Douglas Nascimento: A Vila Maria Zélia, fundada em 1917

por Memória Sindical. 21 jul 2017 . 18:54

Em 2017 a Vila Maria Zélia, a mais emblemática vila operária, e provavelmente pioneira , faz 100 anos. 

Entre o fim do século 19 e início do 20, com a industrialização brasileira e crescimento da população urbana, além dos problemas da carestia e das condições de trabalho nas fábricas, que deflagraram a Greve Geral, a questão da moradia dos operários também ganhou relevância fazendo com que alguns industriais criassem as vilas operárias, próximas às fábricas. Assim, ao mesmo tempo em que prestavam um algum tipo de assistência aos trabalhadores e suas famílias, ele adquiriam um controle ainda maior não apenas do tempo, mas do modo de vida dos operários.

A Vila Maria Zélia foi fundada em 1917, por um industrial tido como visionário e humanista, para os padrões da época, Jorge Street.

Para a construção deste projeto Street contou com o arquiteto Paul Pedraurrieux , que se inspirou nas vilas europeias e fez da Maria Zélia uma pequena cidade, com uma capela, uma farmácia, duas escolas, dois armazéns, praça, campo de práticas esportivas, coreto, consultórios médicos, ambulatórios e salão de festas.

A construção das casas seguiam a Lei 498 de 14/12/1900, referente à água e esgoto encanados, número de janelas, presença de um contrapiso para evitar o contato direto do morador com a terra e habitações distintas entre as famílias. Elas variavam de 74,75 m² até 110,40 m². Havia, ao todo, seis tipos de moradia:

Tipo A: Casa com jardim, quarto, cozinha, sala, banheiro e área de serviço – totalizando 74,75 m²
Tipo A-1: Casa com jardim, dois quartos, cozinha, sala, banheiro e área de serviço – totalizando 81,65 m²
Tipo B: Três quartos, cozinha, sala e banheiro – totalizando 74,75 m²
Tipo B-: Três quartos, cozinha, sala e banheiro – totalizando 81,65 m²
Tipo C: Jardim, entrada lateral, três quartos, cozinha, sala, banheiro, área de serviço – totalizando 110,40 m²
Tipo D: Jardim, varanda, dois quartos, cozinha, sala, banheiro e área de serviço – totalizando 91,12 m²

O total de casas era de 198. O critério para separação de famílias entre os diferentes tipos de habitação era o número de membros – quanto mais pessoas, maior a moradia. Os administradores também tinham direito a residências mais espaçosas. Além das casas destinadas às famílias, existia também um prédio destinado aos solteiros. Mas independentemente do tipo de habitação, todas as edificações eram de boa qualidade: chuveiro elétrico, água e esgoto encanados, calçamento nas ruas, assoalho, portas e janelas em pinho de riga (Pinheiro-da-escócia) da Letônia (madeira que não tem problemas com cupim).

Neste artigo do site São Paulo Antiga, o pesquisador Douglas Nascimento expõe a história e a atualidade da Vila Maria Zélia

Por Douglas Nascimento

Inaugurada em 1917, a Vila Maria Zélia começou a ser construída em 1912, pelo médico e industrial Jorge Street, para dar abrigo aos 2500 funcionários que trabalhavam na filial do Belenzinho da poderosa tecelagem Cia Nacional de Tecidos da Juta, cuja sede estava localizada nas imediações da Rua Gabriel Piza, em Santana.

A matriz era um sucesso, com funcionários trabalhando em tempo integral e a fábrica produzindo a todo vapor, inclusive em capacidade máxima, o que levou o empresário a ampliar suas instalações, optando por uma região como o Belenzinho que já recebia muitas indústrias à época e que poderia rapidamente dar abrigo a uma nova instalação industrial.

O terreno escolhido no Belenzinho foi adquirido do Coronel Fortunato Goulart, um grande proprietário de terras da região e sua extensão ia desde a atual Avenida Celso Garcia (nas proximidades do Marco da Meia Légua) até às margens do Rio Tietê, cujo traçado então era bem mais sinuoso do que hoje, já retificado.

