das matrizes ideológicas, dessa concepção sindical, quem puxava a nossa relação com São Bernardo, foi a boa luta. Foi assim, a relação que fizemos com São Bernardo foi a pior luta. Depois que surge o PT, é outra história. Mas isso tudo começou em 1974, estabelecemos o apoio a luta efetivo. Eu vim no ENOS aqui, fui na igreja de São Bernardo levar ajuda, os companheiros me encaminharam. Foi quando conheci o Osvaldo Bargos e o Paulo Okamoto e o companheiro Elias Etein, que era do comando de greve e já foi gritando oposição metalúrgica. Foi quem me encaminhou para levar esse apoio, que os trabalhadores de Recife fizeram. Tinha um comitê de apoio na Fase aqui de São Paulo, inclusive a última parcela foi eu que trouxe, foi o companheiro da Fase que recebeu. Naquela época o Paulo de Tarso recebeu essa última parcela, que os companheiros de Recife mandaram. A nossa relação com São Bernardo era essa, de apoio e luta. A relação política era com os companheiros da oposição metalúrgica, era São Paulo. Apoiamos a eleição de 1978, recebemos os selinhos, ficamos tentando ajudar. Na greve de 1979, acompanhamos, fizemos um ato religioso com relação a morte do Santo Dias. Já tinha militantes de São Paulo no Recife, que conseguimos trazer para a questão da formação profissional, nessa escola de Centro de Trabalho e Cultura, o Luizinho, o Luiz Tanderine, era militante de oposição, estava trabalhando lá. Conheceu, trabalhou com o Santo Dias. Foi o cara que falou no ato. Tinha essa relação muito estreita, coisa de muitos anos. Acompanhamos essa briga de 1978, o filme “Máquina Parada, Braços Cruzados”, passamos muito na campanha salarial metalúrgica de 1979. É basicamente de São Paulo. Passávamos nos nossos comandos de preparação de greve. A relação era essa. Essa história foi escrita por uma entidade lá do Recife e não é contada dessa forma, muito superficial. Estou me lembrando de cobrar dos companheiros, o lance dos filmes. É uma história que esquece São Paulo e não é à toa. Vai direto para a relação do PT de São Bernardo. Uma entidade muito séria, tem um caderninho desses escrito lá, com os meus protestos. É meio triste fazer isso. Eu estava esquecendo de dizer, conheci o Lula, ele nunca mais se esquece disso, tem uma memória muito boa. Conheci-o num encontro, um movimento de aproximação desse setor do movimento sindical, que surgiu no ABC, com a central esquerda do PMDB na época, Jarbas Vasconcelos. Foi feito um encontro em São Bernardo do Campo, o encontro dos adesistas com esse setor, o MDB, na mesa Fernando Lira, Fernando Henrique, Almino Afonso.

Carmem – Estava o Bettoni…

Carlúcio – Não me lembro, senador eu acho que não tem nenhum. O Montoro fez um movimento, a notícia que correu no encontro é que ele deu uma segurada. Vim na representação operária, que trabalhava junto com o setor operário do MDB em Camaragibe, no Recife. A maneira que conheci o Lula não foi muito boa, porque na verdade esse encontro estava um pouco preparando o lançamento do PT. Lançava o PT ou ia para o PS, tinha essa discussão. Como a minha relação era a oposição, vim numa expectativa de encontrar os companheiros nesse encontro. Não encontrei, não tinha nem os companheiros, nem o Joaquim, nenhum metalúrgico. Não tinha nenhum dirigente do sindicato, nem o pessoal do PCdoB.

