Marcelo Gato

por Memória Sindical. 26 nov 2012 . 10:46


No aniversário de 15 anos do Sindicato Nacional dos Aposentados relembre a trajetória de vida o depoimento do sindicalista histórico  Alberto Marcelo Gato

IDENTIFICAÇÃO
Meu nome completo é Alberto Marcelo Gato, mas o nome pelo qual sou conhecido é Marcelo Gato. Nasci em Sertãozinho, no estado de São Paulo, em 16 de janeiro de 1941. Meu pai é Antônio Gato Junior e minha mãe Dolores Rodrigues da Silva.Tenho um irmão, uma irmã e um que faleceu. São dois irmãos.Meu avô do lado do meu pai era ferroviário. Quando eu nasci ele já estava aposentado. Ele havia se aposentado por invalidez. Era ferroviário de uma empresa chamada Estrada de Ferro Mogiana, na região de Ribeirão Preto. Do lado da minha mãe, meus avôs, trabalhavam na lavoura, tinham um pedaço de terra pequeno e sobreviviam daquilo, de um modo geral, famílias na época bastante humildes, bastante simples.

Esse nome Gato que é com um t só, é de origem portuguesa. O meu avô paterno era português. A minha avó paterna era italiana e do lado da minha mãe os avós eram portugueses, tanto a avó quanto o avô.

INFÂNCIA
Sertãozinho hoje é uma cidade de bastante expressão no interior de São Paulo. Mas até a minha adolescência, era uma cidade bastante pequena de cerca de 10 mil habitantes, uma cidade eminentemente agrícola, uma cidade simples daqui do Brasil naquela época, bem diferente da cidade que é hoje. O Brasil também é muito diferente do eu é hoje.
 Numa cidade pequena, era uma vida muito simples, muito modesta. O que você brincava, era normal, como qualquer criança. A diferença é que você tinha que fazer os próprios brinquedos, criar as coisas porque nem havia o mercado, nem havia dinheiro para comprar. Então era uma infância bem diferente da que nós conhecemos hoje. A brincadeira, a atividade própria da criança era desenvolvida muito mais simples, muito mais sossegada. Usar sapato era luxo! Isso de todo mundo andava descalço mesmo. Você tinha um par de sapatos e olhe lá, para ir para a missa ou a casamento, aquela coisa toda. Isso não era só comigo, 98 por cento das famílias daquela cidade eram assim. Você tinha muita pouca gente com grande poder econômico, tanto assim que você contava nos dedos os carros que havia na cidade, os automóveis.Foto atual de Sertãozinho

JUVENTUDE
Depois que eu terminei o ginásio e fui para Ribeirão Preto, eu tinha dezesseis, dezessete anos de idade. Claro que já foi um primeiro golpe porque você tem que deixar a sua família. Eu fui morar em Ribeirão Preto porque eu trabalhava e estudava. Porque o curso de Química que eu fiz tinha, aula praticamente de manhã e a noite, todo o dia, aí não tinha condição de viver se não fosse assim. E trabalhava, na PRA7 cumpria a minha jornada de trabalho, aquela coisa toda. Trabalhava fim de semana, porque eu trabalhei muito na área de esportes. Ribeirão Preto havia dois times de futebol muito fortes, o Botafogo e o Comercial. A cidade vivia muito o futebol. Ribeirão era uma belíssima cidade, já era uma cidade muito forte economicamente, culturalmente muito próspera porque você tinha todas as faculdades, medicina, odontologia, enfim, era um grande centro cultural e educacional para o qual convergiam todas as cidades da região e de outros estados, de Minas, Mato Grosso, etc.

FORMAÇÃO ACADÊMICA
Eu fiz grupo escolar, eu fiz ginásio em Sertãozinho, depois do ginásio já não havia mais escola, você tinha que estudar em Ribeirão Preto, lá não havia ainda essa quantidade de escola que nós temos. Depois do ginásio, fui para Ribeirão Preto e fui estudar Química Industrial, porque naquela época todo mundo fazia o tal de colegial, o científico, como era chamado, depois do ginásio. Para depois entrar numa faculdade. A porta de acesso era esse segundo ciclo depois a faculdade. Mas como eu tinha família, aquela coisa toda, eu achei melhor fazer Química Industrial que era quatro anos de estudo, mas eu já sairia dele com uma profissão técnica, que foi o que aconteceu. Eu, nessa época, estudei em Ribeirão Preto e, curiosidade, eu trabalhava para poder estudar. Em 1966 eu entrei para a faculdade de Direito em Santos, fiz, prestei vestibular na Faculdade Católica de Direito de Santos, que existe lá até hoje. Hoje é uma grande universidade, naquela época não era uma universidade. Depois que ela se completou, já era uma instituição muito importante.