Para projetar a nova vila operária, Jorge Street, procurou na Europa um arquiteto que pudesse colocar na prática a sua ideia de instalações compatíveis com a sua visão de justiça social. Foi aí que a escolha recaiu para o francês Paul Pedraurrieux.

Pedraurrieux optou por inspirar-se nas vilas estrangeiras que estavam sendo construídas nas primeiras décadas do século 20, cuja inspiração não estava somente no plano de ruas, mas também presente nas edificações residenciais, escolas, e nos estabelecimentos comerciais que haveriam de ser construídos no local.

O que foi erguido era uma autêntica miniatura de cidade europeia dentro da capital paulista, como se fosse um bairro à parte do Belenzinho. Foi construído ali uma capela, dois armazéns, duas escolas (meninos e meninas separado), um coreto, praça, campo de prática esportiva, salão de festas e ainda ambulatórios e consultórios médicos, avanços que não poderiam ser vistos nas demais vilas operárias da época.

A vila seria inaugurada durante o ano de 1917, após 5 anos de muito trabalho para deixa-la pronta. Todo o trabalho de Paul Pedraurrieux foi acompanhado de perto por Jorge Street. Graças a sua determinação tudo foi feito como o planejado, sem alterações.

A festa de inauguração da vila foi um grande acontecimento não só para o industrial, mas para a Cidade de São Paulo. Para a cerimônia de inauguração vieram políticos e industriais de várias partes de São Paulo e o Cardeal Arcebispo de São Paulo Dom Duarte Leopoldo e Silva foi responsável pela missa inaugural, visitando e abençoando todos os cantos da vila, sendo seguido por uma enorme multidão enquanto percorria o local.

Uma vez inaugurada, a vila foi rapidamente ocupada pelos operários que já trabalhavam na fábrica ao lado, cuja inauguração foi pouco antes da vila.

Já a fábrica, por sua vez, era tão grandiosa nos números como sua matriz no bairro de Santana. Em suas instalações destinadas a fiação, tecelagem e estamparia de algodão, a fábrica da Maria Zélia possuía no seu início de 2000 teares e 84 mil fusos, além de cerca de 3000 motores elétricos cujo funcionamento tornava a empresa uma das maiores consumidoras de energia elétrica da capital. Trabalhavam na época 2500 funcionários, que somados aos 3500 de Santana atingiam um total de 6000 funcionários no grupo.

Apesar de todo este crescimento vertiginoso e da produção indo de vento em popa, o empresário acumulou dívidas cujo pagamento começou a se complicar. Para liquidar parte delas, Jorge Street decidiu vender a vila e a fábrica em 1924. Tudo foi comprado pela família Scarpa que ao tomar posse da vila imediatamente optou por mudar o nome do local, que passou então a ser conhecido como Vila Scarpa.

Mesmo não tendo agradado aos operários o novo nome da vila seria mantido durante todo o período que a família Scarpa ficou como proprietária do complexo. Em 1929, com a crise financeira que assolou o mundo e o Brasil, a família Scarpa também sofreu com dificuldades para pagar algumas hipotecas. E é assim que o Grupo Guinle tomou posse do local e reestabeleceu o nome original Vila Maria Zélia.

Os grandes problemas da vila começariam na verdade na virada dos anos 30, quando, devido a débitos fiscais com o Governo Federal, a vila e a fábrica foram confiscadas pelo IAPI (atual INSS).

Após ter passado para o governo a fábrica foi desativada em 1931. Ela permaneceu fechada por oito anos até ser comprada em 1939 e reaberta como a Goodyear. Durante estes anos os moradores puderam permanecer no local sem pagar, já que era procurado um destino para os imóveis residenciais. A partir de 1939 os moradores do local tornaram-se inquilinos, pagando aluguel ao IAPI até o ano de 1968, quando finalmente foram autorizados a comprar os imóveis em que moravam através do sistema BNH.

