Entrevista com José Ibrahim

por Memória Sindical. 08 mar 2016 . 16:19

Nos 25 anos da Força Sindical reveja a entrevista com José Ibrahim, um
de seus fundadores. Acompanhe, nesta semana, outras entrevistas sobre a
história da Central!

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Construindo a Força Sindical

entrevistajose2José Ibrahim

Metalúrgico, trabalhou na fábrica Cobrasma, em Osasco (SP), onde, como presidente do sindicato local, foi um dos protagonistas da greve de 1968. Participou da fundação da Força Sindical e foi o 1º secretário de Relações Internacionais da Central.

Entrevista realizada em 14 de abril de 2011, Por André Cintra

Leia aqui a entrevista em inglês

Do PT à Força Sindical

Sou uma pessoa que tem história no movimento sindical. Venho lá de trás, da luta de resistência à ditadura. Essa briga que fizemos lá em Osasco (1) me custou prisão, tortura, dez anos de exílio, essa coisa toda. Fui fundador do PT e ajudei também a fundar a CUT. Mas fiquei mais dentro do Partido. Enquanto Lula (2) era o presidente, eu era o secretário. Eu tinha várias divergências políticas no PT e, em 1986, eu saí do Partido. Fui trabalhar com o Brizola (3).
Logo que saí do PT, durante um coquetel no Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, na época em que o Joaquinzão (4) era o presidente e o (Luiz Antonio de) Medeiros vice, falei para o Medeiros que sentia a necessidade de criar uma Central diferente, que contemplasse a ação e a luta sindical, fora da visão monolítica que tínhamos.
Na cabeça de algumas pessoas, principalmente dirigentes da CUT, o sindicalismo estava divido entre os revolucionários e os pelegos. Eu não concordava com isso, e achava que havia condições de se criar alternativas para o movimento sindical.
Mas quando fui falar com o Medeiros ele me respondeu que o Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, por si só, já era uma central. Eu discordei e disse que, por mais forte que seja o Sindicato, e por melhor que seja sua história, ele representa apenas uma categoria. A conversa ficou por aí.
Tempos depois, em 1989 ou 1990, o Juruna (João Carlos Gonçalves), de quem sempre fui muito amigo, me procurou para dizer que o Medeiros queria conversar. Ele queria retomar aquela conversa que tivemos e disse que já estava conversando sobre o assunto com várias lideranças. “Estamos a fim de montar aquela Central que você tinha falado. Uma Central diferente, com outra visão. Você topa entrar nessa empreitada?”, disse o Medeiros. E eu respondi que sim.

Construindo uma nova outra via

Havia espaço para construir outra via. Combativa, mas que não fosse estreita nem sectária. Enquanto a CUT era muito radical, a CGT era muito conservadora. Os Sindicatos da CGT não tinham poder de negociação. Aquela Central estava superada. E aquele negócio de “central única”, de “partido único”, já tinha passado. Era coisa da guerra fria.
Juntamos, então, um grupo que acreditava nesse projeto: o Medeiros, o Araújo, da Federação da Alimentação, eu e vários companheiros de Guarulhos e de Osasco, onde ficava o Sindicato do qual fui presidente. Organizei as primeiras viagens antes da fundação. E começamos a articular a Central nacionalmente.
Saí, com o Medeiros, o Alemão (5) e o próprio Araújo, pelo Brasil afora, discutindo a proposta da Central. Fizemos debate com o Meneguelli (6), com o Vicentinho (7).
Naquela época o Medeiros, por ser a pessoa que estava à frente desse novo projeto, evitava esses debates. Então eu acabava fazendo essas tarefas complicadas de debater com o pessoal da esquerda.
Tivemos muito tempo para conversar e elaborar nossos primeiros documentos. Quando eu estava no PDT (Partido Democrático Trabalhista), eu tinha muita amizade com o César Maia (8), que era secretário do Brizola. Antes da fundação da Força, cheguei a levar o Medeiros à casa do Brizola. Tanto o Maia quanto o Brizola viam com bons olhos a criação da Central, e nos ajudaram a elaborar os primeiros documentos.
Antes da fundação, estava tudo muito adiantado. A convivência era muito grande, e todo mundo já sabia qual era seu papel.

Reações

O começo foi difícil. A reação contra nós foi muito grande. A CUT percebeu que ia perder a hegemonia, que havia uma nova força no pedaço, disputando com propostas alternativas aos trabalhadores. Então, para nos queimar, diziam que “éramos uma Central que estava nascendo no colo do Collor”, que éramos uma “central collorida”, a “Farsa Sindical”. Botaram muita pedra no nosso caminho, dentro e fora do Brasil. Foi muito difícil. Fiquei um bom tempo fazendo o discurso de defesa da Central. De que íamos inovar o movimento sindical brasileiro. Que não íamos criar um sindicalismo de cúpula, partidarizado, mas uma Central pluralista, combativa, reivindicativa, de luta.
O Medeiros, o Juruna, o Paulinho e eu estávamos afinados com o mesmo discurso: “viemos para valer, viemos para lutar, viemos para brigar”. Só que com uma visão diferente.

