Depoimento de Miguel Huertas

por Memória Sindical. 20 set 2017 . 13:06

Miguel Huertas foi assessor do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, representante da FITIM no Brasil.

Realizado em 26/06/1989 por Carmen Lúcia Evangelho

Transcrição e revisão Luciana Cristina Ruy

Miguel, seus dados pessoais.

Miguel – Meu nome é Miguel Huertas, sou do interior, filho de imigrantes espanhóis. Tenho 60 anos, sou sócio do sindicato desde 1953.

C – Que dia você nasceu?

Miguel – 23 de junho de 1929. Sexta-feira passada sessentão. Vim para São Paulo com meus pais, já com 6 anos. Moro em São Paulo há 54 anos. Nunca perdi minha origem, gosto do interior e mantenho contato com os familiares e minha cidade permanente, tanto é que tenho até residência lá em Palmital.

C – Miguel, seus pais vieram para cá por que?

Miguel – Eles vieram a se conhecer aqui, garotos. Achando que o Brasil era um país que recolhia ouro com a mão, era a informação que se tinha na Europa. Vieram para cá trabalhar, com seus pais, meus avós. Foram trabalhar aqui e na lavoura, por muitos anos, sofrendo. Todos os imigrantes na época, muita exploração, trabalho e pouco dinheiro.

C – Eles vieram na primeira leva de imigração?

Miguel – Não sei te explicar quais foram os períodos.

C – A última leva de imigração oficial foi em 1927.

Miguel – Então vieram antes, porque nasci em 1929. Vieram garotos e se casaram aqui.

C – Eles vieram por imigração do governo?

Miguel – Sim.

C – Você morou desde os seis anos em São Paulo. Eles faziam o que?

Miguel – Meu pai veio para São Paulo porque era muito doente. Ele adquiriu uma maleita e naquele tempo era difícil o tratamento, curar era muito dinheiro. Essa trouxe para ele vários tipos de complicação. Veio porque não dava para trabalhar lá, mas aqui não conseguia também. Vivia constantemente doente, pegou uma anemia profunda, precisou fazer várias transfusões de sangue. Morreu com 50 anos de idade, jovem, sem poder fazer nada. Nos últimos doze anos ele ficou enterrado numa cama.

C – Você era filho único?

Miguel – Não, nós somos em sete irmãos vivos. Morreram dois, um com onze meses e outro com dois anos. Tenho uma irmã mais velha e cinco mais novos.

C – Dos homens você é o mais velho?

Miguel – Dos homens, sim. Somos três homens e quatro mulheres.

C – E como vocês se viravam?

Miguel – Trabalhamos de tudo quanto é jeito. Com dez anos, ainda frequentando o grupo escolar, fui jornaleiro, dos dez aos quinze anos. Vendia jornal na Rua Direita e nos bondes que passavam na Praça da Sé. Conseguia não sei como ficar em pé, fazer troco, servir, atender os fregueses…

C – Com dez anos conseguimos tudo.

Miguel – Mas era o período da guerra e conseguia vender muito jornal. Conseguia ajudar minha família. Tinha até um salário razoável, muita gente dizia que era igual a um profissional, ganhava com condições de ajudar. Minha mãe era empregada num período, depois foi trabalhar no Cotonifício Rodolfo Crespi. Minha irmã mais velha trabalhava também nessa firma, na Mooca, na Crespi. Os outros eram menores. Depois foram vindo os últimos três. Também tem o caçula, veio a minha irmã, a penúltima já tinha doze anos quando ele nasceu. Meu pai já estava na cama, e nasceu o caçula. Todos trabalharam com muito sacrifício e dificuldades. Depois, aos quinze anos, fui trabalhar numa indústria metalúrgica.

C – Qual?

Miguel – A antiga Metalúrgica Paulista, que já não existe mais. Uma empresa muito grande que produzia sanitários, como banheiras, pias, lavatórios. Fazia também balanças, tinha a marca de Cosmopolita. Trabalhei lá um ano e meio.

C – Você fazia o que?

Miguel – Era maceiro de fundição de ferro. Aquelas balanças que se usava, se modernizou muito. Tinha o espelho e ela era fundida, para sair aquele vão no meio entre uma parte e a outra. Ia uma peça ali dentro de saibro, uma armação. Quando era fundida, aquela parte de saibro desmanchava e ficava um buraco do tamanho da peça. Se chamava maceiro. Fazia também coisas para o cachimbo do gás, aquele buraco, é feito por macho. Aquele se usa areia do mar para fazer a peça. Funde e aquele macho no meio de areia, o ferro, ou alumínio ali não penetra, fica o buraco. Então é exatamente para ficar um buraco de acordo com a necessidade da peça.

C – Como você aprendeu a fazer isso?

Miguel – Entrei lá como aprendiz, mas não era difícil. Acabei pegando prática e trabalhei lá um ano e meio.

C – Saiu por que?

Miguel – Eu fui mandado embora. Houve o seguinte: a fundição trabalhava onze horas por dia, inclusive o sábado. Eu trabalhava na macharia. Como era menor, trabalhava só as horas normais que eram as 48 horas semanais. A firma propôs uma redução de horário daquele pessoal e não quis incluir no salário as horas a mais, que eles acharam um direito adquirido no seu salário, onze horas todo dia. Como a firma não quis, aconteceram muitos protestos. Criaram uma comissão na fundição, que era grande. Com os fornos tinha a modelagem, a macharia e a parte dos fundidores.

C – Quantos operários tinham?

Miguel – Não lembro quanto na Paulista, mas era uma empresa muito grande. Qualquer número que eu falar aqui estaria errado. Era uma empresa importante na luta do Sindicato, um tipo de fábrica piloto nas lutas. Se o sindicato fazia uma greve, aquela firma era a que parava primeiro, depois o resto do setor ou bairro.

C – Isso foi em que ano?

Miguel – Preciso voltar fazendo cálculo. Saí com dezesseis anos e meio, tenho sessenta, são…

C – É mais fácil fazer de 1929 mais 16, 1945. Estava acabando a guerra.

Miguel – Isso, durante o período da guerra ainda trabalhei ali. Quando a guerra acabou me lembro, tocou sirene e tal. Logo em seguida já estava acontecendo dispensa desse pessoal. Criou-se uma comissão e da minha seção ninguém quis ir representando. Falaram comigo, decidi ir, era menor. Colocaram meu nome na relação da comissão que ia discutir com o engenheiro da empresa. Isso eu me lembro muito bem. Ao entrarmos na sala dele, a primeira pessoa que abordou fui eu. Você tem alguma coisa a ver com isso. Não tenho, mas os meus amigos tem, estou representando a minha seção. Sei que todos aqueles que fizeram parte da comissão foram mandados embora, fui o primeiro. Foi a minha primeira experiência sindical. Sem entender, já fui com os companheiros. Depois saí de lá e fui trabalhar na Alumínio Rochedo, uma empresa do grupo Pignatari, na Borges Figueiredo. Até era bom, porque perto da minha casa, umas quatro travessas só.

C – Onde era a Paulista?

Miguel – A Paulista era na Rua Sapucaia, no Belém, e a Alumínio Rochedo, na Borges Figueiredo. Depois de uns meses, mudou-se para Utinga. Tinham lá uma propriedade grande, transformaram numa empresa. Foi um período em que o alumínio começa a ter maior importância no mercado. Chaleira, bule, bacia, a maioria dessas coisas começa a se fazer em alumínio. Fui para trabalhar em Utinga, quando a empresa mudou, mas o que eles deram como compensação pela mudança era pouco e eu saí. Trabalhei lá uns oito meses só. Fui trabalhar numa fábrica de alumínio, na rua Tobias Barreto, um pouco mais longe de onde era a Metalúrgicos Paulista. Trabalhei de ajudante de rebitação. Rebitar panelas, cabos de chaleira. Aprendi, fiquei rebitador. Aquele era um serviço que não tinha nenhum valor. O valor salarial, e eu precisava ganhar dinheiro, o meu pai era doente. Comecei a pedir a empresa que me passasse para a seção de repuxação, fazer panelas, chaleiras, bules, todas as coisas que já se faziam em alumínio. Eles davam chance para muitas pessoas e tive a oportunidade de trabalhar lá. Comecei ali aprendendo a profissão de repuxador.

C – Que faz?

Miguel – É um torno em que tem onde roscar, que se chama modelo. Vai fazer uma bacia, então o modelo tem o formato. Pode ter a medida que tiver. Você tem uma alavanca que tem uma contra ponta, que é para prender um disco, para poder fazer encostar no modelo para sair a bacia.

C – Então repuxa o alumínio?

Miguel – Repuxa o alumínio com ferramentas adequadas. É feito à força bruta. Como é em velocidade, tem que saber puxar de uma forma que não rebente o material. Aquilo tinha que ter habilidade, ir passando a ferramenta e acertando o material no modelo. Tinha todas as outras peças. Então, o repuxador trabalha amarrado com um cinto na altura das nádegas, preso por uma corda na cabeça, onde se coloca a ferramenta. É um serviço estúpido, porque é na base da força que você consegue cortar o material. Alumínio ainda é um material leve, fácil de manejá-lo. Calcule latão, ferro. Então, aprendi essa profissão. Depois que estava trabalhando lá um ano, apareceu um profissional, perguntei onde ele trabalhava. Aí me deu o endereço. Como aprendiz, ganhava pouco. Em relação a um profissional, nada. Como fosse hoje, um salário mínimo e um profissional. Fui nessa firma onde ele trabalhava. Cheguei lá falei se precisava de repuxador. Disseram-me que sim. O que eu sabia fazer? Eu falei, sei fazer de tudo. Arrisquei, ou arrumo um serviço para ganhar bem, ou volto onde trabalhava. Deram-me a oportunidade de fazer os testes, com várias peças. Fazia urinol, não tantas panelas, mas fruteiras, tigelas, outros tipos. Mas era alumínio, tudo é igual. Passei e me contrataram.

C – Era grande?

Miguel – Não, pequena. Mas lá tinha uma laminação, devia ter uns quarenta empregados. Era bem menor do que a de alumínio que eu trabalhei na Tobias Barreto.

C – E as condições de trabalho nessas fábricas de alumínio? O serviço era duro, as condições ambientais eram muito ruins?

Miguel – Claro que eram ruins.

C – Não tinha restaurante?

Miguel – Não tinha nada. A parte que nós nos alimentávamos, o pessoal só comia de marmita. Não tinha refeitórios. Tinha que comer onde dava. O único lugar onde esquentar a marmita era em banho-maria. Você chegava de manhã, colocava e na hora do almoço arrumava um canto onde pudesse se assentar melhor e comia. Isso foi na Metalúrgica Paulista, como também na Alumínio Taitê, na Tobias Barreto, como nessa empresa pequena.

C – O ambiente não tinha ventilação, muita poluição?

Miguel – Não, ela não cria pó. O pouco de pó que tem você consome. Você absorve. No passar de ferramentas, acaba não criando, porque tem que passar sebo. Derrete, depois fica duro. Passa com uma brocha feita de pano ou graxa. Acabava indo em você esses produtos, o sebo espirrava no seu rosto. Na velocidade que você passava, não tinha condição de você sair, ficava de frente para a peça quando ela estava girando. Então você absorvia. O produto não gerava produtos químicos. Na solda tinha produtos que eram para limpar a graxa de alumínio. Usava uns banhos de imersão e para limpar a peça.

C – E vocês recebiam a placa de alumínio?

Miguel – Recebíamos só os discos, de acordo com a peça. Às vezes eram pequenos, ou grandes. Tinha peças que precisavam de ajudantes para puxar a ferramenta, ficávamos amarrados e eles ajudavam a puxar.

C – Ainda é assim?

Miguel – Ainda tem muito. Mas sistema de prensas absorveu grande parte do que era feito manual. Já se foi automatizando, porque as prensas ganharam todo esse espaço. Mas tem muitas peças que não dá para fazer na prensa por causa do seu formato, por exemplo o bule. Não tem como você fazer na prensa, porque é o que nós chamamos de primeira operação. Ele faz a parte reta do bule, aí é colocada num modelo, para você rebaixar. Só que esse modelo é feito de gomos. Na medida que termina a peça, você tem que ir rebaixando. A boca fica menor do que o fundo. Você vai tirando as partes e coloca de novo naquela forma. As prensas fazem a primeira parte do bule. Já bacias quase todas estão estampadas, a não ser as maiores. Mas ainda tem muito serviço de repuxação. Usa-se muito na parte de luminárias, aquelas que se usa bastante. Como já faz tempo que não entro numa empresa dessas, não sei mais o quanto se modernizou. O que sei, por informações, é que a maioria delas é prensa mesmo. E essa profissão não cresceu. Às vezes menciono em algumas reuniões e ninguém sabe o que é, porque diminuiu muito a profissão de repuxador.

C – Mudou de qualificação?

Miguel – Mudou. Depois dessa firma, era uma sociedade e se dividiram. Fui trabalhar com um dos sócios, na Cidade Mundo Céu, ali no Tatuapé, na Serra de Bragança. Tinha que fazer uma caminhada para chegar lá, aproximadamente uma hora a pé todo dia. Não tinha condução que desse ligação. Hoje tem transporte, naquele tempo, não. Tinha que ir e caminhar até chegar lá em cima. Eu morava no parque da Mooca. Ia até lá todo dia, e voltava. Eram uns dez empregados, só, na antiga chácara do Marengue. Era um cara que produzia muita uva, nesta região tinha muitas chácaras, Tatuapé até a Penha. Ele desativou uma parte da chácara e foi alugada para essa oficina.

C – Você ia a pé por qual caminho?

