Advogado do Diabo, The Devil´s Advocate

por Memória Sindical. 03 maio 2012 . 11:56

1997, EUA Taylor Hackford Com Al Pacino, Keanu Reeves, Charlize Theron.

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O medo, além de garantir a sobrevivência, tornou-se um fetiche interessante à indústria cultural. Filmes de terror vendem muito porque provocam emoções fortes, descargas de adrenalina, além de nos colocar a refletir sobre a vida. Mesmo que, injustamente, muitas vezes o terror seja visto como um gênero rebaixado, exagerado, muitas vezes até ridículo (salvo mestres como Hitchcock, Kubrick e Alan Parker) estes filmes levantam questões interessantes acerca do comportamento e das relações humanas.

O Advogado do Diabo, por exemplo, utiliza-se do terror, e da forte simbologia do demônio, para demonstrar, de forma estereotipada, a corrupção jurídica e a manutenção de grandes negócios ilícitos. A trajetória do vaidoso Kevin Lomax (Reeves), um jovem e bem sucedido advogado do interior da Flórida, é o fio da meada para a história. Aos 30 anos ele já conhece a consagração profissional. Nunca perdeu um caso. Também nunca se importa com a veracidade das provas. Lomax tem o poder da eloqüência e sabe seduzir o júri.

Sua obstinação atrai a atenção de John Milton (Al Pacino), dono de uma poderosa empresa em Nova York. Lomax é convidado para trabalhar com Milton no departamento jurídico criminal, com um alto salário e muitos benefícios.

“Você trabalha sob pressão?” pergunta o chefão a seu novo funcionário logo na primeira entrevista. A pergunta prenuncia um desgaste pessoal maior do que o jovem poderia imaginar. Mas o brilho do poder o cega. Rapidamente ele ascende profissionalmente, torna-se o advogado número um da empresa e passa a ter uma vida marcada pelo glamour e pela luxúria. Lomax torna-se uma pessoa cada vez mais fria, ambiciosa e inacessível, até mesmo para a esposa, Mary Ann (Theron), que deixa de trabalhar e passa a viver só para manter o padrão ostensivo do casal. Logo ele descobre que está defendendo a pior escória da humanidade e que seu chefe é mais diabólico do que parece.

Um grande caso de assassinato, aparentemente sem solução, é passado para suas mãos, deixando-o ainda mais sem tempo para cuidar de sua vida íntima. Demônios e seres sobrenaturais passam a atormentar Mary Ann. Kevin, completamente embriagado pelo próprio sucesso, se fecha para estes conflitos. Tudo para ele vira um jogo no qual ele tem que sempre ganhar.

No confronto final, Milton faz discursa chamando a atenção para o fato de que ele havia aconselhado Lomax a cuidar melhor de sua esposa. Atordoado, o jovem advogado resiste às provocações de seu mentor.

O filme mescla contemporaneidade com obscurantismo medieval, mostrando o bem e o mal como conceitos absolutos que perpassam toda a história. Na modernidade o mal se dissipa pelas imponentes edificações e pelas relações sociais. Sob este ponto de vista revelam-se estratégias de manipular estruturas econômicas, políticas e jurídicas, atraindo homens a esquemas ilícitos, muitas vezes tão sofisticados que driblam a lei para se regulamentar. É um vale-tudo pelo poder.

Contra a filosofia obscurantista, há que se ponderar que o pensamento é formado culturalmente e sedimentado historicamente. A despeito da causalidade do mundo natural, no qual não existe propriamente antagonismos de ordem ética e moral, desde que o Homem da Pedra Lascada começou a usar instrumentos rudimentares para a resguardar aquilo que ele e os seus precisariam para sobreviver, ele desenvolveu noções de maldade e bondade.

Tal concepção se consolidou de tal forma que quase não admite questionamento. O bem o e mal aparecem como noções tão naturais e irreversíveis quanto a lei da gravidade. Caindo em uma imensa confusão de interpretação, os simbolismos religiosos se impuseram como verdades que o homem vem arrastando consigo desde que inventou a religião.

Portanto é ridículo, fantasioso e exagerado dizer que a criminalidade, seja em que nível for, é coisa do diabo. Mas nós temos a licença poética de assistir e interpretar um filme. Isso posto de maneira racional, não é exagerado falar da corrupção do caráter como um fato concreto, presente em relações sociais, comum em relações de trabalho, que impedem um desenvolvimento normal e transparente dos processos.

O debate filosófico sobre o bem e o mal, e, sobretudo, sobre seus efeitos, é complexo e ensejou extensas obras teóricas e artísticas. Na prática do dia a dia os valores morais, a lisura, e a boa índole são opções íntimas de cada um, postas em cheque a todo momento em nossa vivência social.

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