Debate de preparação para Conclat, julho de 1981

11 maio 2021 . 15:15

Reunião de preparação da Conclat com Lula, Hugo Perez, Arnaldo Gonçalves, Olívio Dutra. A foto não se refere ao debate transcrito, mas sim a outro momento de preparação da Conclat. Foto: Arquivo Hugo Perez

Há 40 anos, a Conferência da Classe Trabalhadora, Conclat, marcou um renascimento do movimento sindical pós AI-5.

Como base para o debate apresentaremos entre maio e agosto de 2021 materiais sobre o a história do evento, como artigos, fotos, uma linha do tempo e a presente transcrição dos áudios arquivados no Centro de Memória Sindical de um debate preparatório da Conclat realizado um mês antes da Conferência, em 7 de julho de 1981, com Hugo Peres, Devanir Ribeiro, Arnaldo Gonçalves e Carlos de Angelis.

Após uma sequência de greves iniciada em 1978 no ABC paulista, que se repetiram em 19789 e 1980, naquele julho de 1981 o movimento sindical buscava desenvolver e encaminhar as questões sobre estrutura, representatividade, organização e luta política, que vinham crescendo desde o golpe de 1964 e que explodiram no processo grevista. Embora a ditadura militar já estivesse em seus últimos anos, a repressão ainda pesava sobre as organizações sindicais.

 “Pela organização de uma central”

No debate, Arnaldo Gonçalves, que era presidente do Sindicato dos Metalúrgicos da Baixada Santista (hoje ele é diretor do Sindicato Nacional dos Aposentados), destacou que, os sindicalistas estavam organizando um “instante de definição do movimento sindical brasileiro”. Ele falou também que só com um regime democrático os trabalhadores teriam, naquele momento, a oportunidade de se organizar dentro da empresa, ou nos escritórios mesmo, em todo local de trabalho, e fortalecendo o movimento sindical. E levantou que os trabalhadores deveriam se organizar primeiro “dentro da empresa, dentro do seu local de trabalho” e, além disso, fortalecer a organização de uma central que possa conduzir os destinos de todos os trabalhadores.

“CONCLAT servirá para unir o homem do campo e da cidade”

Para Devanir Ribeiro, do Sindicato dos Metalúrgicos SBC, a CONCLAT serviria “para unir o homem do campo e da cidade. O intelectual, ou o dito profissional liberal”. Para ele a Conferência deveria ser estabelecer algumas bandeiras e definições teóricas, aproveitando a participação da intelectualidade no encontro de agosto de 1981.

Ele pontuou que fez uma análise de reivindicações de trabalhadores entre 1906 e 1981 e que “as reivindicações não mudam muito, são as quase mesmas. Elas mudam em alguns pontos, mas o essencial, não. Nós brigávamos por delegados sindicais, nós brigávamos por garantia no emprego, e por uma série de coisas que estamos brigando até hoje, e não conquistamos”.

 “A CONCLAT não acontece porque tem democracia, mas para forçar a democracia que todos nós queremos”

Já o então presidente da Federação dos Urbanitários, Hugo Perez, afirmou que a CONCLAT nasceu como uma reação à reunião da classe empresarial em 1977. Na ocasião ele explicou que, naquele ano de 1977 um encontro intersindical era absolutamente proibido, mas os empresários realizaram a sua primeira CONCLAP, que era a Conferência Nacional da Classe Produtora. Isso provocou a ideia também de que os trabalhadores poderiam realizar a sua CONCLAT, Congresso Nacional da Classe Trabalhadora. Ele lembrou que os trabalhadores estavam em plena luta pela reposição salarial devido à denúncia de manipulação dos índices de inflação de 1973 feitas pelo Dieese em 1977. “Então, os sindicatos, principalmente os Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, começou a luta pela reposição salarial. Bem, ali naquele momento exato surgiu a ideia da realização da CONCLAT, que logo em seguida foi reprimida pelo Ministério do Trabalho”, disse ele.

Ele explicou ainda que:

“Nós ganhamos um espaço que nos permitiu voltar a falar na CONCLAT, que culminou no histórico racha na realização do Congresso Nacional dos Trabalhadores na Indústria, da CNTI, no Rio de Janeiro, em 1979. Ali o movimento pela realização da CONCLAT ressurgiu com toda força, em reuniões intersindicais, em São Paulo. Chegou a ser formada uma comissão de avaliação sobre as possibilidades de realizar a CONCLAT. Por proposta nossa, em fevereiro de 1980, pedimos um adiamento. Ali já sentimos que a coisa era grande. E tinha que ser mais ampla e democrática possível. Não ia ser fácil a sua realização. Então, foi adiada para 1981. Esse ano nós estamos em pleno andamento na organização da CONCLAT. Bem, a CONCLAT, na verdade, está acontecendo”.

Hugo defendeu naquele debate que a CONCLAT não aconteceria “porque tem democracia”, mas sim para “forçar ainda mais a abertura democrática, para forçar a democracia que todos nós queremos”. Isso porque, segundo ele, “todos os setores da sociedade – os intelectuais, os estudantes, a igreja através de seus movimentos como a teologia da libertação, tem falado para o mundo todo, em especial para nós, que nos interessa, o que ela pensa desse regime. Então estão todos esses setores, já têm falado, chegou a hora dos trabalhadores falarem. Bom, dirão os companheiros, os trabalhadores têm falado, mas eu acredito que de forma organizada eles ainda não falaram”.

Leia aqui a transcrição na íntegra:

Debate: CONCLAT e Democracia – 07/07/1981

Hugo Peres, Devanir Ribeiro, Arnaldo Rodrigues, Carlos de Angelis

Transcrição original: Maria José Quadre

Transcrição: Luciana Cristina Ruy

(EN) Companheiros, na condição de presidente do sindicato, esse encontro, eu declaro iniciado esse debate CONCLAT e Democracia, foi transferido do dia 23, por coincidência ou porque é a norma nesse país, os debates acabam sendo marcados para dias críticos no movimento sindical, no dia 23 ele não pode ser realizado, porque foi o dia da intervenção no Sindicato dos Médicos no Rio de Janeiro.

Hoje ele impede que nós tenhamos aqui a presença do Luís Inácio da Silva, o Lula, que está nesse momento presidindo uma assembleia dos trabalhadores da Ford, em greve por causa da dispensa de quatrocentos empregados (Aplausos). Também o companheiro Dante Pelacani, um veterano líder sindical, está doente, internado, sofrendo uma operação. Essas duas ausências serão supridas por outros companheiros que tiveram a gentileza de vir aqui debater conosco, os expositores dessa noite, que eu convido para fazerem parte dessa mesa.

São o companheiro Hugo Peres, presidente da Federação dos Trabalhadores das Indústrias Urbanas do Estado de São Paulo, e membro da comissão nacional da CONCLAT (Aplausos), o companheiro Arnaldo Gonçalves, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Santos e também membro da comissão nacional da CONCLAT, o companheiro Devanir Ribeiro, secretário cassado do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, representando Luís Inácio da Silva (Aplausos), e o companheiro Carlos de Angeli, representante de 1970 a 1980 da Federação Sindical Mundial, junto às Nações Unidas e à OLP, em Genebra (Aplausos). De comum acordo com os expositores, está acertado que cada um deles fará uma breve colocação. A ideia é que eles não se alonguem, façam apenas a sua exposição básica, para que nós abramos os debates. Esta reunião é promovida por um conjunto de sindicatos e associações de bases, de classes, que eu rapidamente recordo aqui: os Sindicatos dos Arquitetos, dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões, dos Engenheiros, dos Economistas, dos Geólogos, dos Médicos, dos Jornalistas, dos Psicólogos e as Associações dos Assistentes Sociais, Engenheiros Agrimensores, Engenheiros Agrônomos, Médicos Sanitaristas, Enfermeiros, Sociólogos e Coordenação Nacional dos Geólogos. Eu passo a palavra ao primeiro expositor Arnaldo Gonçalves (Pausa).

(AG) Boa noite. Em falar sobre a questão da CONCLAT tem que se tentar levar para todos os trabalhadores a importância dessa realização. O que é a CONCLAT? A CONCLAT nos parece para nós que estamos tentando organizar, que é um instante de definição do movimento sindical brasileiro, em que todas as correntes terão oportunidade de traçar uma linha de ação comum, dentro dos objetivos, que sejam os mesmos para todos, de fortalecimento da classe trabalhadora, e de uma tomada de posição, frente a esta crise, frente o desemprego, frente à exploração que vem sofrendo todos esse anos. Ao discutirmos e o tema dessa discussão hoje é CONCLAT e Democracia, nós entendemos exatamente que ela poderá vir a ser um passo à frente na conquista de um regime democrático para o trabalhador. No nosso entender a democracia é essencial. Só com um regime democrático é que realmente nós teremos possibilidade de nos organizar firme, fortalecer o movimento sindical. Todo o regime discricionário, autoritário, as primeiras vítimas são os trabalhadores. Isso aí nós vimos claramente em 1964, quando foi feito o golpe militar, e foi em cima do avanço da classe trabalhadora. Quando os trabalhadores se organizaram e começaram a exigir em ter uma participação maior, tomar uma posição mais firme, é que foi feito o movimento de 1964. Foi para reprimir o avanço da classe trabalhadora. Então, nós entendemos que é importante a participação de todos. Todos os trabalhadores, todas as correntes, todos aqueles que realmente querem um país justo, sério, dirigido, voltado para os interesses do povo brasileiro. Hoje o que nós assistimos, o que nós vemos é que não existe pessoas sérias dirigindo o país.

A piada do espanhol de alguns anos atrás, quando veio ao Brasil, ele disse “hay gobierno, yo soy contra”. Hoje ele diz “hay gobierno, é, não parece”. Realmente não parece que há governo, existe só um descalabro total, e sempre quem está prejudicado, quem paga por essa desorganização, por esse desgoverno sempre foi a classe trabalhadora. Mesmo no chamado milagre econômico, nessa época, o trabalhador não recebeu nada, não teve vantagem nenhuma. Pelo contrário, foi explorado, foi massacrado.

