Conheça a história do ferroviário, comunista, ex-militante do CGT e sindicalista até os últimos dias, Raphael Martinelli

por jawsdigital. 16 fev 2020 . 19:21

Em setembro de 2015, Raphael Martinelli, ex-ferroviário, falecido hoje, 16 de fevereiro de 2020, aos 95 anos, concedeu este longo depoimento à historiadora Maíra Estrella, para o Centro de Memória Sindical. O depoimento, que você ouve e lê aqui, que é parte do arquivo do Centro, ainda não havia sido publicado. Martinelli contou um pouco de sua história de vida, desde seus pais, passando pela militância política, até os últimos anos.

Primeira parte

Segunda Parte

Terceira Parte

Quarta Parte

Quinta Parte

Maíra: Nós estamos aqui com enorme satisfação entrevistando o nosso grande camarada Raphael Martinelli, um homem com uma história de vida fantástica. É com grande prazer que nós estamos aqui recebendo você para colher seu depoimento, que é muito valioso para a história do sindicalismo e para a história do Brasil. Muito obrigada pela sua presença. Bom, em primeiro momento, eu queria perguntar para você se você poderia falar um pouco o seu nome completo, local de nascimento, a data, qual a profissão, o que, qual a sua atividade atual. Por que eu sei que você faz parte da Federação Nacional, não é… ainda dos aposentados? Fala um pouco sobre isso, por favor.

Martinelli: Bom, eu sou Raphael Martinelli, casado. Hoje com a minha primeira mulher, vivi com ela 57 anos, companheira, operária, tecelã, que teve a coragem de viver com revolucionário que dá muito trabalho para a esposa e para os filhos. E eu sou filho de Maximino Martinelli, brasileiro, que nasceu na Lapa em 1893, quando os pais dele chegaram da Itália. Não era bem Itália, porque eles vieram como austríacos.

Então, meu avô era como austríaco. Sabe como é que é o italiano com o alemão, né? Eu até brinco às vezes quando o pessoal me pergunta, é a história da minha família. Meu pai, para casar ou para namorar com a minha mãe, italianinha, porque a minha mãe era italianinha mesmo. Ela chegou com 10 anos da Itália. Então, veja você. Uma família que era considerada alemã pelos italianos. Querer namorar com uma italianinha da Toscana, né? Eu até brinco. Saiu até tiro na Lapa na época. Então, o meu pai era de família que podia ter condições de se instalar, etc. Tanto é que se instalou na Lapa. E fracassou. O pai do meu pai. Com chácara, com tudo.

E a Lapa sempre deu enchente. Barra Funda e Lapa, como o Tietê era não retificado era enchente todos os anos. Então, perdeu o que ele tinha das plantações, que nunca deram certo. E o meu avô, pai do meu pai, se viciou no café com rum. Com 52 anos, morreu o meu avô. Veja, moço. Não viveu nem quase 10 anos aqui no Brasil.

Meu pai era ferroviário. Cresceu, casou com a italianinha. Entrou na ferrovia. Eu falo ferrovia por que? Na Lapa, a ferrovia central da SP inglesa foi feita na Lapa. Então, tinha 3500 operários na época. Uma Lapa crescendo. E a maioria era tudo ferroviário. Era aqueles empregos que diziam: “Se ele trabalha na ferrovia, é um bom partido”. Para a família que quer namorar. Eu fui assim também. O meu cunhado, que seria, quando a minha primeira esposa falou que eu trabalhava na estrada de ferro: “Hum, então é um bom partido”. É aquele negócio, até para isso.

Meu pai casou, em 1912 ou14, com a minha mãe, a família da minha mãe fracassou, que era família bem de vida, professora de francês também. Montou um restaurante na Lapa. Só que ela disse que era uma das mulheres mais lindas da Lapa, a mãe da minha mãe. Quer dizer, quando eles vieram da Itália, deixaram a minha mãe lá. Nasceu menina, mas um italiano de 2 metros, aquele “personale”. Chegaram e vieram para o Brasil. Montaram um restaurante na Lapa e tudo mais. Só que quando a minha mãe chegou aos 10 anos, já tinha 4 irmão homem. Veja você, ela nasceu, em 10 anos os filhos nasceram aqui, era tudo homem, todos meninos. E ela morreu, vamos dizer, depois de um ano que ela estava aqui, ela morreu. Uma morte que era muito comentada, porque ela era linda, tinha restaurante, ela estava com 30 dias do parto dela de uma menina. Era mais uma criança que tinha nascido. Sentada no restaurante, morreu. Bonita, e tudo mais. O italiano ficou tão bravo, que não acreditava que ela estava morta. Naquele tempo chamar medico do Rio de Janeiro para poder confirmar que ela estava morta, porque ele não acreditava, porque ela morreu bonita. Ele nunca casou, e a minha família sempre teve problema político.

Então a vidraria Santa Marina, na época, que ficou em frente mais ou menos mais de um ano. A maioria comia no restaurante do meu avô, pai da minha mãe. Por isso, chegou a invadir a casa, minha mãe contava, não é, que até elogiava o sargento da força pública, não é, que os caras entravam bravos, sabe como é a área militar. Sargento chegou, “para com isso, deixa a menina”, porque estava minha menina, que era minha mãe, com os irmãos todos pequenos. Ela que estava olhando as crianças, como mãe, não é.

Então historicamente essa greve, vamos dizer, durou um ano, porque os caras diziam, quando voltar a trabalhar, nós pagamos. Só que voltaram a trabalhar, e a maioria não pagou nada. Então ele também fracassou, fechou também. E a vida assim, foi tirar areia no rio Tiete, para vender… são coisas da vida.

Bom, meu pai é casado, casou com a minha mãe, já vou contar a minha família, não é. Desse casamento, são 7 filhos homens, e uma mulher. Eu sou o quinto da família, com dificuldade, porque ele era ferroviário, os irmãos dele eram ferroviários. Quase, a maioria dos meus irmãos, não tiveram condições de estudar, porque eram filhos de operário. Então, vamos dizer, para sustentar a família naquele tempo, meu pai era caçador, de arma mesmo. Caçava em Pirituba, paca, capivara, veado. Eu cheguei a ir umas duas, três vezes, caçar junto com meu pai. E quando caçava uma paca, ou capivara, quando caçava capivara, minha mãe fazia todo aquele trabalho de horas, e horas, para tirar o famoso óleo de capivara, que é um santo remédio. Todo mundo ia procurar se tinha o remédio, para poder curar. Então ou quando matavam uma paca, você tinha comida de carne para semana toda.

Essa é a verdade, operário que ele era, quando chegava no sábado, ele ia caçar. Nós sempre tivemos cinco, seis cachorros de caça. E vamos dizer, e a italianinha, que era minha mãe, com um monte de filhos, mas sempre as casas antigamente tinham horta, que a gente falava. Aquele quintal, tinha o galinheiro. Nós moramos sempre em várzea na Lapa. Quer dizer, a divisa do nosso terreno era várzea. Quer dizer, as galinhas iam botar ovo lá no campo, e tudo mais, galinheiro, tinha cabrito, então nós não comparávamos leite, bebia leite de cabra. E a gente tinha que trabalhar também, para ajudar minha mãe, porque eu até hoje sou especialista de lavar prato, deixar coisa bonita.

Eu brinco, às vezes, porque eu limpo, mando as mulheres tudo para fora, faço tudo, e faço cafezinho, dou cafezinho para todo mundo, que era costume da minha mãe. São coisas que a gente acostumou, e eu gosto de fazer essas coisas. Então é uma vida de operário, os filhos, as crises que existia na época, e o meio de trabalho era a ferrovia. Então a minha família, o mais velho entrou na ferrovia, fundidor. O segundo entrou como torneiro mecânico, em uma outra indústria na Lapa. O terceiro, fugiu de toda regra, a minha mãe colocou como aprendiz de alfaiate, foi um dos melhores alfaiates depois. Porque naquele tempo tinha aprendiz. O quarto, foi mecânico também na ferrovia. O sexto, entrou como aprendiz também. Eu era o quinto, só que da família eu era o bom de bola, isso era verdade, jogava bem. Era um espetáculo, porque a gente morava no campo, de manhã, sempre jogando bola, e eu saí da família, o melhor de bola. Eu já jogava de menino, com 10/11 anos, já jogava no juvenil, que era da estrada de ferro. Então eu jogava na Lapa, e tinha os meninos que já jogavam na (ininteligível) espera. Um dia eles foram lá, como nós jogávamos bem lá na Lapa, na várzea, ele me levou lá, e eu acabei sendo aprovado. Fiquei jogando anos lá.

Quando eu completei 14 anos, antes… com 12 anos, trabalhei na fábrica de produtos químicos Sucuri, e antes no Mazoco. Coisas antigas eu não esqueço, eu esqueço de uns tempos para cá. Mas os antigos eu não esqueço. Ele tinha uma oficina de fundo de quintal, na Lapa. Sabe aquelas fabriquinhas que tem o barracão, e o químico tinha mistura, tinha 32 marcas de anilina, isso eu não esqueço. Azul, amarela, havana, eram 32 cores. E ele fazia uma mistura, daquelas… hoje é aquelas coisas de botar na macarronada, eu me lembro que era aquele tipo, que virava a mistura do pó. Depois colocavam em latinhas pequenininhas, e nós fazíamos colar, tampar direitinho, em caixa de papelão, uma dúzia, e eles tinham os vendedores que vinham das vendas, não é. Então quando ficava pronta, já saía para entregar. Até brinco com os companheiros de Osasco, quando ia entregar em Osasco, descia na estação, não tinha nada Osasco. Tinha aquela rua de barro que ia lá em cima, que tinha um armazém lá em cima que eu ia entregar. Onde hoje é Osasco. Então eu trabalhei lá até uns 14 anos, como menor. Completei 14 anos, já podia entrar em qualquer fábrica. Eu gostava muito de mecânica, visitei várias mecânicas na Lapa para entrar de aprendiz, porque eu sempre gostei de mecânica, ferramenta, mas nunca consegui. Aí fui na vidraria, porque a vidraria era na Lapa, e empregava sempre menores. Eu as vezes falo para a juventude, menores, fazia o turno da noite, da meia noite às seis. Então trabalhei um ano na vidraria Santa Maria. Da minha família, o único que a família conseguiu, entrei no Campos Sales, na 12 de outubro, Campos Sales. Entrei na Campos Sales, tinha os amigos da bola, família Prado, etc., aí ficamos jogando bola e tudo mais, e aí esse da família Prado trabalhava já na ferrovia, na Estação da Luz, na administração. Ele tinha ligação com a administração, ele trabalhava no depósito de telha que tinha na Lapa, que era rico, era uma luta que depois que eu entrei na (ininteligível). Aí ele disse Leli, porque meu apelido é Leli, sempre foi Leli, ninguém me conhecia por Raphael, nunca me conheceu. Aí, mas por que Leli? Aí eu tenho que explicar. Porque a minha mãe é italianinha, naquele tempo, de dois em dois anos tinham neném, não é isso? Então vamos dizer, quando eu nasci, tinha o Angelinho que era mais velho que eu, era o quarto, certo. Vamos dizer, eu nasci, Raphael, em italiano fala “Raphaeli”…

Maíra: É verdade!

Martinelli: E aí um moleque, tinha o que, dois anos e pouco, três anos, Leli, ficou Leli, até hoje. Hoje não tem tanta, pessoal chama de Martinelli, porque na ferrovia eu tinha que usar muito Martinelli, Martinellinho as vezes, porque tinha dois Martinelli, um em Jundiaí, e tinha outro em São Paulo. E tinha o mestre… então eu vou dar a minha entrada, não é. Aí o Prado falou, você não quer entrar na ferrovia? Eu falei, tá bom, de que jeito? Tem meu pai, três irmãos, eu tenho tio… os ingleses davam preferência mais tanto assim, só da minha família, você está entendendo eu não podia entrar mais porque já tinha um monte já. Os ingleses davam preferência para a família, mas a minha já tinha um monte. Não, não deixa que eu dou um jeito, ele tinha ligação com a administração. Ele ia arrumar um lugar lá, que a administração era 6 horas. Era aquele tempo de guerra, 1941. Guerra, as ferrovias, todas as locomotivas transformar em lenha. Foi um trabalho violento. E a ferrovia foi, entrou como convidada, de prevenção de guerra mesmo. Então fiquei… aí, pode ser, aí eu jogava, eu tinha saído da vidraria, entrado na Tupi.

Maíra: Tupi, o que que é?

Martinelli: Fábrica de artefatos de aço Tupi, existe até hoje. Ela começou ali na Lapa entende, perto de casa. Então da vidraria, eu falei, bom, perto de casa eu vou. Entrei como aprendiz de ferreiro. Deitava a orelha das enxadas, ele coloca lá eu ficava para abrir a coisa. Então olha aqui, isso é uma marca de aço porque tinha ferraria, era aqueles mateletes que faziam as peças. Eu andando ali, normalmente, parecia um tiro. Fui para o hospital. Então daí, eu sempre fui forte, jogava bola, ele me arrumou para polidor. Polidor já era… você vê, com quase 16 anos, um serviço de homem, porque era… então você pega a enxada, e vai deixar a enxada polida. Você ganhava por enxada polida. Ela vem do ferro e tudo mais. Então você deixa ela polida, vai para a pintura, e vai para a loja. Então tudo bem. Então isso aí não foi fácil, ele me arrumou, eu fiz a prova. Até eu brinquei, porque eu tinha o vício, eu sou um pouco até hoje esse vício, que eu gosto de… a pessoa fica me contando, eu brigo as vezes com a minha mulher… mas o que aconteceu? Eu só quero saber o resultado. Aquela prova de fração, tudo mais, três quartos, não sei o que, eu só botei o resultado, não fiz a soma. O Pradinho ficou bravo, Martinelli, mas não tá certo? Tá, mas pô, faz o cálculo. Ele queria que eu passasse de qualquer jeito, porque a vaga… Aí depois o inglês perguntou aonde eu trabalhava. Na Tupi, que era inglesa também. E era uma empresa que me licenciava, trabalhei um ano na Tupi. Me licenciavam toda terça feira para treinar no campo. Jogava, porque a gente jogava preliminar na época, não é.