Miguel – Eu saía da Camilo Saraiva, passava e subia pela rua da Mooca. Pegava a Padre Avelino, subia reto até a praça, a direita, Bom Parto. Era a Rua Serra de Bragança, onde era a oficina.

C – Ida e volta?

Miguel – Ida e volta. Trabalhei até vinte e um, nessa empresa. Aí resolveu fechar. Ele me chamou e falou: “Olha, Miguel, não vou tocar mais isso”. Porque era um engenheiro eletrônico, dava aula na escola Getúlio Vargas, uma escola de ensino profissional, federal. Era professor e achou que aquele ramo não estava dando mais nada. Resolveu fechar, me indenizou.

C – Já era 1950?

Miguel – Por aí. Saí de lá, já não fui direto a uma fábrica de alumínio. Fui trabalhar perto de onde estava morando, logo em seguida casei, depois que saí dessa firma. Com vinte e dois anos, já estava casado. Fui trabalhar em uma firma para fazer prato de balanças. Era de latão, pratos de balança de feira. Era uma cromeação, serviço terrível, só se lida com ácidos, perigosos como o cromo. Trabalha com desengraxante, um tanque para tirar as gorduras que possa ter as peças. Trabalhava muito com cianureto, soda cáustica, e não tinha ventilador, aspirador, não tinha nada. Tinha um banho de cobre, zinco e o cromo, que são perigosos.  Também não entendia nada, quanto aquilo podia fazer mal. Importante que tinha arrumado um serviço para trabalhar. Isso é que era importante, pelo menos na minha forma de ver.  Meu pai ainda na cama, doente, eu já casado, então era trabalhar. Depois o serviço de repuxação diminuiu, ele me propôs trabalhar na niquelação. Acertou o salário, eu fazia o serviço de repuxação a parte, à noite, já com uma forma de contrato por peça e o meu serviço mesmo era niquelação. Aprendi e fui ser niquelador. Esse serviço, se você tem qualquer machucado, e vai naqueles banhos, aquilo vira uma ferida, fica terrível. Tenho o osso do nariz furado, porque ele come mesmo, por dentro. Sentia aquilo arder, tinha dia que ardia os olhos demais. Quando tinha que reforçar os banhos, por produtos químicos para ficar forte, você aspirava tudo aquilo, fazia um mal terrível. O pessoal falava tudo, mas não tinha noção exata de quanto mal fazia. Sei que furou esse osso do meu nariz. Trabalhei lá uns três anos. Desentendi-me com o patrão e acabei saindo, sem ter arrumado outra coisa. Já tinha um filho, o mais velho era bebê. Fiquei procurando serviço, pelo menos uns dois meses. Achava, mas estava numa época de crise. Arrumei numa fábrica lá perto, nova. Eles não entediam muito do ramo de alumínio, mas quiseram montar. Tinham realmente na lapidação de vidros, faziam copos com desenhos, cristais. A lapidação resolveu montar uma fábrica de alumínios. Fui trabalhar lá, uns oito meses. Era terrível, não saia pagamento, saia atrasado. Ou arrumava outro serviço, ficava procurando, falava com os amigos, lia jornal, mas não encontrava, ia mantendo ali. Nesse período, fiquei procurando, até que um dia, conversado com um repuxador, ele dizia que trabalhava em uma fábrica de lustres, no Cambuci. Faz umas pecinhas pequenas, de alumínio, de latão, de cobre.  Eu perguntei se era muito difícil, e ele, exige mais capricho. Falei, onde fica. Ele me deu o endereço e fui procurar essa firma. Realmente foi um grande passo meu. Saí dessa firma que não recebia quase, você não conseguia ter dinheiro certo nenhum dia. Fui trabalhar nessa fábrica, fiz experiência, de dois dias só. Era muito mais fácil do que eu pensava. Só que exigia mais capricho nas peças, não podiam sair com riscos das ferramentas. Conforme o torno gira, se você passar a ferramenta muito depressa, formam uns riscos e era bem difícil de tirar. Às vezes não tira nem lixando e nem com a lisador, para deixar a peça bem lisinha. Até isso era difícil. Mas eu nunca fui um cara de muita produção, sempre fui um cara de caprichar no serviço. Comecei a trabalhar nessa empresa, depois de uns dois meses, ela muda para o Jabaquara. Era uma sorte também. Você calcula, eu morando na Vila Formosa, já tinha saído da Mooca, já tinha nascido meu segundo filho, minha menina, eu já estava morando na Vila Formosa. Vou trabalhar da Vila Formosa ao Jabaquara. A condução péssima, naquele período. Quando fui morar na Vila Formosa, andávamos de caminhão e pau de arara. Era um caminhão aberto, ás vezes faziam um toldo de encerado com cordas amarradas e nós subíamos, punham escadinhas. Andavam ali homens, mulheres, aquilo cheio. Não tinha ônibus quase naquela região. E queria chegar em casa. Condução mesmo tinha até a Água Rasa. Belém, tinha. O resto era no pau de arara. Se você quisesse esperar vir um ônibus, esperava duas horas e quando vinha, estava lotado. Fui morar na Formosa, porque construí uma casinha lá, um quarto e cozinha, e uma salinha pequena. Tinha comprado um terreno, saí da Mooca e fui para lá. Foi a maior loucura. A família achou que eu estava doido. Onde se viu você sair da cidade e ir para o mato. Mas eu tenho que lutar, futuramente, estudar meus filhos. Não pude estudar, sempre tinha isso na cabeça. Fui trabalhar no Jabaquara, quando a firma mudou. E fui acertando naquela empresa. Como estava crescendo muito no ramo de lustres, o grande concorrente deles era a Nadir Figueiredo, eram um pessoal que tinha se formado de quatro pessoas, que não entendiam muito do ramo, não. Mais era o desenhista, e montaram essa empresa e estava num auge. Sei que aproveitei bem esse período, porque constantemente estava pedindo aumento. A minha carteira, ficou no INPS quando eu me aposentei, só se vê. Eu exigia aumento de salário, e eles davam. Precisavam de mim, e realmente me especializei nessa fábrica de lustres. Todas as peças mais difíceis, tudo era comigo. Logo também comecei a fazer os modelos, de madeira. Tinha que saber fazer, lidar com o formão. Uma coisa que também aprendi lá, na medida que foi preciso, também procurei me interessar e aprendi a fazer os modelos. Tinha mais valor porque sabia fazer os modelos, as peças. Sempre que lançava uma novidade, isso exigia de mim. O desenhista falava, precisa fazer uma peça assim, para fazer um lustre de abajur. Com isso me valorizava. Essa empresa era em crescimento, difícil de lidar. Todo mundo pensava que ia subir lá, iam ser chefes, era uma disputa terrível. Quando estávamos no Jabaquara, chegou a ter cento e vinte empregados. Tinha várias seções, e ali trabalhei sete anos. Ajudou a pagar as dívidas da minha casa, consegui, mesmo com sacrifício de trabalhar tão longe. Para a minha profissão, ganhava um salário razoável. Deu para pagar as minhas dívidas e comecei a cuidar da minha família. Trabalhei lá até eles me mandarem embora em torno de 1963.

C – Por que?

Miguel – Organizei muito bem os companheiros daquela firma, em termos sindicais. Já tinha uma militância, atuava desde 1959, como ativista. Sou sócio do sindicato desde 1953.

C – Você vai me dizer como ouviu falar de sindicato pela primeira vez. Não vale dizer que é filho de espanhóis

Miguel – Já falei?

C – Já falou.

Miguel – É interessante, não sei te explicar certo, porque fiquei sócio. Sei que várias pessoas que eu conversava falavam que eram sócias do sindicato. Um dia falei para minha mulher, também queria ser sócio. Meu sogro estava ouvindo. Ele sogro era têxtil, tecelão e falou que toda vida foi. Mas nem sei, não entendo nada. Mas o sindicato defende os direitos, problemas de lei, se você é mandado embora, precisa reclamar, você tem onde. Tudo bem, se é isso, acho que é bom. Procurei saber onde era e fui sozinho. A sede naquele período era na José Bonifácio, eles tinham alugado uns andares do prédio e lá era o sindicato. Este prédio atual, na Rua do Carmo, estava em construção. Entrei como sócio em 1953. Nesse período teve uma grande greve. Não lembro se teve um pouco de influência, ou não. Trabalhava naquela oficina de niquelação, ninguém era associado. Mas tive alguma influência. Primeiro acabei querendo saber o que era, e meu sogro me explicou alguma coisa, mas fui sozinho.

C – Foi aí a primeira vez que você tinha ouvido falar ou antes você já tinha ouvido?

Miguel – Já tinha ouvido, quando alguém falava de sindicato. Mas nunca me interessei, porque quando estava na Paulista, onde deveria ter muito sócio, eu era menor. E nunca ninguém veio falar isso comigo. Depois vou para o Rochedo, a mesma coisa. Quando já era maior de idade, e fui trabalhar na Tobias Barreto, também não encontrei ninguém que conversasse sobre isso. Vou saber de sindicato, já estava casado, que perguntei pela primeira vez o que era.

C – Seu sogro nunca tinha falado com você antes?

Miguel – Nunca ninguém conversou se eu era sócio ou não. Não sabia nem que existia isso. Fiquei sócio em 1953. Logo nos primeiros anos nem vinha aqui, então você vê como entrei, sem saber nada. Se soubesse alguma coisa, até participaria. Só lembro uma vez, meu sogro me chamou para ir ao sindicato dele numa assembleia. Foi feito num cinema na Avenida Rangel Pestana.

C – Cine Piratininga?

Miguel – Nem sei qual foi o cinema. Creio que não era o Piratininga, porque é muito grande. Foi outro cinema. Naquela avenida tinha muitos cinemas, tanto na continuação Rangel Pestana, depois Celso Garcia. Tinha vários cinemas. Sei que fui com ele, porque os têxteis não tinham a sede que tem hoje. Eu nem sei onde funcionava. Vamos lá vai ter uma assembleia.

C – Lá mesmo, mas numa casinha?

Miguel – Eu não sabia. Ele falou, vai ter uma assembleia, você não quer ir junto. Fui, achei interessantíssimo. O pessoal falando, ouvindo tudo aquilo falar, para mim não tinha diferença nenhuma. Sei que tudo que falava lá era interessante, porque não entendia e achava que tudo estava certo. Estavam discutindo o aumento de campanha salarial. Só se falava nisso. Achei interessante. Mas já era sócio aqui a uns anos. Só vim começar a passar por aqui em torno de 1959. Um período em que estava trabalhando no Jabaquara, porque era mais fácil vir para cá. O ponto do ônibus era na Liberdade, o sindicato aqui na Rua do Carmo, era mais fácil passar aqui, depois ir para casa. Através de um outro amigo, e esse já era sócio. Acostumei a passar no sindicato. Comecei a participar e começo a gostar. Vem assembleias, reuniões, comecei a frequentar. Levou quase seis anos, para começar a entender um pouco da importância que podia ter o sindicato. Começo a fazer amizade, encontrar companheiros de outras empresas que já trabalhei, que também eram sócios.

C – E como é que era a vida do sindicato nessa época?

Miguel – Realmente era bastante agitado, tinha muito movimento, isso me lembro. O pessoal fazia reuniões, assembleias?

C – Era o Plácido, o presidente?

Miguel – Não, não era o Plácido. Ele era vice, nunca foi presidente. Presidente era o Remo Forli. Começo a achar uma pessoa que gostava muito, o Plácido. De todo o conjunto de diretores, era um cara que lidava mais com o povão. Era muito dado, comunicativo. Passo a conhecer essa diretoria, o Remo, o Plácido, Delellis, José Bastos, José Gomes, que era tesoureiro, Levário Dantas, Orlando Malvezzi, que era do Conselho Representante da Federação. Passo a conhecer mais pessoas, começo a gostar, passava aqui constantemente. Até que um dia minha mulher colocou um xeque-mate. Ou você fica com o sindicato, ou fica comigo. Ela não entendia, não sei o que pensou, mas achou que eu não estava vindo para cá.

C – No mínimo uma namorada?

Miguel – Alguma coisa estava acontecendo, porque não era possível vir tanto ao sindicato. Foi em 1960. Comecei a gostar mesmo, vinha constantemente aqui. Ela colocou essa questão: sindicato ou eu. Quero os dois, vamos nos acertar. Sei que teve um dia que ela chegou quase: vou embora, resolve agora ou como é que ficamos. Que é isso, você não está entendendo, acho que posso ser útil, ajudar os outros, nos ajudar, ajudar os trabalhadores, estou gostando daquilo, acho que é bom. Ficamos uma semana sem conversar. E eu aguentei firme. Aí fui falar com o pai dela e ele me elogiou horrores, tomara que teus irmãos se interessassem como ele. Seria importante que eu gostasse, porque depois que fico sócio, já começo a aprender um pouco e converso muito com o meu sogro. Ele nunca foi diretor, mas já entendia mais, e aqui aprendi muito. O pessoal que estava aqui era muito ativo, sempre tinha novidades e já em 1961 houve eleições. Fui chamado, já tinha algumas amizades. Um dia eu estava numa pastelaria aqui na Praça da Sé, e o Bernardino Testa junto com outras pessoas já falecidas, me viram lá me conheceram daqui. Chamaram-me para participar de umas reuniões. E eu fui. Eram preparatórias para a formação de uma chapa contra a diretoria daquela época. Procurei me informar bem o que era. Foi quando comecei a conhecer o Joaquim, o Malvezzi, que estava rompendo com a diretoria, o Dantas, também.

C – Por que?