Foi na época que o Delfim manipulou os índices, e isso em qualquer país do mundo um ministro que fizesse o que ele fez, mudança dos índices roubando a classe trabalhadora, ele estaria na cadeia. E aqui, não, é nomeado ministro novamente. Quer dizer, o que nós assistimos é total descaramento, uma total falta de pudor, uma total falta de sinceridade, uma total falta de caráter dos dirigentes. Nós não podemos acreditar, não pode ser levada a sério. Essa gente aí não é séria. Então, o que tem a classe trabalhadora? O que que tem que fazer frente o que acontece hoje? Tem que ter uma posição firme, clara, defender os seus pontos de vista, exigir uma participação maios. Nós não podemos mais nos dividir em questões secundárias. Nós não podemos mais lutar isoladamente, como tem acontecido até agora, cada categoria dentro da sua data-base, cada categoria na sua região, isso realmente nos enfraquece.

Eu acho que a CONCLAT será um instante, e esse é desejo nosso. Será um instante em que os trabalhadores, a classe trabalhadora definirá o seu rumo e tomará uma posição concreta de ação. Eu não vejo a CONCLAT como mais um documento que será feito pelo movimento sindical. Nós temos feito muitos documentos, os melhores documentos, acho que existem no mundo. As reivindicações mais sentidas pelos trabalhadores já foram colocadas no papel, e de concreto nunca se conseguiu muita pouca coisa. Eu acho que é o instante dos trabalhadores decidirem o que querem, e como vão conquistar. Porque eu não acredito, e todos vocês vão concordar comigo, que nós, não basta reivindicarmos a ninguém, pedir para a classe trabalhadora. Ou então nós conquistamos com luta, eu vejo a CONCLAT dessa maneira, tentando e organizando o movimento dos trabalhadores de uma forma bem clara, em posição e proposta claras, que todos possam entender, e, no entanto, junto com os demais setores da sociedade para que se conquiste realmente uma democracia no país. Que a democracia interessa fundamentalmente aos trabalhadores. Poderá existir com essa pretensa abertura, com essa proposta de abertura que o governo faz, poderá existir democracia. Ou uma aparente para alguns setores da sociedade. Isso já houve no passado. Mas, a classe trabalhadora, com o objetivo de manter-se sob uma legislação arbitrária, uma legislação fascista, autoritária, eu acho que a maior luta nossa é, junto com os demais setores da sociedade, conquistarmos realmente uma democracia no país.

Só com um regime democrático é que os trabalhadores terão a oportunidade de se organizar dentro da empresa, ou nos escritórios mesmo, em todo local de trabalho, e fortalecendo o movimento sindical. Que o movimento sindical hoje no Brasil é muito débil em razão de toda a repressão que existe. Isso nós temos que reconhecer, que é muito fraco. Não existe, existe muito pouco a organização de base, e não existe uma central que possa calçar todo o movimento dos trabalhadores, seja ele urbano, ou rural. Não existe outro caminho.

Então, são dois pontos que nós temos que discutir, e acho que o caminho do trabalhador brasileiro, a luta dele tem que ser nesse regime. Primeiro dentro da empresa, dentro do seu local de trabalho, e o fortalecimento e a organização de uma central que possa conduzir os destinos de todos os trabalhadores. Esses dois caminhos, junto com os demais setores da sociedade, numa luta pela democracia. Eu acredito que aí sim, nós superaremos e faremos um país só de brasileiros. Um país com uma sociedade mais justa, uma sociedade que atenda, deixe de ter marginalizados como existe hoje. Uma sociedade que não tenha uma cidade como São Paulo, com mais de quinhentos mil menores abandonados. Uma sociedade em que exista o salário mínimo, e que o trabalhador que ganha o seu salário, o menor salário do mundo, tenha uma vida decente. Uma sociedade que nós possamos eliminar as condições sub-humanas de mais de trinta milhões de brasileiros. Esta nossa proposta, dentro desta visão que nós estamos programando a CONCLAT.

Sabemos que ela não vai resolver o problema brasileiro. Ela não é para resolver, não tem a solução pronta, mas é um programa de luta. E um programa que poderá sair daí uma linha de ação de que todos nós prejudicados poderemos realmente mudar esse país. Porque, da maneira que está realmente acho que é muito difícil nós podermos acreditar e ver algum futuro nesse país. Está muito ruim, há um descaramento total, há uma falta de honestidade, há um descalabro. Isso vai trazer o resultado daquele trabalho. Somos contra os que descaradamente colocam e fazem toda a sociedade engolir, numa imposição. Acho que são essas coisas que nós temos que pensar, avaliar, na preparação da CONCLAT, que é que nós queremos dela, e qual a nossa forma de ação daqui para frente, dentro de uma linha unitária, que eu entendo a CONCLAT. Não entendo como uma solução, uma panaceia para resolver todos os problemas, mas entendo que poderá decidir para a classe trabalhadora, para o povo brasileiro, e para o Brasil. Isso que eu tenho de dizer aos companheiros. Muito obrigado. (Aplausos)

(E) Com a palavra o companheiro Hugo Peres, presidente da Federação dos Trabalhadores das Indústrias Urbanas de São Paulo, e membro da comissão nacional da CONCLAT.

(HP) Bem, companheiros, apenas para nós podermos nos situar, no que é a CONCLAT, nesse momento histórico para a classe trabalhadora, momento também de crise, em 1977 a CONCLAT nasceu de uma ideia, porque a classe empresarial se reuniu, como tantas outras vezes, e vem se reunindo agora de forma intersindical, só que isso pelo avanço da luta da classe trabalhadora, já não diz muito respeito, já não chama muito a atenção o que são as reuniões intersindicais. Acontece que em 1977 isso era absolutamente proibido, vários sindicatos que tentaram conversar. E apenas duas categorias o governo reprimia. E então em 1977 os empresários realizaram a sua primeira CONCLAP, que era a Conferência Nacional da Classe Produtora. O movimento de 1977 foi lançada a ideia também de que os trabalhadores poderiam realizar a sua CONCLAT, Congresso Nacional da Classe Trabalhadora, contra a classe produtora realmente. E logo em seguida na tentativa de fazer essa organização, nós estávamos em plena luta pela reposição salarial. Todos os companheiros se lembram de que a coisa toda começou com aquela manipulação de dados, em 1973, que redundou, se tornou público em 1977, por uma entidade internacional. Então, os sindicatos, principalmente os Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, começou aquela luta pela reposição salarial. Bem, ali naquele momento exato surge a ideia da realização da CONCLAT, que logo em seguida foi reprimida pelo Ministério do Trabalho, pela delegacia nem tanto. Mas o Secretário de Relações do Trabalho, na época, hoje juiz do Tribunal Regional do Trabalho em São Paulo, Aluísio Simões de Campos, chamou algumas entidades sindicais e proibiu qualquer articulação em torno da CONCLAT, apesar do Ministro do Trabalho, na época, o Prieto, ter concordado, mas aquilo tudo uma fachada que encontrava meios de poder impedir que isso acontecesse. Bom, depois todos os companheiros conhecem a história, acontece a greve de 1978.

Nós ganhamos um espaço que nos permitiu começar a voltar a falar na CONCLAT, que culminou num evento, que foi histórico, que foi aquele grande racha na realização do Congresso Nacional dos Trabalhadores na Indústria, da CNTI, no Rio de Janeiro. Ali o movimento pela realização da CONCLAT ressurge com toda força, em 1979 já em reuniões intersindicais em São Paulo. Chegou a ser formada uma comissão de avaliação que avaliava as possibilidades de realizar a CONCLAT. Por proposta nossa, em fevereiro de 1980, nós pedimos um adiamento, nós já sentimos que a coisa era grande. A coisa tinha que ser mais ampla e democrática possível, e que não ia ser fácil a sua realização. Então, foi adiada para o ano de 1981. Esse ano nós estamos em pleno andamento na organização da CONCLAT. Bem, a CONCLAT, na verdade, está acontecendo.

Eu já ouvi afirmações do tipo de que ela veio ao bojo de uma crise. Não, ela não veio no bojo da crise, a crise é que acontece, a crise mais aguda. Que entendemos nós que crise o trabalhador tem passado por uma série de medidas que o governo tomou, a principal delas que afetou diretamente o trabalhador foi a política de arrocho salarial, implantada desde 1975. Mas então ele vem passando por uma série de dificuldades, que está culminando com a crise, do perigo real de depressão no país, do perigo real do início de uma recessão. E então a CONCLAT já estava idealizada, já estava marcada quando começa a acontecer essa crise mais aguda. Então, a CONCLAT não veio no bojo da crise, acontece que na sua realização, na sua organização é que passa essa crise, que agora está culminando. Bem, então muitas coisas terão que ser discutidas, na CONCLAT, mas não adianta apenas nós estabelecermos um temário, que é o mais amplo possível. Mas mesmo que no temário não tivesse previsto nós tínhamos certeza, como vemos agora, de que a principal coisa que será discutida será o problema do desemprego. Bom, esse problema traz antes de si na discussão o problema da própria estrutura econômica do país. Isso é o que nós pretendemos discutir, contestar, e de uma vez por todas deixar claro que esta estrutura econômica não serve aos interesses dos trabalhadores.

Uma outra coisa que também é claro na cabeça de todos nós, é de que a CONCLAT não acontece porque tem democracia, mas acontece para forçar ainda mais a abertura democrática, para forçar a democracia que todos nós queremos. Ela deve ser, nesse momento histórico, esse instrumento de luta dos trabalhadores. Se ainda é uma coisa abstrata, quer dizer, a realização de uma conferência, o ato em si da realização, aquele momento, aqueles três dias de discussão devem ser claramente para os trabalhadores dizerem que querem a democracia, e como a querem. É importante nós ressaltarmos, salvo melhor juízo, salvo engano meu, me parece que todos os setores da sociedade já falaram, e falam os intelectuais, tem falado os estudantes, tem falado a igreja através de seus movimentos, desde uma data até agora, é que, inclusive a teologia da libertação, quer dizer, é a igreja falando, o tempo todo, para o mundo todo, em especial para nós, que nos interessa, o que ela pensa desse regime. Então estão todos esses setores, já têm falado, chegou a hora dos trabalhadores falarem. Bom, dirão os companheiros, os trabalhadores têm falado, mas eu acredito que de forma organizada eles ainda não falaram. Eles veem na crista da onda de diversas crises, sabe, eles veem falando em momentos importantes para o trabalhador, mas momentos que eles veem na ladeira, na esteira, de determinadas coisas que estão acontecendo. Então, eu acho que é importante, ao invés de nós virmos na esteira, também é importante que o movimento sindical, e principalmente os dirigentes sindicais, assumam essa luta que a base às vezes deflagra, e na maioria das vezes passa por cima de dirigentes, que não querem assumir. Mas é importante que o movimento sindical como um todo, quer dizer, em uníssono mesmo, sejam os dirigentes, sejam os trabalhadores de base, estabeleçam em conjunto o que querem, dizer para toda a nação o que são, e o que pretendem, o que eles realmente representam para a nação, para uma sociedade politicamente organizada.