Maíra: Que ano era isso mais ou menos?

Martinelli: Em 1941 que eu entrei. Aí já jogava em 1938, não é, 39, 40 e 41. Então aí passei, aí entrei de aprendiz escriturário de quinta categoria.

Maíra: Nossa!

Martinelli: Era o enquadramento que o inglês fazia. Entrei, época de guerra, não tinha domingo, não tinha feriado, não tinha nada. Eu entrei num lugar bravo mesmo. Eu faltei dois domingos para jogar. E naquele tempo, meu pai era da pintura, encarregado da pintura. O mestre daqui Seu Camilo, nunca esqueço, chamou o Máximo, que era meu pai, Máximo, se esse teu menino faltar mais um domingo, voa. Antigamente era assim. Aí eu não faltei mais, não joguei mais. Porque tinha domingo que eu não ia. Então os caras da várzea me perturbavam, porque na (ininteligível), todo domingo tinha que jogar.

Maíra: Não tem como.

Martinelli: Então foi assim, entrei na ferrovia, tranquilo, aí começou minha vida política. Certo?

Maíra: Certo.

Martinelli: Agora entra a ferrovia né?! Tá bom?! Você tem perguntas ai, né?! Às vezes pode melhorar…

Maíra: O senhor falou um pouco sobre essa sua entrada pra ferrovia.

Martinelli: Certo…

Maíra: As profissões dos seus irmãos, e o senhor falou sobre a sua habilidade no jogo de bola…

Martinelli: Hum!

Maíra: Eu queria que o senhor, por favor, falasse um pouco sobre as brincadeiras, a vida em família, os amigos. Gente, nós sabemos, é do conhecimento, que o senhor foi um exímio jogador de futebol. O senhor já falou que jogou na várzea, mas o senhor também jogou no “Spéria”, no clube né?!

Martinelli: “Spéria” não! É “SPR”!

Maíra: “SPR”?

Martinelli: É São Paulo Rio & Corporation, que era a ferrovia.

Maíra: Tá, o senhor jogou junto com os ingleses então…

Martinelli: É… na SPR. O primeiro, os que inventaram quase o futebol aqui, lembra? A SPR.

Maíra: Isso, isso mesmo.

Martinelli: É.

Maíra: Então, queria que o senhor falasse um pouco sobre a sua vida em família. Como era a sua vida em família?

Martinelli: Olha, como filho de operário, eu era o 5º. Quer dizer, eu trabalhando já… quando eu trabalhava 100 registros, era 100R$. Já ajudava alguma coisa. Inclusive até começar a estudar. Que 100 reais né?! Vamos dizer… pelo menos se pagasse 50R$ por mês, já os 100R$ dava pra pagar o colégio na época. E, aí todos meus irmãos trabalhando né?! Então a família era isso. O problema, vamos dizer, de brincadeira, de futebol, todos jogavam bola. À sua maneira…. quer dizer… uns jogavam no gol, outros jogavam aqui.

Maíra: Ahm!

Martinelli: Tá entendendo?! Tem fotografia dele, porque… Não sei se o clima dele com o alfaiate, com ligações com o pessoal do Roma, do Alto da Lapa né?! Porque nós era lá para debaixo né?! Então ele era filho de maria também… santa, da igreja, entende?! Então ele tem, eu tenho fotografia dele, inclusive…. O carnaval né?! Calça branca e camisa né?! Naquele tempo né?! O carnaval, tudo mais… Então o problema na Lapa era isso… era… essa… vamos dizer, tem juventude, nós éramos… a minha família era campeão de pegar balões… Então a Lapa, lá onde a gente morava, até o Rio Tiete… a (- ininteligível 00:02:38.40) da companhia mecânica e importadora de São Paulo, era dona da loja (-ininteligível 00:02:43.30). Só que, ela, quando chegasse o tempo de (- ininteligível 00:02:48.14) quem entrava lá, eram os Martinelli. Então, vamos dizer, eu pegava 40 balões, outro meu irmão pegava 30,40 balão, quer dizer… era aquela brincadeira, ali era dos Martinelli entende?! São coisas de bairro né?! E a gente soltava, fazia fogueira, nós só faziamos fogueira e isqueiro, porque o meu tio era Pedro, e São Pedro é quase o último dia do (-ininteligível 00:03:14.11), né?! Então a gente pegava os balões, aí em São Pedro a gente soltava tudo aqueles balões que a gente pegava… e era festa, sabe… disso…. era batata doce, era tá, aquela fogueira bonita, todo mundo, né?! Então, essas coisa… E antes disso, quer dizer, antes dessa brincadeira de São João, tinha assim, tinha… brincadeira né?! de roda, sabe aquela de bota o lenço atrás, sai correndo, não sei o que… dá a entender que se você tava botando numa menina só, é que você estaria gostando da menina

Maíra: É…

Martinelli: Aquilo de pular um, pular o outro, jogar peão, peão, sabe, aquele peão?!

Maíra: Sim, sim!

Martinelli: A gente era bom no peão, porque tinha um peão que, botava numa roda, casava os peões lá né?!  E você, no jogar o peão, em cima daquele bolo, o que tirava dela, era teu. Esconde-esconde né?! Você esconde, tudo essas coisas, a gente fazia com juventude né?! Porque a maioria das famílias, tinha, botava a cadeira fora na rua, e a noite ficava ali. A gente tinha sorte quando a prefeitura colocasse, né?! Lâmpada na rua, né?! Normalmente nem lâmpada na rua tinha, né?!

Maíra: Sim..

Martinelli: Essa é a verdade, então, são coisas de juventude… simples, honesta, futebol, essas brincadeiras… Não tem o que tem hoje, vícios e mais vícios. A única coisa que os pais falavam na época, nunca esqueço… que tinha às vezes pessoas que jogavam 21, à dinheiro… jogo de baralho né?! Jogava dinheiro…

Maíra: Sim sim, conheço bem italiano…

Martinelli: Jogava a dinheiro, tá entendendo? Então, a minha casa era, minha (-ininteligível 00:05:10.10) né?! essas coisas né?! o italiano… Então são coisas assim… e outra, tinha aquele respeito né?! Por exemplo: O meu irmão mais, acima de mim, antes de mim… forte pra burro né?! No começo, ele, deu congestão de criança, ele ficou vesgo, só foi operado com 18 anos… certo?! Então, ele era o mais rebelde né?! Ele era forte, rebelde… e às vezes ele passava das 22h pra chegar em casa… na rua, brincando… e meu pai batia. Chegava depois da hora que ele marcava, apanhava… (- ininteligível 00:05:50.40) não quero… e, tinha áreas que, vamos dizer… o próprio pai dizia assim: “Tem aquele barro pegado a estação, não quero ninguém que para naquele barro”, tu entende?!

Maíra: Sim…

Martinelli: Era mais de malandro, vamos dizer, sempre teve malandragem nesse mundo, isso é verdade… cara que bebe, né?! Porque lá tinha ferreiro, cavalo, de cavadoura, tinha.. essas coisas todas. Era normal, questão de família era normal, as mães sempre… preocupadas, e os pais sempre preocupados, mas… a gente sempre teve um tratamento sério né?! Quer dizer, de obrigação, de respeitar os pais, de respeitar os mais velhos. aquela educação… você não pode dizer tradicional de quem vem de fora… Mas é quase de quem vem de fora, essa é a verdade, então… amizade com os vizinhos, então.

Se você pegar o meu livro, você vai ver, nós estamos sentado, eu com 2 anos, 3 anos, e o meu irmão sentado, malandrinho, tudo sujinho né?! Eu com a régua na mão, tirava fotografia dele, porque ele gostava de tirar fotografia. Gostava de criança, entendendo?! E eu nunca esqueço, que em 38, teve o jogo de Brasil x Itália, que o Brasil perdeu. Quer dizer, o único que tinha rádio era ele. Abria a janela né?! E o rádio, e a gente ficava lá… sentadinho né?! As coisas na rua né?! Ouvindo o jogo, essas coisas. Então, são famílias assim. E quando vinha enchente na Lapa, por exemplo: A minha casa era de madeira, era mais perto, baixa, mais, por exemplo, mais próximo quando vinha enchente, né?! tudo mais… enchente de 1929, eu tinha o que?! 4 anos? 5 anos! 29 cobriu a minha casa até o telhado. Então ele, ele… esse engenheiro… ele tinha, além do sobrado que ele tinha, ele tinha todo um corredor, que acompanhava o sobrado, com quartos, casinhas em baixo. Só que em cima, ele criava pombo correio.

Ele assobiava, e vinha de campinas, o pombo vinha, e pousava. E essa área, servia pra cobertura das enchentes. Pra minha família, pra família que..

Maíra: Todo mundo que precisasse…

Martinelli: Sempre, é… São coisas assim… de família é isso! É importância né?! Meu pai, ele matava capivara, a gente comia carne, os vizinhos também comiam, e o oléo de capivara é um santo remédio até hoje. Todo mundo procurava. E era pra fazer, eu me lembro a italianinha ficava ali… pra pegar um pouquinho de óleo assim ó… E era um óleo tudo… Então, essa a minha família, então… e era mais terreno, quer dizer, hoje a Lapa é aquilo né?! Antes era, a minha casa era aqui na divisa com a companhia mecânica. Era o campo do meu lado. Por isso, o campo do lado da minha casa o campo, né?! Então….

Maíra: Uhum!

Martinelli: Era dia e noite era o campo né?! Até eu me lembro, saia essas briguinhas nossa lá né, os homens né?! A minha irmã que é a última né?! a oitava, Cecília, tá viva até hoje. Tá doentinha, com oitenta ano lá em campo (-ininteligível 00:09:52). Porque dos meus irmãos, só eu to vivo. De sete irmão, só eu, o quinto, que tá vivo. Uma que eu tive mais responsabilidade de largar de fumar, não beber, essas coisas, enfim, mais controle né?! A maioria dos meus irmãos morreram na casa dos 70, até mais, fumava! O mais novo, foi um dos primeiros, porque, trabalhou 30 anos na ferrovia, mas gostava de tomar um veneno né?! Essas coisas não ajudam ninguém. Então, a minha irmã, por exemplo, tinha briga no campo… ela ia lá, junto com nós defender os irmãos né… Então, são coisas, que a gente viveu… gostosa, na Lapa.

Maíra: É…

Martinelli: tudo mais…

Maíra: Muito bom!

Martinelli: Isso era, da minha família, tudo mais… da ferrovia que começa, né?!

Martinelli: Eu estou meio gripado, passei vergonha na televisão lá em Araraquara. Eu estou falando (ininteligível) tenho que me abaixar. Mais fácil, né?

Maíra: É.

Martinelli: Está bom.

Maíra: Parece que melhorou agora. Então o senhor… e os estudos? Onde é o você estudou? Você falou… eu vi que você tem a OAB. Fala um pouco sobre os seus estudos.

Martinelli: Olha, como família, eu sou o quinto, né? Da família. O único que pôde entrar em uma escola, vamos dizer, além do grupo escolar. Porque eu estudei nas escolas normais nossas, criada por família. Dona Cândida Viadana, tinha a escolinha dela. Era casada com um da família Viadana. Naquele tempo eles iam buscar em convento para se casar, não sei. Era uma senhora espetacular, a dona Cândida. Ela tinha a escolinha dela, comecei a ler. Depois eu fui em uma outra escola que era parente da minha família também. Também particular, que hoje está o grupo escolar da prefeitura. Porque meus parentes brigaram com o Prestes Maia na época, e o Prestes Maia quis pegar, ele pegou mesmo… você vai brigar com o Estado? Porque o Estado quis e tomou mesmo a escolinha que seria particular, né? Então eu estudei um pouco lá. Dali entrei oficialmente no grupo escolar Pereira Barreto, que é o oficial da Lapa. Então entrei lá, estudei até tirar o diploma. Certo? No Pereira Barreto. Tirei o diploma no Grupo Escolar Pereira Barreto. Depois, com essa minha vida já de trabalhando com [15 anos e etc], com o (ininteligível), porque ele é meu amigo, acabei entrando no Campos Sales. Antigamente era fazer o comércio, né? Era a carreira comércio. Então fiquei do primeiro ano até o segundo e saí por falta de… eu não podia sustentar meu estudo. Não, porque eu me lembro que eu saí com minha mãe, para comprar um livro de contabilidade. Que era… tinha que comprar, né?

Maíra: Sim.

Martinelli: Fui com minha mãe [em uma vendinha], ali na rua Doze de Outubro, onde vendia, e era tão caro que nós não podemos comprar. Então eu acabei saindo da escola. Porque você pagar, como se diz, não sei se era 50 reais, na época. Você tinha a mensalidade. Está certo que eu já estava trabalhando, já podia pagar. Mas você tinha uma família com oito. Quer dizer, todos nós já estávamos começando a trabalhar, mas sempre tinha aquele que ainda não, está lá, né, com responsabilidade. Então… o casamento do mais velho. Aí vem o casamento do mais velho, o segundo… então, o problema do estudo foi esse. Parei aí. Quando eu entrei na ferrovia… quer dizer, eu já sabia [escrever] à máquina, porque aquele princípio de [escrever] à máquina a gente já tinha. Era escrever à máquina, porque era escritório, né? Então já escrevia à máquina. Às vezes eu brinco com meus companheiros, eu digo: “tudo isso era calo quando eu entrei na ferrovia. Tudo isso daqui era calo, até. Até essa curvinha aqui era calo”. Entendeu?

Maíra: De tanto trabalho.

Martinelli: (Ininteligível). Então… até eu brinco, né, com os companheiros que a gente quando [chegava no sábado], a gente cortava a planta de mamão, tirar o leite do mamão do quintal, na mão, para o calo ficar bonito, branquinho, (ininteligível), parecia que você tinha… Então tá, aí é seguinte: eu já comecei a, vamos dizer, estudar coisas do partido comunista.