Miguel – Porque havia discordância na forma de dirigir o sindicato. Já que era um instrumento do partido político e havia divergências em relação a isso. O sindicato devia cuidar dos trabalhadores e o partido dos problemas políticos. Há grandes discussões nas reuniões, a forma como estavam sendo conduzidas não agradava, porque o partido aqui era que mandava. Todas as decisões a diretoria. Ela mesma tinha divergências, porque eram grupos diferentes. Lembro-me que só aprendi depois. Não que soubesse naquele momento. Havia o grupo do Remo, o pessoal mais ligado ao Partido Socialista, havia alguns independentes, mas eram poucos, e os outros ligados ao Partido Comunista. Havia divergências, mas estavam juntos. Então se formou a chapa em 1961 e eu fiquei com o pessoal que fez oposição a diretoria. Não ia concorrer em hipótese alguma, ainda estava começando a aprender, mas na última hora de fazer o registro estava faltando uma pessoa. Preenche, não tem importância, você assina, fica junto. Gosto do sindicato, mas não estou entendendo tão bem como vocês. Bom, entrei fiz parte da chapa. Fui o último suplente. Na relação toda, era o último dos suplentes. É claro, já que fiz parte eu me interessei horrores. Trabalhei muito. Só que onde trabalhava, naquela firma do Jabaquara, não tinha muitos sócios. Era uma fábrica que estava ainda organizando. Expliquei para o pessoal que estava com propostas sérias, e que realmente procurava cada dia me interessar mais. Achava que não podia ter essa interferência partidária dentro do sindicato. Sei que concorremos as eleições e perdemos com uma diferença muito pequena mesmo, mil e setecentos votos na época. Foi a maior surpresa para todo mundo. Ninguém acreditava que aquela equipe fosse capaz de fazer frente a um pessoal que já tinha experiência e um partido com suporte grande ajudando. Passado as eleições, todos tentaram, o pessoal ganhou. A mesma equipe que estava anteriormente, nos convidaram para fazer parte, discutir. Não, vamos colocar a seguinte questão. Enquanto teve as eleições, teve. Passou, vamos caminhar juntos. Desmanchou a equipe. A equipe que formou a chapa, naquela época ainda não era dois, era por cor, azul, verde.

C – Azul e verde não foi depois de 1964?

Miguel – Não lembro naquele período como se classificava as chapas. Se também era um e dois. Não sei a classificação que se deu. Sei que continuamos nos reunindo, sem fazer uma coisa destrutiva. Passávamos aqui, fiz parte antes dessa época. Vou voltar um pouquinho para contar uma história. O sindicato tinha um corpo de delegados, em torno de sessenta, e eu já fazia parte, tínhamos carteira vermelha.

C – Me explica isso.

Miguel – Os diretores que convidaram para ser delegado, um tipo de representantes. Faziam reuniões mensais. Nessas, tinha algumas palestras de esclarecimento e achava interessante. Estava cada dia aprendendo mais. Já era delegado sindical. Vão acabar com o quadro de delegados sindicais em fim de 1962, próximo as outras eleições.

C – Por que acaba?

Miguel – Eles resolvem mudar. Em vez de ter delegados, falavam que ia ter comissões de fábrica. E acaba os delegados. Passa a ter o chamado comissões de fábrica, que não conheci muito. Não conheci nenhuma. Sei que como trabalhava numa firma menor, não dava para chegar ai. Mas as coisas politicamente no sindicato não mudaram. Era a mesma diretoria, a proposta era a mesma. Claro que o partido comunista nesse período era muito forte, era muita agitação. Você vê, 1963 estava no auge. Vem as eleições de novo no sindicato. Tentamos fazer composição. Fizeram algumas propostas, que a equipe nossa não aceitou. Davam alguns cargos, participava três correntes, como independentes, o grupo do Remo e o do partidão. Mas fui indicado pela nossa equipe para negociar. O Dantas e eu. Estivemos várias vezes com o pessoal do partidão, no início parecia até que ia dar certo. Nos dávamos muito bem, isso era interessante. Na luta éramos amigos, não tínhamos divergências profundas. A divergência era a tal da interferência partidária. Mas como pessoas, éramos amigos, não tínhamos brigas. Não era como é hoje. Nesse período a nossa equipe tinha uma atuação muito grande, todos eles. Em todas as assembleias, tínhamos bom oradores, grande participação, ajudávamos em tudo. Normalmente, éramos membros de comissão de salário. Em todas as assembleias, a partir de 1960, sempre era indicado, para ajudar a estruturar a campanha salarial. Participava, era realmente interessante. Nas eleições de 1963, o partidão leva um susto grande com aquele resultado. Mesmo assim, eles não deram muita importância. Estavam no poder, achavam que eram muito fortes, em 1961. Em 1962, ocorreu um fato que aí sim eles ficaram muito preocupados. Veio a eleição para vogal, em Guarulhos. O sindicato, sua base territorial pertencia a São Paulo, Guarulhos, Osasco e Franco da Rocha.

C – Franco da Rocha, também?

Miguel – Franco da Rocha, também.

C – Hoje pertence a quem?

Miguel – Criou um sindicato a pouco tempo. Ninguém ficou depois com Franco da Rocha. Na medida que o desvincula daqui, Osasco e Guarulhos, também Franco da Rocha. Ficou dependendo da federação, porque lá não tinha quase metalúrgico. Naquele período não havia quase indústria lá, a base era essa. Numa eleição para vogal de uma junta nova que foi criada em Guarulhos, indicamos nossos três elementos para concorrer e uns três apresentados pelo sindicato. E ganhamos as eleições.

C – Quem ganhou lá?

Miguel – Quem ganhou foi o Malvezzi. Ele na chapa, um companheiro de uma empresa da Lapa, Martins Pereira e um outro da antigamente Cofres Berardini. Ela fazia cofres, hoje faz tanque de guerra. Esses três companheiros na eleição, nós ganhamos. Eles não acreditavam, mas estávamos muito bem relacionados com o pessoal das fábricas, por causa da proposta. Ganhamos a eleição, o partidão ficou preocupadíssimo e pôs ativistas nas portas de fábrica para trabalhar. Também na eleição de 1963 sentimos que estava bem para nós.

C – Quem encabeçava a chapa?

Miguel – O cabeça da nossa chapa era o Dantas. Ele foi em 1961 e em 1963. Como foi um dos elementos que romperam com a diretoria anterior, tínhamos que prestigiá-lo. Na segunda fase só foi por isso. Na primeira tinha mais sentido, mas depois já não teria. Chegamos à conclusão que seria uma injustiça que iríamos fazer com ele. Então, continuou como cabeça. Perdemos essa eleição, eles tiveram o dobro de voto que nós. Tivemos sete mil e pouco e eles quatorze mil. Assim mesmo, sei que tiveram muito voto, só que desenvolveram um trabalho diferente. Sindicalizaram maciçamente. A pessoa levava uma lista para dentro da fábrica e pegava o nome e o endereço, todos os dados que precisa na ficha individual. Preenchia, trazia aqui e mandava o recibo. Como estavam no poder, tinham mais facilidade nesse contato direto e permanente. Então aumentou muito o quadro social nesse período.

C – Só tenho a partir de 1967. Mas tem um momento que vai acontecer isso também.

Miguel – É, cresce o quadro social e facilita eles ganharem as eleições. Estrategicamente, agiram certo. Se em 1961 houve uma coisa muito próxima, se tivessem o mesmo número. Foram inteligentes em aumentar o quadro associativo. Jogaram com a turma novas e os que tinham apoiado. Perdemos assim.

C – Como era o lado de fora disso? 1963 estava explodindo greves gerais, como era isso?

Miguel – Apoiávamos todas as greves. Fazíamos piquete. Na greve do 13º, em 1962, Bernardino, Cremiltre, foram todos presos no Brasil, no Hipódromo. Fui preso na Zona do Jabaquara, lá não aconteceu nada. Aconteceu mais na área industrial, no bairro de Vila Carioca, Ipiranga e Belém, Brás, o centro industrial que era na época. Lembro bem que fazíamos piquetes. O Dellelis passando de carro, fiscalizava e saia correndo. Virou gozação por causa disso. Fazíamos os piquetes e você de carro. Em 1963 o Dellelis passa a ser o presidente. Falamos você é um sacana mesmo. Nós que paramos no piquete e você de carro. Assim que é a luta. Tínhamos uma boa participação, estávamos sempre juntos. Tínhamos divergências, mas caminhávamos juntos. Era se tinha greve, assembleias. Formava a campanha salarial, tudo que discutíamos. Principalmente o Remo, ela era já tesoureiro, o relacionamento com ele era maior.

C – Por que?

Miguel – A grande maioria dos nossos elementos passa a se integrar ao Partido Socialista por causa do Remo, do Zé Gomes, do Dantas. A sede deles era aqui na Silveira Martins, já havia Davi Lerer, outras figuras que tinham participação. O relacionamento com o grupo do Remo era bem próximo por causa do Partido.

C – São Paulo, 16 de agosto de 1989, depoimento de Miguel Huertas. Miguel, a gente parou em 1961.

Miguel – Sei, então vamos tocar. 1961, conforme havia narrado, era apenas ativista que havia concorrido as eleições. Minha participação era mais na fábrica. Em 1962, também. Só que nesse período, quando houveram campanhas salariais, sempre fui indicado como membro da comissão de salários. Naquele tempo usava indicar comissões salariais para acompanhar a diretoria. Fui escolhido, participei e me ajudou a aprender mais. Em 1962, o Montoro era Ministro do Trabalho e tivemos uma reunião na Delegacia do Trabalho. Discutimos a campanha e com a presença do Montoro, foi uma reunião de treze horas. Começamos as sete da manhã e encerramos as oito da noite.

C – Era campanha salarial unificada ou era só metalúrgicos?

Miguel – Não me lembro bem. Mas era daqui do sindicato, não lembro se envolvia outras categorias nessa data. Houve outras em conjunto, mas nessa acho que não.

C – Por que foi uma reunião tão longa?

Miguel – Porque estava difícil acertar o acordo e o ministro veio exatamente fazer isso. Negociava com a diretoria do sindicato e a comissão. Voltava ao setor patronal e foi crescendo as negociações. No final das treze horas surgiu uma proposta, que depois foi aceita na assembleia. Não me lembro o percentual, me parece que esse não era importante. Todas essas reuniões também me ajudaram a aprender. 1963 houve de novo eleições no sindicato. A equipe a qual eu pertencia, concorremos de novo. Mas voltar um pouquinho, estou me lembrando de um fato importante de 1962. Houve uma eleição para vogal, representante dos trabalhadores na Justiça do Trabalho. Uma vaga que havia sido formada a junta de processo trabalhista em Guarulhos. Esse município pertencia a trabalhadores, estava vinculado ao sindicato.

C – Guarulhos também era base territorial?

Miguel – Era base territorial de São Paulo. Como havia necessidade de escolher o vogal, o sindicato abriu as inscrições de chapas e a nossa equipe montou uma. Quem liderou foi o companheiro Orlando Malvezzi, que mais tarde veio a ser diretor. Já tinha sido na gestão de 1959 a 1961, membro do Conselho da Federação. Concorremos as eleições e ganhamos para vogal da atual diretoria. Deu um rebu interno. Como é que esse pessoal quase ganha as eleições de 1961. A diferença entre a chapa X e a nossa, encabeçada pelo Malvezzi, foi grande. Criou um problema maior aqui. Quando o pessoal da diretoria percebeu que essa equipe era forte, tinha apoio da base. O sindicato se estrutura melhor no trabalho de fábrica. Quem estava com problema vinha procurar o sindicato. Colocam militantes ativistas nos bairros para fazer contato, um relacionamento na porta de fábrica.

C – O sindicato não tinha sedes? Só em Osasco e Guarulhos?

Miguel – Tinha Osasco e Guarulhos. Um pouco depois que cria sedes, Lapa e também Ipiranga. Mas ainda não tinha. As eleições de 1963 para a nossa equipe foram péssimas. Eles perceberam que se continuasse daquele jeito eles perderiam. Usaram essa estratégia de colocar pessoal em fábrica e deu certo. Fizeram outra coisa em cima da hora com direito de poder votar, sindicalização coletiva através de uma lista, que tinha os mesmos dados que constavam na ficha de sócio. Aumentou muito o quadro associativo, o que facilitou para a diretoria da época vencer as eleições tranquilamente. Tivemos aproximadamente sete mil e poucos votos, eles tiveram um pouco mais de quatorze mil. Então foram esses dados. Talvez você venha pegar melhor no jornal, os números.

C – Eu tenho a partir de 1967.

Miguel – Mas em ata você vai achar. Deve ter porque era obrigado a fazer, por causa da lista do Ministro do Trabalho. Em 1963 houve as eleições, duas chapas, nós perdemos. Veio a campanha salarial, foi difícil. De novo continuamos juntos, fazíamos um trabalho de oposição, mas não destrutiva. Tudo que o sindicato tinha de positivo, participávamos, tinha comissão e nunca houve desentendimentos grandes. Havia essas diferenças de como dirigir, mas não uma coisa rancorosa. Nos tratávamos como companheiros, amigos. Depois veio 1964.

C – Volta um pouco. 1963, além das eleições, foram anos de grandes greves, muitas paralizações, como era isso na categoria?

Miguel – Quando se tratava de campanha salarial, você podia ter certeza que a paralização seria quase total. As greves, como houve contra a carestia, já não foi total, foi parcial. As greves que eram de salário, a aceitação era muito grande. Qualquer outro tipo de greve não era a mesma coisa. Em 1963 teve uma luta pelo abono, 13º.

C – Para o abono foi 1962.

Miguel – Então foi a greve de 1962. Depois foi uma greve importantíssima em São Paulo, em que a nossa equipe também teve uma participação grande. Ela passa a vigorar depois com o decreto, com o projeto do Araújo, que passa a ter o 13º. Foi uma greve muito importante.

C – Do abono?

Miguel – Do abono. Foram muitos trabalhadores presos. Inauguraram naquela oportunidade o presídio do Hipódromo da polícia.