Mal organizada, ou bem organizada, o Brasil é um Estado, então, politicamente organizado, e nós temos interesse de dizer a essa nação, a esse Estado, quem somos e o que efetivamente nós queremos. Isso poderia parecer apenas e simplesmente um documento, sabe, do que somos e do que queremos, mas não é essa a ideia, não. Além do documento necessário, mas toda a nação brasileira está voltando os olhos para a realização da primeira Conferência Nacional da Classe Trabalhadora. Ali eu estou achando que deve sair, como o companheiro Arnaldo disse, propostas práticas, e não é fácil sair coisa prática. Coisa concreta sairá, o documento é um deles, as teses, as discussões, sairão coisas concretas. Agora, uma proposta prática para nós ocuparmos definitivamente o lugar que temos direito na sociedade brasileira, não é fácil. O movimento sindical, os trabalhadores, dirigentes, têm assumido algumas vezes, algumas lutas dramáticas, para mim todas elas vitoriosas, quando se analisa à boca pequena, entre paredes, algumas derrotas, de eu não gosto de usar essa palavra, mas algumas vantagens, ou alguns avanços que nós não conseguimos dar, isso faz parte da luta, mas realmente para mim não houve derrota sentida, não. Porque se nós considerarmos o que foi aprendido naquilo que nós não conseguimos vencer, naquilo que nós não conseguimos avançar, isso por si só já é vitória. A CONCLAT para nós, no meu modo de entender, e eu repito mais uma vez, não é nada conclusiva. Ela não vai concluir nada. Ela deve abrir alguma coisa e não concluir. Ela deve ser apenas o primeiro passo que a classe trabalhadora deverá dar em busca da sua emancipação de verdade. Eu acho que ali na CONCLAT deverão ser tratadas as principais linhas que o movimento sindical deverá assumir para os próximos meses. A dinâmica social nossa, nesse momento, é tão violenta, quer dizer, eu acho que ela está andando numa progressão geométrica, por causa da crise, e até mesmo pelas crises, que deve haver mudanças, mas não do tipo que está havendo agora. Eu acho que nós devemos mudar sim, aproveitar essa dinâmica social, mas não na base que está sendo feito agora. Eu cito como exemplo os companheiros do setor rural. Esse setor, sem sombra de dúvidas está muitos anos na frente da organização sindical urbana, dos sindicatos da cidade. Se nós olharmos como movimento social, as greves, aqui teve muito mais que no setor rural, mas não é só por isso, não, sabe, nós temos é que olhar a posição tranquila, a posição serena.

(HP) dos companheiros rurais, eu volto a citar como exemplo, que está virando chavão, está me cansando, mas é verdade. Se vocês fizerem uma pergunta sobre os trabalhadores rurais do Rio Grande do Norte, vocês terão a resposta. Se vocês fizerem a mesma pergunta para os trabalhadores rurais do Rio Grande do Sul, vocês vão obter exatamente a mesma resposta. Isso, além de tudo, para mim, é respeito às decisões anteriormente tomadas por eles, principalmente o Congresso Nacional. Nós queremos realizar uma conferência nacional, estamos estimando quatro mil delegados. Os rurais já fizeram, me parece há dois anos atrás, uma com dois mil e quinhentos delegados. Nós temos vários exemplos destes, entidades nossas, não sindicais, de assessoria nossa. Manda correspondência para o setor rural, manda para todo o movimento sindical. Se mandarmos mil cartas, nós temos certeza de que seiscentas respostas são do movimento sindical rural. Nós já tivemos essa experiência. As outras quatrocentas, eram do setor civil, setor urbano. Todo o Brasil. Hoje eu dizia uma coisa, posso até estar errado, não sei se é porque está me chamando atenção, na medida em que a secretaria da CONCLAT envia questionários, envia informações para todo o Brasil, o maior número de respostas vem exatamente do setor rural. Vem do sindicato rural de cidades que nós nunca ouvimos falar, eu confesso a minha ignorância. Esses trabalhadores deverão dar uma grande contribuição dentro da CONCLAT. Lá nós vamos sentir uma voz uníssona falando. São companheiros que taticamente, mas que delicadamente, educadamente, mas firmemente não aceitam intromissão do setor urbano, quer dizer, a nossa intromissão. Às vezes até no bom sentido, com boa fé, querendo dizer para eles, olha, nós estamos achando aqui pela nossa experiência que o melhor é isso. Eles não aceitam, no que eles estão absolutamente corretos, porque eles sabem onde o calo dói, e onde o sapato aperta para eles. Então, companheiros, tudo isso para dizer o seguinte, se nós realizamos uma CONCLAT que no seu documento estabelece algumas linhas de conduta, propõe algumas lutas práticas e concretas, depois de dois meses, começamos a falar uma outra língua, sabe, e até mesmo para querer aparecer, dar entrevistas na imprensa, bolando coisas novas que nós sonhamos, à noite, ou que nós ouvimos o galo cantar, vai ser um erro crasso, um erro bárbaro. Ou a CONCLAT é, ou ela não é representativa, ou a CONCLAT será, ou não será um marco no movimento sindical, não é conclusiva. É apenas o primeiro passo, eu repito, mas as decisões tiradas lá, presume-se que serão as mais representativas, porque serão tiradas por milhares de delegados. Então, nós temos obrigação moral de respeitar o que foi tirado lá e deixar, dali para frente, do dia 24 de agosto em diante, de começar a inventar coisas novas. A não ser que na dinâmica social haja uma mudança violenta, brusca, no seu sentido, e que nos obrigue a tomar uma outra linha, com até que se realize uma nova CONCLAT, e aí não seria nova, na minha ideia seria o novo, o primeiro CONCLAT, seria o primeiro Congresso Nacional da Classe Trabalhadora. Bem, acredito eu também que a CONCLAT deva apresentar algumas condutas, para na prática nós mudarmos a estrutura sindical. A verdade é que quando passamos por um período de democracia, de 1946, chega até 1964, a estrutura sindical permaneceu a mesma. E se a mudança, os trabalhadores entendem, é de estrutura, é mudança radical, de raiz, deve passar pela estrutura sindical. Então, de uma vez por todas, deve ficar claro o que outras conferências e congressos, seminários e assembleias, foi tirado pelos trabalhadores a proposta do tipo de estrutura sindical que nós queremos, da liberdade e autonomia sindical que nós entendemos. E outra coisa, não perder de vista o momento real que nós estamos vivendo, para realizar a CONCLAT, o momento real é descenso. Isso pode ser discutido pelos companheiros ou não, mas nós estamos num refluxo, por uma série de questões que todos os companheiros conhecem. Então, seria muito melhor, muito mais bonito, muito mais empolgante, muito mais gritante, a realização de uma CONCLAT em junho de 1978. Imaginem os companheiros se ao invés do congresso da CNTI em 1978, nós tivéssemos realizado a primeira CONCLAT, em plena ascensão do movimento sindical. Até mesmo em 1979, sabe, sairiam coisa boas, eu acredito que mesmo belíssimas. Mas, a verdade é que nós estamos num momento difícil para a classe trabalhadora. Esperar que surjam propostas mágicas, principalmente partindo da base, é ilusão, e nós tirarmos propostas também que não seja realistas, que não sejam voltadas para o que o trabalhador na base está vivendo neste momento, para mim será imperdoável. Finalmente, nós queríamos dizer o seguinte, com toda a dificuldade que nós estamos lutando, a executiva nacional, vinte e nove companheiros, existem vários problemas. Ninguém tenha a ilusão de que a maioria que ganhar a CONCLAT ganhará o movimento sindical. A CONCLAT não é de ninguém, é de todos. Em segundo lugar, imaginar que se a maioria das nossas propostas, da minha, eu cito até como exemplo, forem vitoriosas, e eu imaginar que com isso, a partir daí eu vou dominar o movimento sindical, e vou estabelecer suas diretrizes, isso é, além de tudo, burrice. Além de tudo vai ser burrice. Então, eu acho que a CONCLAT não é de ninguém isso é de todos, portanto, não devendo haver luta pela hegemonia dentro dela. Nem na organização, e nem durante a sua realização. Eu queria dizer que a CONCLAT não tem absolutamente nada para dividir, ela tem tudo para somar dentro do movimento sindical, e tudo depende da nossa responsabilidade, obrigado. (Aplausos)

(E) Com a palavra o companheiro Devanir Ribeiro, secretário cassado, do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo.

