Mônica Lourenço Veloso

por Memória Sindical. 26 set 2012 . 16:34


Secretária Geral do Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco e Região e a 1ª presidenta do Dieese.

Na medida em que fui conquistando espaço no Sindicato, também fui conquistando espaço fora, na ação sindical, no movimento sindical. Eu fazia parte de uma coordenação de mulheres e a gente procurava participar de tudo que fosse possível da vida da Central. Não só em questões específicas das mulheres. Vivíamos a construção da Central, participando da elaboração de idéias, dos debates, de tudo aquilo que a gente entendia que também podia contribuir.

Meu nome é Mônica Lourenço Veloso, nasci em Osasco, no dia 29 de março de 1968.
O nome da minha mãe é Josefa e do meu pai, já falecido, Mário Antônio. Meu pai era de Presidente Prudente, em São Paulo e minha mãe veio de Alagoas. Eles vieram para Osasco, se conheceram e formaram a nossa família no bairro chamado Piratininga, que é onde eu vivi toda a minha vida. Meus pais tiveram três meninas e dois meninos. Eu sou a mais velha. Um é metalúrgico, como eu, uma irmã é cabeleireira, outra não trabalha e o mais jovem que ainda está escolhendo o que vai fazer da vida.
Tanto meu pai quanto minha mãe eram metalúrgicos. Meu pai era ferramenteiro e técnico em metalurgia e minha mãe trabalhava na produção. Os meus avós paternos, eram Maria e Dionísio. A gente conviveu bastante. E dos meus avós maternos, só lembro-me da minha avó Olívia. Ela veio do Nordeste e trabalhou numa empresa de tinta até aposentar. Já a minha avó paterna, não trabalhava. E o meu avô foi funcionário público, do setor de manutenção. Ele morava num bairro chamado IAPI. Era um bairro de funcionários públicos em Osasco.

INFÂNCIA

Quando eu era criança o Piratininga era um bairro residencial. Ele tem uma ligação com a Rodovia Castello Branco, que divide o bairro, em dois. Então a gente morava de um lado e meus avós do outro. Eu lembro que pra ir até a casa deles, tinha que fazer uma travessia, onde tinha um matinho. Depois, esse bairro se tornou meio centro logístico com muito galpão e muitas empresas. Aí, a gente se mudou pra o outro lado que é do IAPI. Ali, é extremamente residencial e continua até hoje. Tem muitos condomínios, casas e é arborizado. O bairro cresceu pra cima. Acho que na penúltima gestão da prefeitura asfaltaram as ruas, porque eram todas com cascalho.
Rua Piratiniga. Goolgle Maps.

Meu pai sempre foi muito inventivo. Então, se ele fazia carrinho de rolimã pra o meu irmão, tinha que fazer pra as meninas também. E a gente brincava com carrinho de rolimã, de piques.  Eu tinha muita amizade e havia uma molecada, naquela época, então a gente brincava na rua mesmo. A gente inventava as brincadeiras. Lá no IAPI tinha e ainda tem muita praça onde nós brincávamos.
Esse nosso bairro é bem próximo do Rio Tietê e antes de fazerem a famosa passarela, que também já é antiga, a passagem para o outro lado do rio era uma “pontezinha” de madeira sobre um monte de barril. Todo mundo passava por ali. Meu pai era metalúrgico e trabalhou a vida toda na Cobrasma que era uma empresa que ficava do outro lado do rio. Ele trabalhou lá muitos anos. Lembro dele atravessando aquela ponte. Quando a gente ia visitar alguns irmãos do meu pai que moravam aqui em São Paulo, na Zona Sul, também tinha que atravessar a ponte pra poder pegar a condução no terminal rodoviário.
Dessa época, o que mais me marcou foi a amizade. Tenho um grupo de amigos até hoje que se formou desde o pré-primário. Passamos pela escola, formatura do ginásio, alguns se casaram, perdemos alguns amigos, sofremos juntos. O grupo era chamado de a turma da Rua do Piratininga, que era uma rua que a gente comandava. Hoje esse grupo está menorzinho.

FORMAÇÃO ACADÊMICA

Eu estudei numa escola pública, ali do bairro, chamada Escola Professor Eloy Lacerda. Estudei até terminar o ensino fundamental, ou seja, até a oitava série. Como não tinha colégio nesta escola, tive que estudar em outro bairro não muito longe, chamado Rochdale numa escola chamada Júlia Lopes. A gente ia a pé.  Ali fiz o colegial. E foi aquele período que eu também namorei. Namorei sério, engravidei e casei. Aí, interrompi os meus estudos no colégio por um bom tempo até começar a minha formação profissional.

JUVENTUDE

Quando adolescente trabalhei em umas duas lojas. Uma era na Rua José Paulino, no bairro do Bom Retiro em São Paulo. Foi uma experiência terrível, eu não vendia nada. Os donos eram coreanos. Tinha uma senhora que era até muito boazinha, mas eu tinha que ficar dando comida pra ela. Aquilo me perturbava demais. Eu contei pra minha mãe e ela foi até lá comigo. Eu pedi a conta junto a minha mãe e saí desse emprego. Depois, trabalhei numa outra loja. Era uma coisa informal. Loja pequena, de bairro.
Naquela época, com 14 anos, a gente já trabalhava. Então, esses trabalhos informais foram nessa faixa de idade. Eu tinha 14, 15 anos. Terminei o ginásio e aí eu estava fazendo o colégio e consegui um curso de secretariado na Fundação Bradesco que era só um ano. Então eu estudava no colégio e fazia o curso. Aí não trabalhei mais terminar o curso na Fundação Bradesco. Conheci o pai do meu filho na Fundação Bradesco. Engravidei, me casei. Mas não vivi muito tempo com o meu marido.