Moacyr Franco no início da carreira em Ribeirão Preto, foto do livro PRA-7 - A Primeira Rádio do Interior do BrasilTRAJETÓRIA PROFISSIONAL
Eu era radialista. Trabalhei numa emissora importante na época, que era a PRA7-Rádio Clube de Ribeirão Preto. Trabalhei em outras emissoras também, mas mais nessa. Foi a forma de eu conseguir me manter para poder estudar até terminar o meu curso.
Quando eu acabei Química Industrial,  eu fiz um estágio importante numa antiga refinaria que havia do Matarazzo, no Ipiranga, em São Paulo, capital, porque naquela época, o curso de química exigia, o último ano, você tinha que fazer alguns estágios práticos. Eu fiz na usina de açúcar, na região lá de Ribeirão Preto, dois meses, fiz nessa refinaria do Matarazzo, eu fiz mais três meses, completei o tempo que eu precisava, e depois eu fiz mais um estágio na COBRASMA, que era uma empresa, Companhia Brasileira de Matéria Ferroviário de Osasco, que era o grande fabricante de vagões na época, também fiz estágio lá. Depois comecei na COSIPA, em maio de 63.

Naquela época havia uma empresa, hoje muito grande, mas estava nascendo, chamada Companhia Siderúrgica Paulista, a COSIPA, que é em Cubatão, e eu fiz um teste junto com alguns outros colegas meus que tinham feito Química Industrial comigo e ingressei na COSIPA em maio de 63. No ponto de vista político, nessa época, eu já me liguei ao velho Partido Comunista Brasileiro,  já como militante, aquela coisa toda. Na COSIPA, a minha função, eu trabalhei como técnico, e exerci o cargo de chefe de turno na aciaria, que é o departamento, é a unidade de produção de aço. Uma usina siderúrgica é um complexo industrial que você tem todas as modalidades de atividade industrial. E há departamento, uma unidade. E a aciaria que é a que recebe o ferro gusa, que é a matéria prima básica, e ali que se processa a transformação do ferro gusa em aço. Dali depois vai para a laminação, onde há o processamento final das chapas.
A COSIPA, nesta época tinha cerca de 10 mil empregados, mais ou menos, uma quantidade grande de trabalhadores e empreiteiras. A usina estava nascendo. Eu, tanto eu como outros colegas, fizemos curso de especialização lá dentro porque naquela época, não havia escola que preparasse técnicos para o setor siderúrgico e metalúrgico de alta complexidade. Tanto assim, que eu fiz estágios na Usina de volta Redonda, na Usina da Bel Mimeiro, em Minas Gerais e assim por diante, até que começamos então o processo de operação.

