Hugo Perez, fala sobre como foi a Conclat

01 jul 2021 . 16:02

Hugo Perez com Annez Andraus na década de 1980. Acervo pessoal Hugo Perez.

Neste depoimento gravado em 2006, no projeto dos 50 anos do Dieese, o eletricitário Hugo Perez, fala sobre como foi a Conclat, desde o momento em que ele teve a ideia, até sua realização. 

Hugo Perez (2006 Memória Dieese)

CONCLAT

Nesse ano mesmo, no dia sete de novembro de 77, foi um negócio interessante. Naquela época, o governo militar bolou uns cursos pra dirigentes sindicais. O Ministério do Trabalho, oficialmente,  dava os cursos. Iam pra lá 200, 300 dirigentes sindicais. A cada mês era um Estado diferente que mandava sindicalistas. E nós já estávamos aqui em São Paulo na luta pela reposição. E o delegado do trabalho naquela época, que era Vinícius Ferraz Torres, já morto, também. E era um homem bom. Mas o cara era tão bom, tão bom que ele era ingênuo. Caiu na ingenuidade. Na inocência dele, São Paulo manda lá 250 dirigentes sindicais para fazer o curso. E vai lá, tal. A minha federação não indicou ninguém. Ah, nem, nem sabia disso. Aí, o Vinícius me chama na Delegacia do Trabalho: “Oh, Hugo, preciso que você fizesse uma coisa. Por mim, pela delegacia e, porque não dizer, por São Paulo”. “E o que é, doutor Vinícius?”. “Não, é que tem esses cursos assim, assim, assim. Eu gostaria… Porque depois, quando acaba o curso, eles vão visitar o Presidência da República. E lá precisa um orador, e eu queria que você fosse fazer o curso”. “Ah, doutor Vinícius, por favor. Eu não vou fazer esse curso”. “Não, você está nessa luta aí, mas… Faz isso. Vai pra lá! Vai no último dia, que é pra você ser o orador”. “Doutor  Vinícius, o senhor sabe o que o senhor está pedindo pra mim?” Ele  respondeu: “Claro! Você vai ser o orador”. Eu falei: “Está bom, eu vou.” O caldeirão já tava fervendo. Aí o homem me pediu isso. Não deu outra. Cheguei lá no último dia, de manhã, falei um pouco pra mostrar um pouco da voz. Falei um pouco em nome desses 250 dirigentes sindicais, foi que eu lancei a idéia, fiz a proposta, e mais do que isso, reivindiquei que os trabalhadores tinham o direito de fazer o seu congresso nacional. Porque os patrões tinham acabado de realizar o seu e, na verdade, parece que a história depois mostra que a Conclap que já existia, Congresso Nacional da Classe Produtora. Eu falei: “Ah, patrão tem direito de se reunir intersindicalmente, porque os trabalhadores não tem. Então eu estou reivindicando aí essa, essa possibilidade da gente…”  E ali nasceu a idéia do Congresso das Classes Trabalhadoras Conclat. Eu não tinha idéia do que tinha feito. Vou falar a verdade pra você. No dia seguinte, foi manchete dos jornais de Brasília, Folha de São Paulo, Estadão, aqui em São Paulo. No outro dia, seguinte, editoriais, eu tenho todos guardados. Editoriais: “Porque, afinal de contas, a classe trabalhadora tem seu direito mesmo”, tal. E aí, a mídia começa a usar a gente. A gente falava qualquer porcaria, era manchete. Porque tensionando contra a ditadura e a imprensa nos ajudando.