FAMÍLIA

Mais tarde eu me casei de novo. O meu filho mais velho, o Tiago, tem 20 anos, trabalha na Net e faz a Faculdade de Engenharia da Computação. Agora estou grávida, está vindo mais um.
Me considero uma pessoa de sorte porque tive apoio muito grande da minha família quando eu decidi enveredar pelo sindicalismo. Minha família se orgulha muito de eu estar no sindicato, das coisas que eu pude participar. Pôxa! Fui a primeira mulher presidente do DIEESE. Eu me orgulho disso também.
A militância sindical exige muita dedicação, então internamente, você vive conflito. Acho que a mulher, um pouco por conta dessa coisa da maternidade, tem muita responsabilidade com os filhos como se fosse responsabilidade só dela. Mas então você sofre ali aqueles conflitos, da distância, de não conviver todo o tempo. E eu não posso dizer que o meu filho não tenha sofrido com minhas ausências. Mas graças a Deus, isso não influenciou na sua personalidade, muito pelo contrário. Posso dizer que o sacrifício valeu; Ele tem esse entendimento e se orgulha do meu trabalho. Não foi tão fácil. Mas o apoio que tive foi fundamental pra que eu pudesse fazer tudo o que eu fiz, pudesse me dedicar como eu me dediquei.
Fiz as contas e vi que teve um ano em que fiquei 156 dias fora da minha casa. Ou seja, metade do ano nem dormi em casa. Viagem pra cá e pra lá. Então, não é todo mundo que consegue isso. E quando consegue, você tem de pôr na balança. Consegui não me desviar muito dos propósitos, então acabou valendo a pena. Mas, sei que teve algumas festinhas da escola que não fui e algumas atividades da família em que não estava.