Carmem – De São Paulo…

Carlúcio – De São Paulo. Tinha o Olívio Dutra, o Agenor Benevides, de Minas Gerais. Tinha representação de petroleiros, Jacob Bittar, Lula, os sindicalistas eram esses companheiros. Não tinha a presença de ninguém de São Paulo. Entrei em contato com os companheiros e disse que achava importante discutir no encontro. Eles disseram que não estavam no encontro porque tinham sido vetados, não tinham sido convidados. Tinha a discussão do PS dentro da oposição. Perguntei se valia a pena uma cobrança, o pessoal disse que se tivesse espaço. Me inscrevi, era muito difícil de falar. Você se inscrevia num dia e falava no outro, por causa da fila. Eles pediam aparte um ao outro e não tinha tempo. As intervenções não tinham muito tempo. O cara dava um aparte e o outro fazia um discurso enorme, e ele retomava depois. Aprendi esse jogo de aparte, quer dizer que é assim. Vi os caras combinando lá nos quartos do hotel, como fazer os apartes. (risos) A Lysaneas se inscreveu e estava falando, José Serra, todos esses economistas estavam lá falando com relação a questão do obreirismo, combatendo, que era necessário movimento político, que tivesse pressão no movimento sindical, de base. Mas a compreensão desse movimento não devia de orbreirismo, que tivesse necessariamente que ter o tom predominante do macacão. Na verdade, esse era o tema central daquele encontro, porque estava se discutindo aqueles que fizeram no parlamento na luta democrática o enfrentamento contra a ditadura. Com o pessoal do MDB, o setor mais da esquerda, esse setor sindicalista que surge das lutas do movimento. Pedi um aparte nesse negócio de obreirismo, ele me deu. Fui lá na frente e falei que isso foi só para começar. Sou um militante do movimento operário, metalúrgico de Recife, me apresentei. Acho que o movimento político lá na frente de qualquer basismo. Está se falando muito aqui, nesse encontro, da representação operária do país, e nós não podemos deixar de reconhecer o papel dos companheiros que saíram na luta, como os do ABC.  O reconhecimento da referência que se tornou o ABC a partir daquele processo de luta, mas questiono se está se falando ali em nome de todo o conjunto dos operários e do movimento sindical do país. Primeiro que o país é muito grande e o movimento operário muito dinâmico. Não pode ser só pelas greves que tiveram, e para finalizar, estou aqui já no segundo dia, procurando. Talvez não tenha encontrado ainda, tem muita gente aqui, mas queria saber, tem uma categoria que não estou sentindo a presença, e é a maior no país, os metalúrgicos de São Paulo. Para nós, no Recife, respeitamos o ABC, mas essa não é a referência. Em São Paulo nós temos uma luz, uma estrela (risos). Temos uma referência de muito tempo, os companheiros metalúrgicos de São Paulo e não estou vendo aqui, já procurei. A atenção que estava dada no encontro com relação ao PT, se lança ou não, com essa intervenção, foi assim, arrancou, do PCdoB, desse setor. O pessoal, a Maria Luiza estava nesse encontro, o Fontinelli, arrancou um monte de aplausos nessa intervenção, foi uma porrada. O Lula estava na mesa, ele ficou gritando, PT de cabo a rabo. Tentou interromper a intervenção gritando, não me lembro o que, alguma coisa com relação aos metalúrgicos do ABC. Depois encheu o saco, porque aja o pessoal me procurando. O Delelis estava nesse encontro, ele não me reconheceu, também não fiz questão. Tinha o Darci passos.

Carmem – Ele é deputado.

Carlúcio – Ele me perguntou se eu tinha atirado no que vi e matado o que não vi. Fiquei quieto, mas tínhamos que falar isso e tínhamos conversado com o pessoal de cobrar. Mas é para dizer que essa diferença em São Paulo, em São Bernardo, já em 1980 existia. Se não era amplamente vivida pelo movimento do Recife, mas já existia.

Carmem – Vivido pelo ENOS (Encontro Nacional das Oposições Sindicais).

Carlúcio – O embate com relação ao ENOS, vivemos isso. Teve companheiros que circularam de um lado, companheiros de outro.

Carmem – A referência por São Paulo vinha através da oposição ou da categoria, em Recife…

Carlúcio – Não posso dizer movimento no Recife. As coisas que aconteciam em São Paulo, procurávamos divulgar, como o Primeiro de Maio, 1968, basicamente. Divulgamos as greves de Osasco, de forma muito clandestina. O que acontecia, acompanhávamos, como a greve do ABC.  Pela categoria, pelo que aconteceu aqui. As eleições sindicais de 1978, já tem a categoria e a oposição. A greve geral de 1978 e a greve de 1979, também acompanhamos.

Carmem – Mas não é isso que estou perguntando. Quero saber se a referência do movimento em Recife estava mais ligada ao trabalho da oposição metalúrgica de São Paulo, ou o papel que a categoria metalúrgica dali como um todo desempenha na economia do País é importante e por isso ela faz referência…

Carlúcio – Ela não vinha por esse prisma de categoria, que você está colocando em termos da importância econômica. Tínhamos uma referência enquanto categoria, uma das coisas que me fizeram vir para cá, pessoalmente, enquanto tradição de luta e história. Também tinha a importância econômica pelo tamanho da categoria. Mas não aprofundávamos do ponto de vista econômico do País, não era muito por aí. Vinha mais em função da luta, pegava a questão da oposição, mas enquanto categoria vinha pela luta, classe e econômica.

Carmem – Você vem para São Paulo e aí…

Carlúcio – Já tinha falado que tínhamos uma relação de composição, já falou nessa história…

Carmem – Sim.