No dia 19 de novembro, eu me casei, meu segundo casamento. E viajei, fui na Praia Grande, na nossa colônia de férias, pra ficar lá acho que quatro, cinco dias, tal. Quando eu voltei, o Vinícius, cheguei lá: “A Delegacia do Trabalho está te procurando”. Eu liguei. “Não, o doutor Vinícius  quer falar com você”. “Não, não, eu vou pessoalmente”. Aí eu fui lá, falei: “Oh, doutor Vinícius, o que  houve?”. “Não… doutor Aloísio Simões teve aqui…” O doutor Aloísio era o ex-delegado do trabalho, de São Paulo. Naquele momento, entra o Vinícius e ele vai pro Ministério. Ele é o Secretário de Relações do Ministério. E o homem era um aristocrata, só faltava usar um monóculo. Bigodinho branco, coisinha e tal. Chegava na delegacia, funcionários, dirigentes, todo mundo tinha que descer. Ele subia sozinho no elevador. Na hora de descer, mesma coisa, só descia sozinho. Aristocrata, parecia aqueles alemães da Gestapo, aquela coisa. Um radical de direita mesmo.. Aí, ele falou: “Doutor Aloísio Simões de Campos teve aqui. Veio falar com o senhor, para o senhor parar com essas reuniões”. Falei: “Não, eu vou a Brasília falar com ele”. Ai ele me disse: “Não precisa. Imagina! É só o senhor parar com as reuniões”, tal. E eu falei: “Não. Não dá pra parar”. Porque a imprensa caiu em cima, querendo saber quando vai sair essa tal de Congresso da Classe Trabalhadora. E aí surge a palavra Conclat. O repórter Julinho de Grammont foi me entrevistar, na época ele trabalhava na Bandeirantes, e ele falou: “é, então vamos realizar a Conclaper né?” Eu perguntei : “O que é Conclaper, Julinho?” Falou: “é, o Congresso da Classe Realmente Produtora” (RISOS). Realmente produtora, que são os trabalhadores. Falei, “Não, esse nome não dá”. Mas aí surge a idéia da Conclat, Congresso Nacional da Classe Trabalhadora.

Aí, eu vou pra Brasília, vou falar com o doutor Aloísio. Do jeito que ele tava sentado, ele ficou. Eu entrei, parei de pé na frente da mesa dele. Nem levantou os olhos. Só quando eu entrei, e continuou assinando pastas. Aí, tirou o óculos, então botou a pasta de lado, e falou: “Senhor Hugo, vamos direto ao ponto. O senhor anda fazendo reuniões intersindicais”. “Sim”. “O senhor sabe que isso é proibido por lei”.”Ah, sim. Proibido”. “Nós estamos tentando organizar a Conclat.” “Que Conclat?! Que é isso? É proibido por lei reunião intersindical! Eu não admito!” Falei:  “Doutor Aloísio, o senhor viu a entrevista do ministro Arnaldo Prieto dizendo que achava justo…” “Isso tudo é coisa pra imprensa! Nós estamos falando de lei, senhor Hugo. Ou o senhor pára com essas reuniões intersindicais ou eu vou intervir na federação”. Falei: “Doutor Aloísio, eu vou dizer pro senhor. É difícil parar. Impossível. Porque tudo quanto é sindicato agora está se reunindo, vai lá e quer saber das coisas. Mas eu gostaria de dizer uma coisa pro senhor. Não intervenha na federação, o meu secretário geral é o doutor José Cabral. Foi juiz do trabalho, foi presidente dos Eletricitários, grande amigo seu. O meu tesoureiro, presidente do Sindicato do Gás, advogado, juiz classista, vogal na Justiça do Trabalho. Grande amigo seu. O senhor vai prejudicar e aí, isso aí. Se o senhor quiser, cassa meu mandado. Mas não intervenha na federação, não. O senhor vai prejudicar amigos seus. É só isso, Doutor Aloísio?”. “O senhor verá!” Eu falei: “Passar bem, senhor.” Virei as costas e fui embora pra São Paulo.

E ele não cassou meu mandato. Claro que não cassou. Aquela altura eu já tava como presidente do Dieese. E a coisa continuou. Mas, quando chega dia 12 de maio, eclode a primeira greve. 12 de maio de 78, na Scania-Vabis. Um diretor lá, do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, era o Gilson Menezes. E aí, aquilo vai, um rastilho de pólvora. São Paulo, interior, depois, outros Estados, tal. Na verdade, logo depois em 78, isso eu estou falando 12 de maio. Em junho, teve o V Congresso Nacional da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria (CNTI), no Rio de Janeiro. O presidente era o decano dos pelegos do Brasil, Ari Campista. Um homem que era um enólogo, um “connaisseur” de vinhos. Matérias de revistas importantes, tinham entrevistas com ele, falar de vinho. Pois esse é o grande líder operário. E nós fomos pro Rio de Janeiro, nos organizamos aqui, lá nos Metalúrgicos de São Bernardo. Bolamos lá um estatuto mais democrático, um regimento mais democrático para o congresso, e fomos para lá. E lá, eu me lembro da manchete de um jornal, eu não lembro qual o jornal na época, “Geisel…” O Geisel foi abrir o V Congresso. Presidente da República. Foi lá e abriu. E o jornal definiu muito bem numa manchete: “Geisel virou as costas”. Foi a manchete do jornal. Quando o Geisel virou as costas, o pau comeu. Eu me lembro que convidado para palestrante do congresso, o ministro Arnaldo Sussekind. Jurista do trabalho, reconhecido e respeitado. E me coube a tarefa de subir no palco, e o pau comendo, aquelas coisas todas no plenário, e pedi. Eu pedi desculpas a ele: “Doutor Arnaldo, eu lamento, mas o senhor não vai falar. Não vai. Nada contra o senhor, como senhor está vendo. Tudo a ver contra o congresso. Aliás, desculpa, contra a forma que o congresso vai se realizar. Então, enquanto a gente não resolver essa pendência, o senhor não fala”.