TRAJETÓRIA SINDICAL
Já em Ribeirão Preto, havia uma efervescência muito grande, era uma cidade de muito vigor político, já havia uma ligação com o partido comunista, com alguns militantes, não é, que foram se aprofundando, e quando eu fui trabalhar numa grande empresa, como é a COSIPA, aí eu mergulhei naquele mundo. É o mundo do trabalho mesmo. Uma empresa de quase 10 mil empregados! Era uma coisa muito grande e muito forte. E que havia, a Baixada Santista, já naquela época, isso pré o Golpe Militar de 64, Santos era chamada a Moscou brasileira, a cidade vermelha, a tradição de luta sindical em Santos era uma coisa estupenda, fenomenal naquela época. Quando surge a COSIPA, o Sindicato de Metalúrgico em Santos foi um crescimento vertiginoso. O que antes os Sindicatos importantes, os mais importantes eram da área portuária, do porto de Santos. Aí entra os metalúrgicos e entram também os petroleiros a com a criação da refinaria de Cubatão, pouco antes da COSIPA, então são sim de uma efervescência sindical muito grande! Era uma das cidades mais importantes do ponto de vista de vida sindical. O apelido dele era esse aí, a Moscou brasileira, a cidade vermelha. E sofreu muito por causa disso.
Quando veio o Golpe de 64, eu já estava mergulhado na militância e aquilo foi um arraso para a COSIPA, para todos os setores. Na Baixada Santista, diria você de uns 20 sindicatos de porte médio e grande que havia, 99 por cento sofreu intervenção. Perderam. As diretorias foram caçadas, houve intervenção, prisões em massa, houve uma razia. Em nenhuma cidade do Brasil, isso eu posso garantir a você, Em nenhuma cidade houve tanta perseguição política e tanto desmantelamento do movimento sindical, como houve em Santos, em Cubatão, enfim, naquelas cidades que se convencionou  chamar de Baixada Santista, cuja cidade mais conhecida, mais importante é Santos. 
Eu e um grupo de militantes da COSIPA, que também faziam faculdade, nós todos ligados a luta sindical, ainda muito jovens, nós resolvemos concorrer ao sindicato de metalúrgicos em Santos, que tinha sofrido intervenção. O Presidente, na época da intervenção, um nome não muito conhecido, Vitelbino Ferreira da Silva, já falecido. Então nós resolvemos enfrentar a diretoria que estava lá, que vinha da Ditadura, quando houve a intervenção, eles ficaram de interventores, depois ganharam uma eleição muito esquisita e nós conseguimos, em 1968, nós conseguimos ganhar a eleição. Aí a minha vida sindical começou nos metalúrgicos de Santos, já não vida propriamente, já estava militando na área política, na área sindical. Ela se consolida quando a gente ganha a eleição dos metalúrgicos em Santos.
O Movimento Sindical em 1964 tinha sido arrasado no Brasil inteiro. Mas havia ainda muitas lideranças de esquerda da velha guarda, os que estavam mais jovens sobreviveram, havia uma quantidade, quadros de esquerda, do PCB, que era majoritário, PC do B tinha muita gente. O PSB, Partido Socialista Brasileiro, na área sindical era muito pequeno. Existiam alguns setores da Igreja Católica, da antiga AP (Ação Popular), que não atuavam, a Igreja também não atuava e você possuía um contingente grande de uma estratificação, ou de centro direita e até  de direita. Havia alguns estrados de direita pesadíssimos no Movimento Sindical, que a gente guerreava e precisava tomar um cuidado danado.
Eu acredito que a política que o Partido Comunista pregava, tinha um papel muito importante. Não quero desmerecer ninguém. Não estou desmerecendo outras forças  políticas de maneira nenhuma, mas o centro da teoria do Partidão, para derrotar a Ditadura era que só um grande movimento de massas, a aliança de uma grande frente de todos os democratas, os que têm interesse no progresso social é que podem derrotar a Ditadura.
O papel que a gente desempenhava, eu me lembro que meu esforço, sempre, era com toda a dificuldade que havia em cada instante era trabalhar pela a unidade de luta dos trabalhadores. Em torno das nossas bandeiras imediatas, da classe trabalhadora, mas sempre ligada à questão política: “Olha, não adianta pensar que acabou o arrocho, se não derrotar a Ditadura!”, uma coisa está ligada à outra, nós só vamos derrotar esse arrocho salarial no instante que nós derrotarmos Ditadura. Não se admirem  se nós andávamos com divergências políticas grandes, com grandes divergências com outros dirigentes, mas sempre procurava encontrar uma forma de luta nas campanhas salariais, nas campanhas ante-arrocho, nas campanhas eleitorais, uma forma de conseguir costurar alguma unidade que pudesse ter eficiência e caminhar naquele mar de dificuldades que a gente enfrentava, que era de todos os tipos.
Greve, você não pode imaginar a greve. A greve era um palavrão da pior espécie. Então, o cerco era muito grande, o cerco era muito grande, o cerco cultural, o cerco ideológico em cima de nós, e o quadro era esse. Agora olhando assim que já faz muito tempo, foi um verdadeiro milagre realmente. Como se conseguiu, numa das circunstancias mais difíceis ir adiante, e que culmina logo depois, 77, 78, quando a Ditadura já estava, aquele grande movimento que veio do ABC. Mas aí que está, é um movimento que você tem que pensar, para ele explodir daquele jeito, ele foi construído, ele não, num cai do céu. É uma luta que foi construída e chega um momento que ela acumulou força suficiente e bateu de frente com o Regime.

