Assassinado pela ditadura há 50 anos, Zequinha Barreto ajudou a formar a luta sindical

17 set 2021 . 17:20

Por Carolina Maria Ruy

No início do regime militar a cidade de Osasco, com forte perfil industrial, ganhou um contorno de resistência e militância contra à ditadura. Em 1966 surgiu no meio sindical o chamado Grupo de Esquerda de Osasco, que reunia operários e estudantes e projetou lideranças como os metalúrgicos José Ibrahin e José Campos Barreto, o Zequinha.

Naqueles anos o arrocho castigava os trabalhadores e o regime dava sinais de que tinha vindo para ficar. O Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco, criado em 1963, teve toda a diretoria caçada em abril de 1964 e, como forma de combater a política de intervenção implementada pelo governo, aquele grupo optou por investir na organização dos trabalhadores a partir das fábricas.

Ao Centro de Memória Sindical (em 2012) Ibrahin disse que eles sabiam que se fizessem o que pensavam em fazer – retomar a mobilização e dar vida política para o Sindicato – chegaria o momento em que teriam que ir para o confronto com o governo. Porque, segundo ele, os “milicos deitavam e rolavam”. Dar vida política ao Sindicato, em outras palavras, consistia na realização de uma grande greve que marcou a história dos trabalhadores.

Mas antes disso, aqueles operários jovens e cheios de disposição para a luta, ainda protagonizariam um ato, que também se tornou histórico, no dia 1º de maio de 1968, na Praça da Sé, em São Paulo.

Praça da Sé, centro de São Paulo, durante as comemorações do Dia do Trabalho, 1º de Maio de 1968. Foto: ESTADÃO CONTEÚDO.

Decididos a repudiar o evento que a ditadura e o governador ‘biônico’[1] Roberto de Abreu Sodré haviam preparado, estudantes e trabalhadores liderados pelo Grupo de Osasco realizaram uma ação de sabotagem.

Articulada com as oposições sindicais, com a esquerda e aliados, toda a ação foi calculada, desde o mapeamento da Praça da Sé, seus lugares de entrada e saída, até a criação de um grupo de autodefesa, com 60 barras de ferro.

Segundo o historiador Márcio Amêndola[2], escondidos entre o público, os militantes iniciaram um tumulto quando o governador já estava no local. Sodré, seus assessores e até a polícia, foram expulsos do palanque, que foi incendiado pelos ativistas.

Zequinha Barreto tomou a palavra exigindo o fim da ditadura, o apoio à revolução cubana, o fim do arrocho salarial e o apoio à greve de Contagem (que aconteceu em abril daquele ano).

Após a destruição do palanque os mais de 1.500 manifestantes saíram em passeata rumo à Praça da República gritando palavras de ordem contra o regime militar. Ao chegar à Praça da República diversos discursos foram proferidos, sendo o de Zequinha o mais inflamado: ele conclamou os trabalhadores e estudantes a enfrentarem a ditadura através da luta armada.

Aqueles manifestantes, sobretudo do Grupo de Osasco, tornaram-se alvos da ditadura e, quando eclodiu a greve dos metalúrgicos, iniciada na Cobrasma no dia 16 de julho de 1968, patrões e militares prontamente acionaram o aparelho repressivo do Estado.

Eles ainda cultivavam a esperança de que, a exemplo do que aconteceu em Minas Gerais, o governo buscasse uma negociação antes de reprimir. Mas não houve diálogo e nenhuma reivindicação foi atendida. A greve continuou como pôde e tomou grandes proporções, mobilizando setores da sociedade em todo o país.

Aquele momento em que a ditadura ainda se estabelecia, era de demonstrar força e, embora toda diretoria tenha sido caçada, a greve foi um exemplo que influenciaria trabalhadores anos mais tarde. Zequinha Barreto que foi um dos principais líderes do movimento, após a desocupação da Cobrasma, ficou 98 dias preso e foi barbaramente torturado.

Prisão após a greve

Após a repressão os sindicalistas que encabeçaram a greve ficaram em uma situação muito difícil. Estigmatizados pelo Estado e sem perspectiva de retomar seus trabalhos, eles contaram com a solidariedade dos companheiros.

Um dos líderes da greve, o metalúrgico João Joaquim contou ao Centro de Memória Sindical que foi morar em um bairro junto com padres franceses, que ficaram conhecidos como padres operários uma vez que buscavam se aproximar dos trabalhadores e apoiaram os sindicalistas em suas lutas. Ele disse que também que pode contar com companheiros de fábrica, como o Zequinha Barreto:

Meu filho nasceu um pouco depois da greve, no dia 7 de outubro. E, naquele tempo havia escassez de leite em pó na cidade. Os leites “Ninho” eram todos vendidos para o Jóquei Clube para dar para os cavalos. Mas houve um dia que chegaram à minha casa o José de Campos Barreto, o Zequinha, e outros companheiros com doze caixas de vinte latas de leite cada! Hoje o moleque está adulto, vai fazer Direito. Nós resistimos assim[3].

O fato é que naquele ano de 1968, a repressão que deixava pouca margem para contestação, empurrou muitos militantes para a clandestinidade.

Após sua fundamental participação no ato do dia 1º de maio e na greve de Osasco de 1968, e após ter sido preso e torturado, Zequinha Barreto militou na Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e, em 1970 e 1971 no Movimento Revolucionário Oito de Outubro (MR-8), junto com o Capitão Carlos Lamarca, onde propôs um trabalho político com os camponeses de sua terra natal, Buruti Cristalino (Bahia), com vistas à implementação da guerrilha rural.

O Grupo de Esquerda de Osasco atuou até 1968, quando seus militantes passaram à luta armada, (Oliveira, 2009: 275). Mas há quem diga que sua atividade política se estendeu até setembro de 1971, quando tombou a última grande liderança remanescente, José Campos Barreto, assassinado junto com Lamarca pela polícia do governo em uma emboscada no sertão da Bahia.

Seu sonho por um mundo mais justo se encerrou naquele 17 de setembro de 1971, há 50 anos, quando foi assassinado, crivados de balas por agentes da ditadura militar. Ele tinha 26 anos[4].

Em julho de 2021 Zequinha foi um dos homenageados no Dia da Luta Operária por iniciativa do vereador Antonio Donato (PT), em parceria com as Centrais CUT, Força Sindical, UGT, CTB, CSB, NCST, CGTB, CSP-Conlutas, Intersindical e Intersindical Central da Classe Trabalhadora. Também participaram da homenagem o Centro de Memória Sindical, Instituto Astrogildo Pereira e IIEP.

Carolina Maria Ruy, jornalista e coordenadora do Centro de Memória Sindical

[1] Nome dado aos Governadores indicados pela Ditadura Militar, sem eleições.

[2] Amêndola, Márcio, Maio de 1968, na Praça da Sé, Instituto Zequinha Barreto (zequinhabarreto.org.br).

 [4] Dados do Instituto Zequinha Barreto.

Comentários

  • Rita de Cassia Vianna Gava says:

    Nossa uma história desconhecida, infelizmente a amnésia histórica social no Brasil tem função de manter alienação



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