José Luiz Del Roio faz revisão do histórico 1º de Maio de 1968

por Memória Sindical. 03 maio 2018 . 11:41

 

Cortem o fio do auto-falante: governador aqui não fala! Provavelmente esse grito de guerra ecoou retumbantemente na Praça da Sé, à visão do governador de São Paulo, Abreu Sodré, posicionando-se no palanque entre outros oradores.Foi quando os jovens sindicalistas de Osasco, turma mais radical entre os presentes, decidiram partir para o ataque acertando uma pedrada em Sodré. O político, ferido, abrigou-se na igreja e o povo tomou a praça. E o medo tomou a praça. E o imponderável tomou o destino naquele embate do povo contra a repressão. Assim, depois de quatro anos de ditadura militar no Brasil, com 1º de Maio festivo, a data voltou ao calendário dos trabalhadores como exemplo da luta de classes que sempre representou.

Por Christiane Britto

Quem conta aqui, com exclusividade, o que aconteceu depois de a Catedral da Sé fechar as portas e os guardas armados manterem-se passivos diante da justa agressividade dos manifestantes é José Luiz Del Roio*, jovem de 26 anos na época, jornalista e ativista com muitas missões para aquele momento, entre elas, proteger os colegas da polícia (se houvesse confronto) e distribuir o jornal “O Guerrilheiro”.

A situação narrada**, com base em fatos reais, leva-nos, leitores, a 1968 e a experimentar na própria pele um pouquinho das emoções dos jovens rebeldes que tudo ousaram:

“Como as gerações passam, coisas óbvias são esquecidas. É normal. Por isso a gente sempre recorda, o Brasil foi o último país a acabar com a escravidão negra. Foi também o último país do mundo a autorizar as centrais sindicais. As centrais sindicais criadas ao final de 1800, início de 1900, nos países de capitalismo avançado, industrializados, no Brasil sempre foram proibidas. Toda vez que se tentou criar uma central sindical no Brasil, foram rapidamente esmagadas pelo poder do Estado e dos patrões escravocratas.

Em 1964, o movimento operário, os trabalhadores, tentaram criar uma central sindical que era o Comando Geral dos Trabalhadores (CGT). A primeira coisa que o golpe militar fez foi fechar o CGT, proibir de novo a central sindical, e intervir nos sindicatos. As direções sindicais são depostas, nos sindicatos são colocados coronéis como diretores, a repressão atinge dezenas de milhares de pessoas, em grande parte, sindicalistas.

O caráter do golpe é muito claro – é um golpe de classe, um golpe contra a classe trabalhadora. Você fica sem sindicatos, quer dizer, não é verdade: você fica com sindicatos, primeiro sob intervenção, depois com interventores civis, fica sem representação, e depois começam as eleições com caráter de intervenção ideológica. Para ser candidato, você tem que jurar, com um documento, que não é comunista, e tem a caça aos que são mais ou menos comunistas, não pode ser candidato.

Ora, o movimento operário, sindical, fica totalmente controlado. O principal é uma política economia de profundo arrocho salarial, a ideia é de tornar o salário somente um reprodutor da mão de obra, é o mínimo para comer e basta. Isso é facilitado pela repressão e também pela introdução das máquinas, do capital, nos grandes latifúndios, por exemplo. Há uma modernização do latifúndio. Ela significa a expulsão do camponês miserável de suas terras, das fazendas, dos trabalhadores quase escravos dos latifúndios, e eles vêem para a cidade. Então você tem uma mão de obra abundante, e então os salários esmagados, arrochados.

Este é o quadro a partir de 1964, 1965, 1966. A luta democrática em geral também foi esmagada, ainda que com menos violência, vamos assim, dizer, mas foi esmagada. Mas a partir de 1966, uma série de movimentos democráticos se põem em ato. A luta contra a censura, muitas vezes realizada sobretudo por intelectuais e suas diversas entidades, artistas, cantores, escritores, e um movimento estudantil muito combativo. Me concentro um pouco mais sobre o eixo Rio São Paulo, mas em outras partes do país ocorreu este movimento. Em São Paulo, surgem as primeiras grandes manifestações de massa. Mas que são substancialmente de intelectuais e estudantes. Ocorrem em 1966, na chamada setembrada, durante um mês de manifestações constantes, até com alguns atos de radicalismo político. E isto foi aumentando.