TRAJETÓRIA POLÍTICA
Em 1972, quando eu chego para Deputado Federal, me elegi bem. Quero dizer eu não me elegi, eu, o Marcelo Gato, foi o movimento, houve apoio de quase todas as categorias profissionais. Foi um apoio brutal. Para vocês terem uma idéia, eu fiz, na época, 101 mil votos. Seria hoje coisa de  400 mil, eu estou entre os seis mais votados do Brasil naquela época. Não fui eu que tive aquilo, foi todo o movimento sindical, foi uma coisa encantadora, uma campanha pobre porque não tinha recurso, mas desembocou.
E foi pelo velho MDB. Eu sou e você pode me colocar entre o hall dos fundadores do velho MDB. Naquela época havia dois partidos apenas. A Ditadura deixou a Arena e o MDB, que era o incipiente, com muita dificuldade. Eu estou entre aqueles que se filiaram logo no início, ajudaram a montar. O vice-presidente do meu sindicato era o Arnaldo Gonçalves, também era vice-presidente meu na época e, eu fui para Brasília, eu cumpri o mandato de deputado federal no ano de 75. 
Eu me recordo que conversava com o Walter Barelli, eu ia tomar posse de deputado e, minha vida toda estava envolvida na questão trabalhista, a minha militância era toda enraizada nisso. Conversando com o ele, nós pensamos, em  pedir a CPI, Comissão Parlamentar de Inquérito,uma para investigar o arrocho salarial. Cheguei em Brasília, parei no MDB, havia dois partidos e havia a possibilidade de cinco CPIs. Então de acordo com o regimento da Câmara, como a Arena era majoritária, ela tinha direito a três CPIs e a MDB duas. Eu coloquei a proposta da CPI do, para investigar o arrocho salarial e a política de salário mínimo que enterrava os trabalhadores. E esta CPI vingou. Eu já ví nos jornais, pois estava em Porto Alegre e pensei. “Agora vai caber ao DIEESE preparar!”.E o DIEESE preparou um estudo muito bem feito, fez a análise da política do arrocho salarial, do salário mínimo, de maneira que ninguém tinha competência para fazer igual. Do ponto de vista nosso, da classe trabalhadora, dos interesses populares, ninguém tinha o interesse, a matéria prima, o mergulho naquelas questões como o DIEESE tinha.
No  início de 76, eu fui cassado. É bom registrar isso, a cassação foi por natureza política, a cassação do AI-5, não tem nada a ver com outras histórias, cassação política por perseguição política. O que detonou a minha cassação e de outras pessoas na época eram as denúncias das torturas a preso político, perseguições políticas, o arrocho salarial, enfim, toda aquela caretice da Ditadura que atingia principalmente a classe trabalhadora. Então perdi o mandato do sindicato, de presidente do sindicato dos metalúrgicos e de Deputado Federal.

TRAJETÓRIA NO DIEESE
Sindicato dos Metalúrgicos de Santos. Fonte http://metalurgicosbs.org.br/Sindicato dos Metalúrgicos de Santos. Fonte http://metalurgicosbs.org.br/