C – Foi naquela época? Eu não sabia.

Miguel – Foi. Puseram o que cabia e o que não. Pessoal teve que ficar em pé, dois dias. Tiveram que mandar comprar lanche.

C – Como era o abono antes, nos metalúrgicos? Os têxteis, por exemplo, era muito normal receberem tecidos de presente na época de Natal. No setor metalúrgico, como era o hábito?

Miguel –Tinha uma ou outra empresa que dava assim um pernil, alguma coisa. Tinha empresas que já naquele período que pagavam o abono de Natal. Esses detalhes não posso explicar, porque estava mais de fora, não conheço a categoria toda. Sei que havia o abono de Natal, por isso existia a reivindicação, pois havia como conquista em várias empresas. Quanto é que pagava, não sei. Tinha também a forma de presentes, um pernil, um garrafão de vinho, alguma champanhe, havia essas coisas. Foi uma greve realmente histórica. E aqui ficaram presos no prédio, sem poder sair muita gente.

C – Aqui no sindicato?

Miguel – Aqui no sindicato. Quando terminou a assembleia que aprovou a greve, a polícia invadiu e o pessoal não tinha totalmente saído. Cercou na hora da assembleia. Alguns conseguiram sair, mais cedo. Como demorou um pouco mais para discutir a organização, quem estava aqui a diretoria recomendou que não saísse, porque a polícia tomou as ruas e todas as imediações. Quem saía, era preso. A pessoa olhava lá de cima, recomendou para o resto não sair. Vamos ficar aqui, como vamos nos entregar na mão da polícia. Ficou inclusive líderes, vários diretores da época, também o companheiro Joaquim. Isso você vai encontrar nos arquivos. Ele também estava e esse pessoal sofreu muito. Havia uma lanchonete, era um bar, mas fazia lanche. Acabou a comida. O sindicato naquela época tinha um caseiro que cuidava do prédio, e que morava no sexto andar. Aí a comida dele também acabou. Começou a faltar alimentos, já no dia seguinte. Cigarro, essas coisas. Mas começou a aparecer os deputados solidários com a greve.

C – Quem era o governador do Estado?

Miguel – Governador do Estado, em 1962, era o Adhemar de Barros. Lembro-me porque não estava nem aqui preso e nem fora, apesar de ter trabalhado nos piquetes. Lembro-me que estava chegando ali na Tabatinguera, vejo com uma cordinha pessoal tentando suspender algumas peças de banana. A polícia ia e cortava, não deixava subir nada. Era para ver se o pessoal saía. Como começou a aparecer deputados, foi possível eles entrarem e sair. Já começa a chegar alguns alimentos, por exemplo cigarro. Mas o pessoal ficou aqui. Sabe o que é um dia todo detido aqui. Alguns companheiros, no primeiro dia que ficaram aqui, quando chegou a noite, a polícia se retirou das imediações. A diretoria falou, ninguém sai, porque é uma estratégia o que estão fazendo. Mas tinham se escondido ali na rua das Flores, uma travessinha a esquerda da Rua do Carmo. Quando o pessoal foi saindo viu que não tinha nada, foi saindo um pouco de gente, quando já tinha um grande número, a polícia apareceu e prendeu o resto. Os outros ficaram aqui até o final. Foi uma greve histórica, que trouxe uma grande conquista para os trabalhadores. A greve do abono de Natal, ou seja, pelo 13º. Nós chamamos de greve do abono de Natal.

C – Era abono mesmo. Essa vida do sindicato, a categoria ficou sabendo, como era essa relação?

Miguel – Isso houve muita divulgação. Muita solidariedade. Não foi só o sindicato dos Metalúrgicos, também outras categorias. Foi uma greve que em São Paulo, atingiu várias categorias. Tenho informação que outro lugar que ela teve êxito foi no Rio Grande do Sul. Mesmo nos outros estados, não teve o mesmo êxito que esses. A greve do abono de Natal.

C – Quando o sindicato fica fechado, como é a reação da categoria?

Miguel – Quase ninguém tinha informação. O pessoal nem vinha aqui, só os mais ativistas se aproximavam. Mesmo assim, se encontravam na Tabatinguera, aqui pela Praça da Sé. Só aqueles que estavam em greve, o que era importante era fazer o pessoal ficar sem trabalhar. Logo cedo tinha que ir para as fábricas, montar o piquete, aquelas dificuldades todas que trazem uma greve desse tamanho. Mas você não via tanta gente, quem se encontrava mesmo eram os ativistas. Os outros tinham medo, pois começou a prender. Começa a anunciar que está prendendo, o trabalhador não vem se expor. Só mesmo quem já tinha mais militância, que vinha ver o que estava acontecendo aqui por perto.

C – Como era, embora você não tivesse na diretoria, como se passava a relação da diretoria com o comando da greve, que depois foi CGT?

Miguel- A CGT não comandou a greve pelo abono, ela vem depois.

C – Ela faz a greve da paridade.

Miguel – Isso. Mas havia um relacionamento entre o sindicato e a CGT. Era muito forte, foi com o apoio desse sindicato que ela se cria. Sempre foi um sindicato grande, de vanguarda. Havia muita participação do Remo. Para chegar a CGT, havia-se criado outros comandos, o PUA, tinha PUI, PAC. Lembro-me mais do PAC, como é que era?

C – Pacto de Ação Conjunta.

Miguel – Isso. Lembro-me melhor da atuação do PAC, mas havia também esses outros movimentos.

C – O Pacto de Ação Conjunta era das campanhas salariais unificadas?

Miguel – Isso, por isso que era mais forte, na minha memória. A participação do sindicato era importante em todos os momentos da CGT. Todas as lutas, como esse era um sindicato vanguarda, tinha muita força.

C – Passava para a categoria isso?

Miguel – Passava, havia constantemente um anúncio da CGT, como comando geral da luta dos trabalhadores, era constante. O sindicato anunciava sua luta. Não só o que acontecia por aqui, como nos outros estados. Então começava a ganhar corpo mesmo. Apesar de não ter sido criada com tantas entidades, se cria com a CNTI. Ela ganhou tanta força nesse período, que era também de crise, custo de vida alto. Facilitou bastante. Ela teve uma participação da CNTI, deste sindicato, têxteis e outros. Ganhou muita expressão, tanto que até em toda a história consta.

C – Teve muita força. Uma das críticas que fazem a CGT é que era e cúpula, que não passava para as categorias.

Miguel – Não, nas fábricas tinha muito. Se todo jornal, todo boletim, se falava, como é que não passa? Havia palestras, conferências. Lembro-me de ter encontrado o Rianni, que era presidente, várias vezes. Teve reuniões amplas para discutir sobre CGT. Então, passava. Pode ser que não atingiu outras categorias, mas nos metalúrgicos, não. Aqui se sabia que existia a CGT e era forte.

C – Quando vocês fazem a chapa para a eleição de 1963, que foi Dellelis na cabeça?

Miguel – Isso, primeira vez que Dellelis vem para a cabeça.

C – E o Joaquim na cabeça da chapa de oposição?

Miguel – Não, ainda é o Dantas.

C – O Dantas?

Miguel – Continua o Dantas. A própria chapa queria mantê-lo. Como tinha sido da diretoria, havia da equipe prestigiá-lo. Não me lembro mais toda a composição, mas o Joaquim vem na vice-presidência, o secretário-geral era o Cremiltre,

C – Eu pensei que era o Joaquim na cabeça. Como é no ano de 1963 no sindicato, é complicado…

Miguel – Realmente não me lembro de tanta coisa. No meu caso que ficava na fábrica, você não vive o dia-a-dia. Foi um ano muito agitado, a situação muito complicada, porque antecedeu a 1964. Todos esses anos já não me lembro, precisaria pegar uma outra pessoa. O companheiro Dellelis, esse foi o que viveu, porque estava no movimento dos sargentos, todos aqueles momentos difíceis.

C – Tanto ele e o Plácido, que foram presos em 1963, já estão mortos.

Miguel – O Plácido faz tempo. Eram as pessoas que iam dar um melhor depoimento do que eu, porque era simplesmente um ativista.

C – Porque eles são presos em dezembro de 1963?

Miguel – Porque você vê, tantas informações, acho que sim.

C – Como isso chega aqui no sindicato?

Miguel – Todo dia vínhamos para cá. Não saiu, não vai sair, ainda está preso, continua preso. Esse era o que ficávamos informados. Você trabalhava o dia todo, vinha para cá, tomava informação e ia embora.

C – E na fábrica, como era a prisão do Dellelis?

Miguel – Mas o trabalhador não sabia bem o que aconteceu. Como o presidente do sindicato foi preso. Essa informação sim, não tinha esse detalhe, a categoria não tinha.

C – Mas sabia que estava preso.

Miguel – Mas não sabia porque ele tinha que estar lá. Vinha complicação na cabeça do pessoal, não tenho dúvida.

C – Quem poderia, Tenorinho?

Miguel – Tenorinho, que viveu. A CGT viveu todo esse período muito próximo. A própria ligação política. Tem isso muito vivo e está muito lúcido. O Chamorro também teve muito próximo. Tem mais o Pellacani, falecido. Os dois mais que me lembro são esses, o Chamorro e o Tenório.

C – E metalúrgico?

Miguel – Metalúrgico, podíamos pegar o Perchon. Como ele é mais antigo, esteve afastado, é mais difícil pegar a coisa mais real. Acho que essas duas figuras vão te ajudar.

C – Em 1964 acontece o Golpe. Onde você estava no dia do golpe?

Miguel – Isso. Eu estava aqui próximo. Em janeiro de 1964, a Federação dos Metalúrgicos havia recebido um convite de levar vários filiados de viagem à Alemanha. O presidente da Federação na época era o Domingos Alvarez. Muito amigo nosso, me convidou. Coincide que estava desempregado. Fui mandado embora em fins de 1963, não me lembro a data certa. Estava com alguma dificuldade de arrumar emprego. Então em janeiro, ele me falou, vai um pessoal para a Europa, se você pudesse ir. Como faço, nunca viajei, nem saí de São Paulo, vou viajar para onde, ainda para a Europa. Moro na Vila Formosa, minha mulher com dois filhos pequenos, como faço. Ele falou, não sei, vamos ver se você consegue. Falei com a minha família. É uma oportunidade, você gosta do meio sindical. Acabei indo, fiquei vinte dias. Foi no dia 8 de janeiro que viajamos. Estive nos países, Alemanha, Suíça e Itália. Quando voltei, a Federação Internacional dos Metalúrgicos, eles me convidaram para ser representante no Brasil. Eles já tinham, seria o segundo homem, o adjunto do representante. Comecei já a trabalhar na FITIM, Federação Internacional dos Trabalhadores Metalúrgicos. A sede era no início da Rua Rangel Pestana, 243, 7º andar. Estava eu e o representante, um paraguaio exilado e a secretária. Todos aqueles fatos, que barbaridade. Venho ao sindicato, já estava fechado. Saí, fui até a federação. Quando cheguei lá, encontrei alguns funcionários daqui.

C – A federação já era lá?

Miguel – Não, era aqui na Rua dos Estudantes, próximo a Liberdade. Encontrei alguns funcionários lá. Estava o Domingos Alvarez, outros diretores não. Ele falou, convém não ficarmos junto aqui, porque podemos ter problemas. Mesmo sem funcionar, não tem que fazer nada, tem que esperar o momento de voltar a abrir o sindicato. Mas estava aqui próximo. Acompanhei tudo, comecei já inclusive com a função que tive como representante dos metalúrgicos. Comecei a acompanhar os fatos, as pessoas, você não encontrava ninguém. As pessoas que tinham mais militância, é claro que não iam ficar esperando aqui pela rua para serem presas. Prenderam qualquer um, pessoas que tinham algum problema político e quem não tinha também foi.

C – Como era a relação da FITIM com os metalúrgicos de São Paulo?

Miguel – Quando entro, não tinha nem experiência de entender bem da internacional. Acho que não houve nada em momento algum até nessa fase. O sindicato assumiu coligação com a FSM e com a Federação Internacional dos Metalúrgicos. Havia rivalidade política, acho que nunca houve nada. Houve mais com a Federação dos Metalúrgicos, com os demais sindicatos do interior, mas com o sindicato capital, não.

C – A FITIM fica ligada a quem?

Miguel – A FITIM pertence ao grupo democrático da Europa, como a FSM, ligado mais aos países socialistas. Havia o problema da divergência política.

C – Não tinha quase ligação com os metalúrgicos?

Miguel – Não, não houve nada. Podemos até afirmar que tomei conhecimento de alguma coisa anterior de eu estar dentro da FITIM. Pode ser que até algum representante, antes desse, mas acho que esteve por aqui como visita, nunca houve nada junto.

C – O trabalho começa com você?

Miguel – Começa comigo, praticamente, depois do golpe. Ficou até um drama dentro da Internacional, se a gente trabalharíamos ou não. Ajudaríamos ou não as entidades sindicais, mesmo que estivesse com problemas. Como eu era brasileiro, naquele período que estava aqui, era um paraguaio já exilado. Houve necessidade de uma reunião para saber se ajuda trabalhadores ou não. Havia um certo distanciamento, faz ou não faz. Isso levou três meses. Ficava sempre querendo ajudar por fora, mas sem aparecer, até que no fim se decidiu. Aonde tiver trabalhadores, mesmo operários na categoria como interventor, se ajuda. Se for estranho a categoria, não se faz nada. Esta acabou sendo a decisão que se tomou na FITIM.

C – Como você faz? Vem o golpe e o que acontece, como fica esse trabalho?