Já no caso dos prédios funcionais (as escolas e os armazéns) eles permaneceram (e permanecem até hoje) como propriedade federal do INSS. A capela local é administrada pela Paróquia de São José do Belém. As escolas e o armazém estão abandonados há décadas, mas a capela tem funcionamento normal.

O nome Maria Zélia

Apesar de ser uma vila bastante conhecida e presente na memória da cidade, nem todos sabem quem foi a Maria Zélia que é agraciada com o nome do local. A resposta é muito simples e está na própria família de seu fundador.

Nascida em março de 1899, a bela jovem Maria Zélia Street era filha de Jorge Street, que ao todo teve seis filhos. Ela faleceu em 12 de setembro de 1915, quando a vila ainda estava sendo construída. Ao perder a filha tão jovem o empresário decidiu colocar o nome dela na vila como forma de homenagem. Ela está sepultada no túmulo da família localizado no Cemitério da Consolação.

A vila nos dias de hoje

Passear pela Vila Maria Zélia hoje é um passeio ao mesmo tempo nostálgico e triste. A arquitetura original está degradada e o local em situação de abandono.

São poucos os imóveis residenciais que permanecem ao menos com suas fachadas mantidas originais. Quase todas elas foram completamente descaracterizadas, sejam com fachadas hoje absolutamente irreconhecíveis, ou muros e portões que destoam com a proposta da vila. E ainda, com imóveis que antes eram todos térreos e hoje chegam a possuir, em alguns casos, três andares.

Os anos sem tombamento pelos órgãos de defesa do patrimônio histórico (o tombamento só chegaria em 1992) permitiu que muitos dos moradores descaracterizassem suas residências. E mesmo hoje ainda é possível encontrar algumas casas em obras. Há até construções bastante próximas ao original, mas que trocaram a pintura típica da época por cores berrantes ou por texturas. É possível notar que são a minoria dos imóveis que permanecem originais ou próximos disso.

Os prédios mais originais da vila são, ironicamente, os prédios abandonados do INSS que jamais sofreram alterações, e ainda algumas poucas casas que conservam heroicamente as características da vila fundada por Jorge Street há quase 1 século atrás.

É possível ainda encontrar na vila algumas casas bastante conservadas, originais ou próximas do que eram em 1917. São residências como esta acima, que permaneceram preservadas e que são mantidas sempre impecáveis por seus proprietários e inquilinos. Como era uma vila particular, originalmente as casam não tinham muros, exatamente como era o conceito do arquiteto Paul Pedraurrieux, seguindo os moldes europeus.

Dos dois armazéns existentes na vila um está em péssimo estado de conservação, enquanto o outro apresenta apenas condições satisfatórias. Em um deles é possível notar que o piso superior já ruiu e o telhado foi protegido por uma armação de ferro, já que a madeira há muito tempo apodreceu. Dentro de um deles há antigos equipamentos de tornearia.

Localizada em uma posição central da rua principal da Vila Maria Zélia, a Capela de São José fica bem diante da entrada da vila e está bastante conservada e preservada com seus detalhes originais.

Alguns anos atrás, a torre da capela estava bem deteriorada com pedaços dela se soltando, mas sofreu uma intervenção de restauro que colocou-a em ordem novamente. A capela faz parte da Paróquia de São José do Belém, não muito distante dali, e regularmente tem atividades religiosas no local. A primeira missa dela foi celebrada pelo Cardeal Dom Duarte Leopoldo.

Visitando a vila, talvez o que chame mais a atenção seja o estado lastimável e quase irrecuperável que se encontram as duas magníficas construções escolares que existem ali. A Escola de Meninos e a Escola de Meninas.