Ao mesmo tempo havia uma radicalização global, no mundo, que era uma radicalização de fatos que existiam no exterior. Hoje se esquece disto também, no final de 1967 houve uma grande ofensiva dos vietnamitas contra bases americanas, todo mundo se esquece disto também, mas a ofensiva do Têt demonstrou que o Vietnã ia vencer a guerra. Era uma coisa extraordinária – como é que um povo camponês, pobre, descalço, vence a nação mais poderosa do mundo?

Demoraria ainda anos para vencer, mas ali eles demonstraram que iam vencer. Isso deu um ânimo terrível!

Começaram as guerras de libertação das colônias portuguesas – Angola, Moçambique, Cabo Verde, Príncipe, São Tomé… Esta é uma guerra mais próxima de nós, uma guerra de negros, que falavam português, isto também dava muito ânimo. A vitória muito recente da Revolução Argelina, outra revolução impossível de vencer… Che Guevara e as diversas guerrilhas que nasciam pela América. E o movimento contra a guerra nos EUA, que também crescia.

Você via um quadro em movimento, progressista. E nós aqui congelados. Dentro da geladeira, nas amaras de uma ditadura militar, que também era radicalizada, do outro lado.

Este era o clima que percorre a esquerda brasileira em 1967. E dentro desse bojo não adianta dizer que se cometem erros ou acertos… O problema era esse de uma caracterização internacional de luta e nós aqui congelados. Humilhados com uma ditadura e a gente não fazia nada. Então começa a surgir muito fortemente a ideia de que é necessário um combate rigoroso contra a ditadura, mesmo de armas na mão se for necessário.

Começam a surgir muitos debates, sobretudo na área católica e na área comunista, sobre o que fazer. O movimento operário não está envolvido nisso ainda. No final de 1967 em São Paulo acontece uma coisa importante no movimento operário. É criada uma organização chamada MIA (Movimento Intersindical Antiarrocho), que agrupa uma série de sindicatos, sobretudo os metalúrgicos de São Paulo, Guarulhos, Osasco, Campinas, também o Sindicato dos Bancários de São Paulo.

Isso era proibido, mas essa organização nasce com um objetivo, uma reivindicação elementar – romper o arrocho salarial, que os salários fossem compatíveis ao menos com a inflação. Mas já era subversivo pelo próprio fato de existir. Contra o MIA, vejo a literatura atual, a esquerda é feroz. Eu não.

A criação do MIA foi uma atitude correta. Só que dentro do MIA existiam concepções diferentes de como conduzir a luta. E até concepções estratégicas diferentes. O MIA se apresentava como uma entidade sindical que faz reivindicações sindicais. Na historiografia muitos não entenderam que, sob a ditadura, grupos e sindicatos importantes se unifiquem em alguns programas – já é revolucionário! Era uma forma de chegar à classe operária. E organizar essa classe operária, nestas condições de dificuldades, e repressão, e de abundancia de mão de obra barata que chegava de tudo quanto era lado. Com uma série de divergências.

E a divergência fundamental ficou com o sindicato de Osasco. Era um sindicato importante, lá estavam algumas empresas grandes, importantes, novas, modernas. Estava surgindo o ABC como classe operária – era uma zona externa. Com operários muito jovens. Em Osasco, quando ganha a eleição sindical, em 1967, o José Ibrahim, no sindicato dos metalúrgicos, tinha 19 anos, e a diretoria era toda mais ou menos assim. Enquanto o Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo já era um sindicato muito antigo, com uma classe operária muito antiga, uma diretoria já envelhecida.

Existe uma contaminação da radicalização geral, mundial, da classe média ou da pequena burguesia se você preferir. Já que me pergunta, eu digo que prefiro, naquela questão específica, intelectuais e estudantes porque eram setores combativos.