Miguel – Quando vem o golpe, aconteceu uma coisa extra FITIM. Muito mais em termos da equipe metalúrgica, que concorreu as eleições de 1961 e 1963. Imediatamente naquela noite seguinte, procurei os vários companheiros principais da equipe. O Malvezzi, Joaquim, Cremiltre, Dantas. Marcamos uma reunião na casa do Malvezzi. Nos reunimos no dia seguinte para discutir a situação. Como tínhamos muita amizade com a própria diretoria, ficamos a pensar como ia ser. Não tinha nem experiência, o que é uma intervenção, o que poderia estar ocorrendo.

C – A intervenção foi no dia seguinte?

Miguel – Não. No dia seguinte fechou. Depois que foi decretado intervenção, não abri o sindicato. Era proibido e ficou fechado, não sei quantos dias. Até nomear um interventor. Teve aqui foi um professor, daquela escola da Vila Prudente, na Anchieta. Ele faleceu também, Dr. Carlos. Nos reunimos, foi um dia para procurar bater um papo, saber como ia, mas as informações não existiam.

C – Nem encontrava a diretoria?

Miguel – Não encontrava a diretoria. Depois de alguns dias, o Alvarez me chamou e disse, eles vão indicar interventores em todos os Sindicatos de Metalúrgicos. Todos vão passar por problemas. Não seria melhor reunir a sua equipe, conversar com eles, se não aceitariam ser interventores. Vai tomar conta por um certo período. Problema sério isso. Nos reunimos, pois estava para ser indicado os interventores, na casa do Malvezzi. Se aceitamos ser interventores, estaremos queimados politicamente. Se nos omitimos, também somos uns covardes. Porque somos a equipe que tem o maior conhecimento desse sindicato. Se o deixarmos estaremos cometendo também um erro. Ficou definido, só ajudaríamos todos os diretores, não poderíamos em momento algum prejudica-los no período. Mandamos para Sorocaba Isalino Canavessi, um dos ativistas que não havia concorrido eleição. Mandamos para Osasco, um que havia concorrido eleições conosco, Luiz Camargo. Mandamos para Guarulhos, o Joaquim dos Santos Andrade. Mandamos para São Bernardo, o Cremente. Mandei para São Caetano, o Bernardino. Aqui, queríamos ajudar, disseram que não, que já tinham um interventor, que era o Dr. Carlos. Ficamos meio preocupados, essa é a nossa casa, bem que nós temos que ajudar. Mas o Alvarez me contou o seguinte, que essa pessoa tinha sido funcionária da Federação dos Metalúrgicos. Falei, mas então foi você que indicou! Eles não sabiam que essa pessoa existia e discutimos um pouquinho.  Ele falou, mas sabe, era uma pessoa de confiança. Mas de confiança sua. Nós nem sabemos. Perguntei para o rapaz e ele falou, já vi esse cara, como já houvesse esse elemento na federação. Disse que conhecia o Dr. Carlos. Discutimos, temos que dar uma mão lá, tentar entrar. Ficamos de fora há muito tempo, e só conseguimos por alguém aqui. Não sei, se falar quarenta dias pode ser que esteja errado, mas demoramos a entrar aqui. Quando entramos, de tanto conversar com o Alvarez e procurar na delegacia, esse pessoal ajudou. Quando veio para cá, indicamos o Malvezzi para vir, que era o que conhecia o cara. Mas esse tinha preparado um dossiê terrível, dedurando meio mundo. A informação que era realmente um reacionário. O Alvarez, não é por aí, o Alvez está apenas ajudando. Eu não sei, esse relatório o que deu, talvez até tenha alguma informação através de algumas atas. Mas a informação que temos é que ele dedurou muita gente. Aí começa o Alvez, que foi abrir um espaço para tomarmos conta. Ele tinha uma escola. Vamos criar um cargo, formar uma ala junta, por gente só nossa. Não sei quanto demora esse trabalho de junta.

C – Sei.

Miguel – Cós conseguimos que viesse para cá o João Vicente, junto com o Malvezzi e o Dantas.

C – O João Vicente já trabalhava com vocês?

Miguel – Já tinha concorrido as eleições, em 1961 e 1963. Fica o Dantas, o Malvezzi e o João Vicente. Eles não se conformaram em indicar os três como junta e indicaram o inspetor do trabalho para ser interventor. Como ele não entendia nada, eles administraram o sindicato. Mas as coisas mais importantes, tinha que falar com esse inspetor. Toca-se isso há muito tempo, e esse cara fica até as eleições. Só que ele não atrapalhava o trabalho dos companheiros nossos. Tanto até que foi feito campanha salarial com a participação dele. Talvez fosse até importante ter encontrado uma das maiores assembleias em 1964, no final. Nessa rua não cabia ninguém, como eram os próprios trabalhadores dirigentes. Havia toda aquela militância. O que se fazia aqui era brigar pelos trabalhadores, lutar. O pessoal que dirigia não ficou mal visto, e ele dirigia a assembleia, essa figura.

C – Ele presidia a assembleia?

Miguel – É, ele presidia. O resto se podia fazer, mas essa parte era dele. Lembro-me das negociações, se deram de forma violenta. Foi uma coisa que pegou 8% além da inflação. Jogamos pesado com o Ministro Bulhões, Gouveia de Bulhões. Foi feita uma reunião e ele estava em São Paulo, hospedado no Othon Palace. Nós em campanha salarial e eles diziam que não podiam dar. Tinha que dar, porque era costume, tradição, categoria de luta. Veio para São Paulo sem o Ministro do Trabalho diminuir, o Arnaldo Susseking. Fiquei sabendo, e fui lá no Alvarez e, fui informado, não conheço esse cara, dizem que foi advogado da CNTI. Era um cara muito bom, e é o Ministro do Trabalho. Muita gente me ouviu falar com ele. Ele ligou ali na federação e descobriu até o voo que ele vinha e fomos espera-lo no aeroporto. Nós em negociação na Delegacia do Trabalho. Ele chegou e o delegado queria encerrar, não queria nem discutir campanha salarial, vai ser o que determinou e acabou. Ele chegou e o Alvarez já me apresentou. Eu sou o representante da Internacional dos Metalúrgicos. Sou metalúrgico de São Paulo. Recebi um telegrama da própria área internacional, tinha mandado para ele que tinha que dar uma atenção aos trabalhadores. Ele pega a pasta e mostra. Eu recebi um telegrama muito importante da Internacional dos Metalúrgicos, e ele ia de férias. Aí confessa, ia lá para Bertioga, no início da Colônia de Férias do Sesc, ia passar uns dias. Mas ele não podia ir sem resolver um problema aqui. Começamos as discussões, ele se hospeda no hotel e falo, ou resolve ou vai complicar. Esse pessoal não vai pedir para não fazer greve, se não der vai ter greve. O interventor falou a mesma coisa, por incrível que pareça.Fui informado que o Bulhões está em São Paulo, vou tentar localiza-lo e o aviso. Fomos para a federação, eu e o Alvarez, só. No dia seguinte, telefonaram dizendo que está no Othon Palace, marcou uma reunião no dia seguinte conosco. Chegamos com toda a equipe e reunimos todos que eram interventores, nas várias cidades. Ele intermediava a coisa. Se esse pessoal não tem condições de segurar, a categoria vai a greve, se não abrir mão e conseguir um aumento maior, este é um problema deles! Ele falou, a polícia civil está, está o exército. O pessoal todo se revoltou, então vamos entregar esse negócio. Ninguém mais quer ser interventor. Falei, espera, vamos ver se sai alguma coisa. Chamei o inspetor de lado e falei, o pessoal da nossa posição está revoltado com o nosso interventor, politicamente vai ficar queimado se não vamos jogar em nada. Entrega e vocês decidam que vão fazer. Ele falou, vou ver o que consigo. Sei que a reunião acabou muito chata, até preciso pegar o Joaquim e ver se ele lembra de alguma coisa. Saí e o Vicente falou, o jeito é levar para o Tribunal. Não tem jeito de segurar com o delegado. Eu falei, mas tem que fazer alguma coisa. Todas as datas marcando assembleia, aquela movimentação toda, quando no Tribunal, fomos a julgamento. Ele deu mais do que a inflação, não me lembro o percentual. Sei que quando nós chegamos, não conseguimos entrar quase na rua, era impossível tanta gente dentro do prédio e fora, de tanta participação. Foi um momento importante, mas toda a equipe chegou a fazer a carta de demissão para entregar a renúncia.

C – Não tinha o pessoal da antiga diretoria, estes não apareceram?

Miguel – Não, não apareceu ninguém. Ainda estava muito fresquinha a coisa. Quando foi o ano seguinte, houve as eleições. Se discutia muito de fazer uma chapa com a participação de todos que quisessem. Tenta se fazer a chapa nessa equipe nossa, já participava o Waldemar Rossi em 1963. Ele não havia concorrido as eleições, mas depois participa conosco, era membro da JOC. Estava se integrando na nossa equipe, mas quando veio as eleições, não quis concorrer. Ficamos de formar a chapa, com o Joaquim, o Malvezzi, o Dantas. O Joaquim na cabeça como presidente e o Cremiltre não quis concorrer por nada. Praticamente todos que haviam sido interventores, menos o Isalino Canavezzi. O Bernardino concorre, o Malvezzi, o Cremiltre, não.

C – O Malvezzi tinha sido interventor em algum lugar?

Miguel – Não, ele tinha participado aqui.

C – Só aqui?

Miguel – Só aqui, mas não como interventor. O Malvezzi não foi interventor, foram outros. Primeiro foi o Dr. Carlos e depois os inspetores que não recordo os nomes. Teve as eleições com chapa única, participaram elementos até alguns que tinham sido caçados. Otávio Siqueira, que havia sido caçado e era da diretoria anterior. Participou até companheiros de outras correntes políticas, que prefiro não dizer aqui o nome do partido. Também concorrendo ao conselho fiscal. Foi feito uma chapa única, com o que havia de mais participação no momento. Começa propriamente o trabalho da equipe. Só que esses interventores, nas suas cidades. Houve eleições aqui, você vai até poder averiguar isso. Quase acontece a liberação para as eleições. Desde que foi possível começar a estruturar, o nosso pessoal já tentou liberar os sindicatos. Fazer eleição em São Bernardo, em São Caetano. Todos eles ganharam muita simpatia das pessoas, até da militância, que tinham sido caçadas. Cremiltre realiza um bom trabalho, forma uma grande chapa em São Bernardo, com Afonso, que foi até depois diretor e presidente, depois foi até interventor, a pedido de Lula, no início de 1987. Joaquim organiza também, deu uma boa equipe. Belarmino, também, organiza uma boa equipe em São Bernardo, Sorocaba e Osasco. Esse pessoal prestou um bom serviço ao sindicato. Viemos para cá, já com alta experiência, porque tinha como administrar. Forma uma equipe mais ou menos coesa. Em 1965 começa a correr novamente. As lutas já não haviam como na forma anterior. A luta toda que prende mais o sindicato são as campanhas salariais, nessa época, tudo ia para o Tribunal. Patrão não discutia, fazia pauta e ia para a mesa de negociação eles nem marcavam nada na FIESP e já ia para a delegacia. Chegava lá o sindicato ia fazer uma justificativa de ponto por ponto e quando terminava eles, não, nem justificava. Não vamos conceder nada, davam os centavos do camarote. A repressão continuava grande, ia para o Tribunal e dependia o que  ele dava.

C – Como era a repressão da categoria nas fábricas, Miguel, pessoal começou a invadir para tirar trabalhador, como era isso?

Miguel – Bem, todos esses detalhes, não conheço a dedo. Teríamos que pegar mais alguém para que pudesse ajudar. Sei que vários companheiros que eles descobriram que tinham participação em política, iam buscar dentro da fábrica. Não esperavam nem sair, porque tudo facilitava a repressão. O patrão concordava, o trabalhador tinha medo, tudo facilitava a repressão. Isso também atemorizava mais ainda até a participação no sindicato. Eles perseguiram mesmo foram os cabeças. Eu não vi ninguém nessa situação, mas o contava que era verdadeiro.

C – Se comentava isso aqui dentro do sindicato também?

Miguel – Quando sabia, se comentava. Aconteciam fatos que ficávamos sabendo. Não havia divulgação de nada, então você ficava sabendo não é hoje. Acontece um fato e naquele tempo você não sabia, você ia saber depois que alguém vinha aqui falava, foram outro dia lá, prenderam uns caras na fábrica. Mas era assim, se ia saber quando já tinha ocorrido, não era imediato.

C – Inúmeras coisas, Miguel, que vemos hoje e isso você sabe melhor do que eu, que o Joaquim se transformou num bicho papão dentro do sindicalismo brasileiro.

Miguel – É.

C – Tudo de ruim é encarnado na figura do Joaquim e ele é o grande bicho papão.

Miguel – É verdade.

C – A grande acusação que se faz é exatamente o fato de ele ter sido interventor em Guarulhos.

Miguel – É, mas tem até uma confusão, uns falam que ele foi interventor aqui.

C – Não e tem mais, eu já li que tinha sido interventor em São Bernardo.