TRAJETÓRIA PROFISSIONAL

Em fevereiro de 1986, entrei na empresa Meridional, no bairro do Piratininga. Minha mãe trabalhava nessa empresa. Uma empresa que fazia produtos de aço inox, panela, baixelas, essas coisas.
Foi o meu primeiro emprego formal. Entrei na área de controle de qualidade. Eu não tinha nenhuma experiência. Naquele período, eles não pediam experiência, então fiz uns testes, fui bem e me contrataram.
Lembro que tudo era muito novo pra mim. Eu nunca tinha entrado em uma empresa. E a Meridional era uma empresa de médio porte. Tinha uns 500 funcionários. A porta de entrada dava no setor de prensas. As prensas eram enormes. E aquele negócio grande, baixava e já saía aquela panela pronta. As pessoas usavam uniformes. Os homens com calça, blusa e a bota. E as meninas usavam uma capa bem verde. E não era um serviço muito limpo, Paquímetroentão, as pessoas ficavam sujas, especialmente quem trabalhava na Usinagem, na Estamparia. As peças, depois de prontas, iam para as esteiras. A Meridional já estava se modernizando e tinham essas esteiras. Ficava aquela fila de meninas ao lado das esteiras, limpando as peças com um algodão que era mergulhado numa mistura, que inclusive cheirava muito mal. E outras meninas iam olhando, verificando os defeitos. Depois outras iam embalando. Então, como era uma linha de produção, você tinha que ter agilidade, rapidez. As meninas mais lentas ou que estavam iniciando, como era meu caso, ficavam no final da linha. Quanto mais rápida ia ficando, você ia passando pra frente na linha.
Eu trabalhava das sete às três, incluindo os sábados e a minha função era verificar os defeitos depois da peça limpa. Era um trabalho só visual. Tinha outrManomêtroo grupo de meninas que fazia uma ação mais técnica. Usava paquímetro, usava isso, aquilo, manômetro, aquele instrumento pra ver a densidade do metal, essas coisas. Eu queria chegar ali, mas ainda estava naquelas verificações. Quando tinha problemas, a gente tirava a peça da esteira.
Na Meridional, havia, mais ou menos, 55% de homens e 45% de mulheres. O número de mulheres é bastante grande porque a parte da esteira, embalagem, limpeza era feita só por mulheres. Depois, instalaram algumas máquinas, completamente automatizadas, que faziam umas tampas e as mulheres também passaram a trabalhar ali. Chegaram a contratar muitas meninas pra esse trabalho.
A fábrica era dividida em duas. Ela era meio que um “L”. Os homens ficavam do lado direito e as mulheres do lado esquerdo da fábrica. Tinha um miolo, em que ficava essa máquina das tampas, depois vinham as esteiras e ao fundo, a embalagem. E mais ao fundo, à esquerda, era o setor de estoque já na saída. As mulheres ficavam naquele miolo e os homens nessa circunferência.
Um dia o gerente falou pra mim: "Acho que pra você poder evoluir, precisa fazer um curso?". Ali tinha uma área de meu interesse que era a de Assistência Técnica. Aquilo me chamou a atenção, então terminei o colégio e procurei um curso técnico. Encontrei um curso em uma escola técnica antiga, lá de Osasco, chamada Argos. Fui e fiz o curso de Controle de Qualidade. Lembro que meu filho, o Tiago, era novinho.  Foram dois anos de curso e aí o tempo também de trabalho lá na Meridional.
Eu consegui ir pra área de Inspeção Técnica. Então, tudo que a Meridional fabricava que tinha defeito ou que voltava dos clientes, tínhamos um trabalho de refazer ou verificar, no setor de produção, qual era o problema. Aí, passei a me relacionar mais com os companheiros dos outros setores. Porque nos intervalos era difícil, era só meia hora de almoço.
A Meridional era uma empresa boa, tinha produtos de excelente qualidade. Atendia a classe B e A. Chegaram a desenvolver tecnologia pra panela de pressão, mas o ambiente de trabalho era extremamente insalubre. Tinha um setor chamado Polimento, que era onde as baixelas ficavam brilhando, bonitas. O polimento era dado com duas lixas especiais. Uma grossa, que primeiro deixa a peça fosca, depois, passavam a outra que dava aquele brilho e ficava aquela coisa bonita. Isso tudo era feito à mão. Então ficava aquele monte de homem sentado ali que você só via os olhos e os dentes quando abriam a boca. Era um negrume. Tudo muito sujo. E ocorriam muitos acidentes de trabalho, especialmente com os homens no setor das prensas da estamparia e da usinagem.  As peças, às vezes, escapavam, e batia no rosto, nos braços. Tinha um problema sério de perda de membros, dos dedos, nas prensas.
Comecei a me aproximar do sindicato por conta da ação que faziam na Meridional por causa do alto índice de acidentes de trabalho. E depois quando a Meridional, acho que por questões administrativas, começou a atrasar os pagamento e não dar as férias. Teve uma ação forte e constante do sindicato. Foi montada uma comissão de trabalhadores pra discutir a situação da empresa, porque ela havia feito um comunicado de possível fechamento. Eu era uma daquelas 450 pessoas que iam ficar sem receber nenhum centavo. Porque a empresa fechou e pra gente tentar garantir que ela não tirasse as máquinas, a gente ficou lá acampando, fazendo rodízio por alguns meses até o fechamento em 1989. Foi a minha primeira participação organizada e eu me sindicalizei nessa época.
Depois desempregada, sem pagamento e sem nada, comecei a militância. Fui a um seminário de mulheres, organizado pela Oboré e pelo Centro de Memória Sindical. Já tinha ido a muitos seminários, de campanha salarial, de saúde ou pra tratar do problema da Meridional. Mas, nunca em um temático como esse sobre mulheres no movimento sindical. Gostei e foi ali que meu interesse se tornou maior. A gente assistiu ao filme “Norma Rae”, que conta a história deSally Field no filme Norma Rae de 1979. uma mulher que luta numa empresa americana. E aí, eu passei a ficar lá, enfiada dentro do sindicato participando das coisas.  A participação comunitária sempre foi uma coisa presente na minha vida, desde a comunidade jovens, centro comunitário e acho que isso me estimulou a não me sentir inibida em participar das coisas no Sindicato dos Metalúrgicos, já que ali a maioria era homem.
Foi quando a Mecano Fabril abriu vagas e muitos dos contratados tinham sido da Meridional. O que foi muito legal, porque você já entra numa empresa em que tem pelo menos 200 pessoas conhecidas e que já tinham uma ligação boa com o sindicato. Eu entrei dia 6 de junho de 1989, na mesma função que exercia na Meridional, inspetora de qualidade. Mas lá já era outro nível. Era uma empresa de autopeças com duas plantas e 1.600 funcionários. O meu setor era chamado DBC, a gente trabalhava com aquelas bombas pra carburador.  E lá também tinha o problema de muita insalubridade, até porque a empresa estava se adequando. Tinha muita gente e pouco treinamento. O pessoal se machucava, o cabelo das meninas enrolava nas furadeiras. Era um negócio. Então, ali também tinha uma ação muito forte do sindicato.
E, por conta das relações que eu já tinha com o sindicato, de participar de atividades de saúde, entrei pra CIPA (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes) nessa empresa, em setembro e fui eleita vice-presidente da CIPA.
Mas naquele mesmo ano, ia ter eleições para a diretoria do sindicato e eles me convidaram pra fazer parte da chapa. Eu não entendi muito bem o quê era o meu papel, mas eu falei que podia colaborar. O sindicato estava com uma base de mais de 50 mil trabalhadores e a Mecano Fabril era uma empresa nova, o sindicato viu a importância de se ter uma representação lá dentro. E aí, o fato de eu ter tido essa vitória. Pô! Eu tinha acabado de chegar na empresa, e ser logo escolhida pra ser vice-presidente na CIPA. Claro que o pessoal fez um trabalho. O delegado sindical, na época, o Gilberto, apelidado de Ratinho, ajudou muito. Ele foi meio que meu fiador. Ele já era um funcionário de 15 anos da empresa, enquanto eu tinha chegado há poucos meses.
Éramos um grupo de 16 cipeiros na Mecano Fabril, por conta do número de empregados. Naquele período, o presidente da CIPA era indicado pela empresa e eu era responsável pelo meu setor e, como vice-presidente, também estava numa esfera de representação do conjunto dos trabalhadores nas questões da CIPA. O nosso trabalho era identificar o quê a gente entendia como problemas inerentes à saúde e se eles estavam iminentes. Então, a gente começou a ser “uma pedra grande no sapato” da Mecano Fabril, porque o sindicato tinha feito um treinamento muito bom com a gente e nós já vínhamos de uma ação em uma empresa [na Meridional] que tinha muito problema. Foi fácil pra mim me familiarizar, inclusive, com equipamentos e máquinas que eu nunca tinha visto na minha vida. Além disso, eu tinha que desempenhar a minha função produtiva como em toda empresa. E isso na maioria das vezes, sempre tinha conflito. Ou com o chefe, ou com o gerente. A CIPA é um instrumento importante dos trabalhadores, mas as empresas vêem isso como um empecilho pra produtividade. E isso era um pouco a linha do meu patrão na época, o alemão, Walter Strobel. Ele era terrível, então teve muito conflito. Foi difícil, por exemplo, pro pessoal que veio da Meridional se adaptar a isso, porque você vinha de quase um ano inteiro de não sei quantas mobilizações, porque não pagava o salário, "nós parava", não pagava o salário, "nós parava". Até que parou de vez, até que ficou todo esse tempo acampado, então tinha uma união desses 200. Nem todo mundo conseguiu se adaptar ao esquema na Mecano Fabril. O salário era menor, inclusive, do que o que a gente ganhava na Meridional. Eu fiquei, no princípio, pela necessidade, eu tinha filho e responsabilidades.