(DR) Bem, companheiros, já foi explicado pelo anfitrião aqui do sindicato a não presença do companheiro Lula, e eu, por isso, vim representa-lo, devido ao problema que todos já conhecem que está acontecendo em São Bernardo. Dentro do tema que está colocado, vou tentar ser breve, porque sobre a CONCLAT já foi colocado quase tudo pelo companheiro Hugo Peres, que é a pessoa que iniciou. Foi dele que surgiu inclusive a ideiam, dentro do histórico que ele colocou, que eu já conhecia na realização dessa CONCLAT, que era para ser não uma conferência, mas era para ser um congresso. Mas vamos começar humildemente com uma conferência. Na minha modesta opinião, a CONCLAT servirá mais para uma troca de experiências, onde se juntará teorias e práticas, onde aquilo que os companheiros do campo hoje, eles têm uma reserva conosco aqui do meio urbano, e que também nós buscamos entender e também temos algumas reservas nas suas lutas, porque não conhecemos. Como eles não conhecem as nossas, nós também não conhecemos as deles. Então, a CONCLAT servirá para unir o homem do campo e da cidade. O intelectual, ou o dito profissional liberal, que ainda alguns se batem nessa tecla que existe profissional liberal. Eu não sei, quem é dessa categoria é que deve saber julgar se é ou não, se ele é um assalariado ou não. Então, servirá para isso, servirá um encontro tirar algumas bandeiras que nós possamos tirar dentro da questão teórica, juntando com alguns companheiros que é esse pessoal mais intelectualizado. Os engenheiros, no campo da construção, no campo mais avançado da tecnologia que existe por aí, que nós trabalhadores comuns não entendemos bem. Embora vivemos e produzimos isso, mas não entendemos. E também, a questão do médico, vejo a questão da saúde, de uma série de coisas que nós vamos ter que ser trocadas com os companheiros, e eu acho que vai dar para se tirar proveito. Aquilo que o Hugo Peres falou, acredito que não servirá lá para ser um racha, ou para se dividir, mas eu acredito que é mais e para uma soma de experiências que nós vamos chegar lá. Mas como o tema é apaixonante, porque diz, o movimento sindical já é outra questão a democracia, e dentro das nossas lutas eu tenho assim como experiência que só no campo sindical nós poderemos levar não é, a tábua de salvação, não é por aí. Existe uma questão política que todas as questões são. Nós podemos, o movimento sindica, ele tem um teto, ele tem um limite. É isso que nós entendemos. Então, existe uma questão política que tem que ser discutida com todo o povo brasileiro, de porquê, e como, e qual a democracia que nós queremos. Então, a questão é bem maior. Não é simplesmente nós nos reunirmos numa conferência nacional. Por mais simples que forem as bandeiras, por mais que ela seja sucinta, que ela seja aquilo que também o homem do campo, como o homem da cidade quer. Talvez não esgota no campo sindical, ele vai se esgotar no campo político. Então, tudo é político, e não é simplesmente dizer que nós vamos unificar numa primeira conferência, ou numa terceira. Ou se tire uma Central Única de Trabalhadores, ou qualquer outra coisa que seja para unificar o movimento sindical brasileiro. Se não tiver preparado o povo politicamente para aquilo que nós queremos e discutir politicamente, competir com o regime que nós temos, que não foi colocado quem está lá. Mas nós temos que buscar aquilo que queremos. Então, é a democracia que nós queremos e essa não se busca no campo sindical. Essa democracia se busca no campo político. Então, ela deve ser muito mais aprofundada, e isso que eu vejo, que a aprovação não será aí só pelo campo sindical. Embora as bandeiras que nós tenhamos no campo sindical poderão unificar, poderão servir de parâmetro para aquilo que nós queremos. Ainda temos que caminhar muito, temos que organizar muito ainda, e eu queria ser bem breve, e já encerrando, espero que nessa CONCLAT nós tenhamos lá o bom senso, principalmente dos dirigentes sindicais. Foi aquilo que o companheiro Hugo citou, que não se queira, é porque as suas propostas, ou seu grupo, ou seus companheiros, ou seus delegados, seja lá o que for, as suas propostas passarem, eles se sintam donos. Não se julgue dono da verdade, ou dono do movimento sindical, ou donos dos trabalhadores brasileiros, mas que ele tenha humildade, de encaminhar aquelas bandeiras mínimas que foram tiradas. Agora, uma coisa eu também tenho a ressalva, como a nossa política econômica do nosso país, ela muda de hora em horas, as coisas também não podem ficar só na resolução de uma primeira conferência da classe trabalhadora, no dia 21, 22 e 23 de agosto de 1981, sendo que o quadro do dia 24 já é outro. Então, nós também temos que saber mudar, sem mentir para os trabalhadores, sem mentir e sem desviar das linhas mestras daquilo que foi tirado, mas tem que se caminhar, não podemos ficar parados no dia 23 de agosto de 1981. Então, nós temos que ter agilidade e temos que ter também a humildade de encaminhar. Porque eu conversava com os companheiros há poucos dias, na minha casa, eu participo de congressos de dirigentes sindicais, de trabalhadores, desde 1962. Eu tenho na minha casa pelo menos cinquenta anais de congressos de trabalhadores. E eu estava aqui analisando as reivindicações dos trabalhadores desde 1906 até 1981. Que foi 1978 o último congresso nosso, da nossa categoria de São Bernardo. As reivindicações não mudam muito, são as quase mesmas. Elas mudam em alguns pontos, mas o essencial, não. Nós brigávamos por delegados sindicais, nós brigávamos por garantia no emprego, e por uma série de coisas que estamos brigando até hoje, e não conquistamos. Vejo que as nossas conquistas foram poucas, mas nós temos a obrigação de se cada dirigente sindical que comparecer nessa CONCLAT, ele analisar os anais dos congressos que ele já participou. Ele terá muito subsídio para chegar lá. E se ele quiser colocar em prática tudo aquilo que já foi aprovado em congressos e mais congressos, dos trabalhadores, será um grande avanço. Então, eu acredito que hoje, eu digo dias 21, 22 e 23 de agosto, nós estamos próximos de tirar algumas bandeiras que serão aquelas que nós já temos há muito tempo. Agora, também temos que tirar e temos que cobrar, por isso que deverá ser nós a ênfase do pessoal, dos vinte e nove companheiros que comandam, que estão tentando coordenar essa primeira conferência, que é tirar as bandeiras. Eu quero saber as formas de encaminhar, essa que é a questão. Então, se nós soubermos encaminhar aquilo que nós tirarmos nesse encontro, eu tenho certeza que nós avançamos. Agora, não podemos esquecer jamais que o movimento sindical é uma parcela da sociedade, esse encontro é uma parcela, e para nós atingirmos a democracia que nós queremos, nós temos que aprofundar muito mais com a questão política. Nós temos que politizar muito mais. Nós temos que discutir muito mais política, porque, na minha opinião, só vamos obter a democracia, aquilo que nós almejamos, discutindo, aprofundando é que nós vamos conquistar isso. Então, eu queria encerrar por aqui e gostaria que os companheiros, me parece que é um debate, e nós estamos aqui só falando, e se sobrou alguma dúvida, eu não tenho prática para isso de debate, ou de conferência, não sei dessas coisas. Mas, minha humildade, naquilo que eu puder responder com relação à CONCLAT, e com relação à questão política, eu estou à inteira disposição dos companheiros, obrigado. (Aplausos)

(E) Com a palavra o companheiro Carlos de Angeli, representante permanente da Federação Sindical Mundial, junto às Nações Unidas.