Carlúcio – Ajudei a preparar, ainda no Recife. Depois que a oposição fez o Congresso, em 1979, começou a se colocar na ordem do dia. Inclusive nas resoluções do congresso estava colocada a questão da estrutura sindical, a necessidade de romper e a fundação de uma Central Única dos Trabalhadores. Na formulação, fomos muito felizes, porque tinha essa questão, não era central geral. Tinha, por coincidência, essa formulação, em 1979, no Congresso. Ajudei a preparar, no Recife, a participação da delegação do nordeste no ENOS (Encontro Nacional das Oposições Sindicais). Estava estudando a possibilidade de vir morar em São Paulo, participei dessa preparação, em maio de 1980. Era uma tentativa feita pela oposição, numa iniciativa política da necessidade dos trabalhadores se articularem por fora do interesse de causa em prol nacionalmente. Sei que teve uma divergência, mas o ENOS foi feito de qualquer maneira. Os companheiros que organizaram, também participaram do ENTOES, houve duas tentativas de fazer, uma em 1980, outra em 1981, que foi no Rio de Janeiro. O Encontro Nacional dos Trabalhadores em Oposição da estrutura sindical. Foi uma articulação importante, uma iniciativa política na construção da CUT, na necessidade de uma construção de uma Central Sindical. O próprio ENTOES terminou sendo, depois que foi feito no Rio de Janeiro, ele mesmo não deu uma continuidade da construção dessa. Foram outras articulações que estavam ocorrendo, já impostas nesse período, que permitiram um desfecho do CONCLAT da Praia Grande e depois pró CUT. A formação da Central teve esse processo. Fiquei totalmente queimado no Recife e vim para cá de mala e cuia. Chego em agosto, participo do ENOS, em maio. Volto para Recife, dia 24 de agosto. Tive muita sorte, porque cheguei na véspera da crise mais braba, em setembro. No dia primeiro, começo a trabalhar na Arno, na Mooca.

Carmem – Antes disso fala um pouco da composição do ENOS.

Carlúcio – O peso de mais expressão eram as oposições sindicais. Isso em 1980, na verdade o quadro do sindicalismo no Brasil ainda era assim. Se pudesse fazer o mapa que tem na CUT, dos sindicatos filiados à central e os que tinham em 1980, você vai ver que 80% ou mais do povo que tinha ali era oposição na época. Por exemplo, aqui da cidade de São Paulo, bancários tinham acabado de ganhar o sindicato. Inclusive estava na mesa o Gushikein, que estava presente no ENOS. Não tinha químicos, plásticos, não tinha bebidas. Só tinha velhos sindicatos aqui a cidade. Uma proposta mais da esquerda, que serviu de base para a fundação do PT, na fundação da CUT. Naquele período você tinha um sindicato pequeno que foi pioneiro, com uma relação muito estreita com a oposição. Tem alguns assim. Não tinha condutores, vários sindicatos, porque naquela época não eram direção. Essa a realidade de São Paulo. Imagina no restante do Brasil, dos metalúrgicos de Recife, naquela época, oposição ainda. Metalúrgicos do Rio de Janeiro, oposição. Só para dar um exemplo dos metalúrgicos. Campinas era oposição, Limeira. Aqui no Estado e no resto do país, a realidade era essa. A expressão maior da presença foi realmente no ENOS, com presença do Sindicato dos Bancários. Tinha muita gente, rurais. O Gringo morreu uma semana depois, foi assassinado depois que saiu do encontro. Com uma dificuldade, uma ausência grande, apesar de ter tido representação do comando da greve do ABC. O ENOS foi feito logo após a grande passeata dos cem mil, Primeiro de Maio, da greve do ABC. Foi feito logo após todo aquele movimento. Teve a presença do comando no ENOS. Lembro-me que foram lá representar, dar informe e representar o comando de greve. Informe já da prisão do Lula. Na época do Primeiro de Maio, ele ainda estava preso. O encontro foi uma semana depois.

Carmem – Como era a relação dos sindicatos que efetivamente não eram oposição, que eram diretoria, e o pessoal da oposição numa composição…