Tinha outro aspecto – como combater a ditadura. Naquele momento aconteciam outras coisas curiosas – estava em ato a criação de uma Frente Ampla, que era uma grande bagunça. Era uma aliança entre João Goulart, Juscelino Kubitschek  e Carlos Lacerda. Era uma questão complicada – a frente era poderosa, agrupava setores da burguesia e Goulart tinha força na classe operária. Era uma frente que agrupava muita coisa, e influenciava o MIA: legal, vamos então, de greve em greve, de setor em setor, vamos ampliando, reorganizando, fazendo a luta sindical, acabar com as intervenções…

Era uma posição bastante clássica da posição do PCB, que era bastante forte na área sindical. No dia 5 de abril de 1968 a ditadura põe fora da lei a Frente Ampla. Eles radicalizaram e isso aumenta a força da radicalização da nossa base.

E aí chegamos ao 1º de maio de 1968. Uma série de inflexões nacionais e internacionais, de luta no interior da burguesia, das forças armadas – naquele momento começam a ocorre cisões entre as forças armadas – e aí se decide a fazer um 1º de maio combativo.

Que desde 1964 não se fazia; era a festa do patrão. Se resolve fazer então aqui na Praça da Sé, que era então muito diferente do que é hoje, era toda fechada. Era uma coisa pequena, então enchia de gente. Ai tem um monte de discussão, os intelectuais e os estudantes pressionam para que seja combativo, combativo, combativo… O MIA diz calma, é uma reunião de 1º de maio – mas o pessoal de Osasco radicaliza: vamos fazer um 1º de maio muito combativo. O pessoal de Osasco radicaliza.

Brasil, São Paulo, SP. 01/05/1968. Populares se reúnem na Praça da Sé, centro de São Paulo, durante as comemorações do Dia do Trabalho, 1º de Maio./ Crédito: Arquivo/Estadão Conteúdo/AE

Tentando superar tudo isso, uma parte do MIA cometera um grande erro. Convidara o governador Abreu Sodré para palestrar. O convite aceito acaba expondo mais ao choque quando a ideia era dar uma cobertura para que a polícia não nos massacrasse.

O governador Abreu Sodré se ilude e pensa que representava um setor mais aberto da ditadura. Isso foi um erro da parte do Sodré e dos setores do MIA que o convidaram, porque expõe a um choque muito forte. Foi um erro grave. Porque se radicalizou e eram setores que não estavam dispostos a ouvir Abreu Sodré no 1º de maio. Assim que a oposição popular se acirrou e partiu para a agressão, os movimentos radicais cortam o fio do auto-falante.

Havia muita guarda armada na Praça, não eram militares, mas poderiam ter reagido com violência. O que não fizeram. Nunca compreendi essa passividade.

Corríamos entre as esquinas, com a missão de proteger os colegas que subiram em outros palanques ao longo do caminho, falando contra o arrocho e a ditadura. Pequenas multidões inflamadas pelos grupos se uniam para ouvir e emendar palavras de ordens.

O medo dos organizadores de ocorrer um banho de sangue era imenso, mas não houve, e nós, preparados para a luta armada, se houvesse, nos questionávamos quanto ao porquê da passividade daqueles policiais. Mas, passivos ou não, estavam fazendo o seu trabalho. Em poucos anos, o grupo de líderes que comandou a rebelião foi morrendo assassinado um a um, em situações que não se explicam.

Essa radicalização tinha uma programação, que foi influenciada pela necessidade de algumas parcelas de demonstrar a luta armada. A luta armada já tinha começado; em São Paulo começa aí por outubro, novembro de 1967, mas é discreta ainda, pouco visível.

O clima foi levando a que estes grupos armados queiram se apresentar, e grupos de operários que faziam parte dessas organizações se dispõem a ajudar.

É quando chega o primeiro de maio. O público presente ao ato na Sé não é grande, umas 8 mil pessoas talvez, mas parecia ter mais gente porque o som na praça ecoava, o espaço era mais fechado…

Tem o palanque ali, embaixo das escadas, e ali se decide que o governador não vai falar.