São dois prédios de dois andares construídos um de frente para o outro e que por muitos anos funcionaram como excelentes escolas, das melhores da região. Não era frequentada apenas por filhos de moradores da vila, mas também de moradores de ruas próximas como a Cachoeira e Catumbi. Pertencente ao INSS estão ambas em uma situação de extrema penúria, com mato tomando conta do interior da construção e com várias salas já sem teto.

A Escola de Meninas está com suas portas lacradas, não é possível entrar dentro dela para conferir como se encontra a situação interna, mas de fora dá para notar que apenas as paredes resistem intactas. Algumas instalações sobrevivem, mas largadas na ação do tempo não irão ser preservadas por muitos anos.

Já na Escola de Meninos foi possível entrar e conferir o quão abandonado está o prédio que por anos e anos foi uma referência de educação na região. É extremamente perigoso caminhar lá dentro. A sensação de que tudo pode vir a desabar a qualquer momento está presente em todas as dependências da escola.

São salas de aula totalmente destruídas pelo tempo, com o forro do teto podre. O madeiramento de portas, batentes e até das lousas estão apodrecidos e muitos deles tomados por cupins. O andar superior só não ruiu ainda porque é escorado por uma profusão de toras de madeira, que dão uma curiosa impressão de estarmos em uma “palafita urbana”.

O restaurante está totalmente destruído, com azulejos se soltando e com uma imundície de local que há anos não recebe qualquer atenção por parte do INSS. As belas escadarias internas de madeira, que ligam o térreo ao andar superior, parecem não mais suportar o peso de uma pessoa. Aos fundos o corrimão de ferro da outra escadaria, que é de alvenaria, sofre com uma ferrugem que já desfigura a arte executada pelo ferreiro. No pátio da escola uma antiga arquibancada de ferro está coberta com uma lona azul, mas está tão ruim que talvez não possa ser reutilizada.

Acredito que hoje não é mais possível chamar a vila toda de patrimônio histórico. Boa parte dela está completamente desfigurada com casas que não fazem qualquer lembrança com o projeto de Paul Pedraurrieux há quase um século atrás.

Algumas residências, inclusive, foram ampliadas sem qualquer auxílio de um profissional de arquitetura e tornaram-se verdadeiras aberrações arquitetônicas, daquelas que encontramos espalhadas por vários bairros paulistanos e do Brasil. E seria impensável nos dias de hoje, na realidade brasileira, em voltá-las novamente ao que eram em 1917. Até pelo fato delas serem residências particulares.

Como a vila está tombada alterações na fachada agora são proibidas, mas isto não quer dizer que não são feitas. Nas galerias acima é possível encontrar algumas casas realmente preservadas, mas também vemos casas que foram alteradas recentemente. Onde está a fiscalização?

Já os armazéns e as escolas a culpa do estado lastimável em que se encontram, e da tragédia terrível que poderá ser um eventual desabamento, é culpa do Governo Federal e do INSS que são proprietários dos imóveis há décadas e nunca, jamais, fizeram qualquer movimento visando a proteção e preservação das construções a qual são proprietários. Curiosamente outro imóvel bastante conhecido do paulistano e igualmente abandonado também pertence ao INSS, o Castelinho da Rua Apa.

É preciso preservar enquanto ainda é possível, do contrário só restarão fotografias para contemplarmos. A bela história da Vila Maria Zélia não pode desaparecer jamais.

Curiosidades

Depois da fábrica ser desativada em 1931, ela ficou sem qualquer atividade até 1936 quando nesta momento foi transformada em um presídio político, durante o Estado Novo. O presídio operou por cerca de um ano, sendo desativado no final de 1937. O local abrigou cerca de 700 presos políticos entre eles personalidades conhecidas da cena paulistana como o intelectual Caio Prado Jr.

Cenário constante de comerciais de televisão e filmes nacionais, o local serviu de cenário para o filme “O Corintiano” de Mazzaropi.

Fonte: São Paulo Antiga

Leia mais sobre a Vila Maria Zélia em:

Processo de tombamento da Vila Maria Zélia

Caderno Vila Maria Zélia – Governo de São Paulo

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