Carlúcio – Aí tem toda uma história. Depois basicamente os companheiros de São Paulo e de São Bernardo, entendemos que foram acumulações, para simplificar, mas é diferente. Uma acumulação feita dentro da estrutura. Tem uma diferença, o chamado sindicalismo autêntico. Uma acumulação feita fora da estrutura, enquanto oposição. Tem vários fatores que contribuíram por uma diferença. Nossa visão é que essas duas acumulações do novo sindicalismo, aqui no Brasil o sindicalismo começa a ter expressão de massa. Depois da tentativa de 1968, da atuação do Primeiro de Maio, da greve de Osasco, depois daqueles episódios, nós temos uma expressão, a partir de 1978. Dez anos depois. Quando o movimento tem essa expressão, tem esses dois polos, que estão hoje na CUT. Tem a oposição com uma marca ideológica muito forte e os companheiros de São Paulo. Mas aqui tem uma tradição, não sei se é essa a expressão, mas na capital dificilmente uma organização de esquerda, que quer ser nacional, não investe no sentido de ter quadros em São Paulo. Quadros operários na nossa categoria. Sempre teve essa marca, uma influência, uma história de oposição. Essa influência internacional no começo é interessante. Vários companheiros que fizeram militância aqui terminaram no exílio. Isso estabeleceu uma relação muito estreita, se estudou. Você vê o reflexo disso nas teses do Primeiro Congresso da Oposição. Aqui se estudou a experiência da Espanha, das comissões obreiras. Várias experiências das classes do mundo inteiro. Estudou-se, discutiu-se. Quando é retomada pelo movimento sindical brasileiro as propostas das comissões de fábrica, tinha no nosso entendimento uma conotação, um caráter determinado. Não era uma coisa que o movimento estava saindo do zero para formar uma organização de fábrica. Era uma proposta que tinha um conteúdo político, ideológico já demarcado, já tinha proposta disso. São acumulações diferentes. Para se estabelecer essa acumulação, vamos estabelecer com fatos que fica mais fácil. Em 1978, a oposição foi convidada a participar do Congresso dos Metalúrgicos do ABC. Era difícil naquela época, um dirigente que está na estrutura, um presidente do sindicato, um diretor, aceitar um grupo de trabalhadores de oposição e reconhece-los como direção política. Uma dificuldade muito grande ter esse reconhecimento. Mas a oposição sempre foi muito enxerida nesse sentido, tem velhos militantes que sempre se colocaram enquanto direção política da categoria. Esses companheiros levaram uma tese para São Bernardo em 1978, de que as comissões de fábrica, que no primeiro momento não foi entendida. Ficaram contrapostas comissões de fábrica com delegados sindicais, até haver o próprio Congresso da Base dos Metalúrgicos de São Bernardo. Os companheiros deliberaram a reivindicação da comissão de fábrica. Falando dessas duas acumulações, não era uma relação fácil com os companheiros de São Bernardo, dentro do sindicato. Aquelas diretorias, que foram na crista da onda das greves, e também a oposição na frente de todas no período de 1978. Na greve que se chamou por dentro das fábricas, as máquinas paradas e os braços cruzados e depois a participação da categoria. Uma greve geral, em 1979, foi também uma presença grande, na frente dessa expressão de massa no movimento. Tinha essa diferente acumulação, dentro da estrutura era uma coisa, fora outra. Essas duas e a oposição fez todo o enfrentamento com a ditadura. É de um reconhecimento do movimento sindical, do que tinha na época de outras oposições. Tinha uma referência muito grande na oposição aqui de São Paulo. Não tínhamos uma central única. Sou testemunha disso, porque fiz essa referência, desde 1970, no Recife. Viemos buscar essa relação política com os companheiros daqui. Não era partidária, era de frente de trabalhadores. Nem estava colocado em 1970 ainda, porque não tinha a menor condição. Nem os companheiros estudantes conseguiram fazer Congresso da UNE, era clandestino, quanto mais pensarmos em um Congresso de formar uma Central Sindical. Mas essa relação política estava estabelecida. Isso refletiu no ENOS. Estou tentando lembrar outros elementos.

Carmem – Na composição, por exemplo.

Carlúcio – Na época estava se discutindo a organização do ENOS, tinha uma incidência que contribuiu, deu estremecimentos. Estava acontecendo retornos dos exilados do movimento sindical. O retorno do Ibrahim, que tinha uma relação com a oposição no passado, com a Europa. Inclusive a oposição foi recepcionar o Ibrahim no aeroporto, basicamente iniciativa dos companheiros daqui. Estabeleceu-se uma divergência, com o próprio, no sentido de não fazer o ENOS com esse caráter, e fazer um encontro com as direções sindicais. Permeava uma outra dificuldade, que era da relação dos metalúrgicos de São Bernardo do Campo na unidade sindical. O Lula, se não esteve dentro da unidade sindical, esteve muito tempo discutindo. Essa dificuldade de construir uma coisa na base das estruturas sindicais. O sindicato de São Paulo era sempre muito almejado. Tinha uma coisa indefinida para onde ia São Bernardo, era uma direção sindical que já identificávamos. Estava dando um outro norte na direção da luta de classe no país. Isso foi claro. Os companheiros tinham clareza disso. Mas como os que participaram do movimento de São Bernardo foram apanhados em 1979, como a oposição também estava na crista dessa onda, dois grandes começam a se ver com um reconhecimento de oposição. Porque a oposição nunca tinha conseguido, até pelo fato da realidade de São Paulo, é diferente, de ser uma oposição sindical, ter a expressão de massa que teve o movimento sindical em São Bernardo. A presença da oposição em fábrica, a elaboração ideológica de combate, a estrutura, isso é uma marca muito forte, sem ter nunca conseguido essa expressão de massa que tinha em São Bernardo. Então eram acumulações diferentes, uma pegava toda essa operária e de tradição e outras tinham essa expressão de massa muito grande. Como não tinha muita definição, houve muita aproximação. A oposição estava no congresso em 1978, junto naquela ação da CNTI. O Lula teve um papel, a oposição estava junto naquela ação no Rio de Janeiro. Então estava ali, se medindo, se estudando, esse novo sindicalismo, para se dizer onde ia. Nesse período, o Lula estava na unidade sindical, teve um relacionamento político com os companheiros da unidade sindical. Tinha em Joaquim, no MR-8, mas em Joaquim uma expressão, em Arnaldo Gonçalves dos Santos.

Carmem – Hugo Perez.

Carlúcio – Sim, tinha nessas lideranças uma expressão muito grande. Chegou-se a falar, em começo de 1980, a possibilidade de Joaquim estar dentro do Partido dos Trabalhadores, quando ele estava em gestação, isso estava sendo discutido.

Carmem – Ele foi um dos fundadores.