Nasceu forte!

Apesar disso a Central já nasceu forte, representativa e com grande inserção em várias categorias. Entre os Sindicatos de Metalúrgicos que havia no Brasil, tirando o do ABC, nós pegamos os principais. Tínhamos também uma grande representação na área de serviços, alimentação, além de outras categorias importantes como têxteis, o pessoal da área de calçados. Depois a Força foi crescendo e, hoje, é uma Central respeitada e de grande porte.

Secretaria Internacional

Como eu já tinha a experiência de dez anos no exílio, período em que trabalhei muito com centrais sindicais internacionais, principalmente europeias, fui eleito o 1º secretário internacional. Construí todo um caminho de respeito no movimento sindical internacional. Conquistamos nosso espaço com muita garra.
A primeira Central que acreditou desde o começo na proposta da Força foi a UIL (Unione Italiana del Lavoro), que é uma Central grande e com uma história muito forte na Itália. O apoio que ela nos deu foi de grande importância. Ela nos ajudou a construir a Escola Sindical da Força (9), com financiamento dos italianos. Mas a CIOSL (Confederação Internacional das Organizações Sindicais Livres) demorou uns dois anos e meio, mais ou menos, para aceitar a nossa filiação.
Enquanto não éramos admitidos na CIOSL, mantivemos muitas relações bilaterais, intercâmbios com as centrais da França, Espanha, Itália. Estabelecemos também uma boa relação com a China. A primeira grande delegação que foi para a China, a convite da Central Sindical chinesa, foi encabeçada pelo Medeiros e por mim. Estivemos também no Japão. E fomos ocupando espaço. Também ocupamos espaço na OIT (Organização Internacional do Trabalho). Por onze anos seguidos, chefiei a delegação da Força na Conferência Anual da OIT.

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Encontro com o papa

Antes da fundação da Central, o Medeiros queria muito ter uma entrevista com o papa. Como eu era secretário Internacional, era uma tarefa minha. E aí o Romano (10) e eu nos viramos. O Romano também estava doido para conhecer o papa.
Um pouco antes da fundação, fiz uma agenda voltada à Europa para divulgar e convidar o pessoal para a criação a Força Sindical. Pelos canais que eu tinha na Itália, pedi a agenda com o papa. Foi difícil. Ficamos mais de dez dias rodando a Europa e esperando para ver se ia ou não ter agenda com o papa. Eu não estava nem mais acreditando, mas o Medeiros, todo dia, no café da manhã, nos procurava, em qualquer país que a gente estivesse, e perguntava sobre a visita ao papa. Até que me ligaram da Itália dizendo que acertaram a conversa. Fomos para a Itália. Quando cheguei em Roma, na véspera da visita, lembrei que não tinha um terno adequado e comentei com o Romano. Eu tinha na mala gravata, blazer, mas não um conjunto completo, um terno, digno de ser recebido pelo papa. Ele falou: “Não tem problema. Vamos a uma loja e você compra o terno”. E eu: “Aliás, não é só um problema… eu tenho dois. Também não tenho dinheiro para comprar um terno”. Aí o Romano disse o seguinte: “Quer saber? Vamos lá que eu meto um cartão e te pago um terno”. Aí eu comprei o terno.
No encontro com o papa, o chefe de cerimônia disse que esperássemos a hora da hóstia, uma tradição para essas audiências. O Romano, o Medeiros e eu ficamos esperando. Quando nos chamaram, o Romano foi o primeiro. Eu fui atrás, e o Medeiros me puxou pela gola do paletó e disse que comunista não comia hóstia. Virei para ele e falei: “Mas a do papa eu vou comer. Essa eu não perco”. Aí eu fui, e o Medeiros ficou lá — não foi comer a hóstia.
A audiência com o papa foi muito boa. Durou cerca de quinze minutos. Explicamos a ele o que era a Força Sindical. Tinha tradução — o papa tem um tradutor. Pedimos a compreensão e a bênção dele, já que o Brasil é um país cristão. O papa abençoou a Central e desejou boa sorte na defesa dos trabalhadores. Foi bom. Saímos e tiramos aquela foto histórica — o Romano, o Medeiros e eu junto ao papa.

Relação com os presidentes

Quando a Força Sindical foi fundada, era época da Presidência do Fernando Collor (11). Ele sabia que tinha de negociar com o movimento sindical, mas com a CUT, ou com Federações e Confederações esclerosadas, não havia negociação. Não tínhamos nenhuma aliança tácita com o Collor, mas ele via que conosco dava para conversar.
E a Força sempre buscou a negociação institucional. Na década de 1990, quando eu pertencia à Central, conversamos muito com o Itamar Franco (12) sobre a participação do trabalhador em espaços de discussão, e levantamos, desde aquela época, a bandeira do poder de compra dos aposentados e da recuperação do salário mínimo. Tivemos também bastante diálogo com o Fernando Henrique Cardoso (13), em seus dois governos. Foi no período de FHC que conseguimos espaço de participação, para dar nossa opinião, nos conselhos do Fundo de Garantia, do Fundo de Amparo ao Trabalhador e do BNDES – onde cobrávamos investimentos, geração de emprego e trabalho decente, entre outras coisas.
Enquanto a CUT era “do contra”, nosso negócio era discutir os problemas concretamente. Foi nessa época que nasceu a ideia de construir o Sindicato Nacional dos Aposentados, que hoje é uma potência dentro da Força Sindical. Eram essas as nossas brigas, e a Força sempre manteve o diálogo, da mesma forma que manteve com o presidente Lula e hoje mantém com a presidente Dilma (14).