E ali rolou, esse negócio todo. Primeiro dia, realmente não houve congresso. Não me lembro mais se no segundo teve. Mas ali aconteceu um fato também pitoresco. Foi no campo, foi no ginásio de esporte do São Cristóvão. E lá dentro do ginásio, o Ari Campista montou uma tenda de plástico, de lona, muito bem feita, muito bonita, com ar condicionado. Já no dia seguinte, acho que foi, fim do dia: “Precisamos conversar” para o Ari. Então, o Ari Campista falou: “Tira aí uma delegação e pode vir conversar comigo, então”. Aí, fomos lá. Então. Lula, eu, Jacó, o Arnaldo. Nós quatro é certeza que estávamos nessa comissão. Aí, o Ari Campista sentado, como sempre muito elegante, terno, gravata, piteira:”Como vão companheiros? Por favor, sentem-se”. Aí, nós começamos: “Não, vamos fazer assim, não sei o quê”. O Ari Campista olhando, tal: “Bom, eu sugiro que os senhores pude…” “Não!” Aí eu falei uma coisa, o Lula falou outra: “Não, pá-bá-bá-bá!” E uma  pequena discussão entre nós. (RISOS) Disso o Lula se lembra até hoje. O primeiro tapinha. “Um minutinho, por favor, companheiros. Eu pediria aos colegas da imprensa que não registrassem essa distinção entre nós, que é muito desagradável”. Ai, ai. Eu nunca me esqueço! Na hora, deu vontade de bater nele, mas depois a gente ria muito. O Ari Campista era fogo. Aí, aí, sim vai mostrar como é que é o negócio. Fomos todos, acertamos como é que era: “Nós vamos apresentar a nossa proposta de regimento, você apresenta a sua, que você já tem, tal. Mas deixa a gente colocar a nossa proposta, defender a nossa proposta, depois você põe em votação, Ari”. “Não, claro, claro. O que nós estamos combinando aqui está combinado. Está fechado”. “Então, vamos pra lá”. Fomos pro palco, subi no palco, tal. E os companheiros me indicaram pra fazer a leitura de regimento, tal, e, não me lembro mais, mas dois ou três de nós faríamos a defesa do regimento. Está bom. Aí o Ari Campista, pediu silêncio, plenário todo em silêncio. Ele virou e disse assim: “Companheiros, eu queria dizer que nós conversamos aqui com os companheiros fulano, fulano e fulano, grandes lideranças, e nós vamos proceder da seguinte maneira. O nosso, o meu regimento, o regimento da CNTI vocês já tem, já conhecem. Então, o Hugo Perez vai ler o regimento deles, e em seguida eles irão defender a proposta. A votação se dará da seguinte forma. Quando for votar, quem estiver favorável ao regimento da CNTI, virá pra cá com a…” Quando ele fez esse gesto. Ah, mas quando ele fez isso, eu parti pra cima dele e fui abraçado por um daqueles trogloditas, entendeu? Ali eu perdi a cabeça, ali eu perdi, entendeu? Daí é jogada demais. E aí, eu parti, mas parti de uma distância razoável, em cima de um palco enorme, mas eu não dei, acho que não dei três passos, quatro passos. Pá! Ele me abraçou. Eu ia pegar o Ari aquele dia, mas ia. Mas eu fiquei cego de raiva, a manobra que ele fez. “Primeiro eles vão ler, entenderam? Depois que eles lerem e defenderem, aí nós votaremos. E a votação se dará assim, ó! Não vai ser levantando a mão. Os que forem favoráveis a CNTI virão pra cá e os que forem contrários…”