(CA) Eu agradeço o privilégio de poder estar de novo junto aos trabalhadores brasileiros, depois de um longo período, que fui levado a ficar fora do país. O tema de hoje, de uma pessoa que devia pela sua experiência como líder sindical ter conseguido toda a estrutura da luta da classe operária brasileira, é fundamental, eu acredito, sobretudo que o problema da democracia para os trabalhadores é uma questão concreta. Não é uma questão teórica de análises conseguidas de dados, mas é simplesmente uma questão de consolidação da força de organização dos trabalhadores. Ora, o regime de 1964 colocou aqui um ponto fundamental, que a falta de unidade que se tenha constituído naquele período, que era da natureza histórica da sociedade brasileira, levou à instauração de um regime que afastou da perspectiva de democratização da sociedade. Os trabalhadores do campo e da cidade, eu digo sociedade para os companheiros, eu sempre digo, que a realidade social que se vai modificando pela ação organizada dos trabalhadores, esse foi o fundamental já naquela época. E por esse motivo que a CONCLAT, como foi dito pelos nossos companheiros aqui, constitui quase a dizer, um momento de uma crise histórica brasileira. Porque há vinte e um anos atrás é que a classe operária, os trabalhadores no campo e na cidade, a diferentes condições puderam se reunir. Então, é muito importante compreender que a CONCLAT se realiza num momento pesado. Acredito que tendo iniciado aquilo que se chamou uma anistia política curta, nós temos que compreender que a CONCLAT, que vai reunir cinco mil trabalhadores é simplesmente, companheiros, o direito de reunião. É um teste fundamental de qualquer perspectiva de progresso da democracia da sociedade brasileira. Ora, os trabalhadores que se puseram em marcha para modificar a estrutura de exploração desses últimos dezoito anos, eles são hoje quarenta e cinco mil homens, é verdade, do campo ou da cidade, organizados. Mas um fato é absolutamente concreto, eles foram explorados todos pelas classes dominantes, pelo capital financeiro nacional, pelo capital financeiro internacional. Se compararmos em termos de evolução simples, o poder de compra é por volta de cinquenta por cento o que o salário vale hoje em relação a 1964. E não adianta somar o salário de uma família para compensar a exploração dura e crua da realidade dos trabalhadores da família operária brasileira. Isso se chamou então política econômica. Eis porque a CONCLAT, e eu gostaria que todos os companheiros aqui tivessem a paciência talvez, de reler noções que são evidentes, temas que são evidentes, como a previdência social, política salarial, política agrária, problemas nacionais, que é o temário da CONCLAT. Como diz bem o Hugo, não se trata de um temário que vai pôr em movimento um processo, se trata de trabalhadores que a partir da consciência que determina o conhecimento dos problemas e a sua unidade, vai pôr em movimento a sociedade. Ora, essa foi a política econômica, chamava-se política de arrocho salarial. Nos referimos ao salário e de enquadramento policial à atividade sindical. Eu me lembro em 1969, uma comissão internacional sobre violações de direitos sindicais e que tinham apreendido, a palavra é essa, a primeira comissão de empresa criada depois de 1968, na Volkswagen. Quarenta e dois companheiros. Não houve até hoje uma resposta que foi dada pelo governo brasileiro sobre a razão daquela ação. Mas vejam, a luta já era real. 1969, quer dizer, onze anos antes desse momento histórico em que se começou a reestruturar, eu diria seguindo um pouco o espírito da intervenção do Hugo, a realização da CONCLAT hoje. Quem sabe em 1960 se chamou Terceiro Congresso Sindical Nacional, em 1962 se chamou Quarto Encontro Sindical Nacional, e é verdade, haviam reivindicações que eram estruturadas de forma que pareceriam as mesmas hoje. Mas a única realidade que era idêntica à de hoje é a exclusão dos trabalhadores da determinação de suas condições de vida, das suas condições de existência, das suas condições de democracia. Por isso que a democracia é uma questão absolutamente concreta para os trabalhadores. Essa política social do governo, e que não desalinha essa coletânea de ordens do dia que se declara que um dos objetivos fundamentais é a harmonia e a solidariedade entre as categorias sociais de produção. Ora, o problema fundamental sempre foi esse na história dos povos, e alguns exemplos talvez nas respostas poderei dar. Porque é verdade que muitas podem significar experiência, mas vitórias importantes, revolucionárias, e outras sempre foram baseadas na unidade absoluta das classes exploradas na identificação da sua unidade. Por exemplo, é empurrar a sociedade para o progresso social. A CONCLAT parece que nesse aspecto é aquela perspectiva de dar um conteúdo à democracia. Porque o conteúdo da democracia que está em questão, nós podemos concebe-la hoje de qualquer maneira. Podemos afirmar que a democracia constitui hoje um direito de todos de dormir debaixo das pontes. É direito de todos, mas nem todos exercem esse direito. Outros têm direitos assegurados, por exemplo, o direito de uma vida digna. Mas é preciso conceber que é na constituição brasileira. E esse é um dos casos únicos talvez em uma série de países modernos, mas onde existe uma sociedade mais democrática não há nenhum capítulo de garantia aos direitos. Existem capítulos sobre direitos individuais, sobre direitos coletivos, mas nenhum capítulo que diz que o Estado e a sociedade garantem esses direitos. A mesma ideia se aplica pois ao momento fundamental da constituição e da participação dos trabalhadores nessa estrutura. O povo sempre tem uma alternativa econômica e social e verdade isso. Basta ler talvez a conclusão de alguns congressos anteriores. Vocês que terão uma experiência sindical mais ou menos recente, devem compreender que os trabalhadores sempre souberam exprimir as suas. A questão fundamental era a organização, a força da unidade, e a consciência dos problemas e da unidade das classes trabalhadoras e das outras categorias sociais. Não há que ter ilusões, quarenta e cinco mil trabalhadores, são sem dúvida força, sem a qual nenhum passo democrático se dá. Mas hoje nós temos que compreender que somos a força que tem que unir-se, que tem que unir as outras forças que na sociedade almejam por uma estrutura democrática de convívio e participação na gestão econômica-social. O temário da CONCLAT, por exemplo, e eu chamo atenção, fala muito sobre problemas nacionais, porque se é verdade que as classes trabalhadoras sofreram com a política econômica nos últimos dezoito anos, com a sua política social nesses anos, é verdade também que toda política econômica e social que foi exercida contra o povo, foi exercida contra a nação brasileira. Toda vez que o povo se levantou para defender os seus interesses, defende concretamente os interesses da nação brasileira. Isso é muito concreto e eu darei um exemplo com a questão do desemprego. Quando hoje a estrutura governamental econômica, quer dizer, a burguesia organizada em governo na sua gestão econômica, declara que a única solução é buscar os mercados externos para poder garantir o emprego, confessa aquilo que a classe operária sempre denunciou que a política econômica e social do Brasil é definida por critérios externos, servindo interesses externos, interesses sem pátria, interesses do Fundo Monetário Internacional, interesses do capital financeiro internacional. Outro elemento fundamental talvez a chamar atenção sobre o contexto da CONCLAT, já que falamos na casa de jornalistas, na sala desse grande companheiro, que lúcido foi até o fim, em compreender que o processo passava pela organização das categorias sociais que até então não se organizavam em sindicatos. E falemos então que a CONCLAT talvez tenha o seu aspecto mais importante no renascimento do espírito sindicalista. É preciso que o sindicato tenha, e essa é uma experiência internacional, companheiros, tenha um estatuto na nação. Não é possível que um sindicato seja somente um objeto de código de trabalho, um objeto de medida policial. É preciso que o sindicato seja constituição. Porque a empresa está fechada à constituição? Porque o direito de reunião garantido pela constituição não pode ser exercido dentro da empresa? A chave de uma porta do capital é suficiente para violar a lei máxima de uma nação? Isso é elemento a pensar. Porque da mesma forma, e é outro exemplo concreto para vocês que vivem a época mais recente da pré-abertura, já que a pós-abertura é a CONCLAT, a anistia. Um outro elemento fundamental para ver que os trabalhadores na sociedade brasileira não só não estão no Estado, mas muitas vezes tiveram o Estado contra si, contra essa maioria. A anistia política sem dúvida, e eu seria o último a falar, a nega-la, já que beneficiei dela para voltar ao país, mas um elemento fundamental, qual foi o conteúdo para os trabalhadores, para os direitos econômicos, sociais, em função da anistia. Vejam como na sociedade brasileira, direitos civis, políticos, ainda que limitados, são direitos de uma qualidade, direitos econômicos e sociais são direitos de outra qualidade. Isso é prova de que nós vivemos realmente, Hugo disse, o movimento sindical está atrasado, é fraco. Eu diria, talvez o problema não é de fraqueza. O problema fundamental é de que essa estrutura econômica social é aquela que privilegia os direitos das minorias que detêm o poder político. Portanto, que podem exercer o seu domínio na esfera política, mas que coloca os trabalhadores como que os que tem os exercícios limitados dos direitos econômicos e sociais. Para ser mais breve falaremos depois talvez sobre autonomia, algumas experiências, algumas revoluções vitoriosas e algumas revoluções vencidas. Uma coisa fundamental que sempre me envolveu quando a brecha surgiu no meio dos trabalhadores, era assim como um edifício que desmoronava. Isso foi dado, por exemplo, na experiência mais triste próxima de nós, que foi o Chile. O problema da unidade sindical que no Chile era absoluta, conseguiu depois de um longo processo ser violada, através de critérios particulares da sociedade chilena. Isso me chamou atenção sobre esse problema fundamental. E como a CONCLAT coloca hoje o problema da hegemonia sindical, o problema, por exemplo, da estrutura sindical, o problema da discussão unitária dos problemas dos trabalhadores, é porque é verdade o que disse o Hugo. Qual é a proposta concreta que se deu à corrente, à crise da sociedade brasileira? Todas as propostas são propostas de grupos políticos que estão atomizando a expressão popular, ou a expressão daquilo que ainda pode tentar dominar como expressão popular. Mas, a classe operária, os trabalhadores do campo, e se mencionaram os intelectuais, e porque não? Há trinta anos atrás sindicatos de médicos e engenheiros e das outras categorias sociais que são trabalhadores, era uma expressão digna. Hoje isso demonstra, eu diria, a grande força do espírito sindicalista, e essa força, eu não quero discordar de quem me precedeu, não é só força sindical. Falaremos talvez da política e dos sindicatos. Não, nenhum sindicato no mundo negou que a sua ação é uma ação para a sociedade, e, portanto, uma ação política fundamental, porque o elemento dominante é que se o trabalhador tem hoje acesso, e isso se pretende com a CONCLAT também, as formas de organização na empresa, na economia e na sociedade, quer dizer, garantir a liberdade sindical na empresa, participação na gestão econômica, no plano de Estado, ou na direção dos assuntos econômicos, e garantir na constituição reconhecimento na sociedade. Então, nós podemos dizer que saímos d e uma pré-história de violação de liberdade sindical e de dependência sindical. O último elemento talvez, e é o elemento mais importante da CONCLAT, eu tive o privilégio de participar de reuniões com poucas pessoas, talvez, em centros menores do país, em São Paulo fundamentalmente. É preciso que a CONCLAT seja hoje matéria da sociedade brasileira. Isso é um elemento fundamental e esse elemento é novo. Há vinte anos atrás o sindicalismo parecia coisa simples de alguns pioneiros, poucos trabalhadores, para a classe dominante. Num certo período da história do Brasil, foi caso de polícia. Depois foi caso de leis particulares. Hoje a CONCLAT e a sua preparação, congressos, conferências, seminários estão sendo realizados. Vocês têm que ter consciência de que já se reuniram no Brasil para preparar a CONCLAT, mais de trinta milhões de trabalhadores representados por seus sindicatos. É um passo fundamental, hoje não há um passo adiante na sociedade brasileira, a solução dos problemas nacionais sem a realização de um encontro dos trabalhadores da Conferência Nacional da Classe Trabalhadora, que representa fundamentalmente aquilo que aqui poderá aparecer. E eu repito, momento perigoso da nossa história, fundamental, mas momento excelente para demonstrar capacidade de organização. Pareceria absurdo noutro país de liberdade democrática fazer tanto alarde de uma simples reunião sindical nacional. Porque a CONCLAT é uma troca de experiências, é uma troca de organização. É o direito dos trabalhadores de dizer, e de Norte a Sul, de Leste a Oeste, eles podem se considerar brasileiros não anistiados econômica e socialmente no seu país. Obrigado. (Aplausos)

(EN) Passamos então aos debates. As perguntas devem ser feitas a um dos quatro expositores. Podem ser feitas do lugar onde as pessoas se encontram. Se quiserem usar o microfone, também está à disposição. Se preferirem perguntas escritas, elas podem ser encaminhadas à mesa. Estão abertas as perguntas.

(H) Questão de ordem. Só podem ser formuladas as perguntas, ou poderá haver intervenção do plenário?

(EN) Bom, eu acho, pode haver intervenção do plenário, com uma única observação, uma solicitação para que as intervenções e as perguntas sejam breves. Como nós pedimos brevidade aos expositores, pedimos também aos perguntadores. Perguntas ao companheiro De Angelis, primeira pergunta: as leis brasileiras se referem frequentemente às atividades políticas do sindicato, como interpreta ele esse fato? Qual a situação do ponto de vista da OIT?