TRAJETÓRIA SINDICAL

Como a Mecano Fabril era uma empresa grande, com 1.600 funcionários, foram convidadas duas pessoas para a chapa: eu e o Gilberto, o Ratinho. Era uma chapa gigante, com 75 pessoas – 71 homens e 4 mulheres. Uma desproporção terrível. Eu tinha estabilidade porque eu era da CIPA, mas o Gilberto, ainda que fosse um delegado sindical reconhecido, não tinha nenhum tipo de garantia e ele não era da CIPA. Então, a gente precisava ter todo um jogo de Trabalhadores da Mecano Fabril, 2012.cintura, especialmente com o tipo de patrão que nós tínhamos.
Mas aí o sindicato tinha marcado uma assembléia e eles estavam lá com o carro de som ligado. Deram a palavra pra mim e pro Gilberto para fazer a campanha. Era para gente dizer porque estávamos apoiando a chapa 1. E daí, foi a primeira vez que eu falei com um grupo tão grande de trabalhadores. Estava todo mundo no pátio pra ouvir. Pensei: "Meu Deus, e agora o quê que eu vou falar pra essa turma?" E falei o quanto eu achava importante o sindicato, porque ele teve um papel fundamental pra que a gente garantisse os direitos na Meridional. Eu só podia falar aquilo que eu conhecia. Então falei também dos 400 e tantos trabalhadores que estavam com processo e que ali tinha mais de 200. E minha turma que estava ali me deu força, me deu apoio.
Então a primeira vez que eu tive que falar publicamente foi para falar para o pessoal votar em mim. O sindicato ajudou, fez uns mosquitinhos. A empresa ficou muito brava. Eles acharam que eu tinha sido infiltrada. Porque ninguém entra numa empresa em junho e no final do ano já está dirigente sindical.
Quando entrei no sindicato, tinha vários departamentos. Tinha o departamento da mulher, departamento de saúde, departamento disso e daquilo. Então, eu participava em três de educação, de saúde e o da mulher. Éramos um grupo de quatro meninas, então tinha que cuidar dessa parte. A gente fazia planejamento do que ia fazer. Então, os seminários, os encontros eram da nossa responsabilidade. Por outro lado, o sindicato iniciou uma ação de formação conosco. A gente fez muitos cursos com a Oboré Comunicação. Fizemos oratória e outros. O Sindicato das Costureiras fazia uma ação formativa com a CLAT [Central Latinoamericana de Trabalhadores] e abriu umas vagas. A presidente das Costureiras, na época, a Eunice Cabral, falou com o Cláudio Magrão. E ele mandou todas as diretoras fazer o curso. Aí, fui me familiarizando também com outras ações fora do sindicato.
Então, eu ficava dentro da fábrica e quando achavam que eu tinha que fazer um tinha curso, ou atividade, eu era desligada da produção pra desenvolver essas ações. A maioria das atividades do sindicato era à noite ou eram nos finais de semana. Então, quase todo fim de semana eu estava envolvida com esse tipo de atividade. Acho que eu tive muita sorte porque eu tive um apoio grande da minha família. Eu já era mãe. Mas tinha uma família que me dava um suporte pra eu poder ficar tanto tempo fora. E eu fui ansiando muito por aquilo, me envolvi.

Eu tinha uma representação das questões internas da Mecano Fabril que eu levava pro sindicato, e tinha essas atividades no sindicato dos departamentosmanifestação Sind. Metalúrgicos Osasco. 1978. de educação, saúde e das mulheres.
Acho importante dizer que lá em Osasco, antes da discussão de central sindical, no nosso sindicato sempre teve uma peculiaridade de buscar uma articulação que contemplasse todo mundo. Então, tive a oportunidade de participar de alguns eventos que botou na mesa Medeiros [da Força Sindical] com Vicentinho [da CUT], ou com não sei quem. Quer dizer, todas as tendências ali sentadas porque discutiam uma coisa que estava olhando pros trabalhadores e não pras divergências ideológicas. Tanto é que essa a composição da diretoria do sindicato dos metalúrgicos de Osasco em 1990, apontou para um outro direcionamento. Teve um acordo – vamos dizer assim  – tinha uma chapa chamada Alternativa [oposição] que depois fez composição com o sindicato. E hoje, o Jorge que foi encabeçador dessa chapa, é o presidente do sindicato.
Eu tinha uma atuação forte na questão das mulheres, desde que eu cheguei ao sindicato, quando fui participar do Conselho Estadual da Condição Feminina. E para tudo quanto era lugar que tinha, por eu ter uma facilidade de sair da fábrica, o sindicato me indicava pra participar. Então, naquela época, as mulheres ligadas a alguns sindicatos também estavam se reunindo. E eu fazia parte desse grupo de mulheres, que também estava pensando e discutindo essas alternativas pra uma nova Central.
Eu não tenho curso superior, mas acho que meu processo de formação nessa vida foi tão rico que nenhuma faculdade me daria. No sindicato, saí do conselho consultivo, pra ir pra suplente da diretoria. De suplente da diretoria, fui pro conselho fiscal. De conselho fiscal, eu fui pra primeira secretária. E hoje, estou como secretária geral. Já é o meu quarto mandato. Quando eu tomei a primeira posse, foi uma semana antes de eu completar 22 anos. A gente tomou posse em março que é o mês do meu aniversário. Veio junto esse crescimento. E com a Central foi a mesma coisa. Eu estava dentro da fábrica, até que houve um momento, em final de 91, em que as minhas atividades sindicais eram tantas que eu fui desligada da produção e fiquei no sindicato por tempo indeterminado. Nunca mais voltei pra minha atividade produtiva de profissão. E aí, também, isso possibilitou obviamente um crescimento.