Maíra: Ah, conta como foi essa (ininteligível).

Martinelli: Eu entrei na ferrovia. Já com um amigo meu, vizinhos, de quintal e tudo, né? José de Souza o nome dele. Coisa antiga eu não esqueço. Na casa dele, e tudo mais. “Oh, Nelli, você não quer ler esse livro aqui?”. (Ininteligível). Um livro de Lenin. “O que fazer?”. Foi o primeiro livro que eu li. Lia, lia, lia, (ininteligível). Eu já tinha família que… tudo mais velho, né? (Ininteligível) já era ligado ao partido. Até o mais novo meu, que era da (ininteligível), já tinham pego ele também para (ininteligível). Então eu já entrei na ferrovia, quer dizer, o que eu aprendi no comércio, o programa… História e Civilização, essas coisas normais, né?  E o programa político (ininteligível). Você não podia deslanchar na época, você só deslanchou depois de 45. Porque quando a União Soviética conseguiu derrotar o (ininteligível), quem derrotou foi a União Soviética.

Maíra: Claro.

Martinelli: Então quando eu digo que eu sou Stalinista, o pessoal fica assim: “não”. Se não fosse ele, com todos os erros que querem colocar, mas pelo menos organizou. Organizou (ininteligível), eu estive lá duas vezes, eu sei como é que é, né? Agora é um problema, quem ficou lá? Eu costumo até brincar. Quem ficou lá? Se morreu 25 milhões, quase 30 milhões? Os melhores (ininteligível), os caras de luta, os caras de briga, os caras que para chegar até Berlim… o que me arrepia até hoje quando vejo aquele filme (ininteligível), o cara botando a bandeira lá em cima. Depois o martelo, né, em Berlim. Quer dizer, arrepia, né? A gente que é homem de esquerda e vê tudo isso. Então é um problema. Acabou aquele (ininteligível) do partido. Aquele que comia criança, que era isso, era… esculhambava a gente de toda maneira, isso é verdade. Parecia bandido quem era comunista. (Ininteligível) lá na cadeia, (ininteligível) lá na cadeia, todo mundo ficava na cadeia, né? Aí veio a liberdade, em 45, pronto, acabou. O que era aquele demônio, foi o que derrotou (ininteligível), não é? Então houve aquela liberdade, teve ação do partido, (ininteligível) do partido, né? Partido comunista. (Ininteligível). Quer dizer… aí acabou a ditadura, legalizaram até o partido comunista. Fiúza foi candidato à presidência, (ininteligível) 3 milhões de votos. (Ininteligível) como presidente. Então são coisas que estimulou a gente na juventude. Então eu estudei, gostei, aí comecei a ter participação na ferrovia. Então na minha letra eu tenho, mais ou menos, quando eu quero fazer bonita, porque eu sou um cara, vamos dizer que… tinha um empregado na ferrovia, fui trabalhar e ele fazia toda a inscrição lá nas paredes, nos trens, escala de trem, tudo, né? Aviso… ele tinha essa letra. (Ininteligível). E eu acabei… porque eu tinha que copiar todas as observações dos maquinistas. Tudo o que era… trinta e tantos relatórios. De maquinista, dos trens que eles faziam (ininteligível). Fazer tudo direitinho. Passar as observações você tinha que fazer na máquina de escrever. Mandava para a direção, porque a direção era luxo. (Ininteligível). Então, eu fui indo. De aprendiz quinta, acabei sendo ajudante de quinta, depois (ininteligível), depois escriturário de quinta, e daí para fora. Substituto, quer dizer, eu substituía companheiros em Jundiaí, em Santos. São coisas de ferrovia, né? Aí chegou 45, eu tive que servir o exército.

Maíra: Em 45?

Martinelli: Já com aquela decisão. Eu servi o exército e a ferrovia ganhava 50% do salário do exército. Já ganhava. (Ininteligível) foi colocado oficialmente. Não podia mudar, não podia se casar sem ordem do exército. Essas coisas, né? Então a vida foi assim, politicamente. (Ininteligível) que eu coloco que foi minha vida, né? Então eu revelei mau comportamento? Revelei mau comportamento. Mas foi junto desses que eu servi. Nós erámos para ser mandados para a Coréia do Norte. Estava preparando para a gente ir. Então a gente tinha aquele problema quanto ao americano, né? Eu até brinco com os companheiros: tinha um oficial que era também um mau elemento. (Ininteligível) oficial que não saía de tenente. Mas era um cara (ininteligível). (Ininteligível) vamos lotar o carro hoje, o caminhão. O que a gente encontrar de branco é para bater, para derrubar na rua. E branco quem era? Os marinheiros, os americanos que chegavam aqui em 45, (ininteligível). Pensavam que aqui era colônia deles, entende? Então esse (ininteligível) lotava o caminhão e a gente saía pegando marinheiro (sons de socos). Então são coisas da vida. (Ininteligível) político. Em 45 foi a encampação da ferrovia. Ela passou de (ininteligível). O Dutra encampou a ferrovia. E eu seria contra, se eu tivesse na ativa. (Ininteligível), certo? Por que eu seria contra? Porque a ferrovia, em 53 até 55, ficava sem um tostão (ininteligível), porque os anos de contrato acabavam. Acabavam os anos de contrato e o (ininteligível) tinha que entregar a ferrovia. Só que o Dutra foi na conversa deles. A Inglaterra, vamos dizer, (ininteligível), porque o Brasil forneceu muita comida na guerra. E o Dutra deve ter cobrado os ingleses. (Ininteligível), mas eu tenho a São Paulo (ininteligível), eu tinha a (ininteligível) de Pernambuco e eu tinha a (ininteligível), ferrovia inglesa. Aí você fica com as ferrovias aí (ininteligível). Foi assim. Certo? Então aí ela passou a ser administrada pelo governo. E o governo não cumpre…

Maíra: Federal, né?

Martinelli: É, Federal. Só que o Federal tinha uma mania de administrar ferrovia com funcionário público. Mas não era CLT. A (ininteligível) é CLT. A (ininteligível), em Pernambuco, CLT. Então o que era CLT, que nós tínhamos direito: hora extra e tudo mais, o cara pensava que a gente era funcionário público e não queria pagar hora extra. Essas coisas todas. Então foi uma luta sindical. Em 49 fizemos uma greve. Foi 253 companheiros na rua. São coisas assim, entende? O Dutra foi… até nas minhas palestras eu digo, o Dutra foi um cara pior que a própria ditadura. Porque ele fechou o partido, ele fechou o sindicato, fechou todas as organizações, não foi?

Maíra: Ele foi desarticulando, né?

Martinelli: Sempre.

Maíra: Sempre desarticulando. No governo do Dutra, foi a Constituinte, né? Em 1946. Eu queria perguntar como que foi a participação, (ininteligível) pode falar, a participação do Partido Comunista Brasileiro nessa Constituinte? Teve uma participação?

Martinelli: Teve. Porque a Constituinte de 45 não era vista. A gente lembra (ininteligível) foi anos antes (ininteligível) e tudo mais, as liberdades, né? De fato, foi o máximo que pode arrancar em questão democrática, né? Na de 46. (Ininteligível) a gente não pode mudar o judiciário nem nada, o próprio judiciário é que caçou o partido comunista. Foi [três a dois, mas foi três a dois]. Derrubou o partido comunista. É que nem hoje, se você analisar hoje. Que governo nós temos hoje? Que judiciário nós temos hoje? Que polícia nós temos hoje? (Ininteligível) ela que está mandando. Infelizmente, né?

Maíra: Antes do golpe de 1964, o senhor se sindicalizou. Se sindicalizou em 1952.

Martinelli: Não, fui eleito (ininteligível) do sindicato em 1952.

Maíra: Diretor?

Martinelli: É.

Maíra: O senhor se sindicalizou quando?

Martinelli: Desde 1946.

Maíra: Desde 1946.

Martinelli: É, (ininteligível).

Maíra: O senhor então se sindicalizou quando já pertencia ao Partido Comunista Brasileiro?

Martinelli: Certo.

Maíra: Foi assim.

Martinelli: Foi, foi. Eu saí, por exemplo, do bairro da Lapa, com (ininteligível), era candidato à senador, nós fizemos comício na Lapa, o Prestes comigo, na época.

Maíra: Certo. Já estava no partido, né?

Martinelli: Com o partido.

Maíra: O que levou você a se sindicalizar? Se associar ao partido?

Martinelli: O problema é o seguinte: nós sempre (ininteligível), na minha família, mal ou bem, meu pai ia [pintar] o sindicato. Na ditadura (ininteligível).  Todos nós, eu costumo brincar, né? Todos nós temos um pouquinho de anarquista. A gente já nasce com um pouco de anarquia. E meu pai tinha certa tendência anarquista. Mas ele ia lá pintar, me levava (ininteligível) pintar o sindicato e tudo. Então [essa vida sindical]… até que ponto a gente podia trabalhar ou não trabalhar. Por que o velho comentava em casa com os filhos. (Ininteligível), o mestre tem não sei o quê, perseguição não sei o quê… aumento de salário, os ingleses poderiam melhorar. Porque o patrão era inglês, não era ruim, mas sabe, na área de cima, o governo brasileiro é que fica apertando as coisas. Certas coisas, eu costumo brincar (ininteligível), a minha categoria foi o que deu tudo (ininteligível). Em 1800 a gente já fazia greve. Com o Lula, quando eu brinco, né? Aqui, rapaz, você acha que o sindicalismo foi em 79? Em 1800 a gente já fazia greve. Então essas coisas foi indo, foi me educando, campanha eleitoral e tudo mais, o problema da greve de 49, vamos dizer, o Ademar mandou todo mundo para a rua, (ininteligível) toda a direção do partido, porque foi uma greve contra a direção do sindicato, que era policial. O Partido se achava tão bem organizado, que fez uma greve. Por cima do sindicato. Só que o Ademar de Barros arrebentou (ininteligível) em tudo quanto foi lado. Ela fracassou. Fracassou com duzentos e tantos, meus irmãos, companheiros, amigos, a direção do partido foi todo para rua. Fiquei eu e outro companheiro da oficina, companheiro espanhol de Santos, que reorganizamos outra vez. Reorganizamos. (Ininteligível) criamos uma comissão por cima do sindicato, porque a lei permite, você sabe disso. A lei permite os associados fazerem um abaixo assinado e pedir assembleia. [Você coloca a ordem do dia na assembleia], né?

Maíra: (Ininteligível).

Martinelli: Então eles foram obrigados a dar uma assembleia, porque vira para nós, duzentos e tantos companheiros assinam o pedido da assembleia. Fiquei preocupado. Será que esses caras vão estar no dia certo lá? Deu quatrocentas pessoas lá na assembleia. Com a polícia na porta: “tem carteirinha? Se não tiver a carteirinha não entra”. Aquele negócio, né? Chegamos lá, você sabe disso, quem faz a mesa somos nós. Tiramos a direção toda e botamos a nossa mesa lá, botamos a nossa reivindicação, foi para valer. Aí o Dutra não teve tempo, porque entrou o Getúlio. O Getúlio, eu costumo dizer, tentou fazer autocrítica no governo que ela assumiu. A Petrobrás, a (ininteligível)… tanto é que a direita fez a festa em cima dele. Ele foi obrigado a se matar. Porque ele já estava em uma posição diferente. Então o sindicalismo melhorou, porque aí a nossa luta sindical foi correta. A comissão que foi criada em função de fazer assembleia e tudo mais, essa comissão foi a maioria diretoria que (ininteligível). Então elegemos, ganhamos dos caras, nas eleições de 52. Só tomou posse em março de 53. Porque os caras [do contra] diziam que a gente era comunista. Antigamente, o (ininteligível) lembra, não dava posse. Então a posse foi até de brincadeira, porque a gente quando fez a chapa, a gente pegou (ininteligível), que era vice governador, PTB, apoiou nossa chapa, porque nós éramos uma chapa de esquerda com o PT. PTB. Sabe como a gente fazia o partido?

Maíra: Claro.

Martinelli: Entende? Então porque assinou [o programa] da nossa chapa. Aí pegou um ministro, nunca esqueço dele, coloquei no meu livro, no aeroporto. O ministro da época, eu não sei se era (ininteligível), né? Ele chegou lá e “(ininteligível), como é que é, sou um comunista não sei o quê”. E ele falou: “eu não sou comunista não, eu sou (ininteligível)”. Nunca esqueço disso. Aí o (ininteligível), o ministro do trabalho (ininteligível). Aí tomamos posse. Foram três anos, tomamos posse e já (ininteligível) aquela greve dos 300 mil, contra (ininteligível).

Maíra: Eita.

Martinelli: É, já fizemos a greve (ininteligível). E daí para fora…

Maíra: E nesse período a gente sempre, historicamente, a gente pensa naquele (ininteligível): marítimo, ferroviário e portuário.

Martinelli: Certo, isso foi a minha luta.

Maíra: Eu queria que você falasse um pouco sobre essa…

Martinelli: Essa organização, né?

Maíra: …essas organizações todas.

Martinelli: Não, é que historicamente a minha vida é a seguinte: o sindicato, né? Depois do sindicato vem a [orientação] presidente da cooperativa. Eu saí do sindicato, porque nós antigamente, da esquerda, não ficávamos só no sindicato. Tinha que mudar. Eu de tesoureiro, caí para conselho fiscal. Só que como me transferiram para o auto da Serra, já perseguição mesmo, eu já era encarregado de (ininteligível), eu era encarregado de tudo. Função gratificada, porque o brasileiro não é que nem o inglês, nomeia, o brasileiro colocou como função gratificada. Era gratificação, não era salário.

Maíra: (Ininteligível).

Martinelli: É, eu fui do sindicato, eu voltei já me tiraram de encarregado. Eu morava em Jundiaí, porque eu casei em 47. 47 eu me casei…

Maíra: Como o senhor conheceu sua esposa?