(CA) Uma menção foi feita ao problema a atividade política dos sindicatos, e esse é o elemento mais permanente nas violações das liberdades sindicais em muitos países. Porque o fato é que não há nenhuma constituição, nenhuma lei, em nenhum país do mundo que separa as atividades políticas no sentido social, das atividades sindicais. Quer dizer, que do ponto de vista da interpretação era uma questão que muitas vezes foi de arbítrio. Ora, na OIT, quando se apresentou o problema na Organização Internacional do Trabalho, esse problema foi organizado por sistemas diferentes de organização, do direito sindical. É que a ação dos sindicatos não pode ser limitada a simples reivindicação de suas condições econômicas e sociais. Fundamentalmente, se disse que os sindicatos têm o direito de exercer atividades de participação na definição de políticas econômicas e sociais. Eis porque os sindicatos sempre tiveram e têm o direito nas sociedades mais democráticas de participação. Isso se chama, por exemplo, na Itália, é a participação em nível nacional da Federação das Confederações. A definição do problema do Estado, na Alemanha Federal tem o mesmo fito. Em Portugal, depois da queda do regime fascista, também os sindicatos ganharam o direito de serem associados à definição da política econômica. O problema da atividade política em outros países tem sido confundido com o problema das atividades essenciais. Quer dizer, colocar que os trabalhadores aos setores essenciais não teriam direitos sindicais. E nesse caso, portanto, também na OIT a situação é clara, toda atividade econômica pode ser qualificada de essencial, segundo o critério do país. Por exemplo, a Venezuela poderia considerar essencial a exploração do petróleo, e então limitar o direito dos trabalhadores se organizarem. (pausa)

(H2) Eu queria fazer uma intervenção e procurar ser o mais sintético possível. O tema colocado é a CONCLAT e a Democracia. Eu acho que ela pode contribuir muito no avanço democrático do país, porém ela pode conseguir muito, ou pouco. Eu acho que essa perspectiva que nós temos que ter é que ela consiga o máximo possível nesse avanço da democracia. Então, nesse sentido eu queria fazer uma intervenção, eu acho que o histórico do movimento recente mostrou, apesar das lutas quase que individualizadas, particularizadas, que os trabalhadores travaram, à massa dos trabalhadores. O limite que essas lutas têm, a luta econômica, ela é travada espontaneamente pela classe trabalhadora. Por isso que eu acredito que o Hugo falou uma coisa correta, que a massa às vezes atropela a liderança. E a massa nesse sentido da luta econômica ela vai quase que por si só, como as lideranças sindicais. Eu acho que esse é o grande erro assim que, em geral, as lideranças sindicais têm cometido, é não colocar claramente a questão política. Por exemplo, o Lula, ele propõe uma greve para agosto, ele não vai perguntar para a categoria dele se ela acha que é correto ele propor uma greve para esse mês. E é correto o Lula propor uma greve mesmo, e depois a categoria vai ver se assume ou não. Quando chega na questão política, as lideranças elas empacam, elas não são capazes de propor soluções políticas. Elas ficam esperando, ou então ficam falando na frente, como eu ouvi muitos aqui na mesa, de que nós temos que discutir a questão política, que nós precisamos ver o que o povo quer da questão política. O que os trabalhadores querem. A liderança tem que, como no plano da luta econômica, propor também nas questões da luta política. E é nesse sentido que eu acho que se nós queremos democracia, nós temos que mostrar qual é a democracia que interessa para o trabalhador. Ontem, na televisão, o senhor Luís Eulálio Vidigal disse que enquanto representante das diretas, enquanto sindicalista, portanto, do lado nacional, que o sistema que ele defende é o sistema capitalista, que mais precisamente a sua aplicação no Brasil seria inspirado no modelo de parlamentarismo francês. Quer dizer, a democracia burguesa serviria muito mais facilmente para dominar nesse momento a classe operária no Brasil. Então, o Lula, todos os sindicalistas, e o Lula já tomou essa iniciativa, têm que ir para seleção, têm que ir para a CONCLAT, têm que ir para todo canto. Porque é o seguinte, o capitalismo que interessa para o patrão, não interessa para o trabalhador. O que interessa para o trabalhador é o socialismo, está certo? E não basta simplesmente dizer nós queremos o socialismo, porque isso aí é genérico, nós temos também que propor um tipo de socialismo. Então, vamos ver, a massa vai discutir essas propostas, e vai aceitar ou não. O socialismo que eu acho que nós temos que propor para a classe trabalhadora, nós temos que derrubar essa ditadura que está aí, percebe? E nós temos que dessa luta, no meu modo de ver, nós temos que dizer à classe trabalhadora que essa luta tem toda a possibilidade de ser com a hegemonia da classe operária, porque ela é numerosa, e é poderosa nesse país, com seus aliados sindicais, que é o campesinato, o pessoal do campo, a pequena burguesia urbana, os trabalhadores não operários urbanos. É essa frente que vai se instaurar nesse regime democrático, só que outra democracia é mentira, dizer que nós vamos derrubar esse governo. Se nós quisermos democratizar a sociedade dentro de um estado burguês, não vai haver democracia para a classe trabalhadora. Vai ser uma ditadura da burguesia, em cima do proletariado, em cima de todos os trabalhadores. Então, a democracia que nós temos que ter para a classe trabalhadora, passa pela destruição total do Estado burguês. A democracia que vai surgir dentro do processo de luta, o povo vai encontrar de outras formas que a experiência histórica já tem mostrado, mas quando a liderança passa a dizer claramente nas questões políticas, qual é a sua proposta e não somente na questão econômica. A CONCLAT não vai dar um passo significativo no processo de democratização que interessa a classe trabalhadora. (Aplausos)

(EN) Agora as perguntas aqui na mesa. Tanto quanto é possível, eu vou tentar coloca-las pela ordem de prioridades aqui. Há uma pergunta para o Hugo Peres: qual a sua posição sobre a proposta do Lula de greve geral em outubro?

(HP) Bem, companheiros, eu como no início da exposição, eu havia dito que a CONCLAT, e eu vou tentar colocar, a questão da greve segundo a CONCLAT e a Democracia. Então, existe uma proposta de greve geral para 1º de outubro, eu dizia na minha intervenção que a CONCLAT deve refletir o máximo possível no momento realmente da classe trabalhadora, eu dizia também que nós estamos em descenso, eu não lembro porque eu disse isso. Mas parece que a diferença que haveria entre a realização da CONCLAT entre 1979, num momento de ascenso e ela realizada num movimento de descenso. Pode até ter uma greve geral em 1º de outubro, se continuar também essa crise, chegando na sua culminância. Quer dizer, ela está crescendo numa progressão geométrica, eu diria. Então, pode até acontecer, mas quem tem que determinar se deve, se vai fazer e se fará uma greve geral é a própria massa dos trabalhadores. São as próprias categorias. Na verdade, eu tenho cem números de categorias que não fizeram greve e tem receio de faze-la nesse momento, até para lutar pelo seu próprio salário, como o companheiro disse, até para lutar pela sua própria condição econômica. Pelo seu interesse imediato que é salário. Sabe, eu não acredito e não defenderia mesmo a proposta de greve assim com data marcada, 1º de outubro, sem saber o que vai acontecer até lá. Eu não sou por essa proposta.

(EN) Uma pergunta para o Arnaldo: o problema do desemprego presente na Inglaterra e na Alemanha, em todos os países capitalistas, no Brasil poderá ser resolvido sem transformações sociais?

(AG) Antes de responder essa pergunta eu gostaria de levantar algumas questões que foram colocadas aqui, e parece que ficou meio sem resposta. Eu acho que, tem um ditado popular que diz, o uso do cachimbo deixa a boca torta. Acho que nós nos acostumamos tanto com o autoritarismo, sofremos, que agora estamos querendo ser autoritários do mesmo jeito. Nós brigamos tanto com ele, e hoje estamos querendo impor para a classe trabalhadora uma decisão já posta e acabada. Eu acho que as coisas não são por aí. Ou nós pegamos a democracia e realmente vamos discutir com os trabalhadores, e vamos ver com eles, conversar com eles, discutir, ver o que é que eles querem, ou então a coisa fica meio complicada, entende? Que que nós queremos? Que que se pretende? Se é democracia, vamos conversar, vamos discutir, vamos defender as nossas ideias e deixar o companheiro defender as ideias dele. O companheiro que usou a palavra aqui, que ele colocou uma série de propostas que me parece que são propostas com o cunho autoritário. Eu acho que as coisas têm que ser colocadas de uma maneira diferente, pelo menos me pareceu assim. Eu acho que a coisa tem que ser diferente. Eu acho que nós temos que colocar a nossa visão para os trabalhadores. Temos que discutir com eles. Não se pode escamotear a participação dos trabalhadores. Ninguém é iluminado. Eu acho que nós, eu pelo menos, vocês vão me desculpar o que eu vou dizer, eu já ando de saco cheio de iluminados. Tem um grupo de iluminados no planalto que só faz besteiras. Eu acho que é bom nós acabarmos com isso. Tem que colocar todo mundo para discutir o problema. A solução não vai ser dada, no meu parecer, por meia dúzia, não. Vai ser dada por todo mundo. Ora, vamos discutir, vamos conversar, ninguém realmente é dono da verdade, não. Acho que todo mundo tem a sua, o seu ponto de vistam e deve defende-lo e deve discutir. Eu acho que a classe trabalhadora, e todo mundo fala em seu nome, até eu, entende, mas ninguém está conversando com ele, está vendo o que ele está vendo lá na fábrica, e está querendo, não. É muito pouca gente, para dentro da fábrica, para saber o que eles querem. É muito fácil vir aqui e dizer, não, porque a classe trabalhadora quer isso, quem está falando pela classe trabalhadora, que é quem? Quer dizer, o troço fica, está muito vago. Eu acho que as coisas têm que ser mais reais, têm que ser mais analisadas, têm que ser mais discutidas. Tem que ser ali no dia a dia, está certo? A coisa tem que ser na porta da fábrica, para nós nos explicarmos bem. É dentro da empresa, é conversar com os companheiros, é dentro dos sindicatos, é assembleia. Mas não vais se resolver o problema do dia para a noite. Vai ser muito difícil encontrar solução por esse, por aí. Eu acho que o problema que está havendo, e essa é a minha impressão, nós temos muita pressa. Levou dezessete anos levando cacete, e quer resolver o problema de um dia para o outro. Nós vamos resolver, temos que brigar para isso, para encontrar uma solução, para fazer a classe trabalhadora avançar, para ela conquistar os seus lugares. Mas temos que ir junto com a classe trabalhadora. Não devemos nos julgar que nós somos os donos da verdade. Não devemos nos julgar que só nós sabemos o que queremos. Nós temos que ouvir mais do que falar. Eu acho que o instante está de se ouvir mais. Dizer aquilo que nós pensamos, nós não omitimos, não, é dizer o que nós pensamos, mas ouvir mais. Ouvir o que realmente os trabalhadores querem. E isso é o que está faltando, está se ouvindo muito pouco o que os trabalhadores querem. Está se falando muito em nome dos trabalhadores, mas não está se ouvindo o que eles querem, o que eles desejam, qual a necessidade deles. A questão está por aí. Voltando a pergunta que o companheiro fez, realmente eu acho que o desemprego é inerente ao capitalismo. Isso é inerente, sempre vai existir o desemprego no regime capitalista. Isso aí sem transformação social nós não conseguimos eliminar. Podemos diminui-lo, podemos atenua-lo. Acabar, não vamos acabar. Agora, nós temos que brigar hoje contra essa crise que existe. Se é real ou não, nós não temos condições de avaliar. Agora, eu sei que as empresas que hoje estão em crise levaram dezoito anos usufruindo e lucrando às nossas custas. Então, está na hora dela tirar um pouco de dinheiro do bolso. Essa é uma posição, acho que tem condições dos trabalhadores defenderem uma posição firme de conseguir diminuir o desemprego hoje no Brasil.