Carlúcio – Ele estava sendo discutido e tinha essa possibilidade, tinha o Henos Amorina. A referência para entender São Paulo, também tem que entender um pouco essa relação com Osasco, com a grande São Paulo. Inclusive essa presença do Ibrahim quando ele volta, essa diferença. Aparece essa diferença na questão do ENOS. Os companheiros propunham o esvaziamento daquilo que estava sendo encaminhado, com o caráter do encontro nacional das oposições para ser um encontro dos trabalhadores de oposição e estrutura sindical. É de pronto do que eu tenho conhecimento a aglutinação das oposições sindicais com o chamado sindicato autêntico. Era uma proposta definida, querida e assumida pelos companheiros da oposição aqui em São Paulo. Quando se colocava a questão do ENTÕES na época, era que a oposição ficava muito insegura. Se esse encontro ia ser que pegasse todos em nome da oposição futura sindical. Você não tinha um critério palpável, terminava sendo o encontro que a oposição seria rifada. Seria o troco numa unidade entre o novo sindicalismo, que estava nascendo em São Bernardo, com o velho. Com os Joaquins da vida e outros sindicatos que tinham uma certa expressão no estado de São Paulo e em outros estados. Como Osasco, como Henos Amorina e esse povo aí, Hugo Perez, que estavam na federação dos urbanitários. Era isso, a oposição se sentia assim. Um pouco pelo feito de não estar em nenhuma direção do sindicato. Ser um pouco assim, seria dado como troco disso. Não é uma coisa fantasiosa. Eu sou testemunha. Estava no Recife, em 1980, vim para São Paulo, para o famoso encontro de São Bernardo do Campo.

Carmem – Que foi em Taboão…

Carlúcio – Não, foi no Hotel Pampas, aquele redondo. A oposição discutiu o PS na época, todos os que são do PS, foi um encontro basicamente do MDB, com sindicalistas. Tinha todo mundo. A mesa do encontro era Fernando Henrique, só Montoro que não foi, deu uma certa brecada nesse encontro. Eu vim de Recife, com o Jarbas Vasconcelos, o Fernando Lira, essa turma. O Arraes não tinha voltado ainda, voltou logo depois. Vim com esse setor trabalhista do MDB. Era uma representação operária do Recife que estava vindo. Aqui tinha Fernando Henrique, José Serra, o Almino Afonso. Tinha a discussão do PTB, a disputa do Brizola com a Ivete. Estava em curso a discussão da reformulação partidária. Era uma tentativa de se pegar aquele movimento sindical que vinha e juntar com esse setor que fosse o popular do MDB. Mas estava todo mundo. A Maria Luiza Fortinelli, foi quando a conheci. Ela veio do Ceará, era do MDB na época. O Aurélio Peres já tinha sido eleito deputado. A Irmã Passoni, esse povo todo estava nesse encontro. O ex-ministro do trabalho, Almir Pazzianoto. A oposição sindical foi vetada, não existia. Ficou muito difícil de convidar uma representação da diretoria do sindicato sem convidar a oposição, realmente uma grande ausência.

Carmem – Não tinha ninguém da oposição…

Carlúcio – Nem da oposição, nem da direção do sindicato. Os metalúrgicos de São Paulo foram uma grande ausência nesse encontro. Inclusive o Lula ainda hoje, quando me filei ao PT, ele me puxou num canto, chamou o Chico Gordo e falou que eu era do encontro de São Bernardo. Veja que ironia. Metendo o pau no PT de um lado e o Alemãozinho do outro gritando contra ele. Um contra o PT e o outro a favor. Não era contra o PT, mas as bases dele estavam colocadas já. Olívio Dutra veio como sindicalista, Vagner Benevides, todo aquele pessoal do Rio de Janeiro. Os metalúrgicos do Rio estavam aqui, petroleiros do Rio, o pessoal do oito, todo mundo presente, só não tinha oposição metalúrgica.