Miguel – É, interventor aqui. O Joaquim é pichado como um cara que denunciou os ativistas, com influência do Dr. Carlos. Ele não era nem interventor aqui. Tudo que houve de ruim passou-se através do Joaquim. Isso em política é fácil de entender. Se para matar a cobra você tem que bater na cabeça, então o problema era esse. O Joaquim era uma figura que começa a crescer e ter coragem de dizer as coisas e realizar. Então é isso, tem que bater. Se você pegar alguém, começar a contar a história do Joaquim, é a figura que tem a mesma cara que tinha antes de ser diretor e até hoje é assim. A figura que ajudou todos aqueles que tiveram problemas internos. Ajudava com alimentos, aonde ele sabia que estavam as pessoas. A mesma coisa quando morreu o Plácido, que foi internado com outro nome e na hora que morreu vieram procurar o Joaquim. Ele falou, não é isso. Porque ele tinha duas casinhas, parece que em São Miguel Paulista. Se interessasse com o nome que ele foi registrado não podia regularizar a situação da mulher. Vieram aqui e o Joaquim falou, não senhor o que é isso, eu vou e pôs advogado, foi atrás, ajudou-os. Ele é muito humilde, se falar com ele, ele fala o caso, não vai ficar falando. Mandou buscar o aparelho nos Estados Unidos, tinha que ter um sistema de gotas caindo e líquido no local que se deu o câncer na pele, depois é que foi para a espinha. Então o aparelho dos Estados Unidos. Logo antes do Joaquim eleito, o filho dele imediatamente passou ser empregado aqui, com dificuldades por causa do próprio. Todos os que ele pode ajudar, ele ajudou. Como ele cresceu no movimento sindical, tinha que ser a figura a ser crucificada. Mas todos os que ele pode ajudar, ele ajudou. Eu não teria a menor dúvida de afirmar que o Joaquim nunca entregou uma pessoa. Quando perguntava, ele dizia, eu não sei, de forma nenhuma. Ele iniciou lutas, desde que assumi aqui, constantes. Contra a ditadura, com a repressão. Denúncias, críticas, de brigar com o Delegado do Trabalho. Sempre com ele, era o primeiro. Logo vem em seguida o General Gaia. Ele declarou, é general de pijama, não conhece nada. Era uma briga constante. O Joaquim sempre realizou o Primeiro de Maio, em todo o período em que foi presidente. Nunca deixou de comemorar, de batalhar. Fica uma imagem negativa, mas é por causa do problema político. Tinha que bater na cabeça, é uma figura que não tomou em 1965. Houve uma grande crise de desemprego, do setor automobilístico, que afetou todos os setores. O governo também reprimiu vários setores econômicos com financiamentos, havia muita mamata. Lembro-me de um grupo, o Jaffer, que foi presidente do Banco do Brasil. Foi feito greve em 1965 às toneladas, muitas greves ou atraso de pagamento, por vários motivos. É que não está registrado, catalogado.

C – Você tem algum documento sobre isso?

Miguel – Isso que precisava, não conheço sinceramente que tenha alguma coisa, mas foram muitas greves em 1965.

C – O sindicato não tem nenhum documento?

Miguel – Nada. Lembro-me de ter visto algumas fotografias do João Vicente em porta de fábrica em cima de um caixote. Quem comandava essas greves, era ele e o Malvezzi. Deu muito fechamento de empresa, o grupo siderúrgico. Um deles fecha várias comissões, o Martins Ferreira e outros, que atrasava pagamento. Tiveram muitas greves, nós fizemos passeatas do grupo Jaffer, saímos daqui da porta do sindicato até o Palácio Nove de Julho aqui no Parque D. Pedro, tomando conta da rua mesmo. A polícia não queria, foi organizando, foi saindo. Era para conseguir os direitos dos trabalhadores. Não tínhamos tantos aqui, tínhamos a que era uma empresa e Santa Olímpia. Devíamos ter duas empresas. Grande e forte era o grupo do Jaffer, em Mogi das Cruzes, que depois virou a São Caetano. Eles tinham três fábricas, mas em São Bernardo. Como esse era o principal sindicato, quem organizou o movimento fomos nós, com a presença do Joaquim e tudo. Passeata, isso tem fotografia. Realizamos passeatas, estava sempre junto, sendo representante da Internacional em Mogi das Cruzes. Fechou a cidade quando fomos lá. O pessoal de São Paulo, com carro de som. Ele era chamado sempre, era um cara que tinha paciência com essas coisas, sabia fazer. Fez vários movimentos em 1965, foi um ano de paralização, desemprego.

C – Será que não teríamos nada disso aqui no sindicato, ata de um acordo, que provem que estamos falando é verdade, isso é fundamental?

Miguel – Sabe uma pessoa, nos damos bem, mas nem tanto, é o João Vicente. Posso falar com ele, não sei se lembra. É uma grande figura a nos ajudar, também difícil de lidar. Vou anotar, deixar na minha mesa, em cima, um lembrete e vou falar com ele. Pessoal vai ler, eu cobro isso demais, mas, e no papel? Tem que estar no papel. Aquele período já não tinha, só passava por aqui. Ajudava nas outras áreas, já estava se desenvolvendo. Em fim de 1964, fiz uma viagem para o Norte e Nordeste. Fiquei horrorizado com as intervenções. Os sindicatos pequenos, pessoal com um medo. Já tinha alguém iniciando junto, começa a eleger as diretorias, depois de 1965. Quando volto, já foi possível reunir algumas pessoas, me contar o que havia acontecido com eles. Ir para a porta de fábrica, reunir os sindicatos, que estavam fechados. Para mais de ano ninguém queria entrar lá. Fui cuidar da área metalúrgica, mas não teve como. Tive que conversar também com pessoas de outros sindicatos, que precisam de falar com alguém e eram esfacelados.

C – O primeiro trabalho da FITIM foi esse, tentar reorganizar os sindicatos?

Miguel – Metalúrgicos do Brasil. Tivemos êxito. O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Porto Alegre, companheiro Mesquita. Foi presidente 25 anos, os caras não têm nem a foto dele. O Calixto era um ótimo dirigente. Até uma participação política como ele, partido socialista e tudo, sempre faz parte. Fiz uma viagem ao Norte, em vários estados. Fiz a relação e falei, pelo menos tem que liberar esse pessoal para dirigir o sindicato. Compensa se querem acabar com isso e abrir uma certa possibilidade de conversar com o Ministro, sempre que fosse importante. Ele atendeu dando uma relação. O Mesquita concorreu a primeira eleição depois da intervenção do sindicato de Porto Alegre. O companheiro José da Costa, em São Luís do Maranhão, o Calixto em Recife. Todos concorreram a eleição do sindicato depois da intervenção. Eu falei, vocês vão liquidar com tudo. Mas não tenho condições, falei. Pelo menos alguém que o trabalhador comece a dar crédito e que tenha um operário dirigindo o sindicato. Se não vocês estão liquidando, já torraram tudo. Porque ninguém acredita em ninguém, não vai pensar que acreditam na revolução. Também não tem ninguém no sindicato dele. Aceitou, fiz uma relação. Várias pessoas que tinham sido caçadas puderam concorrer, até com algum envolvimento político. Foi uma maneira de tentar reerguer. Ajudei muito aqui na área do ABC, eram sindicatos fortíssimos. Cremiltre, veio o Afonso, o Bernardino, depois o presidente. Santo André foi mais ou menos, era o Casa Grande. Tentávamos ajudar, tinha que levar os trabalhadores. O que a FITIM fez, foi tentar reorganizar os sindicatos do Brasil todo, eu viajava direto. Lembro-me que teve noites que se eu dormi em casa cento e cinquenta minutos, foi muito. Tinha que fazer reuniões e ainda era uma fase de iniciação da minha vida sindical, mais concretamente. Era ativista, mas não tinha experiência. Pelo menos tinha mais do que aquele que estava iniciando. Tentei ajudar em tudo que pude, fazia palestra a minha moda, curso. Comecei a querer ensinar o pessoal e ajudei muita gente.

C – Tinha espaço junto ao governo, mesmo depois do golpe?

Miguel – Com quem?

C – Com o Ministro.

Miguel – Só com ele, e fazia questão. É difícil. Ele sai depois de dois anos, não aguentava mais. Falou numa reunião, marquei uma audiência com ele em nome da Internacional, mandou entrar e fechar a porta e falou, primeiro eu vou conversar aqui com ele. Ele falou, não adianta, perco todos com os ministros. Vejo as coisas, mas não adianta nem falar que sou derrotado, não aguento mais, vou sair. Falei, se você sair vai ficar pior. Mas também não vou morrer aqui com esses caras, você não tem ideia de como são as discussões. Não fica muito ruim, será que não consegui nesse período ter alguém que pudesse ter a mínima aproximação. Não ter nem como falar, operário era broca, agitador, tudo que podia pensar de ruim. Ele era o único cara. Ele sai, ele pede demissão. Fui exonerado do cargo, fora da função. Só que ele arruma um lugar para mim no Tribunal Superior do Trabalho. Mas ele foi o cara que mais deu a mão para nós, no período. Podia ligar para a casa dele à noite, qualquer hora.Só que tinha que dizer quem era. Se falasse Sindicato dos Metalúrgicos, ele não atendia. Se falasse o nome, ele atendia. Tinha combinado a forma de poder atender, os outros não falavam com ninguém. Se falava com o Bulhões. Falava, claro, se não der um jeito, faço de outro. Era uma figura que havia vivido com os trabalhadores através das confederações. Fomos nós que conseguimos amenizar muitas coisas. A mesma coisa que eu pude chegar até ele várias vezes e o sindicato aqui, acho que outras pessoas puderam. Ele conseguiu amenizar a grande crise naquele momento.

C – Vocês fazem as eleições em 1965, o Joaquim ganha em chapa única?

Miguel – E toca bem o sindicato. Começa a querer organizar. Mas havia muitas greves, os problemas foram seríssimos. Mas ia na frente de tudo. A equipe era jovem e disposta a querer fazer. Então era vinte e quatro horas por dia que precisava. A pessoa estava sempre disposta a ajudar, fazer, organizar. Ele trabalhou muito. Foi uma equipe que começou em 1965. Começamos a ter posse depois dessa eleição. Um cara que foi diretor aqui já tinha alguma possibilidade, atuava, era o Antônio Marques. Tinha até que recomendar, mas viajou para os Estados Unidos, foi trabalhar de ferramenteiro lá, uns cinco anos. A Ford, precisando de ferramenteiro se comunicou e acabou descobrindo o endereço dele. Mandou chamar, pagou passagem. Ele tem dois filhos casados lá, da primeira vez que ele foi. Com a abertura em 1964, ele era 2º secretário. É uma figura interessante, podia ter conversado com ele para o seu trabalho. Ele já ajudava-nos aqui. Tínhamos outros que haviam sido diretores também, então as coisas ficaram mais livres, um pouco mais fáceis. Vinha mais vezes, não constantemente. Depois, ele começa a adoecer, não lembro o ano que morreu. Já havia contato.

C – Plácido também?

Miguel – Não, o Plácido nunca apareceu. Quando vamos saber do Plácido, ele está no hospital e morre.

C – São Paulo, 16 de agosto de 1989. Depoimento de Miguel Huertas. Miguel, tem umas coisas interessantes que eu queria pegar, o Joaquim era da Matarazzo e o Plácido? Eu queria recuperar isso, deve ter alguma razão dessas pessoas terem saído da Matarazzo.

Miguel – É, eu acho que isso você vai pegar bem no depoimento do Joaquim. Primeiro, me parece que era uma empresa com grande participação sindical, número de sócios relativamente grande e com boa participação. Acho que isso é que revelou essas três lideranças, não tenho mais detalhes.

C – Alguma tendência política que estivesse ligada ao sindicato nunca fez um trabalho que essa fábrica fosse prioritária?

Miguel – Não. Havia aqui um esquema das firmas pilotos para greves. A Matarazzo era uma no Brás. A Metalúrgica Paulista, enquanto esteve no Brás. Havia a elevadores, a Villares, no Cambuci. Na Lapa, havia a Martins Ferreira e outras empresas de porte médio, não havia grandes para aqueles lados. Em cada região havia firmas piloto, empresas que era mais fácil de haver trabalho sindical. Era mais fácil parar com todas aquelas. A Matarazzo era uma delas, peça chave nesse esquema da diretoria.

C – O sindicato tinha trabalho de comissão de fábrica?

Miguel – Não, que houve comissão, não. O que havia era os delegados sindicais. Fui delegado sindical, era um total de quatrocentos e poucos de carteirinha vermelha. Hoje é azul. Esse trabalho durou uns quatro anos. Depois a direção resolve, antes daquele ato de 1964, criar comissão. Faz-se uma reunião com os delegados e termina com o quadro. Vamos criar comissões de fábrica. Ali não conheço o trabalho, que também não deve ter durado muito. Não deve nem ter completado, nem ter iniciado bem, porque acontece logo em seguida o golpe de 1964.

C – Mas já falava em comissão de fábrica?

Miguel – Sim. O grande momento dos delegados, quando começa a organizar. Tinham palestras pelo menos mensais. Era interessante, o pessoal me parece até um pouco mais que hoje, mais participativo. Tinha reunião, estava todo mundo aí. A ausência era mínima, o pessoal era mais aguerrido, mais combativo.

C – Era outro momento. Acho que conta também uma coisa, Miguel, as pessoas moravam mais perto. Hoje o trabalhador mora cada vez mais longe.

Miguel – E as fábricas eram mais perto. Eram na Mooca, Brás, as grandes concentrações metalúrgicas. Na Lapa existia, mas lá sempre teve muito próximo em termos de transporte para o centro. Em Santo Amaro, não existia nada. Essa periferia de hoje não existia, as empresas eram por aqui. Por isso que falei, Brás, Mooca, Belém, Lapa, Cambuci. Calcule daqui do centro para o Cambuci, vai a pé, são várias travessas. As fábricas eram por aqui, essa é que era a diferença.

C – Isso conta muito também. Mesmo o trabalhador que trabalha em Santo Amaro, hoje ele não mora ali, ele mora bem muito para lá.

Miguel – Se não mora até em município vizinho.

C – Pois é.

Miguel – Como acontece aqui para o lado leste. Tem um pessoal, nós falamos que o pessoal trabalha, mas mora onde? Bem para lá de Itaquera. Mora em Suzano, todas aquelas cidades para lá, em Poá e por aí. Mora em outros municípios. É difícil mesmo.