Martinelli: Conheci ela na Lapa, porque ela morava em Jundiaí e o cunhado dela, que era ferroviário, morava perto de casa na Lapa. Quer dizer, a gente [passeando pelo meu bairro], acabei vendo-a, (ininteligível) portuguesinha, vi ela com as meninas lá, então acabei olhando, gostando dela… (ininteligível) uma briga lá no quintal, né? Eu falei: “poxa, aquele cara ficava só ameaçando, porque fica ameaçando? Tem que bater logo. (Ininteligível)”. “Poxa, o senhor fala logo em bater, né?”, ela falou para mim, né? Falei: “[óbvio, ficar discutindo para que? Tem que bater, bater logo, acabar logo com essa briga”, né? Aí fiquei conversando, conversando, até que acabei ficando namorado dela na Lapa. Certo? Ela morava em Jundiaí.

Maíra: [Como é que foi?]. Ficou noivo?

Martinelli: Aquela conversa, né? Fiquei noivo cinco anos.

Maíra: Cinco anos.

Martinelli: Porque eu tive que servir o exército. Fiquei 18 meses na área militar, no exército. Saí e casei no ano que eu saí. Certo?

Maíra: Que ano o senhor casou?

Martinelli: Casei em 47. Deixa eu ver… entrei no exército em 45. Saí em março de 47 do exército. Então eu já marquei, porque eu estava noivo há tanto tempo, ela morava em Jundiaí, eu tinha que sair de Jundiaí [para namorar], ou quando ela vinha na casa do cunhado dela, que era na Lapa. Então essas coisas… e ela era tecelã, ela trabalhava na indústria tecelã em Jundiaí. (Ininteligível) filha de portugueses, quer dizer. Foi uma companheira em 57 anos espetaculares.

Maíra: 57 anos…

Martinelli: 57 anos e cinco de namoro. 62 anos. Então assim, o problema dos petroleiros, ferrovia e marítimo, foi a minha eleição já de cooperativa. Consertei a cooperativa, mandei embora todos os corruptos, consertei. Depois veio a ordem do partido: olha, você vai ser o presidente da federação nacional de [trabalhadores] do Rio de Janeiro. Eu falei…

Maíra: Então, tem uma história aí nessa federação. Você foi morar lá em 1959…

Martinelli: 59.

Maíra: É. E você vai para lá, porque você vai cumprir um papel lá. Fala um pouco desse papel.

Martinelli: Não, eu fui eleito em 59. A federação era esculhambada, sabe? (Ininteligível) essas coisas todas, tudo mais. Então o meu papel foi o que? Colocar ela a altura do que era os ferroviários. Porque a nossa chapa, como nós éramos a maioria de esquerda, era (ininteligível). Exemplo: o tesoureiro era da (ininteligível). O secretário da paulista. O outro secretário era da (ininteligível) de Pernambuco. Veja você: outro menino do conselho da (ininteligível). Nós fizemos uma chapa para valer. O que tinha sindicato, porque o problema meu unificar as categorias nacional. Porque CLT só tinha o que: Leopoldina, Santos, Jundiaí, (ininteligível). CLT era só isso. E as conquistas. (Ininteligível) que de 220 mil ferroviários, só tinha três ferrovias que eram. E eu era presidente trabalhista. Então o meu trabalho foi unificar toda a categoria. E para unificar toda a categoria, você tinha que carregar confiança. (Ininteligível) confiança? Então vai ser na primeira greve. Então, eu… em 59, heim. Dez, onze de 60 foi a greve nacional marítimo, portuário, ferroviário. Discutimos… era esquerda também a federação dos marítimos. Sindicato nacional também dos marinheiros, era esquerda. Dos portuários não era esquerda, mas era PTB.

Maíra: Mais próximo.

Martinelli: Porque o portuário era funcionário público. Você sabe que tem a Federação Portuária e a CLT. Certo? Então combinamos, naquela luta, com os companheiros e tudo mais, (ininteligível), porque foi a greve da paridade. Porque o ódio da ditadura contra nós? Porque, vamos dizer, quem dava o aumento para nós era o parlamento. (Ininteligível), aqueles caras todos. Certo? O que acontece: nós começamos querer a paridade. Duas tabelas (ininteligível). A dos militares era 50% a mais, maior do que a nossa. Então nós quisemos a paridade. Nós queremos a paridade com os militares. Fomos, discutimos om JK, (ininteligível), que era o ministro da justiça. O Armando Falcão. Os olhos dele quase me matavam de tanta raiva que o cara tinha de mim, era um nazista desgraçado. Ruim pra burro. Então a gente fez a greve. Terminaram a greve, o ministério da justiça. Eu nunca esqueço, porque eu cheguei cinco minutos atrasado, os companheiros já tinham mais ou menos acertado. “Acertado o quê?”, eu falei. (Ininteligível). “Não, Martinelli, o JK está… a informação está de acordo, o ministro que não tem problema, não sei o quê”. “Oh, mas eu quero um compromisso e o governo tem que saber”. “(Ininteligível)?”. “Não, que fique o ministério e o governo saberem”. Era novembro. “Se até o dia 25 de dezembro não vier a paridade, no dia 26 nós paramos tudo outra vez”. O cara ficou…

Maíra: Furioso.

Martinelli: “Está bom?”. Então acertamos isso, né? (Ininteligível) do golpe militar, né? O cara… o Armando Falcão foi o cara. Então nós fizemos a greve, fomos à Brasília, certo? Acertamos com o JK, tudo bem. Até aquele que era da UDN, que usava metralhadora, era um deputado da (ininteligível).

Maíra: Sim.

Martinelli: Que gostava muito dos ferroviários, né? Ele que abriu as portas para falar com o JK. Só que ele pegou os marítimos e os portuários e falou para os companheiros…

Maíra: (Ininteligível).

Martinelli: (Ininteligível). “O Martinelli não pode entrar, o Martinelli é comunista”. Aí ele não sabia que os outros companheiros (ininteligível). “O Martinelli não entra, não entra ninguém”. (Ininteligível). “Não, ninguém entra não”. Aí entramos todo mundo, né? E de fato saiu. Até eu brincava sempre, porque eu digo: “(ininteligível) lá na federação, era um sargentinho, um salário bem pequeno”. Com a paridade eu ganhava um salário de capitão. Quase dobrou o salário. Então foi uma greve… como experiência eu coloco as melhores que a gente fez, porque o portuário, o marinheiro vinha nas oficinas. Nós, das oficinas, entravámos no navio. Por isso essa fortaleza, entende? Depois disso, pelo crescimento e a influência que nós tínhamos de apoio ao Jango e tudo mais, quer dizer, entrou na organização… veja você: marítimo, portuário, ferroviário, funcionário público, portuário excelente, Sindicato Nacional dos Marinheiros, Sindicato Nacional dos Aeronautas, Sindicato Nacional dos Aeroviários. Veja a potência do povo. E porque que eu era (ininteligível), tenho que dizer como eu fui criado. Terminou a greve, sentamos: “e agora? Vamos ficar organizados”. Aí o portuário é que falou: “Martinelli, porque a gente não bota POA?” (Ininteligível). E POA era um nome conhecido na época, porque (ininteligível) da Itália. Historicamente, você sabe disso, né?

Maíra: Sim. (Ininteligível).

Martinelli: Sim, (ininteligível) e a aviação lá em (ininteligível), lembra? Então ficou a POA. Entende? Então era a nossa força, um trabalho violento, organizado, (ininteligível). Porque a gente parava sempre, né? (Ininteligível), a gente parou. O JK, a possa do JK, a renúncia do Jânio, então a gente abusou demais do esquema, que eu costumo dizer do esquema, que eu preparei as ferrovias… porque você diz que eu comandava tudo? Porque o que era do funcionalismo, eu jogava para o CLT. O que era do CLT, eu jogava para o funcionalismo. Tabela única, eu cheguei… tabela única nacional. Para os ferroviários todos. O partido chegou a ficar contra mim. Chegou. “Pô, Martinelli, pô”. E daí? O maquinista (ininteligível), é maquinista em Piauí, Maranhão. (Ininteligível). Sabe aquele negócio de trabalho de trem, (ininteligível), cinco minutos e tal… não me interessa. É maquinista.

Maíra: (Ininteligível) participavam dessa aspiração de fazer a paridade? (Ininteligível).

Martinelli: Não. E sabe que o chefe de estação ficou ganhando mais que o delegado. Em Piauí, vamos dizer, no Maranhão. Quer dizer, eu não tenho nada com isso. (Ininteligível). Entendeu? Então foi uma luta a gente manter, vamos dizer, essa unidade nacional.

Maíra: Depois eu gostaria que, por favor, você falasse um pouco das suas experiências, das suas vivências, no período do golpe.

Martinelli: Bom, período do golpe, sabe, a gente vai se informando com a direção, dentro do comando geral dos trabalhadores, sabe. O (ininteligível) sempre tinha a maior força dentro do comando, porque o comando era… muito do que o pessoal fala aí, fala errado às vezes. Era Comando Geral da Greve, né? CGT – Comando Geral dos Trabalhadores. Não era nenhum lugar central, geral de trabalhadores. Pessoa que fala “ah, criaram uma central”, não tinha nada de central. Foi o programa de renúncia do Jânio Quadros. Na renúncia do Jânio Quadros, nós reunimos a minha ferrovia… a Leopoldina parou imediatamente, ele renunciou e a Leopoldina parou. (Ininteligível) parou até (ininteligível) para mim. Parou. Ferrovia está parada. Só que uma correta oposição nossa da Leopoldina. Que era para o Jânio explicar o porquê de estar caindo fora.

Maíra: Isso.

Martinelli: A greve tinha essa função. A reunimos no Sindicato dos Bancários. Todos, central. Toda a central reuniu lá. Resolvemos fazer a greve dia 02 de setembro. Porque a maioria das categorias não tinha esquema que nem ferroviário, portuário, marítimo. Metalúrgico, (ininteligível), gráfica, são outras categorias. Certo?

Maíra: (Ininteligível).

Martinelli: Então decidimos que a Leopoldina recuou, parou a greve, para estourar dia 02 de setembro a greve nacional. Que saiu, você sabe disso. Uma greve nacional pela renúncia do Jânio e pela posse do Jango. Já começamos a pedir pela posse do João Goulart. Então foi mais ou menos isso.

Maíra: E aí…

Martinelli: A minha experiência é a seguinte, vamos dizer, politicamente a gente quis colocar, estudar Marx, estudar economia, (ininteligível). Estudei, tive escola do partido até 53. Minha crítica, depois, o rompimento com o partido, eu, Martinelli e tudo mais, uma criação libertadora nacional, foi em função do partido não educar a categoria revolucionariamente. Coisa que eu, até 53, nós, o partido, educava revolucionariamente. O que significa: estudou? Mas valia. Estudou (ininteligível)? Conhece o inimigo? Sabe quem é o inimigo? Sei. Então está comprovada a sua posição onde? Como comunista (ininteligível). Certo? Então o partido não fez isso. Porque com a morte do Stalin, veio aquela orientação: chegar ao poder, sem luta armada. Então eu costumo dizer: perdemos a França porque nós tínhamos a maioria. Perdemos a Itália porque nós tínhamos maioria. Perdemos a Grécia, porque nós tínhamos maioria. Tudo. Quem é que está na direção [desse país]? Ah, popular. Não tem popular não. A classe dominante mesmo. Quer dizer, aqui é a mesma coisa. O Jânio não estava dando mais. Na minha cabeça, eu organizei os ferroviários com posição revolucionária. Só que eles não estavam preparados como revolucionário. Então eu abusei da minha (ininteligível). Porque eu parava ferrovia com 14 homens, só. (Ininteligível). Na central eu parava com os maquinistas. Da Leopoldina com o chefe de estações e os que faziam o sinal da ferrovia. Eu já tinha, isso (ininteligível). Diretor da (ininteligível) em Pernambuco era nosso. O diretor da São Luís/Teresina era nosso. Diretor da (ininteligível) era nosso. Eu estava no dia 31 (ininteligível) golpe. Eu estava com duas indicações de diretores, no dia 31 do golpe, para a central do Brasil, e [passando] Jundiaí. Dois diretores que, além de você ter o segredo, para parar lá embaixo, eu tinha a direção também. Quer dizer, (ininteligível) mais revolucionário. (Ininteligível) na ideia do velho Prestes, (ininteligível). Não tem culpa também. Porque o chefe da casa militar era comunista. O general. Devia [informar o Jango, está tudo bem]. É o que eles diziam para o Prestes. Não, o problema dos militares está tudo sob controle. Está tudo sob controle. Tudo sob controle nada. Dia 31, nós com o Jango, tentando (ininteligível). E o Jango falou com general aqui em São Paulo, o (Ininteligível), que era compadre dele, porque nós já tínhamos ficado contra a nomeação dele aqui em São Paulo. E o Jango falou: “pô, é meu compadre, se eu tivesse algum problema, até meus filhos eu colocaria (ininteligível)”. Entendeu? Ele falando com o general na nossa frente. Desligou e só ouvimos ele falar isso: “jamais farei isso, porque eles são meus amigos”. Aí ele explicou que o (ininteligível) queria que, para ele ficar ao lado do Jango, ele queria repudiar o Comando Geral dos Trabalhadores. E o Jango falou isso: “jamais farei isso porque são meus amigos”. Nós acreditamos que não seria isso que o cara ia falar com o Jango não. Porque você sabe que a gente soube há pouco tempo, há mais de um ano atrás, as bolsas de dinheiro que ele recebeu. Não sei se chegou a ouvir falar isso.

Maíra: Foi falado sim.

Martinelli: É, então. Bolsa cheia de dólar. Quer dizer, não sei se ele ficaria com o Jango. Então são coisas assim que a gente discordou da direção, porque no dia 31 eu estive com o Prestes. Eu, Roberto Moreira, os companheiros. Passamos em frente onde a (ininteligível), os caras botando fogo na (ininteligível). E aquela (ininteligível) na rua, aquelas coisas toda na rua.

Maíra: Todo o aparato, né?