Carmem – Não tinha ninguém da oposição…

Carlúcio – Ninguém, a oposição foi vetada. Metalúrgico de São Paulo não tinha presença e a minha intervenção foi nesse sentido. Estava uma discussão, começou a se estabelecer uma diferença naquele encontro, uma presença muito grande do PC, Roberto Freire. É um encontro de três dias ali no hotel. A diferença, entre esse setor e o sindicalista, tinha uma discussão. Eu estava inscrito, mas ia demorar muito para falar, só no outro dia. Descobri que a maneira de falar era aparteando, não tinha controle de tempo. O cara fazia aparte e gastava quinze minutos. Começou uma discussão sobre a questão de obreirismo, tínhamos que dar conta de uma relação política. Mas essa necessariamente tinha que ter a marca dela, na verdade era a discussão entre os trabalhadores e os políticos profissionais. Estava começando a se colocar a questão do PT, na ordem do dia. Tinha o sindicalista Paulo Esclanove, bancário, lembro muito bem. Jacob Bitar estava. Fiz aparte com Lysaneas, que estava discutindo essa questão do ombreirismo. Entrei e coloquei que já tinha se repetido muito uma falação em nome da classe, como a classe operária está aqui, o movimento sindical brasileiro está aqui. Era a nossa vez. Não estou entrando no mérito se isso estava certo, era a expressão do movimento sindical. Que relação vocês querem com os trabalhadores. Acho muito importante esse salto, estamos querendo fazer política, sob nossa direção. Então, tinha acordo, mas tinha uma diferença que era que a expressão do movimento sindical. Eu sabia do veto, tinha relação com a oposição. Fiz aparte e perguntei se a discussão era sobre obreirismo. Que não tinha razão para ser obreirista, porque sou militante político, do Recife. Falei que lá há muitos anos temos a referência, como todo mundo sabe que o Brasil todo, do que aconteceu em São Paulo, no movimento sindical. Não é em detrimento da expressão do reconhecimento do que aconteceu em São Bernardo do Campo, como sindicalista. Coloquei que não tinha motivo para haver obreirista, que respeitava o significado dos companheiros do ABC, mas que do Recife nós tínhamos referência de São Paulo há muitos anos, uma estrela, que nos orientava, uma grande referência, que eram os metalúrgicos de São Paulo, os companheiros da oposição dos metalúrgicos de São Paulo. Estou dois dias aqui nesse encontro e já preocupado, porque já tentei conversar com as pessoas e perguntar. Não estou vendo nenhum companheiro metalúrgico de São Paulo e não podemos fazer uma referência nesse encontro, falando em nome de todos os trabalhadores do país, sem a presença dos companheiros dessa categoria. Foi um levante, porque estava uma acumulação de tensão, entre todo o pessoal do PC, do PCdoB, e mesmo o pessoal do MDB, e terminou levantando de repente.

Carmem – Mas não estava o Flores, ninguém tinha saído da oposição…

Carlúcio – Não, não tinha ninguém. Fui muito procurado depois. Explodiu uma salva de palmas. O Lula estava na mesa, o Alemãozinho ficou gritando do outro lado. Não sei se o Delelis estava. Sei que tinha um pessoal que o acompanhava. O Darci Passos me procurou e perguntou se eu tinha atirado e acertado no que vi, fiquei na minha. Sabia que ia fazer aquela intervenção, e tinha informação que os companheiros tinham sido vetados. E o ENOS acontece depois disso, nem o Joaquim estava, nem o Malvezzi, nem a oposição.

Carmem – O Malvezzi era PDS na época.

Carlúcio – Nem Joaquim e nem oposição. Essas diferenças aconteceram no curso da história, essa discussão quando entre ENOS, ENTÕES. A resistência que os companheiros faziam aqui. Você pode ver ENTÕES era uma coisa mais ampla. Não era só um negócio de oposição, era de todos os trabalhadores, em oposição de luta sindical. Porque não ir fundo e apostar, os companheiros foram, apostaram e fizeram. Na oposição houve muita discussão nesse sentido. Na verdade a oposição assumiu a frente do ENTÕES, foi um trabalho militante, contato, várias coisas, mas não abriu mão de fazer o ENOS.

Carmem – A proposta era fazer as duas coisas…

Carlúcio – No começo houve uma discussão se um estava substituindo o outro. Na verdade, os companheiros foram pressionados para abrir mão do ENOS, em função do ENTOES. Os companheiros fizeram o ENOS e o ENTOES. Garantiram a presença no ENTÕES e eu já estava aqui. Esse encontro de São Bernardo tinha acabado de ser vetado, nesse mesmo período. Não sei precisar a data, foi um que a imprensa toda cobriu, você vai encontrar isso nos jornais, em 1979. Foi a primeira que eu conheci o Lula. Na nossa campanha em 1979, em Recife. Em 1980, estava lá e só vim para cá em agosto. Devia ser um encontro em junho de 1980, mas não foi. Foi em 1979. Depois o Lula, o Arraes não estava ainda, se tivesse no Brasil estaria nesse encontro. Ele chega em 1979, primeiro comício dele em Recife, é setembro. Estávamos em campanha salarial, lembro-me muito bem. Foi um dia de assembleia nossa e o Lula estava presente, a chegada do Arraes. Já tinha referência de que tinha estado com ele aqui, foi um ano antes do ENTÕES, exatamente. Esse encontro de São Bernardo deve ter sido junho de 1979, foi antes da morte de Santo Dias.

Carmem – O Santo Dias também não estava…

Carlúcio – Não, não tinha metalúrgicos de São Paulo. Fui a essa intervenção, cobrei e ninguém me disse quem estava. A mesa silenciou completamente. Fernando Lira estava dirigindo, Lula, era sempre um sindicalista. Quem gritou algumas coisas comigo foi a Alemãozinho, na época muito ligado ao Lula.

Carmem – Vamos rememorar a organização do Primeiro Congresso da Oposição Metalúrgica, em 1979.

Carlúcio – Acontece muito em função de uma acumulação anterior. A oposição viveu todo um processo que culminou aquele movimento de 1978. Aquela acumulação de São Paulo e São Bernardo, começa todo um processo em cima da questão da reposição dos índices formados pelo Delfim Neto, em 1973. Em cima daquela publicação, começa a ter um processo de paralização. Não foi só essa questão, era um processo de acumulação que só a partir da fábrica. Naquele momento, vivemos vários dramas, do ponto de vista de como organizar e se relacionar com a categoria. Várias greves. São problemas que não estão resolvidos nem hoje, com relação aos sindicatos. Tinha o processo de organizar de forma clandestina, significava que um conjunto de trabalhadores de cada empresa começava a ter condições de responder ao conflito diário de classe, que se dava em que isso era expresso. Reivindicações, algumas mais urgentes, outras mais pendentes, mas até históricas, dentro da empresa. Começava a criar condições para aquele conjunto de trabalhadores a despontar na direção daquelas lutas, que eram diárias.