C – É muito difícil um cara sair da fábrica e vir para uma reunião.

Miguel – Vê a Matarazzo, a sua participação. Não sei se você sabe, mas ela fica no terceiro piso, é a terceira travessa à direita da Rangel Pestana.

C – É ali pertinho do Centro de Memória?

Miguel – Então é para cá de vocês.

C – É para cá mesmo.

Miguel – Vê que para vir aqui não pega condução, vem a pé. O pessoal vinha a pé mesmo.

C – E devia ser mais rápido.

Miguel – Muito mais rápido. E era mais barato, que é o mais importante, sempre foi.

C – Acho que isso conta muito na militância. Mesmo as sedes também são perto das fábricas, mas o trabalhador não mora nas fábricas.

Miguel – Mas por isso que se criam as sedes. Eles criam Lapa, Ipiranga, que funciona junto com os têxteis. Na Lapa, acho que eram só metalúrgicos, estritamente. Eles criam no Ipiranga, ali na Silva Bueno e na Lapa, não me lembro do local.

C – Já tinha como proposta?

Miguel – Já funcionava.

C – Já funcionava?

Miguel – Já atendia os trabalhadores, reunia nesses locais. Era alugado. Foram duas que já existiam como prédio próprio do sindicato, Guarulhos e Osasco.

C – E depois desmembra. Antes do golpe já existia essa sede da Lapa e Ipiranga funcionando?

Miguel – Existia funcionando.

C – É bom, parece que as propostas de sede surgiram como uma coisa nova em 1968.

Miguel – Não, elas já existiam.

C – Já existiam?

Miguel – Já existiam, é que depois do golpe, ele fecha.

C – O golpe fechou e não abriu?

Miguel – Não abriu, porque também já não se conseguia organizar nada. Era tudo proibido, difícil. Fazia-se muita coisa, em relação ao que era o período certo. Era perseguição total, tudo o que se fazia, o que se respirava, um controle rigoroso. Em relação ao período, se fazia muita coisa, mesmo sendo proibido. Mas as sedes não reabrem. Só mantêm Osasco e Guarulhos.

C – E quando aqui começa o pessoal a voltar para o sindicato. Faz eleição, assume, como é a frequência, igual ao que era antes de 1964 ou reduz?

Miguel – Não, reduz muito. Toda aquela militância preparada pela diretoria anterior, tem uma preocupação aqui no sindicato. Está sempre desconfiada. Não tem uma grande participação, se tem que fazer todo um trabalho novo, que é muito difícil.

C – Mesmo no dia-a-dia?

Miguel – Não, no dia-a-dia para as necessidades, é a necessidade diária. Antes frequentava muito quando era delegado. Havia uma coisa constante, o pessoal passava por aqui. Entende, aquele negócio assim que você falou, acho que era correto. Como era perto o pessoal vinha. Passava por aqui para ir embora. Na Villares, uma firma tradicional de luta, no Cambuci, a Matarazzo e outras. Quando começo a ter uma participação maior, em torno de 1960. Eu trabalhava no Jabaquara, era o meu caminho. Tinha que vir até o centro, para pegar outra condução para ir para Formosa, facilitava vir. Se tivesse outra condução do Jabaquara para casa, talvez tivesse só uma vez ou outra, não seria tão constante. A minha vinda aqui era constante. Mas aquela militância recua, deixa de participar.

C – E o sindicato faz com as suas publicações no seu dia-a-dia, como era isso aqui dentro?

Miguel – As publicações são bem reduzidas. Não havia como poder atacar o governo. Então a orientação se limita muito, isso vai se diluindo. Continua fazendo algumas, continuava aqui conosco, aqui na diretoria. Se fazia uma coisa ou outra, um boletim. Saia o jornal, depois de tantos meses. Quase não tem informação para a categoria, as coisas são mais verbais. Começa a mesma tradição de continuar atendendo ao trabalhador. Anuncia direto, principalmente a diretoria anterior. Mesmo naquele tempo, ela cria militância, sim. Mas não era diretor, quem ia era aquela militância, que eles criaram em torno de 1963 e continua depois com o interventor. Mas a diretoria fica na espera das reclamações, dos problemas. Passa a cuidar, ir atrás. Mas quanto a divulgação material, é um pouco difícil. Isso você vai poder constatar, porque tem tudo no arquivo. Os jornais, tem todos os números que saíram.

C – Isso abre também um espaço para se constituir a oposição?

Miguel – É.

C – É nesse momento que a oposição se constrói efetivamente nesse espaço, meio nebuloso?

Miguel – O que cria não é um espaço para a oposição. Ela existe naturalmente. O que havia era uma revolta com esse pessoal, que foram interventores. Queria ou não, os anteriores acabaram influindo em criar realmente uma oposição. Mas a situação era difícil. Você não cria material, nada de novo. Fica o pessoal esperando, até numa inércia bem grande, apesar de internamente estarem administrando honestamente. Mas não faz nada politicamente, então também não cresce a base. O pessoal gostava até da diretoria, tanto que quando teve eleições em 1965, ganha. Em 1967, a oposição já existe, mas ganha bem.

C – Com uma chapa?

Miguel – Ganha até bem a eleição em 1967. Por ter taxado de interventor, ele ganha bem, porque a base gostava de trabalho, da diretoria, da liderança do Joaquim. Mas não tem como, não é fácil. Ninguém fazia material nenhum, o que acontecia nos sindicatos, era aqui. Mas eu não me lembro quando se cria o MIA.

C – Em 1967.

Miguel – Em 1967. Mas aqui se fazia alguns encontros. Os têxteis vinham reunir, os bancários, mesmo antes de se criar o MIA. Já havia como de costume fazer as coisas aqui. O que saia era uns documentos ao governo. Eram feitos com a presença e liderança do Joaquim. Quem fazia essa publicidades era ele, não havia outro órgão que convocasse, CGT, qualquer coisa.  Também não tem uma participação, que sempre foi mais efetiva era o sindicato mesmo. A oposição não se cria por causa desse espaço, desse vazio. Ela se cria porque era natural. Existia uma militância anterior grande, que foi afastada pelas pessoas que dirigiam. Ela também fica ressabiada com tudo isso e procura ir se organizando para participar. Ela tinha interesse em ajudar as pessoas que vieram para cá, como fosse em nome do governo. No fundo, a ideia foi uma. Ao mesmo tempo que temos ideia de ajudar, tem a de concorrer. Dá a impressão de haver uma continuidade. Mas a ideia inicial não foi, porque ninguém sabia o que ia acontecer na frente. A ideia inicial foi ir para os sindicatos e ajudar a resolver os problemas, sem deixar espaço para interventores. Não que houvesse divergências políticas. Você vai pegar por parte dessa gente, não existia documento prejudicando quem quer que seja. Mesmo que tenha sido publicado, a oposição tenha dito. Na verdade, não há essa coisa do Joaquim, Bernardino de um lado, do outro. A oposição foi natural.

C – Como é que se dá o MIA aqui? Porque ele era antes da eleição de 1967.

Miguel – É.

C – Com essa situação, como passa pela categoria e aqui dentro mesmo?

Miguel – O MIA começa aqui dentro. O Joaquim era liderança e o que ele decidisse todos aceitavam. Se não gostasse, tinha que engolir, porque ele que decidia e acabava tendo que respeitar, mesmo que não desse apoio. Começa a convocar os sindicatos mais ativos, os têxteis, bancários. Nessa época os bancários eram muito chegados aos metalúrgicos. Os outros importantes mais chegados, os químicos. Vinham através do pessoal lá do MOPS, o Valdomiro. O Joaquim conseguiu trazer todos esses que tiveram problemas, junto. Como também influi no interventor de Guarulhos. Era um cara ativo, tinha um discurso razoável, mas era combativo, tinha mais coragem de denunciar. Ele que servia para os outros poderem participar. Mesmo que não estivesse na frente, tinha quem ficava para levar as bordoadas. Ele conseguia liderar essa gente. Então, o Joaquim cria o MIA. Vem depois o pessoal de Osasco. Antes de vir o Ibrahim, que passa a ser o presidente, primeiro vem o Henos, hoje presidente da Federação dos Aposentados. Mesmo os outros presidentes tiveram um bom relacionamento com o Joaquim. Tinha o Afonso, que era outra liderança boa que surgia em São Bernardo. Vinha o pessoal de São Caetano. Se agrupava aqui as discussões. Primeiro de Maio, se discutia aqui. O MIA foi discutido aqui. Os documentos ao governo eram aqui, tudo na presença do Joaquim.

C – Mas o MIA foi complicado, mesmo no dia-a-dia?

Miguel – Não, no dia-a-dia para as necessidades, sim. É a necessidade diária. Antes, frequentava muito quando era delegado. Era constante, o pessoal passava por aqui. Aquele negócio que você falou. Acho que era correto, como era perto o pessoal vinha. Passava por aqui para ir embora. Na Villares, que era uma firma tradicional de luta. Aqui no Cambuci, a Matarazzo e outras. O pessoal passava por aqui para poder ir embora. Quando começo a ter uma participação maior, em torno de 1960. Trabalhava no Jabaquara, mas era meu caminho. Tinha que vir até o centro para pegar outra condução para ir para Formosa, facilitava vir. Se tivesse outra, não seria assim tão constante. Mas então não tem, toda aquela militância recua, deixa de participar.

C – Não, nós falamos de Osasco e do MIA, eu citei greve de Osasco, greve de Contagem…

Miguel – Tiveram muitas greves por fábrica. Não aconteceu em Osasco por isso. Havia alguns movimentos, não grandes, mas houve alguns. Não ocorreram só lá, que pegou mais. É o caso de Osasco e Contagem. O sindicato aqui esteve, principalmente na de Osasco, em todos os momentos, mesmo para lutar contra a intervenção. O Passarinho era Ministro na época, estivemos lá, o Joaquim, a maioria do sindicato de São Paulo. Foi algo isolado. Lembro-me que o Delegado do Trabalho era o General Gaia. Nós o fizemos ir a Osasco para discutir. Não era delegado daqui que nós queríamos discutir, era lá. Não tínhamos condições de segurar, no fundo. Ao mesmo tempo que temos a ideia de ajudar, temos a de concorrer. Dá a impressão de haver uma continuidade, mas a ideia inicial não foi. Ninguém sabia o que ia acontecer na frente. A ideia inicial foi ajudar. Ir para os sindicatos e ajudar a resolver os problemas, sem deixar espaço para os interventores. Para que não houvesse divergência política. Por parte dessa gente não existe nada de documentos prejudicando quem quer que seja, mesmo que tenha sido publicado. A oposição pode ter dito, mas na verdade é que não há essa casa de Joaquim, Bernardino de um lado, do outro. A oposição foi natural de se criar.

C – O sindicato faz como as suas publicações no seu dia-a-dia, como é que era isso aqui dentro?

Miguel – As publicações são bem reduzidas.

C – Sobre as publicações, realmente reduz muito. Não havia como você atacar o governo. Se não pode fazer, então a orientação se limita muito, isso vai se diluindo. Ainda continua claro fazendo algumas coisas, aqui na diretoria se fazia uma coisa ou outra, um boletim. Saia o jornal, não sei depois de tantos meses. Não tem informação quase para a categoria, as coisas são mais verbais. Começa, mas também se mantém a mesma tradição anterior, de continuar atendendo ao trabalhador. Quando ele vinha procurar, anuncia direto. Principalmente a diretoria anterior fazia isso. Mesmo naquele tempo que ela cria militância. Mas não era o diretor que ia, quem ia era aquela militância que eles criaram em torno de 1963. Continua depois de 1963 com o interventor, mas a diretoria fica na espera das reclamações dos problemas. Passa a cuidar, ir atrás, mas quanto a divulgação material é um pouco difícil. Isso você vai poder constatar, porque tem tudo no arquivo. Os jornais tem todos os números que saíram.

Miguel – Ele foi importante para denunciar.

C – Mas internamente, teve posições complicadas. Acho o máximo que isso venha à tona com o Primeiro de Maio de 1968?

Miguel – Mas é porque já havia outros movimentos políticos, que não tinham interesse que esse pessoal fosse crescendo. Precisava destruir. Tinha as divergências. Desse pessoal, alguns já estavam dentro de alguns sindicatos, participando. Por isso que se dá o problema de 1968, na Praça da Sé, numa concentração de Primeiro de Maio. Mas mesmo que tivesse, era mais ou menos uma estratégia de quem está no poder. Você não conversa porque é da direita, não tem jeito você tem que conversar. É a forma de abrir espaço para poder conseguir as coisas e avançar. Mesmo que seja uma pichação de cara do governo. Mas se você não fizer, você dança. Que adianta se isolar dentro do sindicato, dizer não converso com esse governo, que ele é da ditadura? Não converso com o Ministro, porque é da ditadura. Não converso com o Presidente da República, porque é da ditadura. Não resolve nada, você necessita da contingência de se relacionar com essa gente mesmo que não goste. Essa era outra interpretação, que achava que era prestigiando o governo. Mas era a forma de ir abrindo os espaços, para poder naquele momento difícil negociar e fazer as coisas. Era uma forma, mesmo que muitos não aceitem, mas era a única viável no momento. Era de quem está no poder, por isso que se leva o Abreu Sodré para a Praça da Sé.

C – Uma das divergências era quanto a presença do Joaquim, não era?