Mas não precisou nem fazer o segundo gesto, ele bateu os olhos e falou: “Ganhei!” Pronto. Eu fiquei louco, fui para cima mas fui detido pelos seguranças. Esse era o velho Ari Campista. Isso foi em junho. E coisa estava feia, porque no setor de energia elétrica, nós agitávamos muito. Estávamos fazendo uma agitação muito grande. É, o presidente do sindicato nessa época ainda não era o Guimarães. Mas o Guimarães, também, começou a ver a pressão que era. Quando vinha a idéia de Conclat, aquela coisa toda. Para começar que já ficaram abespinhados, porque na luta pela reposição salarial, quando ela começou, se não me engano foi o Lula mesmo, metalúrgico de São Bernardo, é só olhar aí os documentos do Dieese, vocês verão que eles pediram o estudo pra ver qual tinha sido a perda, havia sido a perda. Ah, se não me engano, a minha entidade, a federação, foi a segunda que pediu. E quando pediu, ela não pediu Eletricitário, ela pediu Eletricitário, Água e Gás. O da Água não chegou a ser feito porque eu retirei o pedido porque o presidente do Sindicato da Água, na época, da Sabesp, ele era do Partido Democrático Social (PDS), era Malufista. E aí começamos a fazer trabalho na base. E, pelo atropelo, não dava tempo de fazer aquela, aquela senhora organização de base. E o movimento foi decrescendo. Muito bem. Quando a coisa… Voltei do Rio de Janeiro, a base aqui em São Paulo da Light já tava razoavelmente inflamada. Ao mesmo tempo, eu fui pra o interior. Por quê? Eu, presidente federação foi junto com o Sindicato de Campinas, de Energia Elétrica de Campinas, que o presidente era o Felício. E aí eu começo a correr quem? Cesp.

E fomos até Água Vermelha, que tava em construção ainda, Ilha Solteira, Juquiá, Primavera, ali nessa época tava também em construção. Barragem ainda. Aí veio subindo pelo Paranapanema, que aí já é o Sindicato de Pauçu , mas ali tem a usina de Capivara, tem a usina de Itapavi.  Vem subindo. Então, eu diria para vocês que o pessoal tava muito mobilizado.  E aí, é que começa, abre as negociações. Sempre botando, ou tentando botar a Light como, o carro-chefe. E a Light diz que: “Não. Eu sou empresa privada. Se qualquer empresa estatal der, a gente está junto. Eu não vou dar não. Nós já estamos na mira do governo, por ser empresa privada. Já não temos remuneração adequada do capital. Sei lá o que querem fazer com a Light”. Claro, porque nos bastidores já devia estar aquele negócio de comprar a Light, aquelas coisas. Então, “Não dou, não. Não dou, não”. Aí o representante da Light, chegou numa dessas negociações e disse: “Olha, vocês façam o que vocês quiserem, vocês podem até mudar o nome da empresa, mas eu não dou um tostão”. Quando acabou a reunião, fomos para o corredor, tal. Quer dizer, aí já é informal, e aí que as coisas acontecem. Doutor Rui Bessoni Pinto Correia, diretor da Light no Rio. Eu falei: “Doutor Bessoni , afinal, porque vocês não dão?” “Não dou, mesmo. Claro que não dou. Faz a Cesp. A Cesp não é do governo? Ué, o governo é governo, dá o aumento para vocês. Não precisa nem vir no Rio. Só telefonar e falar, ó: ‘O aumento foi de 13,1? 13,1! Foi de 12,8? 12,8! Igualzinho. E quem que mandava na Cesp? O vice-presidente executivo, Capitão Guimarães do exército. É o homem que mandava, era executivo. Como se diz, presidente executivo. Eu nunca me informei na história, é, então fica… Mas precisavam checar. Falavam na época que foi um dos fundadores, idealizador da operação Bandeirantes, a Oban. Que foi um órgão anterior ao Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi). Dizem, mas não sei. Mas esse era o homem. E eu, eu não batia com ele, rapaz. Era os dois se encontrar, saía faísca. Porque um dia ele disse, numa mesa de negociação: “Sindicato, pra mim, é pra cuidar de colônia de férias e dentista. O reajuste é decretado. Por que vocês ficam enchendo o saco?” E eu me levantei da mesa, eu não era presidente da federação ainda, o Navas era presidente, dali começou. Aí, a gente começou a incendiar a Cesp. E nada de negociação. Aí eu me lembrei daquele episódio da Scania-Vabis que não queria negociar. Aliás, ela queria negociar e a Volkswagen não deixava, pra não abrir precedentes. O Lula falou: “Bom, então vamos parar a Volkswagen, ué”. Parou a Volks.