Martinelli: Nós passamos… eu até falei para o Roberto: “abaixa a cabeça aí”. Porque o Roberto Moreira era um careca conhecido, foi deputado em 46, era um cara conhecido demais como comunista. E a (ininteligível) minha, eu nunca coloquei nome de organização na (ininteligível), sabe? A minha perua é que foi de Copacabana até a casa do Prestes. (Ininteligível) onde ele estava escondido. Chegamos, conversamos, foi a minha maior desilusão, entende? Então procurei abandonar o partido lá.

Maíra: Se mudaram…

Martinelli: É, vim para São Paulo clandestino. Fiz o meu esquema clandestino, eu mesmo fiz o partido contra, contra, contra. Queria que eu fosse para o Rio Grande do Sul (ininteligível). Falei: “não, não, eu vou (ininteligível)”. E fiz o esquema. Vim para São Paulo. O meu apartamento, a minha família, coitada, cercada da polícia para todo lado. Não podia chegar em casa. Aí o meu irmão conseguiu um caminhão, foi lá e pegou a mudança para São Paulo. Aí eu fiz o esquema meio contrário à direção. “(Ininteligível), você vai, não sei o quê”. Vou. Eu faço. E fiz o meu esquema, vim para São Paulo. E fiz todo o meu esquema político, autocrítica (ininteligível), na Paulista, na Sorocabana e na (ininteligível). Ganhei o partido, na verdade a direção, duas vezes aqui. Para depois nós criarmos uma ação libertadora nacional. Porque nossos delegados (ininteligível)… porque nós queríamos o Comitê Central. Nosso delegado nunca chegou ao Congresso. Sabia disso?

Maíra: Não. (Ininteligível).

Martinelli: Não? Nunca chegou ao Congresso. Então qual foi a saída? A ditadura ia apertando, prendendo, matando, qual foi a saída? Criar uma Ação Libertadora Nacional para luta armada.

Maíra: Fala um pouco sobre essa criação. Essa criação da Aliança Libertadora Nacional, Raphael, você tem aí uma participação do João Câmara Pereira.

Martinelli: [Lógico, ele era da direção].

Maíra: Isso. Fala um pouco sobre o João Câmara Pereira, (ininteligível), como foi…

Martinelli: São quadros, que, vamos dizer…

Maíra: Eles eram do PCB?

Martinelli: Não, eles eram da direção. Se não me engano era até do Comitê Central também. Mas eu conheci o (ininteligível) no Rio, nas lutas operárias. Eu já sabia como ele pensava. Só uma coisa ele não me atendeu. Porque na guerra dos marinheiros, a gente estava lá. O Comando estava lá. Quer dizer, houve a prisão do (ininteligível). Porque a gente resolvia os problemas dos marinheiros, derrubando até ministro, e o cara como não era líder, ele procurava outras coisas, entende? Nós estávamos com dois (ininteligível) na mão. Dois (ininteligível) na mão dos marinheiros.

Maíra: Nossa.

Martinelli: Então você analisa: prenderam o Canalha, não é isso? Aí disse “ele fugiu”. Fugiu para o forte, eu falei para o (ininteligível) na época. “(Ininteligível), ninguém foge do forte, pô”. “Eu sei, você não conhece o forte”. (Ininteligível)…

Maíra: De proteção, né?

Martinelli: Não, é uma bola no mar, mesmo. De pedra mesmo. Ninguém foge dali não. E ele fugiu. E eu falei: “ninguém foge dali. Não, (ininteligível), olha esse cara”. Foi para Cuba e deram colher de chá para ele em Cuba (ininteligível). Fizeram besteira dessa vez. Resolveu o quê? Ele entregou todos os caras que chegaram aqui, até a mulher dele, grávida, mataram. É um canalha. Então são coisas que a gente marca, né? Então o problema do Maringa é isso. Já era meu amigo, conhecia ele. Como eu derrotei a direção de São Paulo e o Prestes ficou zangado… o Prestes já tem problema com o Maringa lá. Eu, vamos dizer, com a direção aqui em São Paulo, cooptei o Maringa. Pedi. E ele veio. Tanto é que depois que ele voltou da (ininteligível). Os três que comandavam aqui: Carlos Maringhella, (Ininteligível) e Raphael Martinelli. Publicamente. Eu sempre condenei e até hoje condeno. Porque foi uma publicação para entregar nós, na época já para a luta armada. (Ininteligível) da direita. Esses caras… nós estamos expulsando porque esses caras são da luta armada, então. (Ininteligível) nome de guerra, por que ele não botou o nome de guerra? Entregou até os nomes né? Então são coisas que aconteceram.

Maíra: Então, na…

Martinelli: (Ininteligível) é um homem, você sabe disso, professor (ininteligível), um cara que era fabuloso em um desentendimento. Está entendendo? Ideologicamente o cara firme, tudo isso tinha. Eram quadros, né? Quadros bons.

Maíra: E para a ALN foram só elementos que pertenciam ao PCB? Ou foram de outros partidos?

Martinelli: Não…

Maíra: A ALN foi verdadeiramente uma frente?

Martinelli: Eu não posso dizer frente. Foi… vários aderiram à ALN. Mas assim, a juventude você sabe como é que foi, né? Eu falo isso em palestra. Que eu considero a juventude revolucionária. Desde criança. Você pega nossos filhos, né? Você tira a chupeta, ela já quer brincar. Chora… já nasce, já nasce. Essa é verdade. Então eu falei: o que acontecia para a juventude? Tinha (ininteligível), era cabeludo, era (ininteligível). Não é do seu tempo. Jogava a laranja na (ininteligível). Você ia lá embaixo e era preso. (Ininteligível) naquele tempo, 68, você sabe disso. Música não podia, não podia dançar, não podia organização, via os professores cassados, via os professores presos. Quer dizer, aí olhavam assim: tem uma ALN aí combatendo a ditadura. O cara que era da ALN, “pô, vem para cá”. Então… aí eu tive… eu falei isso no Rio, em Araraquara eu também falei: me orgulho pelo seguinte. Eu cheguei a ficar preso. Sempre fui o mais velhinho, né? Com mais de 200 jovens. Nenhum deles me entregou como a direção da ALN. Por isso que eu estou aqui. Verdade. Não tinham cabeça política, porque tinham jovens que chegavam “eu assaltei um banco, eu fiz não sei o quê”. Eu falei: “eu nem sei, eu nem comunista eu sou”. Está entendo? (Ininteligível). “Porra, esses caras aí vocês tem que…”. Tá entendendo? Porque os meninos vinham com aquela força mesmo, de brigar, de assaltar, fazer o diabo. E nós, em área ferroviária, discordava muito desses assaltos a banco, essas coisas todas, né? Por isso que a gente fez o assalto ao trem pagador. Certo?

Maíra: Conta um pouco.

Martinelli: O problema… como havia muitos casos de assalto, nós da direção, porque eu fui mais um cara da ALN, pelo prestígio que eu tinha no (ininteligível), no comando, para poder derrubar a direção aqui, (ininteligível), né? Tudo isso eu fiz. Mas a minha área nacional era ferrovia sempre. Sempre fui ligado ao portuário, (ininteligível), à aeronáutica, sempre tive. Então a gente sempre discutiu coletivamente. Quer dizer, não é que eu estava concordando muito com esse negócio de assalto à banco. Certo? Porque foi feito uma ação, vamos dizer, coletiva. Três bancos de uma vez. (Ininteligível) participou. Então a polícia vem de lá e ele (barulho de bomba), bomba. A polícia vem do outro lado, né, ele pegou e (barulho de bomba), bomba. Mata mesmo. Não tem necessidade disso. Certo? E outros assaltos davam como batidão. Não era… como se fosse político, entende? Mas ele que tinha que dizer que era para (ininteligível), para nos sustentar. Então a gente discutiu isso. “Vamos fazer um ato nosso, político, para mostrar como se pode fazer, sem morte, sem nada, tranquilo”. E a minha ferrovia é minha. Santos (ininteligível), eu nasci aí. Eu sei quilômetro, número de quilômetro, onde para, onde não para essas coisas. Como para, como não para quem é que para. Tudo isso eu sei. Então fizemos a coisa, três… está no meu livro. Eu coloquei no meu livro porque assalto do trem pagador em vários livros. Eu também, poxa vida, é minha ferrovia. Porque estão falando do trem pagador dessa maneira? Porque é mentira. Tem um livro que fala que o companheiro esqueceu de puxar… ah, tomar banho. Eu sou ferroviário, pô. Esqueceu de puxar a alavanca? Se esqueceu um minuto, quantos quilômetros já correu? O trem ia parar certinho onde tinha que parar? Está entendendo? Esquecer. Ah, isso aí… viajamos com os companheiros até aqui, olha aqui, o negócio está aqui. (Ininteligível) três companheiros, vai ver o carregamento. Na Lapa… o trem vai parar na Lapa três minutos. Os companheiros armados sobem na Lapa. Entendeu? Porque ia no gabinete do chefe de trem. Que é uma composição que só tem (ininteligível), é segurança, né? Porque os caixas… eles levam os caixas de pagamento. Pagamento, é envelope. (Ininteligível) assim, né? E ia com segurança ferroviária, pô. Aí chegou ali na Lapa, já subiu, já entrou. Está entendendo? Os outros já estavam preparados. Sabia o lugar que a gente disse: “oh, quando chegar nessa posição, puxa porque é 150 metros ela vai parar naquele lugarzinho, você sai”…

Maíra: Exatamente.

Martinelli: (Ininteligível) esperando lá vocês. Leva a carga. Dez minutos, pô.

Maíra: E aí, depois? Essa…

Martinelli: Não, essa me custou tortura de me arrebentar, porque foi descoberta dois anos depois. Os companheiros abriram. Abriram e eu negando. Negando. Me arrebentaram, me arrebentando. Sabe? (Ininteligível), tudo isso. Estou aqui porque ninguém sabia que eu era da direção. Só sabia do trem (ininteligível).

Maíra: Certo.

Martinelli: Está entendendo. Então tinham outras coisas muito graves que a gente tinha programado. Graves, graves. E o companheiro começou a abrir [besteira]. Deve ter feito acordo. Porque a prisão dele foi quase na vigilância do Câmara. Ficou um ano só de cadeia. Porque ele abriu de mim quase tudo. Eu precisei de uma noite, quando ele saiu, torturado, saí da sala fora, aí encontrei com ele… dei aquele esporro, aquela (ininteligível) arrebentando, né? Se fosse possível eu mandava para o inferno, né? (Ininteligível), torturaram. “O que é que você falou para (ininteligível)?”. Mandou eu calar a boca porque… sabe? E o que eu falei? Eu não falei nada disso. Falei que aquele feijão de merda, que eu não ia comer aquele feijão, (ininteligível). Escapei por isso. Fui torturado, mas a minha reação eu não falei nada. [Mas eu ameacei mesmo para parar]… Quer dizer, abriu uma cidade, porque nós íamos tomar uma cidade. Tem coisa na nossa vida, está entendendo, que a gente… (Ininteligível). Caxias bonitão lá, aquela coisa. A gente queria mandar para o inferno, aquela estátua do Caxias. Você vê. Quanto a ditadura a gente pensava certas coisas, né? Bem, então fazia duas coisas… aqueles tanques de (ininteligível), todas aquelas coisas. A gente tinha preparado muitas coisas e ele abriu isso. E eu negando. E eu negando, e eu negando. Torturado. Aí chegou uma hora que, há dois anos depois do assalto, eu caí preso. Dois anos depois.

Maíra: Muito tempo depois.

Martinelli: É, e eles não sabiam quem era até… sabiam que era o Martinelli. Foi aberto, né? (Ininteligível) se eu conhecia. “Não”. (Ininteligível). Eu olhei e disse: “não sei quem é não”. Mas eu vi que era o companheiro que tinha feito o assalto. Estava morto. Marighella morto. O Chico que tinha (ininteligível) e não me deu, para não ser preso. O ponto, ele não me deu. Ele deu para um outro companheiro e ele foi embora do país. Só o que (ininteligível). Então eu fiquei preso, trabalhando na cooperativa, (ininteligível). (Ininteligível), porque ele abriu como se fosse uma reunião na Sorocabana. Não me abriu como direção nem como nada. Como o Marighella, (ininteligível). Então eu caí em um canalha, capitão (ininteligível) que é um assassino. Mas eu caí como uma reunião com o Marighella em uma ferrovia. Do Partido. Estava abrindo aos poucos, né? Ele abriu isso.

Maíra: É, eles foram…

Martinelli: Agora, veja você…

Maíra: (Ininteligível).

Martinelli: É, mas veja depois o que aconteceu. (Ininteligível). Então como foi aberto só como reunião, o torturador que mata (ininteligível). Quer dizer, quando o cara foi abrir outras coisas graves (ininteligível), puta que pariu, porque eu sofri o diabo. Porque o cara não pegou em cima de mim. Ele era o cara de matar, de tirar tudo. Passou só o outro grupo, foi aberto um outro grupo (ininteligível). Aí ele me arrebentou. Levei soco inglês nas costas, o diabo. Já fui direto para a sala forte, então (ininteligível). Então são coisas assim. Quer dizer, depois daquilo que eu falei, para valer, aquele negócio, não abriu mais nada, porque eu só negando, negando. Agora eu cheguei à conclusão morte (ininteligível), acabei… falei: “bom, fui eu sim que fez o trem pagador”. Quem que eu ia entregar? Não tinha ninguém para entregar. Maringa morto, companheiro morto, o outro que está aí… o que eles queriam? Dinheiro. Vai perguntar para o Maringa. Maringa era que pegou o dinheiro, pô. Maringa já estava morto. Então aí já começou… como eu confessei o trem pagador, eles aguentaram a minha negativa das outras aberturas que podia criar problema. Foi assim. E aí fui para o DOPS. Que aí no DOPS foi 18 dias de tortura (ininteligível). Por quê? Porque ela tinha toda a minha vida, viagem à Cuba, viagem não sei o quê, partido comunista, sindicato, 53, 55, tudo isso tinha e o DOPS nunca tinha me pego. Porque eu estava no Rio. [25 anos no Rio]. Como não me pegaram em 64, porque eu estava no Rio. E não me pegou lá no Rio, porque eu fugi para São Paulo. Entendeu? Eles não me pegaram em 64. Então aí tiraram sarro comigo. Tortura para valer.