Tomando posse do Sindicato dos Metalúrgicos de Santos, no dia seguinte filiamos o Sindicato ao DIEESE, o Sindicato não era filiado porque era um bando de direita que não podia nem ouvir falar do DIEESE. Havia no setor sindical algumas figuras com uma posição política tão radicalizada para a direita, que o DIEESE era um verdadeiro demônio para eles. Víamos a importância do DIEESE naquele processo. E nunca se pensou em partidarizar um DIEESE, é preciso se  deixar registrado. Em nenhum momento eu ouvi, por exemplo, da palavra, das mais importantes lideranças do PC do B, tudo na irregularidade, na clandestinidade, ao contrário: “Não partidarizem o regularmente DIEESE! Se partidarizar o DIEESE liquida!”, aliás, ele tem que ser um instrumento de toda a classe trabalhadora, de todos os sindicatos, numa convivência democrática das várias vivências diante daqueles objetivos fundamentais que ele tem que cumprir. Não é para servir o PCB, não é para servir isso, não é, não, ao contrário.
E isso também você tinha nas correntes mais à direita da gente, que uns chamam de corrente centro-direita, no movimento sindical, ninguém nem passava na cabeça de ninguém e isso o DIEESE só funcionou e se manteve, nessa trajetória que continua, porque ele não foi partidarizado por nenhum grupo político e nenhuma corrente política, se fazia política no Movimento Sindical e era militante e era engajado, todos sentiam a necessidade absoluta da existência do DIEESE, isto aqui era claro para todos nós e todo mundo procurava lá, de acordo com suas forças, com a suas coisas, ajudando para tocar adiante.
Agora, para o DIEESE, eu vim para o DIEESE em 1970. Nessa época, uma época de bastante efervescência política, uma época bastante interessante, mas uma época muito difícil para o movimento sindical, para os trabalhadores, para a sociedade brasileira, porque nós tínhamos um regime forte militar, ditatorial e com total ausência das liberdades democráticas fundamentais.
Eu conhecia velhos militantes sindicais, de antes do DIEESE. Para o trabalhador, para um sindicato apurar quanto é que houve de elevação de custo de vida para aquelas coisas fundamentais, para ele poder reivindicar, era uma dificuldade. Olha, a gente colecionava nota fiscal amadorísticamente, e o DIEESE surge com essa necessidade dos trabalhadores de ter um organismo intersindical com todas as correntes divergentes atuando ali, porque aquilo era uma necessidade fundamental e a necessidade e a mãe das invenções.
O diretor técnico do DIEESE, quando assumi, era o Walter Barelli. Uma das primeiras tarefas nossas e que foi muito difícil, porque era um processo caro, era fazer um novo perfil do custo de vida. Tinha que refazer todo o estudo porque os hábitos haviam mudado, aquela coisa, você tinha que ter todo um estudo novo para poder aplicar e avaliar o custo de vida. Não havia desenvolvimento nesse projeto. E esse projeto acabou naquele período, acho que um ano e meio para fazer aquilo porque a dificuldade era muito grande, porque a gente não tinha recurso para fazer aquilo, era caro e era difícil.
A partir daquele instante o DIEESE passa a ter aquela matriz, o padrão de consumo da classe trabalhadora nas suas várias, vários extratos, enfim, da sociedade de um modo geral, e podia, então, pode trazer um aperfeiçoamento muito grande em relação ao próprio trabalho técnico do DIEESE, quando você examina desde os primeiros anos. Então houve ali um crescimento nos anos 70. Já vinha, o DIEESE é algo assim, que vem de tradição de todo mundo, é um projeto de muita gente. É um projeto de muita gente, não é um projeto de uma pessoa só, é um projeto de milhares de pessoas que juntaram e passaram por aqui.
O DIEESE era referência que você tinha naqueles anos para o movimento sindical  poder balizar suas reivindicações. Não nos esqueçamos, a política, a marca da ditadura em cima do trabalhador, além da falta de liberdade sindical, de total proibição do direito de greve, greve era palavrão que dava cadeia, não é, das perseguições, da brutalidade, das intervenções, de tudo aquilo, a marca registrada do ponto de vista econômico era o arrocho salarial. O arrocho salarial passou a ser a bandeira que unificava a todos, todas as correntes. Porque havia um arrocho bem caracterizado e o DIEESE tinha um papel muito grande para medir esse arrocho, ele que conseguia medir quanto que era esse arrocho em cada lugar. A palavra arrocho salarial, a luta contra o arrocho salarial, se tornou bandeira, bandeira de todo o sindicalismo, de todos os democratas que lutavam contra a ditadura, todos que lutavam a favor do trabalhador, todos os que queriam um regime, um regime de tendência de esquerda socialista e assim por diante.
Um fato importante é a questão de quando da denúncia da manipulação dos índices, mas ela vem lá, do ano 73, já se sabia que havia essa manipulação, ela conseguiu ser provada de uma forma mais evidente, lá em 77, se não me engano, quando logo depois surgem os grandes movimentos dos grevistas do ABC.
No período que estive no DIEESE eu vi à seriedade técnica, à seriedade científica, à seriedade do método, para apurar as coisas e assim por diante. A grande dificuldade que nós tínhamos na época, que existe até hoje, era recursos para manter o DIEESE. Essa era a grande dificuldade, a gente às vezes queria fazer outros estudos, outras coisas, mas nós não temos recurso. Nós não recebíamos um tostão do governo. Não havia nenhum, nada, nada, nada que viesse de um Governo Municipal, Federal ou Estadual. O DIEESE vivia exclusivamente com aquilo que recolhia dos sindicatos. E os pobres sindicatos não tinham nenhuma fortuna, grande dinheiro, também lutavam com dificuldade… Porque no momento que você tem o arrocho salarial, a mensalidade do sindicato tem que ser baixa, se que por fim, toda a coisa pega na outra.
Eu lembro de quando iam começar as grandes safras das campanhas salariais, o DIEESE organizava seminários em todos os grandes sindicatos, aí parte do pessoal técnico que ia, mas normalmente iam Diretor eleito junto também porque estava representando o DIEESE. Era comum eu ir várias vezes à Federação dos Metalúrgicos, na época tinha 38 sindicatos. Ia numa série de sindicatos e havia uma seção plenária com a presença da Direção Técnica, que depois ia tecer detalhes daqueles seminários e havia de algum Diretor que a gente se revezava e escalava. E, além disso, eram muito comum as assembleias do DIEESE. Com os associados do DIEESE, com os sindicatos. Houve várias assembléias e ia gente do Brasil inteiro e participava. Então a forma de decidir certas coisas era uma democracia muito direta, nós vamos ouvir, os nossos companheiros para participar. Mais ou menos isso daí. Eu acho que você faz a democracia direta o máximo que você puder porque é bom e há coisas que você não pode ficar reunindo a todo o  instante para ficar tomando decisões, por isso que existe uma Diretoria. Mas no instante que a grande máxima de associados que era base em assembléia está fortalecido para ir executando aquelas políticas operacionais que eram determinadas, mas sempre com esse cuidado. Não era a Diretoria que traçava as grandes diretrizes operacionais, de luta eram as Assembléias Técnicas, duas, três, quatro, cinco por ano.
 