Aí sentou. Aí sentou, ela e a Scania e o que mais veio. Eu me lembrei desse episódio e falei: “Puxa vida, eu, eu nunca procurei, eu vou procurar o sindicato patronal”. Nunca tivemos contato, não sabia nem o nome. E o presidente do sindicato patronal era o presidente também da Associação das Empresas de Energia Elétrica, que era mais conhecida, tinha revista, tudo, que o próprio sindicato. E ele era dono de três… Dono na época, acho… Não sei se ele era dono ainda, hoje é dono. De três empresinhas de energia elétrica. A sede é na Alameda Campinas, fui lá, marquei com ele. Falou:”Ó, pode vir conversar”. Cheguei lá, era um moço. Moço. “Que  você quer?” Eu falei tal, tal, “Você não me conhece?” “Não”. “Eu tenho visto você, tenho ouvido falar etc. etc.” “Que você precisa?” Falei: “Negociar”. “Ué, e por que não estão negociando?” Eu falei: “Mas a empresa não quer negociar. Nem a Light, nem Cesp.” “E agora?” Eu falei: “Ué, a base está conflagrada”, para usar uma palavra. “Sei, mas, você tem controle disso”.”Nenhum. Não tenho nenhum”. “Mas, como não tem?” “Não tenho. A gente sai fazendo assembléia. Você acha que dá tempo de organizar militantes bons, cabeças, tal? Eu vou te contar um episódio que o senhor não sabe. Na usina de Capivara, fiz assembléia quatro horas da tarde. Parou a usina, pararam assim. Parou tudo. E veio pra assembléia”. “Sim. E daí?” “Eu estou lá falando com o pessoal, explicando, tal, a idéia da negociação, que a gente tinha tido tal perda, tá-tá-tá. O senhor não sabe quem se levantou na primeira fila, não tendo nenhum conhecimento do que é regra de assembléia, nada, ele falou: ‘Dá licença, aí, companheiro!’ Levantou e virou pra trás: o engenheiro. E disse assim: ‘Oi, turma. Lá em São Bernardo, pararam um torninho. Já imaginou aqui nós parar a máquina?’ Falou desse jeito. Pô, uma máquina geradora”. Eu falei: “Ó, doutor fulano. Quando ele falou isso, a água da represa até tremeu. Mesmo sem desligar, ela balançou sozinha”. “Mas eu acredito”. “O que o senhor pode fazer? Dá pra chamar o pessoal? Pra negociar, tal?” “Me dê dois dias”. “Está bom”. No final de dois dias, ele me ligou e falou: “Hugo, vamos negociar!” Eu falei: “Aonde?” “Aonde você quiser”. Falei: “Aqui na federação”. “Está bom”. “Quem?” Ele falou: “Todos! Todos. Cada empresa mandará um diretor”. “Ah, é? Depois de amanhã? Está bom”. Desliguei o telefone e disse: “Muito obrigado, doutor Carlos Eduardo Moreira Ferreira”. E depois veio a ser o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), deputado federal e agora é o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), nesse momento. É o presidente em exercício da CNI. E ele realmente trouxe o pessoal. A gente tem que falar as coisas. História é história. Ele trouxe o pessoal e falou: “Vai lá porque não é nem o Hugo mais”, isso ele me contou depois. “O Hugo você pode matar, fazer o que você quiser, não tem importância. Então, no dia 15 de setembro, na hora chamei o Dieese. Chamei o Dieese pra me assessorar, na época, o técnico foi o Maurício Soares. E foi feito o acordo, o primeiro em, desde 64. No dia 15 de setembro de 1978, saiu o primeiro aumento salarial dos eletricitários do Estado de São Paulo.