De Medeiros a Paulinho

O Paulinho é uma liderança com um senso de oportunidade muito aguçado, e eu vejo isso como uma qualidade. Ele tem uma sensibilidade muito grande para perceber as coisas rapidamente. É rápido no gatilho. O Medeiros tem uma formação política mais sólida, mas o Paulinho é mais arrojado e impetuoso do que o Medeiros, o que define um perfil, um estilo de atuação diferenciado. Enquanto o Medeiros, na Presidência da Força, era mais cauteloso e tinha um estilo mais maneiro, o Paulinho, de certa forma, é mais afoito. Em geral ele acerta, e hoje é, na minha opinião, a principal liderança sindical do País. Com o mandato parlamentar ele cresceu muito. E ele exerce um mandato em defesa do trabalhador, o que dignifica a Força.

Os 20 anos da Força Sindical

A Força Sindical jogou um papel fundamental na renovação e na oxigenação do movimento sindical. E eu me orgulho de ter participado desse processo. Para exercer este direito supremo à cidadania — que é a participação política —, os trabalhadores precisam se organizar, ter suas próprias ferramentas e voz na sociedade. Por isso os trabalhadores precisam de uma Central como a Força Sindical, que, nestes 20 anos, se tornou um dos melhores canais de participação dos trabalhadores, sendo uma ferramenta importantíssima de construção de uma democracia forte no Brasil. Embora ainda haja muita coisa a fazer, o movimento sindical avançou muito nestes 20 anos, e a caminhada da Força é vitoriosa.

Notas da redação
(1) Greve de 1968, em Osasco, iniciada na fábrica metalúrgica Cobrasma.

(2) Presidente da República de 2003 a 2006 e de 2007 a 2010, Luis Inácio Lula da Silva foi presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, de 1975 a 1980. Foi também um dos criadores do Partido dos Trabalhadores (PT), em 1980, e da Central Única dos Trabalhadores (CUT), em 1983.

(3) Leonel Brizola foi um político brasileiro, membro do PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) de Getúlio Vargas. Um dos maiores opositores à ditadura militar, seu nome estaria na primeira lista de cassados pelo Ato Institucional Número 1, em 10 de abril de 1964, junto com 102 pessoas, incluindo João Goulart, Jânio Quadros, Luís Carlos Prestes e Celso Furtado. Ao retornar ao Brasil, com a anistia de 1979, Brizola quis assumir a antiga legenda (PTB), mas perdeu a disputa do registro junto ao Tribunal Superior Eleitoral – TSE para Ivete Vargas, sobrinha de Getúlio. Fundou, então, juntamente com outros trabalhistas históricos e novos simpatizantes, o PDT.

(4) Joaquim dos Santos Andrade, o Joaquinzão, foi presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo entre 1965 e 1987.

(5) Enilson Simões de Moura, metalúrgico, participou da organização das greves de 1978 e 79, no ABC, e foi secretário-geral da Força Sindical entre 1991 e 1997.

(6) Jair Meneguelli foi presidente da CUT entre 1983 e 1994. Depois, foi eleito deputado federal.

(7) Vicente Paulo da Silva, Vicentinho, foi presidente da CUT entre 1995 e 2002, e também se elegeu deputado federal.

(8) César Maia, economista e político, pertenceu aos quadros do PDT até 1991, quando rompeu com Leonel Brizola. Foi prefeito da cidade do Rio de Janeiro por doze anos.

(9) Projeto de Escola de Formação Sindical que a Força Sindical elaborou na década de 1990. A UIL, junto à Central Sindical ELA-STV, de origem basca, ajudou a comprar o prédio para funcionamento da Escola, em Embu-Guaçu (SP).

(10) Rubens Romano era presidente do Sindicato dos Comerciários de São Paulo e secretário de Finanças da Força Sindical na época de sua fundação.
(11) Fernando Collor de Mello foi presidente do Brasil entre 1990 e 1992, sendo o primeiro presidente eleito por voto direto após o regime militar. Renunciou ao cargo na tentativa de evitar um processo de impeachment, mas o processo prosseguiu e Fernando Collor teve seus direitos cassados por oito anos.
(12) Itamar Franco foi vice-presidente no governo Fernando Collor, tendo assumido a Presidência do Brasil com a renúncia de Collor, em 1992. Durante seu governo foi idealizado o Plano Real, elaborado pelo então ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso.
(13) Fernando Henrique Cardoso, sociólogo, foi presidente do Brasil de 1995 a 1998 e de 1999 a 2002.
(14) Dilma Vana Rousseff é presidente do Brasil desde 1º de janeiro de 2011.

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