CENTRAL SINDICAL

1ª Direção da Força Sindical, eleita em março de 1991. Cláudio Magrão é o sétimo, à frente, da esquerda para direita.A Força Sindical foi fundada em março de 1991 e a gente [Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco] fazia parte da composição dessa construção. O Magrão, que na época, era o nosso presidente, foi o indicado como secretário de formação da Central. Nós não tínhamos cargo, participávamos do grupo de mulheres. Tinham outros diretores nossos, mas que estavam envolvidos em outras áreas como formação.
A minha militância na Central veio com essa direção, eu fui participando desses conselhos, e tendo um trabalho que conseguiu ter um reconhecimento. A gente conseguiu fazer algumas coisas muito legais. Fiquei sem nenhum cargo formal dentro da Central, ainda que a representasse em muitos lugares. Fui ter esse cargo de representação em 1997, por uma ação que eu me envolvi com a juventude. Eu fui eleita secretária nacional pras questões da juventude na Central e fiquei nesse cargo quase até 2000. E veio toda uma evolução, não só interna de participação na Central. O meu sindicato tem uma influência grande lá dentro da Força, tem quatro cargos, todos da executiva.
Na medida em que fui conquistando espaço no Sindicato, também fui conquistando espaço fora, na ação sindical, no movimento sindical. Então, eu comeceiGrupo de mulheres da Força Sindical, Rio de Janeiro, 1991. no conselho, no sindicato e na Força Sindical, eu fazia parte de uma coordenação de mulheres que estava ali atuando. A gente procurava participar de tudo que fosse possível da vida da Central. E não só em questões específicas das mulheres. Vivíamos mesmo a construção da Central, participando da elaboração de idéias, dos debates, de tudo aquilo que a gente entendia que também podia contribuir. Isso não se restringia a temas específicos. E é claro que na medida em que você vai tendo essa experiência, você vai agregando, vai crescendo.
E na Central, além desses debates que a gente estava participando, a Central vinha num franco crescimento de filiações, de expansão no território nacional e foi havendo um reconhecimento da Força Sindical.
Então, tinha ligações na Central com essas áreas, mulheres e juventude. E essas participações nos conselhos estaduais se consolidaram na Central com a ratificação da Central. E em alguns momentos, meu nome era indicado pra representar a Força em algumas coisas. Um dos trabalhos foi com a juventude, que foi ao longo de dez anos e me dediquei bastante a esse grupo. Então, essa ação fez parte da minha vida sindical por muito tempo, que era trabalhar com a formação dos novos quadros, buscar meios de atrair a juventude pro movimento sindical. E nesse trabalho, houve uma ação aliada com a CUT, com a CGT. Eu conheço muitas pessoas dessas centrais que eu posso chamar de companheiros de trabalho, porque trabalhamos juntos e tempos uma organização sindical internacional comum a CIOSL (Confederacion Internacional de Organizaciones Sindicales Libres) que uma ação muito concreta de investimento no mundo inteiro e, particularmente na América Latina, com a juventude.
Minha ação sindical internacional se deu através da representação da juventude. E fiz parte do comitê mundial da juventude, como grupo e depois como vice-presidente eleita. Neste comitê, é permitida a representação até que você complete os 35 anos.
Cláudio Magrão, Nair Goulart e Mônica, Conclat. 2012, Estádio do Pacaembu, SP.Com a oportunidade de fazer essa representação, minha participação extrapolou. Porque aí já não era só da Força, mas de toda a juventude brasileira. Foi uma experiência muito boa de ver como é que os outros países trabalham naquilo que a gente, no Brasil, é extremamente avançado e naquilo que o Brasil é extremamente atrasado, do ponto de vista da organização mesmo. Então eu participei de muitos eventos fora do país. O primeiro foi na Noruega. Foi uma coisa de louco. Porque esse nosso grupo ainda estava se articulando enquanto representação em nível mundial. E então, tinha esse encontro em Oslo com as representações nacionais das três centrais.
Eu nunca tinha saído do Brasil, nunca tinha ido pra lugar nenhum. No limite, o meu raio tinha sido Rio e Paraná. Meu inglês era péssimo, aquele do colégio. Mas fui. Fomos em quatro pessoas. Tinha lá toda uma estrutura pra te atender. Aas línguas oficiais na CIOSL são inglês, francês e espanhol. Então, tinha que me virar no espanhol. Mas o interessante nessa primeira viagem é que fui parada na alfândega. E eles têm uma língua própria que é uma coisa que você não consegue nem identificar, porque é consoante com consoante, não tem explicação. Mas é um povo muito caloroso. Nós tínhamos um apoio com a ORIT (Organizacion Regional Interamericana de Trabajadores), que é a nossa regional aqui, que também estava lá. É por isso que tem esse suporte em espanhol. Então, fui parada e eu fui tentar me explicar. Aí, eu consegui compreender que ele queria saber pra onde é que estava indo. Pensei: "Agora, danou-se, como vou explicar?"  Então, eu vi também um casal, com um filho, vietnamita, se dirigindo pra mesma portinha que eu. E pensei: "vou ser presa, Não vão me deixar entrar." Fiquei bastante apavorada. A gente tinha uma pasta e aí eu mostrei o convite. Eu estava com aqueles montes de papel e fui tirando tudo que eu achava que podia explicar a razão de eu estar ali. Acho que os papéis deram conta de dizer o quê que eu estava fazendo lá e ele foi gentil.
Já, no segundo congresso da CIOSL nós conseguimos consolidar o comitê mundial da juventude, conforme os outros comitês. Então, é um comitê mundial e depois ele se ramifica pela Europa, Ásia, África e América Latina. E aí eu fui escolhida pra vice-presidência do comitê mundial, para o continente latino americano, por um mandato.
Acho que foi de uma importância muito grande pra nós do Brasil, especialmente, nesse último governo. Porque o Brasil não tinha uma política de juventude, não tinha nem um ministério pra isso. Em todas as conferências mundiais que aconteceram pra tratar do assunto, o Brasil nunca tinha uma representação oficial, governamental que representasse as políticas brasileiras. E aí, a gente procurou se articular muito com a CUT, com a CGT, nesse trabalho. E implementamos o rodízio entre nós, que é uma prática em algumas instituições em que há que ter uma única representação.