Maíra: Aí você ficou quanto tempo no DOPS?

Martinelli: 18 dias de tortura.

Maíra: E na (ininteligível)?

Martinelli: 12 dias.

Maíra: 12 dias. E depois dos 18 dias, no DOPS o que aconteceu?

Martinelli: Fui para Tiradentes. Não, no DOPS, em uma das torturas que mataram o Olavo Hansen. O Olavo Hansen foi comigo. Torturado junto comigo. Quer dizer, ele teve um problema que acabou, quando ele chegou, eu cheguei arrebentado também no chão, mas tinha um médico nosso que foi prefeito de Americana, ele pegou e disse: “olha, deixa esse menino aí. Resolve (ininteligível) senão vai morrer”. Olavo Hansen estava deitado, eu também estava deitado, arrebentado, sangrando. Era paulada na cabeça, (ininteligível). Aí os companheiros fizeram um movimento lá na cadeia para botar o Olavo no hospital. Rapaz, cinco e pouco chegou (ininteligível). Aí chegou o médico às cinco e pouco. Até eu brinco porque sabe aquele médico vestido de branco? Tipo alemão, né? (Ininteligível). Saiu também sem falar nada, sabe? Parecia um nazista. E às sete e pouco ele saiu para o hospital. Só que ele não saiu para o hospital. Saiu porque mataram ele e jogaram na rua depois. Isso com o Olavo Hansen. Certo? Aí eu fui para Tiradentes.

Maíra: Aí ficou em Tiradentes…

Martinelli: Fui para Tiradentes. Em Tiradentes fiquei até o julgamento, né? Essas coisas de cadeia da muita coisa que a gente faz, né? Aí antes do julgamento, eu tinha… no dia primeiro de janeiro de 71, os companheiros me incluíram no sequestro do suíço.

Maíra: Conta disso.

Martinelli: Isso é [novo], porque eu tive que tomar uma posição política. Eu falei isso (ininteligível) e eu falo claro. (Ininteligível), recusei. Porque vamos dizer, o assalto, a prisão, o sequestro do suíço. Então um soldado que entrou na nossa cadeia, dava o seguinte: “o sequestro (ininteligível) provavelmente, quem iria participar de um sequestro com companheiro, o Martinelli, companheiro nosso”. (Ininteligível), eu esqueço o nome dele. Quem tem parente Martinelli em São Paulo? Eu falei na cadeia. Nossa, batata. Vão colocar meu nome também. Aquela troca de nome sem vergonha, né? (Ininteligível) que aquele não pode ir, aquele pode, aquele vai. Que eu e (ininteligível) somos contra isso. Porque a nossa (ininteligível) é radical. Aquela do embaixador americano. Eles tiveram que ler o nosso manifesto, na televisão, na rádio. Lembra? Contra a ditadura. Tiveram que engolir tudo. Porque era um embaixador americano. E a (ininteligível) do embaixador, começaram a aceitar troca. Que não era participação por causa da ALN. Então esse também não foi a ALN que participou do sequestro. (Ininteligível) foi um colosso de gente na televisão, meter o pau, desistindo da luta armada. Que homem você vai tirar para jogar e ser um canalha que já repudia a própria luta armada aqui no Brasil.

Maíra: É.

Martinelli: Então, eu recusei, não é bem que eu recusei, eu desci, até os coronéis e tudo mais, né, desce, [o que eu falei], tá vendo, e aí, já botaram meu nome, desci (ininteligível), fui lá, estava os coronéis (ininteligível) e tudo mais, querendo me convencer que eu era amigo do Marighella, não sei o que. Eu (ininteligível) a minha política dizendo, bom, são (ininteligível) tudo, eu não tinha problema nenhum, eu vou, eu vou no sequestro, ah não, porque, não não, eu obedeço, estou lá, é para ir, estou lá. Aí [sai], Tiradentes, você vai no DOPS, você tira a roupa, tudo que tem que tirar, tomam fotografias de você, aí depois das fotografias todas eu vou com o canalha do [Fleury], certo?

Maíra: Claro.

Martinelli: O [Fleury], aí ele vem (ininteligível), “Martinelli, você tem que assinar isso”. “Assinar o que?” “O banimento”. Falei “eu? Assinar o banimento? Jamais eu vou assinar, dizer que esse país não presta, eu estou aqui porque eu quero que esse país, eu amo esse país, quero acabar com a (ininteligível), você sabe, pô, reforma agrária. É por isso que vocês me arrebentaram todo? Por que vocês me arrebentaram? Porque eu ia acabar com a ditadura.” Daí pra fora, entende? “Ah, mas está correndo perigo o nosso lado e o de vocês”, e eu falei um palavrão, do meu lado, né, falei um palavrão. E tudo mais. Eu não vou assinar. E fiz um documento que aí caía na mão do meu irmão, um documento dizendo porque eu não assinava, jamais assinarei, certo? Aí [saiu publicado]. Porque eu estou aqui para (ininteligível), eu estou no avião, por que eu vou assinar que esse país não presta? Se a minha vida, a luta, sacrifício, tudo é porque estou defendendo esse país (ininteligível). Entendeu?

Maíra: Claro

Martinelli: Foi um negócio bravo. E acabou também. Acabou todos os sequestros também. Não teve mais sequestro nenhum.

Maíra: Sequestraram o suíço…

Martinelli: Foi o último.

Maíra: Foi o último.

Martinelli: Não, e desse sequestro mais de dez canalhas foram na televisão, meter o pau, como é que você vai botar um cara desse no sequestro, e ele vai na televisão e arrebenta com o (ininteligível) armado. Então, a Helena não [teve] isso não. É radical, dá ou desce. Esses outros se organizaram, né, MR8 e outros companheiros de outra organização, então foi isso. O sequestro eu não fui, teve repercussão, teve, o porquê que eu não fui, porque a imprensa publicou, né, por que que eu não fui, tá.

Maíra: É muito difícil, né.

Martinelli: É.

Maíra: Como foi, durante todo esse período, esse é o período do início da ditadura, então, isso me parece que é até 72, que você está contando, você está relatando aqui os sequestros, isso…

Martinelli: Eu saí em 73.

Maíra: Saiu em 73. E depois? De 73 até a abertura (ininteligível), [gradual e progressiva].

Martinelli: 73, apesar da minha, porque eu tinha que me apresentar sempre lá, né, todos 30 dias.

Maíra: Ah é? Tinha?

Martinelli: Mas mesmo assim, eu tirei proveito, como comunista eu tirei proveito da minha prisão.

Maíra: Como? Conta pra gente.

Martinelli: Os companheiros, advogado, companheiros comunistas, eu acabei estudando (ininteligível) na cadeia. Saí pra fora, fiquei uns seis meses no cursinho do (ininteligível). Daí ele me orientou, aí uns grupos que faziam as duas, como é que é, o colegial e os dois.

Maíra: Sei.

Martinelli: Os dois, os dois cursos. Então eu fiz o primeiro, que seria o ginasial, né, passei. O segundo, eu não passei, confesso que ficou química e duas matérias que eu não soube.

Maíra: Não conseguiu.

Martinelli: Eu falo claro mesmo. Aí os companheiros tinham uma organização dessas (ininteligível) que ajuda, né. Rio de Janeiro. Martinelli, vai lá pro Rio. Está bem, está bem. Com o [esquema], né.

Maíra: Fez aí a prova (ininteligível).

Martinelli: Eu fiz aí a prova, esperei o [esquema] aparecer né, a resposta da química, eram duas matérias que eu estava repetindo. Veio o esquema, tudo mais, acertei, completei (ininteligível).

Maíra: E mandou bala.

Martinelli: Acontece o seguinte, o meu filho tinha se formado, ele entrou como moleque na Siemens, né, aí tinha se formado contador, e estava já na tesouraria da Siemens, trabalhando. Eu saí, eu falei, olha, vocês são montadores em uma multinacional, vocês não podem ficar nisso, rapaz.

Maíra: Ele é o seu mais velho?

Martinelli: É o mais velho. Ele estava com uns 19 anos. Eu falei, vou fazer o seguinte, eu vou fazer vestibular, como é que é? Nós fizemos… Eu faço pra advogado e você faz para economista. Fizemos. Certo? Eu fiz na (ininteligível) Paulista de Direito. Ele fez em Jundiaí para economista. Ele se formou economista, eu me formei advogado.

Maíra: (ininteligível)

Martinelli: 79.

Maíra: (ininteligível) E começa tal abertura…

Martinelli: É, não, o primeiro emprego meu foi o sindicato dos ferroviários…

Maíra: (ininteligível)

Martinelli: O presidente ficou maluco, ele era contra, mas os companheiros me chamaram, os velhos companheiros. “Não, você vem aqui…”, aquele negócio. Ele não quis me botar como empregado não. [Estava com medo] da ditadura, 79. Aí eu trabalhei um ano, depois entrou aquele deputado, o… um canalha aí que era deputado federal, mandou os dois advogados embora, eu e um outro. Botelho, Mendes Botelho, que era deputado federal, engenheiro da ferrovia. Aí fui advogado dos marceneiros em São Bernardo, do petroleiro em Santos, e tal, e fazendo política, né. Sabe? (ininteligível) O problema da anistia foi uma luta nossa, porque nós chegávamos a reunir 200, 250 (ininteligível) de política. E o problema dessas reuniões, saía só… quase que briga, por que? “Ah, você me entregou, você não sei o que, você…”, está entendendo?

Maíra: Sei.

Martinelli: Aquelas coisinhas, era [PPR], era ALN, era (ininteligível), era… toda a organização, né? Nós chegamos a ter 27 organizações dentro da cadeia, não é fácil não, 27, né… Pelo menos que lutaram contra a ditadura. Então nós fizemos o seguinte, vamos organizar, aí fizemos um trabalho, um trabalho (ininteligível) e organizamos o Fórum dos Ex Presos e Perseguidos de São Paulo, nos anos 2000. Anos 2000, 2001. Certo?

Maíra: Aí já tinha terminado a ditadura.

Martinelli: (ininteligível), aí convencemos, vamos dizer, convencemos o Covas. Que o Covas… O Paraná já fez uma comissão de anistia estadual, por que você não faz igual aqui? E o Covas fez. Só que ele morreu, em 2001, né? Assumiu o Alckmin, o Alckmin ficou [vacilando], quase que não (ininteligível), porque o Covas tinha me nomeado já na Comissão. E o Alckmin vacilando em me engolir na Comissão de Anistia, entende? Sou até hoje, estou na Comissão até hoje. Nós estamos com 50 processos esperando uma prorrogação de 30 dias para acabar os processos, e o Alckmin não está atendendo. Então a gente criou o Fórum dos Ex Presos Políticos, as lutas, nós criamos a (ininteligível), vamos dizer, pode se criticar o Serra, porque o Serra tinha um problema que ele era da UNE no meu tempo, e eu era do CGT no tempo. Então eu tinha ligação com o Serra sim, política. Agora não, agora ele está na direita desgraçada, não quero nem conversa com ele. Mas conversando com ele, ele me atendia. [Você vê], transformamos o DOPS naquilo: Memorial da Resistência, era Memorial da Liberdade, veja você, mudou o decreto para Memorial da Resistência, fez aquilo que, até coisa que nós nem pedimos, botou coisa até demais, [ficou bom]. E hoje, você vê, ali já entrou tudo, tudo que a Conferência (ininteligível), homenagem ao Prestes, homenagem a (ininteligível), todo mundo foi homenageado. Quer dizer, então certas coisas a gente fez usando até caras que são tucanos aí né, mas pela amizade que a gente tinha. Agora não, agora essa amizade, pelo jeito, eles estão na direita para valer, né. Certo?

Maíra: Certo. Então, aí houve a abertura. Você viveu a transição da abertura da ditadura em abertura para a democracia. Você se lembra da CONCLAT, em agosto de 81? A CONCLAT, a influência da CONCLAT no movimento sindical, como foram os dias da CONCLAT em 1981?

Martinelli: É, porque a CONCLAT, vamos dizer, participou muito das oposições sindicais, lembra…

Maíra: Uhum.

Martinelli: …então ela estimulava o trabalho das oposições sindicais.

Maíra: Certo.

Martinelli: Isso é 78, 79, começou a liberar vários sindicatos aí, com a experiência dos metalúrgicos do ABC.

Maíra: Uhum. E como foi a influência da CONCLAT no movimento sindical, você acha que ela teve um papel?

Martinelli: Pelo período, teve. Lógico, você analisa qualquer organização em que você vai se ligar à classe operária numa ditadura, é uma vista, é (ininteligível), quer dizer, se puder você combater… e a organização sempre tem mais dificuldade, né, politicamente, de levar à frente, quer dizer, é quase que uma organização clandestina. É legal, tudo bem, mas até que limite é legal? Até onde eles deixam você atuar? Porque ditadura, até que você não cria problema pra eles, vão te deixando, mas se ver, mas…

Maíra: É. Como foi a greve geral de 83? Você lembra como foram os enfrentamentos, dos decretos, do arrocho, do (ininteligível), do governo militar? Em 83?

Martinelli: Olha, eu… foi um avanço político no movimento sindical. Quer dizer, a classe operária teve condição de já começar a avaliar que ela tem força, tinha força política, e que o governo, para, vamos dizer, admitir isso, ou aceitar isso, ou não combater violentamente como ditadura mesmo, já foi um passo que deu margem para outros atos mais avançados, né. Que você vê, 89 já foi mais avançado, né, 87. Foi avançado. Mesmo assim a repressão apertava, né. As greves, foram apertadas pela repressão. A morte dos companheiros… Você lembra, né.