Miguel – Era também a liderança que surgia, já havia esse problema. Os outros não foram interventores. Ninguém se preocupava com eles.  O Joaquim era a figura que estava crescendo. Então tinha que bater mais forte nele que nos outros. No Primeiro de Maio, quando não estávamos aqui, o Joaquim não estava, eu não estava, o Afonso não estava. Tínhamos ido para um congresso do setor de automóvel, na Itália, de passagem. Ganhamos um convite para participar de um seminário com os metalúrgicos do Canadá, que é o setor de automóvel dos Estados Unidos, perto de Nova Iorque. Estávamos lá, discutindo a questão econômica da América Latina, Brasil. Era interessante, antes de ir para o congresso mundial de automóveis. Quando ocorre o fato aqui, um amigo nosso lê o jornal, nos Estados Unidos. Olha, Joaquim, tem um negócio aqui. O Primeiro de Maio acabou em pancadaria, queimaram o palanque. Tentou-se ligar para cá, se informar. Mas o Afonso estava fora, Joaquim todos nós, eu também estava fora.

C – E quem estava representando o sindicato no Primeiro de Maio?

Miguel – Era o Bernardino, que pode te contar alguma coisa a respeito. Ele é praticamente o cara do sindicato nesse momento. Inclusive no palanque. Acho que também que levou alguma pedrada, o também é agredido.

C – O MIA era sobretudo o problema salarial contra o arrocho?

Miguel – É, contra o arrocho. Isso deu grandes discussões com o Joaquim, inclusive com o Ministro, o Susseking. Nessa época já era o Passarinho. Discussões gravíssimas com o Passarinho. Não sai publicando. A ponto de na Delegacia do Trabalho, com portas fechadas, a imprensa ouvia tudo. O Joaquim dizendo não, o senhor não vai fazer isso. Um grita com o outro. O Brandão, presidente dos bancários, junto com o Joaquim. Também era um que tinha suas militâncias, uma boa cabeça. O Joaquim falava com o Passarinho. Sempre me disseram que, em algum momento, o senhor tira as penas e mete a faca. O Passarinho quis comer o Joaquim. Briga ferrenha por causa do salário, do arrocho. Quando o Passarinho assume, estivemos lá. Era a mudança do programa do Fundo de Garantia. Se fala do MIA e tal. Antes disso, reunimos o movimento sindical para defender o problema da estabilidade. Fizemos uma concentração em São José do Belém, com mais cinco mil pessoas, bastante gente para a época. Mas quase ninguém falava. Eu que não tinha o dom da palavra, tive que falar vinte minutos. Ninguém abria a boca, o pessoal ia, mas não queria se expor. O Joaquim presidindo, eu falando, ele falou um pouquinho. Teve outros que falaram. Fizemos até um ato, uma concentração na Praça Princesa Isabel. Fomos várias vezes para o DOPS para liberar a concentração em defesa da estabilidade ali na Avenida Prestes Maia, na frente daquela estátua enorme.

C – Sei.

Miguel – Fizemos lá e em outros estados, em defesa da estabilidade. Fizemos o Passarinho explicar. Quando o governo quer criar o fundo de garantia, se baseia numa reivindicação feita num Congresso de metalúrgicos. Não temos anais desse de Recife, isso era importante saber. Então foi apresentada uma reivindicação de, como a estabilidade era uma folha morta da CLT, os trabalhadores reivindicavam que fosse depositado em nome deles o equivalente a 8%, como indenização. Quando fossem mandados embora, já teriam isso garantido. Tanto é que o Delfim informa isso. É reivindicação dos metalúrgicos, do Congresso de Recife. Não participamos, participei do estadual, não do nacional. Éramos uma equipe adversária, politicamente, ninguém quis nos levar lá. Não foi ninguém da nossa equipe. Sei concretamente que tinha isso, a estabilidade já acabou, vamos fazer depositar, fica garantido o dinheiro e tal. O Delfim vem com o Fundo de Garantia. Decidimos, discutindo com o Passarinho, que veio a opção. Mas essa não vale nada, não, mas pelo menos fica opção. Cria movimento, faz muita agitação. Está se fazendo reunião e agrupando os sindicatos, com boa participação dos trabalhadores, sempre. Teve movimentos grandes aqui, mas também não é esse diabo que estão pintando. O pessoal dependia daqui, tanto que nessa concentração de São José do Belém, e mesmo na Praça Princesa Isabel, veio pessoal do Rio, de outros estados. Eles não tem condições de fazer lá, vem aqui participar, algumas entidades.

C – E isso deve ter sido em 1966?

Miguel – Isso é. Porque o Fundo de Garantia entrou em 1967.

C – Certo.

Miguel – O movimento do Fundo de Garantia ajuda a criar o MIA. Já havia reuniões, tendo o arrocho logo em seguida. O próprio movimento se antecede ao MIA.

C – Na realidade, quando você pega a história do movimento sindical, se tem 1964 o golpe. Se tem alguma coisa em 1968, que é a greve da COBRASMA, de Contagem. Depois, tem em 1978. Esse período você não tem nada. Um dos objetivos que tenho é mostrar que se teve 1968, se teve 1978. Porque de 1964, não teve nada. Isso que você está falando é fundamental, porque estou retomando que teve aqui uma greve em 1964, teve assembleia de cinco mil trabalhadores na rua, isso é fundamental na minha construção.

Miguel – Teve também o problema da luta da estabilidade, com participação da massa, na São José do Belém. Era um lugar tradicional, a CGT reunia muito lá. A polícia não quis ceder a Praça da Sé, cedeu lá no fundo. Levamos muita gente para a Praça Princesa Isabel. Depois veio o MIA. Não foram só esses fatos, tiveram outros que antecederam. A greve de Osasco e a de Contagem, tiveram outras coisas antes disso.

C – Isso para mim é fundamental.

Miguel – Tenho participação grande na greve de Osasco. Fui chamado pelo Delegado de Trabalho, tinha que ir nas reuniões preparatórias da greve de Osasco. O delegado na época, esse general Gaia, me chamou um dia, falou, pedi a ata da assembleia de Osasco e está aqui o seu nome. Você disse que o governo mantém o arrocho salarial de fome. Eu falei, se está na ata é verdade. E você acha que é verdade? Não tenho certeza, porque o governo uniformizou, com os decretos quinze e dezessete, o reajuste para todo o Brasil. Se o salário é de miséria, o senhor pode manter. Não tenho preocupação nenhuma de responder, porque é verdade. Ele falou tudo bem. Estive nas assembleias, tanto que hoje somos muito amigos, eu e o Ibrahim. Desde que ele veio, nos encontramos e ele fala, você foi um cara que teve coragem. Eu não gostava, estava envolvido com a luta. Gostava, você era um companheiro, era o presidente do sindicato. Para mim não tinha diferença nenhuma, tinha que estar junto com você, como estive. Quando aconteceu a greve, ele me falou que ia acontecer. No dia seguinte, fui cedo, mas ele já não estava lá. Encontrei os outros, se vocês vão ficar preocupados, melhor não ficar aqui dando sopa. Então se manda. Fiquei lá até meio dia, depois voltei. Quando houve a intervenção, eu e o Joaquim, fizemos reuniões intersindicais em Osasco. Levamos para o general Gaia, ele falou, não é por mim, não faria a intervenção, mas tenho ordens superiores da Justiça. Trata do meu trabalho, tenho que decretar a intervenção, se não fizer, fazem comigo.

C – Você estava lá?

Miguel – Estava, e nós seguramos. A intervenção não foi imediata. Tentamos discutir essa questão, para não intervir várias vezes. Mandamos, lá em Belo Horizonte, falar com o ministro. O Passarinho, não, vou intervir. As pressões também sobre eles, eram muito grandes. Às vezes ele falava, vou fazer minha média política e não fazer, mas os outros não deixavam, exigiam e acabou. Eles eram para isso.

C – Na hora que o exército entrou na Cobrasma, acabou, não tinha mais chance, a intervenção já estava?

Miguel – Era, exato.

C – Já estava, se é a polícia você ainda tem como intervir mas se é o exército?

Miguel – O delegado me faz, nós ajudamos muito.

C – Isso é verdade, isso para mim é importante.

Miguel – Resgatam coisas anteriores, que houveram lutas também.

C – Mais que isso. Como era a data-base?

Miguel – Depois da decisão do tribunal, que valia passar a data-base. É a mesma, se está negociando, não chegou a um entendimento. Quando o tribunal decide, que mudava a data, não faz tantos anos. Teve um momento que o tribunal julgava. Nós perdemos por um julgamento do tribunal, e ficou sendo dia 1º. Era até o dia 12, mais ou menos. Numa negociação, os patrões aceitaram retroceder para 1º de novembro.

C – Na realidade perdeu-se um mês?

Miguel – Praticamente.

C – Perdeu esse mês?

Miguel – Tem uma outra coisa muito importante. Teve uma greve geral decretada pelo sindicato em 1965, na semana que antecedeu o Ato Dois. Teve o quinto, que foi o mais famoso. Antecedeu o Ato Dois uma greve geral aqui. Ela se dá num período, não ganha nome. O governo fez uma lei do arrocho nesse período, deixou uma válvula. Isso é importante, um cara que entendesse dessa questão. Ele deixa uma válvula que o sindicato deveria negociar até o seu último dia. Então o sindicato negociou, não fez acordo. Entrou em greve no dia seguinte, porque a lei permitia. Como terminava a data na sexta-feira, entrou no sábado. Fez greve sábado e segunda-feira. Á uma hora foi julgada. Só teve que encerrar naquela hora. O sindicato decretou greve geral em 1965, uma semana antes de anteceder o Ato Dois. Tanto é que veio um ministro aqui para ver se suspendia. É um direito legal, tem que obedecer. Estou obedecendo. Eles criam um dispositivo, que não era só o sindicato dos trabalhadores que podia pedir instauração de dissídio, os patrões poderiam pedir. Mas não pedimos, pedimos negociação. Os patrões também podiam pedir instauração de dissídio. Quando chegava, negociava, não resolvia. Os patrões podiam pedir, julgava e não podia ter mais greve. Criam, não tenho nem ideia de como ela está registrada.

C – Será que tem algum jornal do sindicato que tenha isso?

Miguel – Não acredito. As matérias, boletins, jornais que saíam, eram quase inexistentes. Não saia muita coisa nessa época, era muito difícil. Em todo caso, pode-se olhar. Isso se dá em 1965. Se você quiser anotar para depois procurar, quanto a greve geral, é nesse período.

C – Uma coisa que também acho interessante tentarmos recuperar, porque vai ao encontro com tudo que está mudando, é como o sindicato enfrenta, depois de 1968, o AI – 5 e as coisas que acontecem aqui dentro da categoria até 1978?

Miguel – Você tem que pegar várias pessoas, porque não vou conseguir lembrar tudo. Tem Joaquim, tem que fazer uma somatória de todas essas coisas, se dá muitos fatos.

C – Isso, tem que recuperar, porque inclusive muda a cara do sindicato.

Miguel – Claro.

C – Muda a forma como as pessoas veem o sindicato hoje, porque as pessoas não sabem o que é isso.  

Miguel – Não sabem nada.

C – As pessoas sabem, se fala do sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, ninguém sabe do que está falando.

Miguel – Naquele período, se houvesse alguma coisa de luta, francamente, se tivesse acontecido alguma coisa concreta, tinha que partir daqui. Como se recupera um órgão muito importante para o movimento operário, como o DIEESE. Quem recupera é o sindicato. Fechado, tudo abandonado, os móveis. O pessoal que elegemos tinha uma participação política, eu esqueço o nome da moça…

C – Tinha a Albertina?

Miguel – Rosa Albertina, uma figura importante. Essa desaparece. O sindicato vai, levanta, reergue, briga. Ajuda a organizar, faz tudo. TUdo que aconteceu de luta naquela fase difícil, se teve alguma coisa positiva, partiu daqui. Não houve outros movimentos fora, a não ser aquelas duas greves de Contagem, que já eram uma sequência de lutas pela estabilidade e também contra o arrocho.

C – Tudo bem. Porque isso abre também um espaço para se constituir a oposição. Nesse momento que a Oposição Sindical se constrói efetivamente, esse espaço meio nebuloso.

Miguel – O que cria não é um espaço para a oposição. Ela existe naturalmente. O que havia era uma revolta com esse pessoal, que foram interventores. Queira ou não, os anteriores acabam influindo em criar realmente uma oposição. Como a situação era difícil, você não cria material, nada novo. Fica o sindicato esperando que o pessoal venha para cá, numa inércia bem grande, apesar de internamente estarem administrando corretamente. Mas você não faz nada politicamente. Você também não cresce a sua base de ativista, o pessoal gostava até da diretoria, tanto é que teve eleições em 1965, ganha. Em 1967, a oposição já existe, mas ganha bem.

C – Com uma chapa?

Miguel – Ganha até bem, a eleição em 1967. Por ser taxada de interventor e tudo, ganha bem. A base gostava do trabalho da diretoria, da liderança do Joaquim. Mas não tem como, não é fácil. Ninguém fazia material nenhum. O que acontecia nos sindicatos por aí, acontecia aqui. Mas eu não me lembro quando é que se cria o MIA.

C – Em 1967.

Miguel – Em 1967. Mas aqui se fazia ainda alguns encontros. Os têxteis vinham reunir, vinham os bancários. Mesmo antes de se criar o MIA, já havia como costume fazer aqui. O que saia era uns documentos ao governo, reivindicando. Tudo dependia do governo. Eram documentos, feitos aqui na presença e liderança do Joaquim. Quem fazia essas publicações era ele, não havia outro órgão que convocasse, CGT, federações. Também não tem uma participação. Sempre mais efetiva era do sindicato mesmo. A oposição não se cria por causa desse espaço, se cria porque era natural. Existia uma militância anterior grande, que foi afastada por pessoas que dirigiam. A militância também fica ressabiada com tudo isso e procura se organizar para participar. Cria-se por isso, porque tinha interesse de ajudar as pessoas que vieram para cá, como fosse em nome do governo e no fundo acaba sendo.

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