FATO MARCANTE

Lembro-me de uma ação do meu sindicato em relação à empresa [Mecano Fabril] que eu trabalhava. Chamamos uma greve, no período do Plano Collor. Foi logo quando o Collor bloqueou as contas. Nós tínhamos uma pauta de reivindicação específica da fábrica, que conseguimos um êxito muito grande após 17 dias de greve. Mas, houve 56 demissões por justa causa. Eu e o Ratinho, o Gilberto, fomos botados pra fora da fábrica. E aí, houve um movimento para o nosso retorno. A empresa aceitou o meu retorno, mas não o do Gilberto.
Em um certo dia, logo que eu voltei pra fábrica, fui até à sala do engenheiro de segurança pra tratar do evento da SIPAT [Semana Interna de Prevenção de Acidentes do Trabalho]. Conversamos e quando voltava pro meu setor, o dono da empresa, me encontrou no corredor e então me perguntou o quê que eu estava fazendo fora do trabalho e porque que eu não estava trabalhando. Tentei explicar, mas ele não estava pra muita explicação e começou a me xingar. Eu fui andando e ele atrás de mim. Ele, extremamente nervoso, era um alemão bem altão e eu, baixinha.  Ele foi me xingando de "Baderneira", disse que eu tinha feito tudo aquilo de propósito, perguntava quanto que eu queria pra ficar fora da fábrica. Daí, eu falei: "Eu não quero nada. E pare de gritar, porque você não é meu pai. Não grita comigo." Eu fui pedindo e voltando pro meu setor e ele indo atrás. O pessoal, todo mundo começou a parar porque ele ficou tão descontrolado que deu a impressão que ia me pegar pelos colarinhos. Ele pegou o meu chefe e disse: "Não deixa ela sair do setor". Eu já estava chegando ao meu posto, virei pra ele e falei: "Olha, eu sou diretora do sindicato, sou vice-presidente da CIPA, o senhor querendo ou não querendo. Eu sou de direito. Tenho que executar o meu trabalho, nunca deixei de fazer o meu trabalho, então não admito que o senhor grite comigo e nem venha falar assim comigo. Portanto, estou voltando pro meu setor, vou sentar na minha cadeira e daqui você não me tira." Ele falou: "Eu vou tirar você". Falei: "Não, você não vai. A não ser que você me pegue pelo braço." Nessa  altura, a fábrica estava toda parada vendo a discussão. Aquilo foi terrível. Mas eu acho que eu agüentei bem. Fiquei muito nervosa, mas esse momento me marcou porque os trabalhadores foram solidários comigo. Consegui ter os trabalhadores do meu lado, mesmo depois de sair de uma greve que resultou em 56 demissões por justa causa.

Mônica no 1° de Maio da Força Sindical, 1998, SP.

ASSESSORIA

A gente fazia muitas atividades e quem cobria parte das informações nos seminários era o DIEESE. Especialmente, nas campanhas salariais com o Alex que já foi técnico. O DIEESE fazia toda a argumentação econômica que era apresentada não só nas negociações, mas nos seminários e a gente ia e explicava para os trabalhadores como eram aquelas composições.
Nesse período de alta inflação, teve um momento marcante que foi quando a gente conseguiu 113% de reposição. Tudo bem, que no mês seguinte, aqueles 113% já representava menos que 70%, mas conseguir uma reposição de mais de 100% e anunciar numa assembléia com mais de 15 mil trabalhadores dentro do nosso clube – foi marcante!. Temos uma foto de cima da caixa d’água que mostra aquele mar de gente.
O DIEESE, nesse período, tinha um papel diário na vida dos sindicatos. Nós tínhamos uma subseção do DIEESE no nosso sindicato. Então havia uma familiaridade muito grande com o DIEESE. Por onde a gente ia tinham pessoas do DIEESE e eram muitas, o Prado, o Alex, o próprio Barelli.

EDUCAÇÃO/PCDA

Acho que um dos programas de maior importância foi o PCDA [Programa de Capacitação de Dirigentes e Assessores] pela qualidade, pelo tempo, pelo método e pelo desafio de colocar diferentes correntes num programa de formação. Você podia chegar ali “armado até os dentes”, mas você sai dali com a clareza de ter agregado, do ponto de vista da sua ação sindical, daquilo que você vai desenvolver no seu sindicato.
Foi uma formação com mais de mil e tantos dirigentes e assessores sindicais, multiplicadores. No meu sindicato 99% fez o PCDA. E quando a gente estava fazendo a campanha de associação ao DIEESE, na maioria das entidades e estados em que fui, o pessoal colocava a questão do PCDA como uma coisa importante que o DIEESE desenvolveu, tudo bem que foi em parceria, na época, com o Ministério do Trabalho, mas foi o DIEESE desenvolveu.
Com isso o DIEESE possibilitou um processo de formação pesado, que permitiu dar um salto de qualidade no trabalho, na intervenção sindical. Não só na sua atividade local, mas naquilo que as pessoas faziam pra conjuntura nacional também. Houve a participação de homens, mulheres, rural, urbano, todo mundo discutindo. Eu tive a possibilidade de conhecer a ação rural. E a rural, conhecer a ação urbana. Houve a troca de experiências. E isso é de uma riqueza que o programa não devia ter parado. Não foi por questão do DIEESE, a gente sabe disso. Mas, é um programa que devia consolidar-se e existir e o DIEESE devia fazer parte disso.

FUTURO DO DIEESE

Eu olho pro DIEESE da mesma forma que eu tento olhar e vislumbrar o movimento sindical brasileiro. Ou seja, o próprio movimento sindical brasileiro tem que sofrer mudanças muito grandes. E eu defendo essas mudanças. Eu defendo que é necessário um movimento que se fortaleça pela sua representatividade. Eu acredito na representatividade. E ela se dá por um caminho, pelo trabalho. As pessoas te reconhecem, te vêem como uma liderança ou como uma referência na medida em que olha pro trabalho e fala: "Não, isso aqui está comum às minhas  idéias, isso aqui me atende…"
Então o movimento sindical vai passar por essas mudanças, querendo ou não. E acho que, no caso do DIEESE, é isso, é manter essa habilidade de passar por esse processo de mutação que vai haver com o movimento, sem sofrer alteração na sua identidade. Acho que ele tem que crescer, tem que buscar também fazer parte dessa representatividade, sem mudança ali.
No caso do DIEESE, não pode haver a mudança da essência. No movimento sindical, não. No movimento sindical, acho que está precisando mudar um pouquinho, inclusive a essência. Está precisando um ar novo que possibilite pros trabalhadores realmente se identificar com essa organização.

