Futebol, história, identidade e superação

por Memória Sindical. 11 jun 2019 . 19:26

Do fim do século 19 ao início do século 21 a ascensão do futebol como paixão popular foi espontânea e o esporte tornou-se universal.

Nas lutas sociais por melhores condições de trabalho do final do século XIX, a conquista do tempo livre representou um grande passo na afirmação do trabalhador como indivíduo. Na década de 1920, logo após a Primeira Guerra, sindicalistas britânicos conseguiram uma redução semanal de seis horas e meia de trabalho para seus sete milhões de membros. O que eles alegavam era que o tempo livre beneficiava o trabalhador mais do que as compensações do aumento de salário em horas-extras. Neste sentido o esporte, que até o século 18 servia unicamente à capacitação para as guerras, começou a aparecer como uma atividade reivindicada pelos trabalhadores. Não é de se estranhar, portanto, que o futebol, desde seu surgimento na Inglaterra até hoje, tenha uma história de crescente popularização.

A Copa e as Seleções Brasileiras

A expansão do futebol do Reino Unido para o Mundo se deu com a criação da FIFA (Federation International Football Association), em maio de 1904. Jules Rimet, nome consagrado por batizar a taça de ouro dos campeões, em sua gestão como presidente da FIFA (1921 a 1954), foi o principal idealizador da Copa do Mundo de Futebol, realizada pela primeira vez em 1930,no Uruguai.

Disputando entre 13 equipes convidadas, entre elas o Brasil, a seleção anfitriã,  foi a primeira campeã da história das Copas.

Depois de três Mundiais realizados na década de 1930, e de 12 anos de interrupção devido à Segunda Guerra (1939 a 1945), em 1950 foi realizada a primeira Copa no Brasil. No bojo de seu nacionalismo, o governo de Getúlio Vargas (1930 a 1945) buscou definir um perfil do povo brasileiro, empreendendo, entre outras coisas, um grande esforço político para associar o futebol a esta identidade. Na esteira do projeto varguista, e já no governo de Eurico Gaspar Dutra, a Copa de 1950 teve como marco a construção do Maracanã, o maior estádio do Mundo. A Seleção, contudo, não correspondeu à expectativa da política nacional, e perdeu em casa para o Uruguai.

A afirmação do Brasil como país do futebol se concretizaria duas Copas mais tarde, em 1958, na Suécia. Aquele Campeonato projetou jogadores como Garrincha e Pelé, que brilharam na conquista deste primeiro título. Embalados pelo jingle A Taça do Mundo é Nossa, os brasileiros acompanharam pelo rádio a grande conquista. Em plena época de desenvolvimentismo, sob o governo de Juscelino Kubitschek, a Copa reforçou o nacionalismo que se estabelecia no País.

No torneio seguinte, em 1962, no Chile, a festa se repetiu, e o Brasil conquistou o bicampeonato. Duas Copas mais tarde, em 1970, no México, a Seleção, que contava com Pelé e Tostão, chegou ao tricampeonato. A Copa de 1970 foi transmitida pela televisão para todo o Mundo não só para a Europa, como em Copas anteriores, consagrando-se como fenômeno midiático. No Brasil, o ufanismo propagado no refrão: “90 milhões em ação, pra frente Brasil!, Salve a seleção!”, contagiou o povo e o governo do general Médici (1969-1974), um dos mais repressivos da ditadura militar, que soube capitalizar a situação reforçando sua campanha sintetizada no lema “Brasil, ame-o ou deixe-o!”

A arrancada brasileira no ranking do Campeonato Mundial da FIFA, entre 1958 e 1970, consagrou em definitivo o futebol como parte da identidade do povo brasileiro vislumbrada por Vargas na década de 1930. Fato que não se abalou nos 24 anos subsequentes, período em que o Brasil não ganhou nenhuma Copa.

A crescente profissionalização do futebol, a busca por rendimentos e resultados, e a exploração publicitária da imagem dos jogadores marcou as Copas dos anos de 1990 e 2000. No Mundial de 1994, nos EUA, a Seleção retranqueira de Carlos Alberto Parreira venceu a mesma Itália que nos massacrou em 1982. Na Copa realizada na Ásia, em 2002, o Brasil foi novamente campeão, chegando ao pentacampeonato. Em 2006 nossa rival, a Itália, conquistou a taça. Em 2010 a África do Sul sediou a 19ª edição da Copa do Mundo, vencida pela Seleção Espanhola. Com maior número de títulos, a Seleção Brasileira é a única que participou de todas as Copas, e recebeu o Torneio novamente em 2014, quando passou vexame, sendo eliminada após perder de 7 a 1 para a Alemanha, no dia 8 de julho, na semifinal daquela Copa. Em 2018 o desempenho da Seleção também não foi brilhante. O Brasil perdeu da Bélgica por 2 a 1, na Arena Kazan, nas quartas de final. Assim, a seleção de Tite foi eliminada do Mundial da Rússia.

A Copa América

Embora da Copa do Mundo seja o torneio com maior visibilidade e maior potencial comercial, ela não é o mais antigo torneio ainda vigente nos dias atuais.

A CONMEBOL Copa América, que começou oficialmente em 1916, é a mais antiga competição entre seleções de futebol do mundo.