(EN) Há aqui várias perguntas que são comuns, e tanto quanto possível eu vou junta-las ao Devanir. Uma pergunta: fale você também sobre a proposta de greve em 1º de outubro. A outra é ligada a essa: no dia 1º de Maio de São Bernardo do Campo, foi proposto uma greve geral para 1º de outubro. Sem entrar nas discussões da data, mas sim da greve geral como forma de unificar as forças dos trabalhadores contra a ofensiva patronal, o que pode ser feito na CONCLAT no sentido de preparar a greve geral?

(DR) Bem, companheiros, essa questão da greve geral é discutida, e se não fosse falada ninguém estava discutindo. Todo mundo critica que não está preparado, não é hora, tem que se discutir, tem que se ouvir, tem que preparar um pouquinho mais. Vamos preparando, preparando, e o capitalismo avançando, e vamos discutindo. (Aplausos) Então, só explicando a questão da greve, foi o seguinte: o Lula, quando propôs, não saiu da iluminada cabeça, que graças a Deus, não querendo puxar a brasa para a minha sardinha, mas ele tem uma cabeça iluminada mesmo. (Risos) Foi proposta numa reunião com vinte e dois dirigentes sindicais, e que inclusive nem tinha saído da cabeça dele, mas aprovada numa reunião em São Bernardo, no encontro 1º de maio. Deveria ser uma proposta de uma greve geral para levar para os dirigentes sindicais comprometidos com a classe trabalhadora, com o movimento dos trabalhadores. Eles consultassem então, porque de maio, junho, julho, agosto, setembro, outubro, são seis meses. Se nós não ouvimos, não vamos ouvir nunca mais. Então, era para que consultasse o 1º de maio, o 1º de outubro era um ponto de referência. Você não pode simplesmente chegar numa praça pública e vir falar para os trabalhadores, temos que fazer uma greve geral. Mas quando, onde, e que horas, tem que ter dia, tem que ter hora, e tem que ter as formas. Então, foi um ponto de referência a questão de 1º de outubro. E foi levada a seguinte proposta, era para levar para os dirigentes sindicais, e eu tive a felicidade de levar para eles Brasil afora. E nas reuniões com quinze dirigentes sindicais eu fiquei falando quase q eu sozinho. Só faltava o cara pegar, o cara que estava perto, que era o dono do microfone, por isso que ele não foi embora. Então, é essa a questão. Tem uma outra que complementa, que é uma questão da greve geral, como eu estou vendo a CONCLAT, se ela é democrática, ou não. Eu acho que ela é democrática dentro do que está colocado. Foi escolhido aqui uma comissão, uma ampla, com cento e oitenta e dois, me parece, foi isso, Fernando? Cento e oitenta e duas entidades, e foi escolhido uma comissão de vinte e nove elementos, de todo o Brasil, de Norte a Leste, de Sul a Oeste, por aí afora. Agora, como está sendo encaminhada em cada base, em cada sindicato, eu não sei. Eu pelo menos tenho certeza que em São Bernardo, e no ABC, já foi escolhido lá, tem uma comissão trabalhando dos dirigentes sindicais de lá, que vai fazer um ENCLAT e vai convidar os trabalhadores. Vão discutir profundamente a questão da CONCLAT nesse encontro para uma preparação para agosto. Então, eu acho que isso deve acontecer, salvo engano, em todos os sindicatos. Agora, vai ser impossível para a comissão nacional fiscalizar se os delegados foram tirados democraticamente, ou não, se foi encaminhado. Como o pessoal tem uma palavra que eu nem gosto de falar, que cada vez que nós falamos arrepia mais, se o companheiro lá tirou de uma lista os delegados que deverão representar sua entidade. Isso é problema dele, é uma questão de consciência dele. Quer dizer, eu acho que o espírito está bem colocado, deverão ser tirados os delegados em assembleias e conferências, e tal, e sendo bem discutidas nas suas bases. Eu acho que essa é a proposta da comissão nacional, que levou para os dirigentes sindicais em todo o Brasil. Se eles vão aplicar, não sei. Então, com relação ao que eu tinha que dizer, eu acredito, como o companheiro Arnaldo diz, que está cansado de ouvir, ou está cansado de não ouvir, e que nós temos que ouvir. Quer dizer, que nós nos contradizemos quando falamos certas coisas. Então, nós temos que ouvir, mesmo. Nós temos que colocar em prática. E se não estivesse aí, os companheiros da Volkswagen não dariam uma resposta na época da crise, quando jogou a questão da redução da jornada de trabalho. E hoje os companheiros da Ford não estariam parando lá (Aplausos) para ver os companheiros que foram demitidos. Então, a crise não está na cabeça dos trabalhadores, não, que em crise ele já vivia e acrescentou um pouco depois de 1964. Mas já vivia em crise, e desemprego. E quem é que não sofreu desemprego aqui? Antes, pós e depois, e vamos até o ano 2000, ou sei lá que ano nós vamos com essa questão. O pico sobe, desce, tal, mas o ferro vem é no trabalhador. Então, acontece o seguinte, eu concordo que não tem ninguém iluminado, mas aquele que teve uma ideia na cabeça, jogue para os outros trabalhadores, consulte-os, veja se eles querem. Se eles quiserem, topamos a briga. Se eles não quiserem, então encerra, morre por ali. Então, essa é a questão, e não é questão de ter muita gente iluminada. Se tivesse, graças a Deus, os trabalhadores brasileiros não estariam na reta em que estão. (Aplausos)

(AG) Que a proposta que o companheiro Devanir falou, que exatamente a proposta nossa é essa. Acho que tem que ter, ouvir os trabalhadores. E quando eu falei que estava cansado de ouvir, não os trabalhadores, eles nós nunca cansamos de ouvir. Estava cansado de ouvir era de gente falando em nome deles. Os trabalhadores, nós temos que ouvir, e bastante, e não vamos cansar nunca. Acho que a proposta é essa mesmo, nós temos que discutir com os trabalhadores. E eu acho que inclusive a greve é um caminho, agora, ouvindo os trabalhadores e discutindo com eles.

(EN) Aqui agora as perguntas para o Hugo. Eu também vou ver se consigo junta-las numa só. Uma pergunta é: a caracterização do momento histórico em que vivemos, que caracteriza a um refluxo generalizado do movimento operário? A eclosão hoje da greve da Ford, em São Bernardo, pode significar uma alteração relevante nas condições objetivas dessa caracterização? E a outra é assim: porque você diz que há descenso o movimento sindical, quando a Fiat, os médicos e agora a Ford fazem greves que mostram o real sentido de continuidade e ascenso das lutas? (Pausa)

(HP) No momento histórico que vivemos, limitar-se-ia a um refluxo generalizado do movimento operário. Bom, aí eu não digo o momento histórico que vivemos, quer dizer, do ponto de vista da crise, o que eu quero dizer do refluxo, é exatamente da ainda falta à débil organização dos trabalhadores nos locais de trabalho, a ausência de comissões de fábricas, delegados sindicais pelos motivos que todos conhecem, as dificuldades de se negociar isso. Então, no momento em que nós atravessamos uma crise qualquer, uma crise que se ameaça desempregar trabalhadores, eles normalmente refluem é natural isso, gradual. Isso que nós falamos não é baseado num momento brasileiro, mas em todos os momentos da história do mundo. Há aquele movimento de ascenso, e de vez em quando de descenso. Nesse sentido é que eu quis dizer. Nós atravessamos um momento de crise, como ainda estamos debilitados na nossa organização de base é que faz com que os trabalhadores refluem normalmente. Eles entrem em descenso, daí eu ter citado o descenso do movimento sindical, mas não que isso é um momento histórico, pelo contrário, é alguma coisa que nós temos que apagar da nossa história. Sabe, toda vez que nós entramos em descenso, por qualquer razão que seja. Bom, a eclosão hoje da greve da Ford de São Bernardo, poderia significar uma alteração. Na verdade, ele está sendo acuado quase que derradeiramente. Ele não tem uma saída. Ele está com um salário baixo, preço subindo, situação, uma série de problemas. E ainda com ameaça de desemprego. Se perder a miséria ele ganha. Quer dizer, tal qual um gato, ele não tem saída, bom, ele pula para frente. É esse meu modo de entender as coisas, é assim que se coloca a greve da Fiat e a greve da Ford, entende, que tem o seu ponto positivo, a greve dos médicos, não me parece que tenha sido nesse sentido. Greve da Fiat foi trabalhador empregado defendendo o seu emprego, e contra demissão de outros companheiros. Uma greve de solidariedade. A greve da Ford da mesma forma ela está se colocando. Na medida em que se demitem quatrocentos, nove mil passam a defender esses, e defender o seu próprio emprego. Ele está acuado, e fala o próximo sou eu a entrar no facão. Quer dizer, não tem saída. Ele pula para frente. Isso não é um ponto positivo? Eu acho que é um ponto positivo, e deve ser aproveitado pelo movimento sindical. Mas, para mim, ainda eu volto a repetir, pode ser que daqui até a data fatal de 1º de outubro, sabe, nessa progressão geométrica, conjugando crise com trabalhador, pode até dar numa greve geral. Pode até dar, viu? Agora, são ainda, infelizmente, apenas duas exceções que vem confirmar uma regra, esperamos que ela passe a ser regra, por enquanto não é. A greve da Fiat e da Ford são duas exceções nesse movimento, no meu setor, por exemplo. Isso recordando até que o companheiro falava aqui no caminho que o trabalhador deve seguir, entendeu? Você fala essa palavra, lá você está morto. Você fala ou faz colocações, como o companheiro falou, está morto. É um setor essencial, é um setor considerado super essencial, onde os trabalhadores sofreram uma lavagem cerebral.