Carmem – Sempre alguém usava em cima da reivindicação imediata da empresa… As lutas explodiram em cima… Criavam forma, apareciam em forma de conflito, mas tinha uma luta surda acontecendo…

Carlúcio – Podemos retomar depois, até no entendimento que vem do caráter dessa organização no local de trabalho, acho muito importante. Interessante é até entender um pouco da história da oposição, na questão da comissão de fábrica. Houve um processo de acumulação em que a oposição vivia um drama, de organizar de forma clandestina. Se expressava em termos de conflito e você chamava o sindicato para fazer a negociação. Mas a categoria também tinha feito um processo de entendimento, de que chamar o sindicato não tinha garantia nenhuma de que aquelas lutas iam ser traídas. Esse é um sentimento que marcou basicamente todos os enfrentamentos mais expressivos, em 1978. Cito alguns, Máquinas Piratininga, Toshiba, Masey Ferguson, Arno, e várias outras, praticamente todas aquelas fábricas. Os patrões receberam, a Philco, inclusive, com Ubiraci Dantas, na comissão de negociação. O sindicato entrando e o Bira trombando com a diretoria do Joaquim, colocando a questão da traição, com aquele conflito que apareceu no tribunal. O alvo central dos juízes era no sentido de impedir que a oposição falasse. O Bira terminou ficando numa situação muito difícil, aparece no filme “Máquinas Paradas”, na greve da Philco. Mas representa bem isso, o conjunto dos movimentos feitos em São Paulo, onde a presença da diretoria era negada pelos trabalhadores.

Carmem – Era negada porque tinha liderança da oposição… Você citou Máquinas Piratininga, Arno, Philco… Havia outras fábricas em que a presença da oposição não era tão marcante e a presença do sindicato era aceita… Isso era confronto entre oposição e sindicato…

Carlúcio – Isso passava desse limite de confronto de opiniões dentro da categoria. Era com o conjunto, feito através de outras experiências, de campanha salarial, outros confrontos. Tem fábricas que pararam sem nenhum militante da oposição, foram na onda da paralização. Isso aconteceu muito em São Paulo, infelizmente, negar a presença do sindicato. O próprio patrão tomou a iniciativa de indicar, ou ter uma influência muito grande na indicação por seção, de um conjunto de trabalhadores que fosse negociar o conflito. Na verdade, naquele momento a patronal entendeu muito bem a relação que estava estabelecendo e a categoria passou por cima da sua direção de direitos e foi para esse enfrentamento, contra a diretoria. Aquela característica de uma massa que passa por cima. Discute, negocia. Isso é um elemento que depois teve uma alteração de entendimento do ponto de vista da patronal. Começa a ter um certo encontro de interesses. Chegou um momento em que foi possível negociar a comissão de fábrica, apesar de interesses diferentes. Uma necessidade de representação operária, no sentido de ampliar a organização, dirigir o conflito de classe do ponto de vista patronal. Na medida que não tinha o interlocutor do conjunto de trabalhadores, do ponto de vista patronal, foi introduzido uma questão de ceder, começar a pensar comissão de fábrica como interlocutor válido. Porque era impossível negociar com todos os trabalhadores, o patrão não admitia. Em nenhum momento a burguesia chegou a pensar negociar um conflito com todo o conjunto dos envolvidos. Eles só pensam negociar com representantes dos interessados no concurso. Do ponto de vista da burguesia é um suicídio negociar com as duas classes, uma frente a outra. Não tem negociação de conflito, pelo contrário, tem acirramento de interesse e muda até de caráter. Para voltar a questão do Primeiro Congresso, esse momento foi vivido em todo o período de 1978, expressou uma acumulação que o movimento sindical tinha feito na questão das bandeiras da comissão de fábrica. Ele expressou todo um período de acumulação que permitiu que a oposição saísse com um material de massa. Até então não tinha material da categoria. A oposição sai, surge a luta sindical. Começa um processo de maioridade desses militantes, essa frente de trabalhadores pela oposição sindical. Ela foi empurrada pelo conflito, pelo movimento, tem que dar umas respostas que ela até então não tinha dado.

Carmem – Você tinha falado que esse conflito era sempre de classe no interno da fábrica, ele passava para o conjunto que era de classe…

Carlúcio –  Queria retomar isso quando fossemos discutir, eu anotei, organização no local de trabalho, o conflito que acontece dentro da fábrica, esse enfrentamento de classe aqui, a questão da exploração, da opressão.

Carmem – Sim.