Maíra: A greve de 79, de 78, a presença do Lula, como você analisa a criação da CUT, como que…

Martinelli: Ah, o problema para a gente… foi a criação do PT, e a criação da CUT. (Ininteligível) no meu relatório da (ininteligível) deles aí, eu sou o fundador da CUT. Sou fundador do PT também. Então essas coisas… eu participei lá no [litoral], lembra? (Ininteligível), foi um trabalho grande e tudo mais. Quer dizer, não teve muito mais, até o Prestes andou lá na (ininteligível). Quer dizer, foi positivo porque foi uma unidade nacional. Um pouco restritiva pela própria (ininteligível) meia, vamos dizer, unificada sob CUT, uma certa (ininteligível) dos trabalhadores. Porque tinham as divergências também de ser (ininteligível) e tudo mais. Por isso houve divergência, houve auxílio internacional, que depois eu descobri. Quer dizer, um movimento sindical internacional francês e outros, ajudaram, inclusive, a criar a CUT aqui em São Paulo. Então são coisas que deram, vamos dizer, mais para a educação da classe operária no caminho sindical. [Aonde a gente podia chegar]. Porque você analisa: a minha vida. Eu fui candidato a deputado federal em 58, [encaminhado pelo Prestes], de primeiro suplente fiquei de 48 a 52. Eu já estava lá no Rio, lá em frente a federação, como primeiro suplente à deputado federal. O candidato era Prestes, com o [Luiz]. Nunca me deram uma vez também. Podia ser (ininteligível), podia ser não sei o que, mas nunca me deram uma vez para assumir. Então você analisa aqui: a classe dominante faz o possível para que a esquerda não crie… para eles é criar problema (ininteligível), essa é a verdade. Então eu fui candidato do PT. Na abertura, na primeira campanha eleitoral. Quer dizer, fiquei em 15º suplente. 2006 (ininteligível).

Maíra: Bastante.

Martinelli: É. Eu tive agora em Rio Claro e Araraquara. Nas oficinas ferroviárias eu tive mais de 1000 votos lá. Que minha área sempre foi ferrovia, entende? Eu fiquei só mais na minha área ferroviária, então não avancei outros sinais não. Então só assim.

Maíra: Bom, depois da abertura nós tivemos… teríamos, né, o governo do Sarney, que foi o governo do…

Martinelli: Do Collor?

Maíra: Do Collor de Melo. Mas antes do governo do Collor, primeiro nós tivemos o período da Constituinte. Como foi a ação durante esse período?

Martinelli: Olha, a gente nunca parou. Na área sindical. Você sabe que nós criamos o fórum sindical São Paulo. Sabia disso?

Maíra: Não.

Martinelli: Está lá no arquivo da polícia. Fundação nossa. Nós chegamos a ter 120 companheiros. Do sindicalismo que foi caçado e tudo. Estudamos toda a Constituição, (ininteligível) sindicato dos marceneiros. O Zé de Rocha ficou com a gente todo o tempo, e devo ter, no meu arquivo, devo ter essa Constituição toda alterada, [porque nós pretendemos ajudar como fazer a Constituição]. Estudamos toda a Constituição. Eu tenho no meu arquivo, até a original. Deixa eu ver, ele já morreu, né? O Zé de Rocha. O homem da Petrobrás, que criou a Petrobrás. PTB, (ininteligível), então ele participou (ininteligível) com a gente, trabalhando sobre a Constituição, né?

Maíra: Muito bom. Bom, depois do governo, a primeira eleição para presidente, aí você já falou da eleição do Collor. Como foi para a sua categoria, as mudanças que o Brasil viveu no período do início da década de 90. No período Collor, vamos dizer. Na era Collor.

Martinelli: Olha, foi na era Collor que a gente vacilou um pouco, nós de esquerda. Se não me engano nós preferíamos o Brizola. O Brizola chegou a ser (ininteligível)… Fernando Collor, né? O Lula foi candidato, ou não?

Maíra: O Lula foi candidato.

Martinelli: Então nós achávamos que devia ser o Brizola, na época nós de esquerda, né? Porque infelizmente não houve um acerto, né? (Ininteligível) era ruim isso, porque a gente achou a posição do Brizola, lembra? No Rio Grande do Sul. A que foi o nosso católico, o (ininteligível), governador, PMDB, PSDB.

Maíra: (Ininteligível).

Martinelli: Que acabou com [DOT], lembra? Teve umas posições muito boa. Brizola foi eleito no Rio de Janeiro?

Maíra: Foi.

Maíra: Então teve coisas assim… houve uma certa, vamos dizer, que a ditadura teve engolir certas personalidades, mas não permitiu até hoje, né? A ditadura até hoje não permite avançar. Não avançar… eu sou meio radical às vezes, quando eu falo. Lá no Rio, [na ordem], eu cheguei a falar. “Eu conheço a menina”. Porque tinha jornalista, tinha vários jornais, tinha tudo, né? Todo mundo querendo… Eu falei “eu conheço. Eu conheço ela (ininteligível)”. Às vezes eu vejo a posição da menina, cheguei a ver certas vezes, assim, acho aquele (ininteligível) dela (ininteligível) acaba com tudo, entende? Sair, pegar metralhadora, ou no senado ou na câmara dos deputados e (ininteligível). Porque é uma pouca vergonha esse parlamento. O Judiciário é uma pouca vergonha. (Ininteligível), nós não temos nada. Nós temos minoria nesse parlamento. E para governar, para governar, é corrupção mesmo, é ministério para esse, ministério para aquele, (ininteligível). É uma vergonha. Quem é que vai governar? Me coloca aí o presidente. Eu cheguei a falar isso. [Mas tiraram o presidente], o que eu faria? Colocaria, depois disso que ela está passando, colocaria em todos os jornais, em toda rádio, representante internacional e tudo. Aí eu começaria (ininteligível) esse parlamento, esse senado, esse canalha, classe dominante (ininteligível). Eu terminaria o discurso… os companheiros dizem: “(ininteligível), Martinelli, para você vier em cana”. E é isso, pô. Ela pode fazer isso? Não pode. Outro também é inveja por ser mulher. Eu dou valor ao [problema], você vê ela falar uma hora ali. E a classe dominante não sabe disso. Eu escutei minha filha, na Suíça, “(ininteligível), que coisa, não sei o quê, agora (ininteligível)”. O Lula foi assim também. Quando o Lula foi eleito. O cara não estuda na Europa e tudo? Os filhos da burguesia, da classe dominante? Botar um operário no poder? Você está entendendo? Isso é (ininteligível). Mas entre eles, o que eles falam, olham a gente como se fosse (ininteligível), né?

Maíra: (Ininteligível). Voltando um pouquinho… então você falou da transição e do período Collor. Como é que foi depois do período Collor, como é que na sua categoria, se refletiram as ações do plano real?

Martinelli: Olha, o plano Real, na época, a gente não teve muitas condições para lutar contra. Essa é a verdade, né? E algumas medidas… que o pessoal olhava aquela posição do… que foi presidente da República. Qual é?

Maíra: [Durante] o plano real foi o Itamar Franco.

Martinelli: O Itamar Franco. O Itamar Franco tomou umas medidas que até, justificou, lembra? Política, etc, a gente não achou ele tão… aquelas posições mais reacionárias de presidente, né? E era muito comentada o governo da época do Pejobim, não, lá do Pernambuco, do Maranhão.

Maíra: Sarney.

Martinelli: Sarney, Lembra? Você era fiscal, você era… todo mundo era fiscal, o povo estava participando, lembra? O Brasil total participando mesmo, todos se achando, né, com o direito de dizer que está errado, você tá cobrando (ininteligível), não é isso? Quer dizer, o pessoal acabou gostando desse tipo de posição. Dando um valor para, como para controlar certas coisas. Depois, acabou em nada, acabou em nada. Em outros governos também nem quero saber. Então a carestia mexia com tudo, acabou, só depois com o trabalho do Fernando Henrique e o Lula. Aí para frente que houve os acertos melhores, entende? Essa é a verdade.

Maíra: É, é verdade. Como você… como foi o período do FHC, do Fernando Henrique Cardoso em relação aos trabalhadores? Como que você avalia?

Martinelli: Olha, pela ditadura que instalou ainda aí, né? Porque a ditadura, bem, a gente sabe, ministério… não é qualquer ministro que abre as portas. Já houve um movimento operário. Teve movimento operário. O Congresso foi ampliado, o Congresso do trabalhador, as mulheres, que dizer, ouve aquela evolução que faltava para o povo brasileiro, pelos 20 e tantos anos de ditadura. Essas coisas a gente aceitaria como coisas normais do começo da liberdade democrática, entende? Então o governo, neste período, houveram essas coisas que foram aceitas pelo povo. Inclusive, não digo liberdade máxima ao movimento operário, né? Mas a liberdade de assembleia, de eleições sindicais, essas coisas, houve um espaço bom na época, que foi aproveitado pelos trabalhadores.

Maíra: Certo. Depois, nos anos 2000 aconteceu a eleição do Lula. Como é que você vê esses movimentos de resistência durante o final do governo do Fernando Henrique Cardoso, a segunda gestão do Fernando Henrique Cardoso e a entrada do Lula na presidência da República? Você já falou que você avalia como um golpe na elite um sindicalista se transformar em presidente da República, né? Como que você então, esse período que antecede, essa luta contra o neoliberalismo? Como você vê o fórum mundial, o fórum social mundial, como você vê esses movimentos sociais aí, em luta contra o neoliberalismo?

Martinelli: Não é fácil a gente falar, porque o neoliberalismo é uma política quase internacional, né? E a gente é contra, tal é que ele começou a entregar quase tudo. Ele vendeu a Vale do Rio Doce, o que, por 1 bilhão e meio. Hoje ela tem lucro de 50, 70 bilhões. A Vale dobrou. Ele entregou as ferrovias para organizações internacionais, A LL, que até, eu não sabia disso. A LL dos trabalhadores é americana, você sabia disso? É do grupo de aposentadoria deles, que nós temos aqui. Ficou aqui no Brasil, na LL. Quer dizer, o lucro que tem aqui é para o trabalhador americano. Quer dizer, ele entregou tudo… esse problema da ferrovia. Então, só não entregou ainda a Petrobrás, mas está no sonho. O Serra está aí com um decreto prontinho para passar a Petrobrás, aceitar o capital internacional. É, então são coisas… o problema é a dificuldade que a gente tem, em regime que pode ser democrata, porque, vamos dizer, certas áreas da ditadura ainda está mandando até hoje, essa é a verdade.

Maíra: Claro.

Martinelli: Porque não adianta um não condenar: “ah, mas você condenou o Brasil”. É o único país que tem polícia militar criada pela ditadura. Está aí: mataram mais quatro ontem, 18 outro dia e tal, quer dizer, virou um compadrismo deles mesmos. Entre eles, eles não condenam entre eles, porque parece que é uma máfia mesmo, deles. Ter o direito de matar. Essa é a verdade. Para eles matarem, coisa mais simples que tem. E quer dizer, nenhum governo tem força para fazer. Não tem força, essa é a verdade. Que judiciário nós temos? Nós temos um homem do judiciário que vira e meche critica a Dilma publicamente. Aquele (ininteligível) que eu acho um palhaço, do supremo, né? Crítica assim, crítica politicamente que é um misto de tribunal para fazer isso. Não é isso? São coisas que… se um deputado erra e tudo mais, que nem aquele canalha da direita lá, o deputado de Brasília, que criticou aquela menina falando besteira da menina, lembra? Quer dizer, devia ser cassado como deputado. Então até hoje eu não fui cassado, nem nada, quer dizer, e continua dizendo que a ditadura… quer dizer, deputado defendendo ditadura. Então é duro. São (ininteligível), difícil. O neoliberalismo nós somos contra. Quer dizer, politicamente aonde eu participo, a área que eu participo de política, é sempre contra o neoliberalismo. Nós somos contra, certo? Mas eu digo: com esse parlamento (ininteligível). Está tudo lá em fila para cassar a menina. Tem 15, 20 pedidos lá. Tivemos uma reunião em Brasília, agora a pouco tempo. Um mês e meio atrás. Sobre o direito da (ininteligível), das comissões da verdade e tudo mais. A [Erundina] participou. Deixamos ela falar em primeiro lugar. 2011 ela apresentou um projeto da transformação da lei da anistia, para os homens serem condenados. E naquela palavrinha sem vergonha, de anistia e os outros… e os outros são eles que são anistiados. Que o tribunal disse que tem o direito, não pode mexer, porque eles são anistiados. Ela falou: “está lá o meu, 2011. Sobe para discussão? Só sobe contra a menina. Só coisa [contra o PT], só coisa contra o governo”. Por isso que eu digo, na minha revolta, né? Eu conheço ela, eu conheço ela. Por dois anos, separado na cadeia, mas dois anos juntos a gente passou. E na atitude dela revolucionária (ininteligível). Quer dizer, é de pegar mesmo. Então são coisas assim que eu tenho… vamos dizer, eu tive com o prefeito agora lá de Araraquara. Em vim sábado, né? Uma hora e meia conversando e tudo, o cara PMDB, lutou com estudante e tudo mais, contra a ditadura e tudo mais. Ele era no governo Lula, em 2002, o homem que atendia o Parlamento, os deputados, os senadores, que iam pedir o que queria. Ele era o homem de confiança do Lula. E ele conversando comigo, porque eu defendendo muito a menina, né? Ele: “Martinelli, eu era o homem que atendia tudo lá. Me lembro que tinha até fila lá. Fila de deputados (ininteligível). Eu era o homem de confiança do Lula. Pode atender, não pode e tal”. Um dia chegou a menina, que é a senhora presidente… eu levei um empresário inglês, que queria montar uma indústria no… não sei o que era, eu sei que era um negócio que o cara queria implantar uma indústria aqui. Então levou para ela, né? Ela chegou e disse assim: “(Ininteligível), né?”. Ele explicou para ela, né? “Ele está interessado na indústria assim…”. Não sei do que era, era um negócio que eles iam produzir, né? Ele me contou isso. “Martinelli, eu fiquei muito (ininteligível), porque ela disse assim “esse negócio, ele quer abrir indústria aqui no Brasil? Ele que vá procurar montar na China, no diabo que o carregue””. (Ininteligível), ela era duro para a gente conversar com ela. Também nunca mais, acabei largando (ininteligível). Ela sentiu. Por isso que quando eu vejo ela às vezes em alguma entrevista, eu boto aquela fisionomia que eu conheço, né. Como quem diz: “saiam daqui”. (Ininteligível).

