João Saldanha

11 jun 2026 . 00:09

João Saldanha, Alegrete (RS), 03/07/1917 – Itália, 12/07/1990. Jornalista, futebolista

João Saldanha, jornalista e futebolista brasileiro

João Saldanha, jornalista e futebolista brasileiro

João Alves Jobim Saldanha nasceu em 3 de julho de 1917, em Alegrete, no Rio Grande do Sul, e construiu uma trajetória singular na história brasileira ao reunir militância política, jornalismo e futebol. Conhecido como “João Sem-Medo”, apelido criado pelo dramaturgo Nelson Rodrigues, Saldanha tornou-se uma das figuras mais marcantes da crônica esportiva nacional e um dos personagens mais polêmicos e influentes do futebol brasileiro.

Sua infância foi marcada pelas turbulências políticas do sul do país. Durante a Revolução de 1923, ainda criança, ajudava a transportar munição entre Brasil e Uruguai para apoiar familiares envolvidos no conflito. A família refugiou-se em Rivera, no Uruguai, antes de retornar ao Brasil. Após passagens pelo Paraná e pelo interior gaúcho, os Saldanha se estabeleceram em Curitiba, onde João teve os primeiros contatos intensos com o futebol. A proximidade da casa da família com o campo do Atlético Paranaense despertou nele a paixão pelo esporte. Na capital paranaense, estudou ao lado de um futuro presidente da República, Jânio Quadros.

Em 1930, quando Getúlio Vargas assumiu a Presidência da República, a família mudou-se para o Rio de Janeiro. Foi na então capital federal que João Saldanha aprofundou sua atuação política, filiando-se ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), organização na qual militou durante toda a vida adulta. Tornou-se dirigente da União da Juventude Comunista, foi perseguido pela repressão política e chegou a ser preso e fichado pelo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), em 1947. Como organizador do PCB, participou da greve geral de 1953 na cidade de São Paulo pelo aumento do salário mínimo.

Paralelamente à militância, Saldanha tentou carreira como jogador profissional no Botafogo, mas permaneceu pouco tempo nos gramados. Formou-se em Direito pela antiga Universidade do Brasil, atual UFRJ, e posteriormente estudou Jornalismo, profissão na qual alcançaria enorme destaque. A partir dos anos 1960, consolidou-se como um dos principais cronistas esportivos do país, com passagens por emissoras como Rádio Nacional, Globo, Tupi e Jornal do Brasil, além das TVs Rio, Manchete e Globo. Nos jornais Última Hora, O Globo e Jornal do Brasil, assim como na revista Placar, escreveu textos marcados pela franqueza, pela linguagem popular e pelas críticas contundentes aos dirigentes e rumos do futebol brasileiro.

Antes de se tornar treinador, trabalhou como intérprete do técnico húngaro Dori Kürschner no Botafogo, entre 1939 e 1940, experiência que lhe permitiu aprofundar os conhecimentos táticos. Posteriormente, assumiu cargos de direção no clube carioca e, em 1957, mesmo sem grande experiência como técnico, foi escolhido para comandar a equipe principal do Botafogo. Sob seu comando, o clube conquistou o Campeonato Carioca daquele ano com uma campanha histórica, encerrada com a goleada de 6 a 2 sobre o Fluminense na final. O time reunia craques como Garrincha, Didi e Nílton Santos.

Em fevereiro de 1969, João Saldanha foi anunciado como técnico da Seleção Brasileira. Herdando um ambiente de desconfiança após o fracasso na Copa de 1966, reorganizou a equipe nacional e montou uma base formada principalmente por jogadores do Santos, Botafogo e Cruzeiro. O Brasil obteve aproveitamento de 100% nas eliminatórias para a Copa do Mundo de 1970, recuperando o entusiasmo do torcedor brasileiro. A equipe ficou conhecida como “As feras do Saldanha”, expressão criada a partir de uma declaração do treinador de que convocaria apenas “feras”.

O esquema ofensivo adotado por Saldanha valorizava o talento individual e o futebol criativo brasileiro. O treinador defendia um estilo agressivo, técnico e ofensivo, resumido em uma de suas frases mais conhecidas: “O futebol brasileiro é uma coisa jogada com música”. Apesar dos resultados positivos, enfrentou fortes pressões políticas e esportivas. Durante a ditadura militar, recusou-se a aceitar interferências do governo na convocação da seleção, especialmente em relação ao atacante Dario Maravilha, cuja inclusão teria sido sugerida pelo presidente Emílio Garrastazu Médici.

Militante comunista e crítico do regime militar, Saldanha acabou afastado do comando da seleção poucos meses antes da Copa do Mundo do México. Oficialmente, alegavam-se divergências táticas e problemas internos na comissão técnica, mas a demissão permanece cercada de controvérsias. Muitos interpretam o episódio como resultado de pressões políticas da ditadura, que não desejava ver um dirigente comunista liderando a seleção em um evento de dimensão mundial.

Substituído por Mário Zagallo, Saldanha retornou ao jornalismo esportivo, onde continuou exercendo enorme influência. Tornou-se uma das vozes mais críticas da crescente europeização do futebol brasileiro, defendendo o jogo ofensivo, habilidoso e criativo que considerava parte da identidade nacional.

Em 1985, participou das primeiras eleições diretas para a prefeitura do Rio de Janeiro após o regime militar, concorrendo como candidato a vice-prefeito na chapa liderada por Marcelo Cerqueira, pelo PSB, indicado pelo PCB.

Já debilitado por problemas pulmonares causados pelo tabagismo, João Saldanha realizou sua última cobertura jornalística durante a Copa do Mundo de 1990, na Itália, trabalhando para a TV Manchete. Poucos dias depois do encerramento do torneio, morreu em Roma, em 12 de julho de 1990, vítima de enfisema pulmonar, aos 73 anos.

João Saldanha deixou um legado que ultrapassa o futebol. Foi símbolo de independência política, combatividade e defesa apaixonada do futebol brasileiro como expressão cultural do povo. Sua trajetória permanece associada à coragem de enfrentar o poder, à irreverência diante das convenções e à crença de que o futebol podia ser, ao mesmo tempo, espetáculo, arte e afirmação popular.

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