(CA) É o problema segundo eu, um é aspecto programa que é oferecido aos trabalhadores para poder exprimir a sua posição. A experiência, sem dúvida nenhuma, é da prática social. Quer dizer que é preciso fazer um levantamento hoje. É um tema importantíssimo, e compreender perfeitamente qual é a composição dos atuais partidos políticos, como classe, como origem social. Ora, é uma sociedade elitista brasileira, que acaba sempre atribuindo função dirigente a categorias sociais que não são a classe operária. Basta dizer, a exclusão dos analfabetos do processo eleitoral, para compreender que nós temos pelo menos um terço da população morta civilmente no país. O problema de chamar a votar com trabalhadores é importantíssimo. Eu posso dar um exemplo de como isso se apresenta em casos concretos, há muitos. É aquilo que se chama de liberdade sindical, o direito das organizações sindicais de terem suas opiniões sobre os problemas políticos, e sobretudo sobre os critérios da eleição. Ora, isso aqui é possível e é claro que eu creio pessoalmente que é uma evolução, que já teve no passado brasileiro alguma experiência. Várias vezes os sindicatos tiveram a presença, a possibilidade que para poder fazer avançar o papel da classe operária na sociedade política, quer dizer, na gestão parlamentar, relativamente do Estado, apresentarem candidatos com passe operário. Mas eu acredito que é um processo de evolução. Mas a maior dificuldade é que hoje no Brasil não existe liberdade partidária no sentido de expressão democrática da vontade popular. Basta pensar no critério seguinte, como um partido popular, como por exemplo, partido de classe operária, ou que tenha muita classe operária dentro, pode se organizar? Tão grave a situação, que eu dou o exemplo da Itália e da Alemanha, onde exatamente para evitar que a burguesia, que tem recursos financeiros para manter partidos para viver a sua política. Hoje, nas sociedades desses dois países, os partidos políticos recebem subvenção do Estado e ninguém vai dizer ai, que esses partidos são atrelados ao Estado. É que se reconhece que a democracia, para ser verdadeira, deve dar a possibilidade, inclusive às classes populares, os operários, os camponeses, de terem uma expressão de organização política. Quer dizer, a questão é muito importante, mas quem sabe é um dos temas da CONCLAT, quando se fala em questões nacionais. É exatamente a liberdade. E contradizendo o que eu disse na primeira frase, a democracia para os trabalhadores, para o povo, para nós todos, é uma questão concreta, e a liberdade política também. Não é a liberdade passiva de seguir uma política, de uns ou de outros, é de fazer política.

(Vânia) É quase complementando o que o companheiro De Angelis falou, e concordando também, porque nós não somos iluminados, não. Os dirigentes sindicais não são líderes sindicais, no meu ponto de vista. Então, eu queria recordar um pouco, o passado recente do Brasil. No início da década de 1960 praticamente o programa político de conciliação de classe, e se baseando muito, confiando muito na liderança da burguesia, sem analisar concretamente a situação internacional, e inclusive os interesses burgueses. O que é que resolveu, o que é que deu isso? Deu o golpe de 1964. As lideranças políticas que apoiaram realmente essas forças, e não tiveram muita ponderação, ou não se apegaram muito na preparação do povo brasileiro para a democracia. E entre os trabalhadores o que é que tem de imediato? Em 1964 os trabalhadores perderam o direito de greve, em junho de 1964, e em 1965 perderam a estabilidade. E o que é que os trabalhadores ganharam? Ganharam prisões, asilos, morte de grande parte de seus líderes sindicais, intervenção nos sindicatos, arrocho salarial. E logo no fim da década de 1970, eles ganharam o AI-5. Aqui, voltando um pouco ao começo da década de 1970, quando o governo saía para arrecadar recursos para financiar o progresso brasileiro, eles sabiam o que? Volta e meia eles falavam, o grande país social, e que o país era? Nesse mundo capitalista tumultuado, e o que é que os trabalhadores querem na primeira CONCLAT? No meu ponto de vista, os trabalhadores querem um programa político de luta contra a crise que nós vivemos. Uma crise que inicialmente era apenas econômica. Hoje é no setor industrial também. Porque o desemprego existe e sempre existiu, mas não tanto quanto hoje, e daqui a alguns anos nós teremos uma crise agrícola. Haja visto que os produtores de café estão rezando, acendendo velas para almas para ter uma geada esse ano. Porque eles estão com vinte bilhões de toneladas de café, entendeu, ali abarrotadas e os preços estão baixando. Então, pediram já abaixo o confisco ao café. E o que é que os trabalhadores também querem? Querem formar uma organização unitária que possa levar suas propostas políticas. De provar que essa crise não foi gerada pelo trabalhador. Como poderia entrar aqui nesse momento o problema da democracia? Como que vai ser a CONCLAT para dar um marco diferente de como os trabalhadores devem participar da democracia. Os trabalhadores sabem que esse regime, que o governo e a classe dominante no país não teriam nenhuma linha das suas leis para defender os interesses dos trabalhadores. Isso nós temos muita consciência. Pode ser que os líderes sindicais não tenham. A CONCLAT deve, no meu ponto de vista, se empenhar e deve levantar as bandeiras de amplas liberdades políticas. É o momento do trabalhador, inclusive, de todos os líderes sindicais e trabalhadores realmente darem uma lição de democracia. Tentamos fazer uma análise das condições objetivas de compreensão e mobilização em que nos encontramos. Nós não temos medo de dizer realmente, e aí concordo um pouco com o Hugo, não muito com o que ele falou na íntegra, mas eu acho que o grau de desenvolvimento econômico e o grau de consciência alcançado pelo proletariado brasileiro e das lideranças sindicais, realmente é impossível levar os trabalhadores hoje direto para o socialismo. E o socialismo, não. Só tem um caminho através da democracia. E como os trabalhadores podem conquistar a democracia hoje? Se não lutamos por amplas liberdades, e quais são as liberdades que os trabalhadores precisam? Precisam de uma constituinte, que sejam eleitos delegados pelos trabalhadores, pelo povo todo, entendeu? Intelectuais. Os analfabetos, principalmente. Porque os analfabetos sabem trabalhar, sabem viver. Porque não sabem votar e eleger seus delegados legítimos? E qual a função desses delegados na constituinte? De constituir leis que os representem. Os trabalhadores na CONCLAT não podem se restringir apenas à discussão de A ou B, de partidos políticos. Hoje falam na constituinte, e os trabalhadores têm obrigação de falar sobre ela e discutir e prepara-la.

(EN) Eu queria comunicar aos presentes que estão aqui no sindicato dois jornalistas, da Nicarágua, o Roberto Gonzales e Alberto Rejes. (Aplausos) Eles estiveram aqui até há pouco. Eu demorei para fazer o aviso, mas de qualquer forma vale a nossa solidariedade a eles, e ao seu povo. As perguntas aqui na mesa, segundo o entendimento daqueles a quem elas foram dirigidas, já estão suficientemente esclarecidas. Se alguém quiser colocar mais alguma questão, ainda é tempo.

(HP) Rapidamente, tem uma pergunta do companheiro aqui: porque da superioridade dos trabalhadores rurais em relação aos urbanos? É isso? O problema é o seguinte, os sindicatos rurais são muito mais pobres que os urbanos. Já começa por esse quadro. Em segundo lugar, os camponeses são muito mais espalhados que os trabalhadores urbanos. E por maior número que tenha de empresas, de indústrias, etc., está dentro de uma determinada base territorial, de uma cidade, entendeu? De bairro. O que não acontece com o trabalhador rural. Quer dizer, espalhado no meio de canaviais, de plantações de café, etc. É muito difícil para o sindicato organizar, conscientizar, reunir esses trabalhadores. Então, daí nós entendermos que eles estão muito mais avançados, na medida que pelo menos uma coisa, eles falam a mesma língua no território nacional inteirinho. Eles fizeram, por exemplo, duas greves importantes. Em 1979 e 1980. Canavieiros e a de Pernambuco. Todo mundo acompanhou, que foi a maior dificuldade. Sofrendo a maior repressão, levando tiros, coisas desse tipo. No meio do mato, sabe? E que nós não ficamos sabendo claramente por aqui. Então, nesse sentido é que nós dizemos, quando eles respondem a uma convocação, a uma consulta nossa, quando eles participam de uma reunião, nós percebemos que eles estão muito mais organizados. Muito mais avançados, bem mais na nossa frente, com muito menos dinheiro e com muito mais vontade.

(EN) Eu queria agradecer a presença de todos.

(Diretor do Sindicato dos Engenheiros) Eu gostaria de me apresentar, sou diretor do Sindicato dos Engenheiros, e o plenário está bastante esvaziado. Eu queria fazer uma avaliação, a todas as pessoas do plenário que participaram, mandando questões para a mesa. Queria só colocar, só uma realidade. Esse debate foi organizado por quinze sindicatos de categorias de nível superior, que são engenheiros, jornalistas, psicólogos. Porque nós temos claro que cada um desses sindicatos é fraco, e não vai sozinho conseguir fazer assembleias para se eleger seus delegados, para que a CONCLAT seja representativa. Essa foi a intenção desse debate. Agora, nós sentimos claramente aqui que as pessoas que participaram, nenhuma teve a preocupação em falar o que que eu posso fazer para contribuir para que essa CONCLAT realmente aconteça, e que ela seja democrática e representativa? Nós viemos aqui discutir ideologia, porque que os trabalhadores rurais são mais fortes que os urbanos, constituinte, greve geral. Coisas que ainda estão para passar, pessoal. Nós vamos discutir esses temas lá na CONCLAT. Nós temos que hoje lutar para que saia essa CONCLAT. Nós temos que ver o que que nós podemos contribuir para acontecer. É esse o objetivo. (Aplausos).

(EN) Eu agradeço a presença dos oradores, em nome dos sindicatos que promoveram essa reunião. Muito obrigado ao Hugo, ao Arnaldo, ao Devanir e ao De Angelis, e aos senhores que ouviram e participaram do debate.

Arquivo Centro de Memória Sindical

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