Naquele ano, o torneio pioneiro foi realizado a pretexto da comemoração do centenário da independência Argentina e contou com as seleções dos países: Argentina, Chile, Uruguai e Brasil. Assim como na primeira Copa do Mundo, o Uruguai venceu a competição que ainda se chamava Campeonato Sul-americano de Futebol.

Foto do Brasil na Copa América em 1919.

A partir de 1975, em sua 30ª edição, o torneio passou a se chamar oficialmente CONMEBOL Copa América. Com a troca do nome houve também a mudança no sistema de disputa. Os pontos corridos foram substituídos por um formato parecido com o da Copa do Mundo da FIFA: fase classificatória, com as seleções distribuídas em grupos, seguida de fases eliminatórias.

A Copa América de 2019, em sua 46ª edição, será disputada no Brasil, que recebe a competição pela 5.ª vez. Será um dos dois grandes eventos de futebol internacional que o Brasil irá sediar em 2019, o outro será a Copa do Mundo Sub-17, que ocorrerá em outubro.

O Brasil foi campeão da Copa América 8 vezes, em 1919, 1922, 1949, 1989, 1997, 1999, 2004 e 2007.

As mulheres nunca deixaram de jogar futebol

A paixão pelo futebol não é atributo exclusivo dos homens. Mas as mulheres já enfrentaram, e enfrentam, machismo neste campo. E isso não se reduzia somente aos olhares desconfiados e piadas maldosas. No Brasil, em 1941, o mesmo Getúlio Vargas que vislumbrou o futebol como ícone da identidade nacional, assinou um Decreto-Lei que dizia que “às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza…”. Na prática, ele proibiu as mulheres de jogar.

Segundo a historiadora Giovana Capucim e Silva, autora do livro Mulheres Impedidas: A proibição do futebol feminino na imprensa de São Paulo, na década de 1960 prevalecia a ideia de que a “natureza feminina” era ser mãe. “Isso é muito forte no discurso do Vargas: essa ideia da mulher como alguém que deve cuidar da família, que deve gerar os ‘filhos fortes da nação’”, explicou ela em matéria do HuffPost.

Léa Campos, primeira árbitra de futebol a se formar no Brasil e que lutou contra a proibição da modalidade no País.

Na foto, Léa Campos, primeira árbitra de futebol a se formar no Brasil e que lutou contra a proibição da modalidade no País.

Mas as mulheres nunca deixaram de jogar futebol. Segundo a historiadora, elas sempre desafiaram a “essência feminina” idealizada por Vargas, jogando em “campos de várzea e em locais em que o Estado não chega, como as periferias”. Além disso, vários clubes continuaram jogando clandestinamente no país, como o Araguari Atlético Clube, o primeiro a formar um time feminino, em  1958.

Após quatro décadas de proibição, em 1979, época em que se iniciava a abertura política e o fim da ditadura militar, o decreto foi revogado.

Mas ele deixou sequelas. Especialistas avaliam que os anos de proibição deixaram reflexos negativos na associação das mulheres com o futebol. Até hoje há pouco incentivo à modalidade feminina, as condições de trabalho são piores que no futebol masculino e a falta de patrocinadores é maior.

Copa do mundo de futebol feminino

Sobre a Copa do Mundo de Futebol Feminino de 2019, que começou dia 7 de junho, a Secretária Geral da Fifa, Fatma Samoura, disse: “Isso não é mais só sobre o futebol feminino. Isso é sobre nós, mulheres, deixarmos uma pegada. Nós contamos com o apoio de vocês para mudar a mentalidade, para que no futuro o futebol feminino seja simplesmente conhecido como futebol”.

Neste ano, pela primeira vez, as jogadoras contam com uniformes feitos exclusivamente para elas. Elas também viraram álbum de figurinha e os jogos estão sendo transmitidos de forma integral pela TV. Aqui no Brasil, a Rede Globo, a maior emissora do país, transmitirá todos os jogos.

Estes são sinais de que o futebol feminino profissional vem ganhando espaço e se consolidando como uma atração esportiva para a população e como uma opção para milhares de garotas com talento para tanto.

Resultado de imagem para martaOrganizado pela FIFA, a Copa feminina foi realizada pela primeira vez em 1991. Hoje são 24 seleções femininas que se enfrentam a cada quatro anos.

O Brasil nunca foi campeão no torneio feminino. Chegou a ser vice em 2007 e ficou em terceiro lugar em 1999. A seleção que até hoje tem o maior número de títulos no futebol feminino é a dos EUA, que ganhou em 1991, 1999 e 2015, foi vice em 2011 e ficou em terceiro lugar em 1995, 2003 e 2007.

A maior artilheira na história do torneio, entretanto, é a brasileira Marta Vieira da Silva, com um total de 15 gols marcados em Copa do mundo.

Com sua história marcada pela conquista dos trabalhadores por tempo livre, pela afirmação de uma identidade nacional, pela segregação das mulheres, pela cooptação do mercado, pela superação de desafios, conquista de novos espaços, o futebol mimetiza a própria dinâmica da sociedade, com seus conflitos e suas transformações.

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Carolina Maria Ruy, Jornalista e pesquisadora

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