Carlúcio – A questão do despotismo, para entender um pouco o caráter dessa organização por local de trabalho. São organizações que as oposições também fizeram, senão nós não entramos no primeiro congresso. O caminho guarda isso aqui, na questão do conflito de classe, que está anotado aqui. Para entrar no Primeiro Congresso, fiz uma linha que não é muito reta. A oposição começa a um dado novo. Ela só tinha expressão para o conjunto da categoria, para o conjunto em dois momentos, basicamente uma eleição sindical, apresentava as suas propostas, e nas campanhas salariais, nas datas-bases ou naqueles movimentos que eram feitos em maio, também em São Paulo.

Carmem – Na realidade esse período vai ter eleição sindical em 1978. Em 1975 foi chapa única.

Carlúcio – A oposição não apareceu, não teve condições de concorrer. É o que acontece nesse processo de 1978. Ela passou a ser empurrada a ter uma relação com o conjunto da categoria fora desses momentos. Foi empurrada por um processo que tem uma questão de concepção da organização permanente, do papel que teria o conjunto das comissões de fábricas que estava preparando em São Paulo. O papel que tinha uma direção dos sindicatos, inclusive na questão do classismo. Tinha elementos que eram permanentes, de concepção desses militantes, mas tinha uma conjuntura que favoreceu, que foi justamente o momento que a diretoria estava sendo negada pela categoria. A patronal teve que entender essa questão do ponto de vista técnico, um interesse diferente. Teve que aceitar, discutir essas formas de representação em função desse episódio. A questão de ter um instrumento de comunicação permanente com categoria, a questão da organização por região industrial e a questão das comissões de fábricas, do papel dos comandos. O centro dessa concepção se relaciona com a conjuntura do momento, com a resposta que tem que dar para a luta. Mas o centro é justamente discutir antes de começar a provar, tem um conjunto que não são núcleos históricos, não são os militantes da oposição. Eram poucos, mas tem um conjunto muito expressivo dessa categoria que tem que ter uma fórmula de se organizar, intervir e de ser a direção de fato desse sindicato. Na medida em que a categoria estabelecia de forma clássica e de burocrática na direção, daqueles que mandam. Venham que o sindicato resolve, o dentista, a questão assistencial, resolve também a luta. A oposição tinha feito uma acumulação, não é bem assim, venham que a diretoria resolve por vocês. Começaram toda a concepção da qual é o papel de uma diretoria do sindicato. Enquanto diretoria temos as condições de estabelecer que se crie no conjunto dessa categoria um processo que favoreça a articulação, mobilização e organização daqueles militantes. Daqueles companheiros que ainda não são militantes, mas que se destacam no enfrentamento com a patronal. Faz uma acumulação que tem que esses companheiros, como é que você rompe isso… Como é que você articula esses companheiros e como é que essa vanguarda da categoria tem um papel na direção, na condução da luta e na vida sindical. Isso é o centro da questão que leva ao Primeiro Congresso da Oposição, de ter que dar uma resposta para o conjunto mais amplo da categoria e concepção e de bandeiras, e não bastava. Havia a necessidade de se organizar na região industrial dos bolsões, que é a zona do sindicato, a bandeira da sub-sede do sindicato. Com espaço para se organizar, se cria associações dos trabalhadores, numa certa medida como forma de preencher essa lacuna. Começa todo um processo, organizamos regiões, indústrias. Se tinha num processo de algumas inter-fábricas levantadas e que conseguiram andar, mas com uma dificuldade muito grande. Isso se expressou em 1979, nos comandos eleitos na região. Vinha com inclusive com orador da assembleia, eleito pelo comando da zona sul, da zona leste. Essa concepção favorecida, servia dentro da oposição, influência das comissões obreiras da Espanha, influência que toda a discussão que a esquerda fazia, permeado por um processo muito rico em São Paulo. É uma marca, você tem que registrar aqui. É influência ideológica do conjunto da esquerda. Todas as correntes de opiniões, todas as organizações tem seus militantes nessa base, estão as grandes questões da esquerda, esses sindicalistas diziam. Não ficavam fora, discutiam tudo, fizeram enfrentamento com a ditadura, não é à toa. Quero frisar isso, que acho que fundamental, para atender São Paulo. Não é à toa que você tem aqui aos mártires que a ditadura fez no movimento sindical, pelo menos você tem aqui uma meia dúzia de companheiros, o Luiz Irato, Olavo…

Carmem – Manoel.

Carlúcio – Manoel Filho, você tem esses companheiros. Santo Dias, nesse enfrentamento de classe, enfrentamento da ditadura. Para explicar a sua pergunta sobre a realização do Primeiro Congresso, foi basicamente em cima dessa necessidade de juntar, esquematizar essa prática, que já vinha se dando e a necessidade de resposta da categoria. A questão do racha.

Carmem – Deixa eu perguntar ainda em relação a organização do Congresso. Foi tentado a realização de um Congresso dos Metalúrgicos que pegasse a categoria como um todo, não só a oposição. Você sabe se foi tentado…

Carlúcio – Não conheço essa proposta. Talvez os militantes que viveram mais de perto isso possam te dizer, mas é uma dificuldade, já posso adiantar, não é nesse momento.

 

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