Maíra: Bom, o senhor já falou para a gente sobre a suas relações com o Jango, Marighella, João Câmara…

Martinelli: É, o Jango era meu amigo mesmo. Eu confesso que eu fiz… era um homem de quebrar o galho com presidente. (Ininteligível) até posso falar do Prestes (ininteligível), porque eu com o Jango era na casa dele, eu ia no apartamento, quer dizer, a gente se dava como irmão. Não tinha nada de excelência, era você. Era um contato de (ininteligível). Quer dizer, certas coisas sociais o cara entendia. Ele queria fazer. Era minoria, porque ele era (ininteligível). Ele sabia fazer reforma agrária? O que nós pedimos para ele, lógico. Conceda um decreto para desapropriar dez quilômetros de rodovia, dez quilômetros de ferrovia, dez quilômetros dos açudes. Ele não assinou. (Ininteligível). Primeiro de abril ele caiu. E olha, nem reforma agrária era. Era desapropriar lado de rodovia.

Maíra: (Ininteligível).

Martinelli: Veja você. Agora vai falar.

Maíra: Bom, você tem uma série de contribuições ainda a dar e eu gostaria que falasse um pouquinho mais sobre a sua família e sobre a sua participação, a parte sobre a sua participação política em relação à sua família. Como a sua família vê essa sua trajetória, essa (ininteligível) trajetória? O senhor falou que foi casado uma vez…

Martinelli: Eu casei outra vez com 80 anos.

Maíra: Com 80 anos. Com quem o senhor casou?

Martinelli: Ah, uma companheira que trabalhou no sindicato 37 anos. (Ininteligível) e tudo mais. Me conhecia daquele tempo. Já tinha (ininteligível) do Martinelli, que era o briguento, que era o não sei o quê. Ficou viúva, não tinha filhos nenhum, e acabamos se encontrando…

Maíra: E aí se casou?

Martinelli: Espiritualmente [kardecista], né? E acabou a gente se encontrando, entende? Então casei com 80 anos. Está no meu livro. (Ininteligível).

Maíra: Que bom. E os seus filhos? O senhor falou que tem filhos…

Martinelli: O problema com a política, eu sempre digo e falo isso nas palestras. Nós políticos, vamos dizer, com ideias revolucionárias, etc, que quer mudar, nós colocamos as nossas tarefas em primeiro lugar. E depois a família. Nós sabemos o quanto a nossa família sofreu. Por falta de contato e etc. Sabe? Cadeia, três anos cadeia, levaram comida, os filhos ali, né? Eu saí da cadeia, tinha dois dos meus filhos já querendo fumar cigarro. Já estavam com 18 anos. Se eu estou lá, eles não iriam fumar, né? Então são coisas que faz falta. Eu digo isso nas minhas palestras. Mas infelizmente temos isso. E a gente faz autocrítica mesmo. Não demos a cobertura necessária aos nossos filhos, à nossa família. Eu fui na União Soviética duas vezes. 40 dias de Cuba, levei a seleção ferroviária no (ininteligível) em nome do João Goulart. Quer dizer, hoje, então, eu vou fazer 91 anos. Eu passei quase dois anos sem ver o meu bisneto. Cheguei já estava andando, tudo. Está bem, minha neta está com uma família boa, (ininteligível), casou com uma pessoa boa, tem um casarão bonito, gostoso, (ininteligível). Mas é duro. Você vê: sábado eu cheguei, eu estava em Araraquara. Cheguei às três horas. Eles me esperaram até uma hora para eu ir até na casa da minha neta, que fica (ininteligível). Eu não pude ir. Então são coisas que… eles entendem isso. Meus filhos… no meu livro tem um depoimento de dois filhos e a Rosa Maria. Eles colocam. Pega o meu livro e você vai ver. (Ininteligível). Porque o meu problema… eu sou até hoje assim. Essa minha segunda companheira, médico toda semana e tudo mais. Ela tem 80 anos. Está fazendo bem a ela sabe o quê? Fisioterapia agora. Porque diminui a dor nas costas… ela é forte mesmo, grande, fortona mesmo, ela é. É dor nas costas, aquela… problema nas veias, já operou as veias nas pernas. A perna está boa, como cortou as principais, tirou, sabe, incha a perna, dói, entende? E a gente não está aí no dia-a-dia. É difícil. A família sofre.

Maíra: A família sofre essa…

Martinelli: Sofre, essa é a verdade.

Maíra: …essa opção, né?

Martinelli: Mas entende e compreende que o trabalho nosso não (ininteligível), não é emprego, não é nada. [Buscaram companheiros honestos]. Político honesto. É o que eu falo lá. Sempre falei. E eu quando pego o telefone e sei que está grudado, que está (ininteligível) controlando o meu telefone, eu chamo de… e posso falar, filha da puta, se vocês tomarem o poder, não tortura, me mata. Porque se voltar ao poder, eu vou te fuzilar. Quem está ouvindo, que fique sabendo disso. Porque para que ficar controlando? Até hoje estão me controlando. Sabia disso? Até hoje. Eu fiz uma palestra em Mogi das Cruzes, sobre a delegacia sindical, né? Historicamente, o que foi, o que já foi e tal. Está tudo lá. Tudo lá escrito. Entendeu? Formação do fórum, formação da [corte], está tudo lá. Eles têm lá uma ação de controle. Sempre disse: a direita é esperta, não é que nem a esquerda. A direita, ela não (ininteligível) não. Quando eu entro numa câmara de deputados, aquele puto luxo, né? Eu falo: eles vão largar isso daí de graça? Não vai, não. Então, a vida foi essa. Quer dizer, eu continuo, eu fui em Araraquara, na (ininteligível) de um companheiro, só sobre ferroviária, ele fez. (Ininteligível) a luta ferroviária mesmo, Sorocabana, quem lutou (ininteligível) porque, 13º ainda é nosso, poxa. Porque a classe ferroviária é que fodeu toda a linha quase de salário do Brasil todo. Minha discussão com o Lula é essa: não se conforma, ele quer achar que ele é metalúrgico, 1979, a luta é… lá em 1800 já estava fazendo greve, rapaz. Não, e o problema, nós temos sempre… nós tivemos a influência do que? Dos imigrantes. Já vieram no fim, quase no fim do império, portugueses, italianos e por aí vieram. E na ferrovia começaram a trabalhar quem não tinha (ininteligível) nenhum. (Ininteligível) português, que vá para o raio que os parta, nossa, “aqui não tem horário, aqui não sei o que”, aí o espanhol, aí o português, aí o italiano: “greve em 1800”. É isso o que tem que fazer, porque os caras que vieram de lá, vieram com mais de 1500 anos de insistência, vieram porque não tinha emprego, mas tinha hora de almoço, tinha hora de comer, agora…

Maíra: Uma legislação.

Martinelli: …aqui não tinha nada. Dou o elogio mesmo. Devemos sim a nossa evolução à ferroviária. Para você ver, a previdência social: 22 nós já tínhamos a nossa. Ferroviária…

Maíra: Assistencial. Bom, eu tive o prazer enorme em conversar com você. Quero que esteja não esteja muita cansada, muito cansado…

Martinelli: Não, não tem problema não.

Maíra: …e só a última questão…

Martinelli: Isso daqui o que é? É o (ininteligível)?

Maíra: É, eu fiz a pesquisa sobre a sua pessoa…

Martinelli: Para mim, isso?

Maíra: Não, mas se você quiser, pode ser.

Martinelli: Se estiver sobrando, vai para o meu arquivo.

Maíra: Isso, pode levar a pesquisa…

Martinelli: Qual é que é? Esse?

Maíra: O seu é esse. A última questão: a gente sabe que você tem enorme, essa enorme contribuição que você fez para nossa sociedade, para a sociedade brasileira e agora perguntamos a você: o que você acha de participar do Projeto Memórias desse Projeto Memória com a sua história de vida?

Martinelli: Olha, só tenho que elogiar qualquer tipo de artigo, tipo de estudo feito. Eu visitei Araraquara, te falei. A estação de araraquarense que é um espelho, o prefeito me deu todo o histórico de Araraquara. E a minha estação está lá, continua a mesma, que era velhinha, mas era aquele colosso. Daí é feito as festas, o lançamento do livro, minha palestra foi dentro da estação.

Maíra: Que beleza, hein?

Martinelli: O museu é dentro da estação. O museu é um espetáculo. Desde as pequenas peças que faziam até o trem grande, feito por um ferroviário, locomotiva grande assim, vagões grandes, feita pelo ferroviário. Fotografia e tal, telégrafo sem tio, o telefone daquele tempo de século, quer dizer, aquilo me encheu, me arrepiou todo de ver essa beleza. Quer dizer, isso é importante. Eu estou no meu plano ainda, eu posso contar, estou em dificuldade ali, mas é porque a ferrovia ainda tem, vamos dizer, uma certa influência. O arquivo da SBR já foi oferecido para mim. O companheiro que está lá na ferrovia, (ininteligível) pobre lá, que ainda é da rede ferroviária federal, tem a estação da Luz, tem a rádio, tem muita coisa. O que foi vendido para CPTM aquilo que a CPTM quis: estação, armazém, arquivo. O que ela quis, o governo federal cedeu. Mas ficou a piscina da Lapa, ficou tudo, ficou (ininteligível), ficou [Alto] da Serra, ficou tudo. Ficou o museu de Bangu, ficou o museu de Campinas, ficou o museu… Araraquara eu não conhecia, mas é um espetáculo o museu de tudo quanto é ferroviária. Então hoje eu já estava pensando aqui já: tinha feito… porque no Brás tem várias casas, que eram do Serviço Social Ferroviário. E a minha briga se eu quisesse passar do lado de lá. Quanta sem vergonhice, odiava já. Eu sou criador do Serviço Social da Estrada de Ferro, Jânio Quadros que assinou. Quem acabou há 2 anos atrás foi a minha menina. Quem acabou com a rede ferroviária federal foi o meu menino, Lula. Esteja você… Então, mas aí, o arquivo deve vir para a minha mão, por quê? Quando o governo federal pegou a rede ferroviária federal, acabou. Todos os arquivos (ininteligível) para Brasília.

Maíra: Não foi?

Martinelli: Não, eu não dei (ininteligível). Na minha ferrovia eu cheguei para o cara que era o responsável: “você não manda nada para fora daqui, rapaz. Vai pro lixo, vai uma esculhambação, esses caras vão liquidar com tudo”. Ele não mandou. E ele disse: “e eu estou criando o museu ferroviário e uma ferrovia e ferroviária, porque eu quero prestar uma homenagem aos velhos militantes”. Não é só ferrovia, não é só ferrovia…

Maíra: Todos os trabalhadores…

Martinelli: E eu tenho nominado. Eu tenho pelo menos meus… em 41 eu entrei, né? Meu pai entrou em 1914, quer dizer, tem um monte de coisa para falar, né? E fotografia de companheiro, sindicato e tudo mais. Então, ele, já no plano dele, o companheiro, então tem uma, que é a sede do sindicato, mas não é do sindicato, é que foi cedida para o sindicato ficar lá. A Casa Ferrovia. Então, a casa dele, a do Serviço Social Ferroviário que ela fechou, que tem churrasqueira, tudo, a casa que era da Associação dos Maquinistas, toda essa parte vai ficar para o Martinelli. Então, só que eu conversei entre nós, conversei com a menina que é responsável pelas propriedades da União: “Martinelli, tem que ser associação que não visa lucro nem nada. Você faz o museu da tua maneira, tudo mais, mas lista tudo bonitinho, aí eu aprovo 20 anos de…”

Maíra: Isenção. Muito bom.

Martinelli: Eu falei: “bom, eu vou arrumar pelo menos um (ininteligível).

Maíra: Muito bom, maravilha. Foi um prazer muito grande, viu? Eu fiquei com uma satisfação muito grande em ter conversado com você, Rafael Martinelli, eu espero que a gente volte, porque você tem muita coisa…

Martinelli: Tem muita coisa aí. Eu vou trazer o meu livro, porque o meu livro é diferente dos livros contra a ditadura, sabe, tem umas (ininteligível) em dezena e dezena, né? Oh que ditadura, (ininteligível). Só do Maringa tenho 3 ou 4 livros. Então, eu fiz diferente: com o companheiro que estudou na Alemanha Oriental, professor, ele é assim, deficiente, sustentei ele por 2 anos e tanto, porque o meu salário é 6.500. Tenho o meu apartamento, a minha velha recebe de aposentadoria 1500. Não estou precisando guardar (ininteligível), tenho o que comer, tenho tudo, então eu pagava ele 2000 todo mês e é político, é um cara professor, fala inglês, italiano, se formou na Alemanha Oriental, entende? Mas é deficiente, não tem emprego (ininteligível).  Então (ininteligível) fizemos o livro. Bom, o cara tem uma cabeça espetacular. Ele pega um Martinelli, da onde veio? Ah, do (ininteligível) tal, Martinelli, filho, chegou no Brasil e tal, pegou os Pistorezi, que é a minha mãe. Família Pistorezi, área Toscana. Pegou a cidade de Tosca, né? Aí começou a minha vida…

Maíra: Então ele vai fazer a sua vida inteira…

Martinelli: …jogou bola, como começou, começou minha mãe e tal, aí política minha, aí vem a ditadura, vem a viagem de Cuba, viagem à Rússia, viagem à União Soviética, o time de futebol no Chile, a amizade com Jango… Então eu tenho fotografia com Getúlio…

Maíra: Ah, então você vai trazer esse livro.

Martinelli: …fotografia com o JK, foi da época do Jango. Só não tenho com Jango. O Jango foi várias vezes e ninguém tira fotografia.

Maíra: Mais uma vez, muito obrigada.

 

 

 

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