AVALIAÇÃO/DIEESE
O DIEESE tem uma importância fundamental não só para os trabalhadores, mas para toda a sociedade. Porque o DIEESE pode, em qualquer área do conhecimento, o sociológico, o econômico, o DIEESE pode fazer os seus trabalhos com a mesma seriedade, mas levando para ali uma visão do trabalhador, da classe trabalhadora. Essa visão que vem do DIEESE é uma visão da grande massa de explorados, de miseráveis, de pobres, de gente que não consegue emprego, que está empregado e é despedido abruptamente e luta com todo o tipo de dificuldades, essa massa cultural, a cultura que surge disso, de instituições públicas, eu acho que nenhuma pode 

abranger e incorporar isso tão bem quanto o DIEESE. Na sua luta para incorporar toda essa visão, fazer a mediação disso e conseguir externar isso de uma maneira sistematizada. Isso aí é uma importância do DIEESE fundamental nessa coisa toda.
O DIEESE é um organismo que trabalha para a comunidade. Ele surge a partir da necessidade dos trabalhadores, enfim, tem essa característica. Não pode, no meu modo de ver mudar isso , se mudar, ele acaba. Isso é fundamental. Segundo, é sempre enfrentar dificuldades dos recursos, de obter meios, não é, para crescer, para ter uma quantidade de funcionários necessários, para conseguir pagar bem esses funcionários, porque, eu sei  do problema, não adianta você pensar em ter uma equipe técnica, se você não tiver o mínimo de recurso, você não consegue manter. Quando a pessoa está amadurecendo aparece a possibilidade  de ganhar dez vezes mais lá fora, você não vai segurar. Então é preciso o DIEESE ter recursos para isso, aliás, não se pode viver à mingua.
Eu acho licito pensar em parcerias. Como por exemplo, na área de colocação de mão de obra que o DIEESE pode ter um papel importante nisso. Não só executar, mas ele assessorar à sindicatos que queiram fazer, entidades que queiram fazer. Isso tudo pode ser feito em parcerias com Governos Federais, Estaduais, Municipais, evidentemente que quando eu digo essas parcerias, eu digo sempre com essa característica, mantendo sempre a sua independência não se partidarizando.
Deve ter outros desafios brutais. O que já está na cultura do DIEESE, que é essa vida democrática com relação ao movimento sindical. Isso já está enraizado, não tem que ficar buscando chifre na cabeça do cavalo, porque nada, o que impede  o DIEESE.
Para mim seria um verdadeiro absurdo se o Movimento Sindical dissesse: “Olha, eu não preciso mais do DIEESE!”. Isso nem passa na minha cabeça isso nem passa na minha cogitação.  Aliás, quem sofreu tanto nos momentos mais difíceis. Sobreviveu, cresceu, pulou, teve um papel decisivo naquele momento histórico, e continua tendo. Mas é algo que tem que ser prestigiado e avançar, procurar por todos os meios. Eu isso o que penso.

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Fonte: Depoimentos gravado no ano de 2006 e hospedado no site http://memoria.dieese.org.br/museu

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