AVALIAÇÃO/TRAJETÓRIA DE VIDA

Projeto Eremim, dirigido por Mônica Veloso.

Uma vez, no PCDA, a gente fez uma atividade e você tinha que pegar alguma coisa que simbolizasse a importância do seu trabalho, da atividade sindical. E, pra mim, as lições são o quê eu disse naquele dia: “A atividade sindical lida muito com a necessidade das pessoas, no meu entendimento, você está falando do direito da pessoa todo o tempo. Então você está lidando com pessoas. E o que você faz, influi na vida das pessoas. E exatamente pelo fato dessa atividade dar essa oportunidade de, realmente, mudar a vida das pessoas, é que traz essa importância pra mim.”
Então se não fosse um instrumento pra ajudar, eu acho que eu não estaria. Nas nossas lutas, nem sempre a gente consegue tudo. Mas, quando você consegue, é indescritível o que você sente. Se um dia você fala: "Pô, eu participei disso aqui. Eu estava ali também. Eu ajudei, eu construí." Então, não fui uma mera espectadora, fiz alguma coisa. Acho que o sindicato permite isso. Como outros espaços também. E hoje, também trabalho com organização não-governamental e trabalho comunitário, que é outra coisa que eu adoro. Então, eu acumulo essas duas coisas.
Do ponto de vista pessoal, o meu maior sonho é, agora, o meu bebê. Esse é, no momento, meu projeto principal. Adiei bastante. Agora chegou o momento da maturidade do meu trabalho e da capacidade de eu conseguir fazer tudo e, ao mesmo tempo, ter tempo pra mim de tomar a decisão de ter um outro filho. Então, esse meu projeto está sendo meu bebê, Gabriel, que vai chegar [daqui 3 meses]. Do ponto de vista profissional, tenho que ligar muito com o político, porque eu não consigo mais me desvincular, depois de tantos anos. Eu quero só continuar o que eu já faço. E hoje, desenvolvo uma ação comunitária. E é isso do ponto de vista profissional e político que eu estou dedicada. Um trabalho com uma área livre lá no Jardim Rochdale, do qual o nosso sindicato é mantenedor. Então, há as ações que se articulam com o sindicato, ONG e o poder público. Depois de tantos anos, o sindicato está tendo a possibilidade de transformar algumas coisas que eram de ação privada, numa ação pública. E meu sonho é consolidar esse trabalho, de conseguir fazer dessa ação com as famílias, uma ação de transformação, de desenvolvimento humano. Eu vivo um sonho de cada vez.