A coisa vai caminhando. 80, 79, greve de novo, 80, aquela bruta greve outra vez, tal. E quando foi em 81, e eu tenho esses documentos, houve uma reunião em São Bernardo e o Lula veio conversar comigo e disse: “Ou a gente vai fazer a Conclat ou então pára de falar disso!”. Porque aquilo virou bandeira de movimento de oposição sindical, de situação: “E a nossa chapa vai fazer a Conclat” ou “vai participar”. Bom. Aí, eu vim de São Bernardo, Nós tivemos que ir lá, pra um outro negócio. E lá decidimos fazer uma grande reunião pra eleição das comissões já. Essa reunião aconteceu no Sindicato dos Químicos da Tamadaré. Tava lotado o plenário. E ali foram eleitas as comissões de Imprensa, etc. E a mim coube a organização, a Secretaria de Organização foi montada na federação, na Rua Machado de Assis. Dessa comissão, me lembro bem de quem participava, Edson Campos, que hoje é assessor da Central Única de Trabalhadores (CUT) e está em Brasília. Ele era bancário em São Paulo. A Sílvia Portela, Edson Campos, mais alguns companheiros, e eu.  A gente organizou a Conclat. E ela foi realizada nos dias 21, 22 e 23 de agosto de 81. Compareceram 5036 delegados. Nós estávamos preparados para 2500 delegados. Na colônia de férias, tudo pronto pra 2500. Muitos companheiros não quiseram ceder a colônia para gente fazer a Conclat. Receio da ditadura, aquela coisa toda, tal. Mas Deus não é só brasileiro. Deus também é sindicalista. Em agosto fez um calor, rapaz. Um calor na praia. Aqueles que não tinham acomodações, dormiram na praia. De manhã cedo, está aquela turma assim parada, olhando o mar. Solzinho ainda fraquinho. Aí você, de repente um faz assim, pega a água do mar, põe na boca: “Salgado”. Não conheciam o mar!  Veio gente dos mais distantes rincões desse país. Delegados da Conclat. Grande momento! Grande. Ali houve o famoso racha. Só soldado e consolidado com a eleição da Comissão Nacional Pró-CUT e os companheiros não queriam de forma nenhuma que o Joaquinzão fizesse parte lá. E se vocês olham a delegação, a representação de São Paulo, na Comissão Nacional Pró-CUT, não está o Joaquinzão. Somos, acho, que em cinco lá, cinco. Isso foi em 83. Eu saí da federação. Fui, na verdade, derrubado, da federeção. No que eu saio de lá da saio também do Dieese. Claro, não podia ficar aqui.

Hoje eu faço um balanço positivo. É evidente. Com todos os problemas que pudessem ocorrer, mesmo eu não achando que sejam problemas. É uma luta política. Você tinha duas grandes vertentes na época. Você tinha os dirigentes que eram próximos, simpáticos ou filiados, ou dirigentes do próprio Partido Comunista Brasileiro. Que tinha lá uma proposta de condução da luta sindical, dentro de um governo ditatorial etc. E tinha os outros companheiros, que tinham uma outra visão, que achava que tinha que bater mais, que devia tensionar mais. Devia fazer greve, mesmo. E se a greve era de dez dias, se pudesse esticava mais um dia. E existia a terceira que eu digo dos independentes ou indiferentes, sei lá como podemos chamar melhor isso. E isso foi desaguar dentro da Conclat. Um racha que não se conseguiu colar até hoje. E qual foi o pontozinho? Que eu precisava de um pé de frango para fazer um almoço, qual foi esse pé de frango? A Conclat na Praia Grande, o plenário decidiu realizar o congresso por quê? Porque aí tem um detalhe. A Conclat virou Conferência Nacional da Classe Trabalhadora, que o nome oficial não é congresso, não. É conferência. Por quê? Porque claro, nós, entre nós, chegamos à conclusão que a gente não tinha competência para convocar ninguém. Tinha federações, confederações. Está bom. Então, nós vamos fazer um convite. Então, virou uma Conferência Nacional da Classe Trabalhadora, certo? Ela reunida, imagina se não, está uma conferência daquela com cinco mil e 36 delegados, ela aprova o que no ano seguinte? Um congresso. Nasceu. Nasceu a Comissão Nacional pró-CUT.

Passados 20 anos da Conclat, era necessário uma comemoração,  o Dieese topou essa tarefa. E aí, se realizou. Eu ajudei procurando companheiros por esse Brasil afora, por telefone, aqui, ali. Uns não puderam vir, outros eu não consegui localizar. O Dieese localizou um monte. Mas, o importante disso é que você veja a importância que teve. Mesmo que não tenha vindo todo mundo, mas estava lá o companheiro Lula, foi. Foi na assembléia legislativa aqui em São Paulo. Bom, Olívio Dutra. Por quê Olívio? Porque é governador. Governador do Rio Grande do Sul e se abalou do Rio Grande até aqui e veio naquele dia, ali, se confraternizar com os velhos companheiros.

Leia aqui o depoimento completo 

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