Quando sobem as personalidades, que eram os representantes do MIA mais o governador, o murmúrio é muito grande, a questão se radicaliza, e o palanque é atacado, com violência. O governador é ferido e se refugia na igreja, que fecha as portas, e as massas ficam donas da situação.

O cerne de todo esse movimento foi basicamente os operários de Osasco, que eram muito bem organizados – uns mil talvez; uns 800, 900 talvez mil operários, muito determinados. Todos com suas famosas bandeirinhas, umas bandeiras vermelhas com um pau deste tamanho. Ou com fios de arame enrolados na barriga. Fizeram uma presença complicada. Foram o cerne da manifestação.

Então foi uma coisa operária. Mas tinha vários grupos de luta armada. Vou me referir a dois – a Ação Popular, de origem católica, e o outro era a ALN, a Ação Libertadora Nacional. Foram distribuídos também dois jornais, que tiveram seus papéis – Libertação, da Ação Popular, anunciando que ia para a luta armada, e o Guerrilheiro, que anuncia o nascimento da ALN.

A ALN tinha a função específica de proteção à manifestação, porque seus militantes preocupavam-se com o seguinte problema: como escoar as pessoas quando a repressão viesse? Como escoar as pessoas e defendê-las, mesmo armados, para que possam escoar sem serem massacrados pela polícia. As massas ocuparam o espaço público, e a polícia não atacou…

Devem ter acontecido problemas até hoje pouco compreensíveis. As massas descem, talvez pela XV de Novembro, dão a volta pela Libero Badaró e vão até a Praça da República. Talvez menos que os 8 mil. Era feriado e nessa marcha não tinha muita gente. Um personagem importante nela foi o José Campos Barreto, do sindicato de Osasco, o Zequinha que morreu com o Carlos Lamarca na Bahia. Ele fez o apelo pela luta armada na Praça da República.

Naquele momento havia duas palavras de ordem: o povo organizado derruba a ditadura, que era respondida com outra palavra de ordem: o povo armado derruba a ditadura.

O choque se dava um pouco assim, e o Barreto praticamente marca a manifestação com o grito o povo armado derruba a ditadura.

Vários que participaram dessa manifestação foram assassinados nos anos seguintes, sobretudo na VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), porque um grupo muito consistente de Osasco vai para a VPR.

Foi em Osasco que, em julho, estourou a greve dos metalúrgicos, uma conseqüência da Praça da Sé. É uma greve pesada e contra ela a repressão desce com tudo, é uma greve que assusta – há uma linha vermelha que liga o 1º de maio à greve.

Era uma greve suicida. Objetivamente era uma greve errada, porque não tinha condições. Mas por outro lado era necessário marcar campo – você nunca vai fazer nada, nunca vai dar uma demonstração, um exemplo? Tem que dar exemplos, criar fatos. A greve de Osasco teve muita influência dos grupos de luta armada, como a VPR e a ALN e mesmo a AP.

Em 1972, fizemos a primeira longa análise da greve, junto com o José Ibrahim, que estava preso e foi libertado em troca do embaixador americano. O José Ibrahim analisa a greve profundamente, pegamos documentos das outras organizações, mesmo os mais moderados do MIA. É uma análise até hoje insuperável feita sobre a greve.

Na verdade, 1968, o início da luta armada, o 1º de maio, as greves de Osasco e Contagem (MG) e as complicações dentro da ditadura é que vão levar ao AI5.

Os ânimos estavam exaltados, havia tortura, assassinato, fuga para o exílio, mas a marcha contra a repressão não conhecia caminho de volta. A meta era a liberdade, não sabíamos quantos perderíamos ou como a luta chegaria à vitória em favor do operário: sabíamos apenas o que Karl Marx nos ensinou: Os homens escrevem a história, mas não como eles querem.

 

*José Luiz Del Roio  é político e ativista social ítalo-brasileiro, diretor do Instituto Astrojildo Pereira

**Depoimento dado a Christiane Brito, que editou o texto mantendo a linguagem oral, algumas repetições e, sobretudo, os verbos no tempo presente, para tentar reconstituir as emoções das cenas narradas por Del Roio)

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