AVALIAÇÃO/DIEESE

Eu fiz vários cursos e o meu sindicato tinha representação na direção do DIEESE. O Dinacir [Dinacir Francisco de Oliveira]. Ele foi diretor aqui. Fez parte da direção e passou à executiva. Foi a primeira vez que o meu sindicato foi pra executiva do DIEESE. Só que o Dinacir se aposentou. Coincidiu com a eleição do sindicato e aposentadoria do Dinacir e ele resolveu também “aposentar a chuteira”. Então, ele saiu do sindicato, do movimento sindical. E aí, precisavam indicar uma outra pessoa do nosso sindicato e me indicaram eu já tinha participado muito das atividades, conhecia muita gente do próprio DIEESE.
Na época, eu já tinha uma grande convivência aqui, conhecia o Serginho [diretor técnico Sérgio Mendonça] e também a Solange, a Suzana, o Nilson e algumas pessoas da direção executiva. Conhecia a maior parte dos sindicatos que são filiados a nós [Força Sindical] e faziam parte dessa composição [do DIEESE] e também tinha uma parte do pessoal  que era da CUT. Então eu era uma pessoa que tinha condições, pois conhecia o trabalho e uma boa parte das pessoas, além de ter uma facilidade pra poder vir e fazer a representação.
Mas havia um acordo entre os sindicatos, que para se assumir a presidência, era necessário que a pessoa passasse pelo menos um período de mandato na executiva. Isso coincidiu com a saída do Dinacir e a nossa, vinda pra executiva no ano anterior. Dessa forma eu pude assumir a representação. Tinha coincidido também em nível da nossa Central que, Guarulhos [Sindicato dos Metalúrgicos de Guarulhos] já tinha sido da presidência por duas vezes, e São Paulo também, algumas vezes. Osasco nunca tinha sido da presidência do DIEESE, nem da executiva, a não ser naquele exato momento. 
Houve a indicação da minha diretoria, do sindicato dos metalúrgicos de Osasco que, em havendo pleito no DIEESE, Osasco gostaria de poder indicar a representação. E foi um consenso na nossa Central. Aí, chegou no final do ano, com a mudança da recomposição, no caso, a presidência e a indicação de que eu assumisse a presidência. Mas num primeiro momento, a minha indicação não foi aceita pelo conjunto da direção.
Naquele momento, o grupo ligado à CUT não aceitou a minha indicação. Não pela minha pessoa ou por achar que eu não tinha competência. Muito pelo contrário, ali tinham muitos amigos meus, inclusive de PCDA [Programa de Capacitação a Dirigentes e Assessores]. Eu os respeito muito e sei que o respeito é recíproco. O problema era o acordo antigo que dizia que qualquer pessoa indicada teria que ter ficado pelo menos um ano na direção pra depois ter condições de ser presidente.
Embora o meu sindicato tivesse participação na direção há muitos e muitos anos e ter assumido no ano anterior um cargo executivo, eles não acharam isso válido, por exemplo, se tivesse sido indicado o Dinacir não haveria problema. Mas, consideravam diferente o fato de eu estar assumindo no lugar dele. Ficou uma coisa um pouco fechada naquele acordo anterior. Quer dizer, o cargo era da Força, era do sindicato, mas não podia ser eu. Então, o DIEESE ficou sem presidência por alguns meses. O Paulo Paixão que é um excelente amigo, acho que um dos melhores presidentes que o DIEESE já teve, com todo o respeito a todos os meus colegas, inclusive eu, ficou um tempo como vice-presidente e ia acumulando a presidência porque o cargo ficou vago. E nós batemos o pé, falamos: "Então, vai ficar sem presidente. Não tem outra indicação. A indicação é a Mônica, mesmo. E não vai mudar isso." E, ficou um tempo sem presidente e foi se conversando até chegar em um denominador comum. E o pessoal acabou aceitando a minha indicação.
Já haviam se passado quase seis meses, quando eu assumi a presidência do DIEESE. E pois De qualquer forma, assumimos e houve também uma alteração no período de mandato que deixou de ser de um ano pra ser de dois. Então, eu pude ficar no DIEESE por mais um ano.
Foi um período maravilhoso pra mim, não só do ponto de vista político, mas também do ponto de vista pessoal, porque a equipe de trabalho aqui é muito boa. É difícil encontrar uma equipe com essa equivalência profissional e também de entendimento. Porque aqui tem uma peculiaridade, da gente conseguir deixar as divergências e as diferenças políticas e ideológicas não interferirem no próprio DIEESE, seja no processo administrativo, de gestão e nem político. Tratamos a coisa como ela deveria ser tratada, revimos o acordo para atualizá-lo.
Eu fiquei por um ano e seis meses e quando você aqui, você é DIEESE. Não é CUT, não é a Força, não é CGT, não é SDS (Social Democracia Sindical). São dirigentes dos sindicatos que têm todo um apreço e, um respeito pela entidade.
E eu também, peguei um período do DIEESE de uma discussão bastante profunda  sobre a busca do fortalecimento associativo. O DIEESE já teve mais de mil associados. Quando eu cheguei aqui era um pouco mais de 400, então havia dificuldades internas pra enfrentar. Ao mesmo tempo, tinha que dar conta de toda a demanda da própria sociedade que hoje olha pro DIEESE como instrumento importante de informação. E, sobretudo demanda do próprio movimento sindical que deposita uma expectativa de formação e de suporte técnico.
Do tempo em que o DIEESE foi criado, há 50 anos atrás, se for olhar a trajetória do movimento sindical, houve um crescimento em todos os aspectos. Nos bons e nos ruins porque também há uns “trocentos” sindicatos, quer dizer, estamos falando em mais de 19 mil sindicatos no Brasil. E só de Central tem mais de 5. E em vez de também haver o fortalecimento do DIEESE, foi o contrário. Houve um período em que em vez de aumentar o número de sócios, diminuiu.
É claro o movimento sindical teve seus períodos de altos e baixos com essa questão do desemprego. Tudo fez com que as receitas caíssem e quando isso acontece, infelizmente, o DIEESE, ainda que cumpra essa missão de atender a demanda do movimento sindical, às vezes deixa de ser a prioridade em muitos casos. Então o nosso trabalho foi tentar resgatar a importância do DIEESE.  Foi também uma experiência rica, poder presidir uma entidade com uma característica de ser nacional e com peculiaridades, em função dos escritórios regionais que eu também tive a oportunidade e visitei.
E conviver com a diferença é a principal lição. Claro que eu tive outras oportunidades de convivência, mas não numa envergadura como essa. É um exercício de extremo crescimento pra gente. Como sou uma pessoa de um temperamento bastante forte, então isso foi um aprendizado pra mim. De eu conseguir, rever inclusive coisas minhas, por ter essa convivência.
Não ter sido aceita, depois ser aceita para a direção e ter uma convivência boa. Viver o que era ruim, o que era bom e tudo de uma forma com qualidade, com nível.  E a gente não se identifica de outra forma que não seja por aqui.
A gente, do sindicato, também tem um rodízio pra… Então, outro companheiro está vindo aqui porque também tem que ter a oportunidade de ter essa experiência de convivência. Assim como vai ser lá na Central [Força Sindical] e como vai ser nas outras coisas. Eu acho que o crescimento da gente é exatamente isso. Você fez, participou, agora você vai pra outra etapa e assim vai…
E aqui, no DIEESE, eu só fiz amigos. Quando eu terminei o mandato aqui, posso até não ter começado bem, mas eu terminei de uma forma que as pessoas reconhecem que você ajudou. Saí com o carinho, não só da direção, mas dos próprios funcionários, dos colaboradores, da equipe. Toda a vez que eu venho aqui, sou muito bem recebida. Então, pra mim, é isso que motiva. Faz você continuar.

AVALIAÇÃO/PROJETO MEMÓRIA

Acho que deixar essa experiência da gente para que outras pessoas possam ver isso de alguma forma é importante. Acho que o DIEESE é uma organização que, pelo que fez e pelo que faz e como se constituiu é merecedora de um trabalho e de um investimento de juntar as memórias.
Eu gosto de história, mas, não tem muito lugar aonde você vá e consegue ver ela num conjunto. Piorou no que diz respeito ao movimento sindical. Às vezes, podemos ver em uma tendência aqui, outra lá. Mas, não é algo que mostre o que esse trabalho vai possibilitar
Mostrar uma ação que é uma vida. 50 anos é uma vida inteira de uma pessoa. E essa é uma vida de uma instituição de várias pessoas e cada figura extraordinária que passou por aqui. Tem o Tenorinho, o Paixão, a Ofélia, o Bartô, Porque o Bartolomeu, eu acho que é parte do patrimônio. É uma pessoa muito especial que gosta muito daqui. E tantos outros.  É o resgate vivo que tomara depois a gente possa se beneficiar da boa leitura, do ver, de poder lembrar.

Entrevistada por Nádia Lopes e Marcelo Fonseca, São Paulo, 13/09/06
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O Centro de Memória Sindical reproduzirá semanalmente, depoimentos de sindicalistas e militantes feitos na ocasião do 50º aniversário do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), em 2006.
Fonte: Todos os depoimentos foram gravados no ano de 2006 e estão hospedados no site http://memoria.dieese.org.br/museu

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